Um Curso de Cálculo, Volume 4
2 Séries numéricas
2
SÉRIES NUMÉRICAS
2.1. SÉRIE NUMÉRICA
Seja a , n ≥ q e q um natural fixo, uma sequência numérica; a sequência n
de termo geral
denomina-se série numérica associada à sequência a . Os números a , n ≥ q, n n são denominados termos da série; a é o termo geral da série. Referir-nos-n emos a como soma parcial de ordem n da série.
O limite da série, quando existe (finito ou infinito), denomina-se soma
da série e é indicada por Assim
Se a soma for finita, diremos que a série é convergente. Se a soma for infinita (+∞ ou −∞) ou se o limite não existir, diremos que a série é divergente.
O símbolo foi usado para indicar a soma da série. Por um abuso
de notação, tal símbolo será utilizado ainda para representar a própria série.
Falaremos, então, da série , entendendo-se que se trata da série cuja
soma parcial de ordem n é
Escreveremos com frequência
Trabalhar com a série é o mesmo que trabalhar com a série
onde b = a , k ≥ 0. Por esse motivo, de agora em diante, todos os k k+ q
resultados serão estabelecidos para as séries
A seguir vamos destacar algumas propriedades imediatas das séries.
Demonstração
Daí
e, portanto, c) Para p ≥ 1 e n ≥ p,
Fixado p,
pois, para p fixo, é uma constante. Daí
desde que uma das séries seja convergente. (É claro que,
se for convergente, deveremos ter
■
EXEMPLO 1 (Série geométrica). Mostre que, para 0
Solução
Como |r| < 1, Daí
Logo, a série dada é convergente e tem por soma
A série onde é um real dado, denomina-se série harmônica de
ordem α. O próximo exemplo mostra que a série harmônica de ordem é convergente para α > 1 e divergente para α ≤ 1.
EXEMPLO 2 (Série harmônica). Considere a série harmônica
Prove
é convergente
Solução
a) A sequência de termo geral é crescente. (Verifique.) Vamos
mostrar, a seguir, que é limitada superiormente.
A sequência é crescente e
(verifique). Assim, para todo Segue que, para todo
Portanto, é limitada superiormente. Como
é crescente, resulta que tal sequência é convergente, isto é, a série
com α > 1, tem soma s finita e
Como estamos supondo Segue que
Portanto, para α ≤ 1, a série é divergente e
■
No próximo exemplo, consideramos uma série harmônica de ordem α, com α > 1, e avaliamos o erro que se comete ao aproximar a soma s da série pela soma parcial
EXEMPLO 3. Supondo α > 1 e sendo mostre que Solução
Daí
De
segue
Como resulta
A desigualdade acima nos diz que a soma parcial é um
valor aproximado (por falta) da soma s da série, com erro inferior a
■
EXEMPLO 4 (Série telescópica). Considere a série e suponha que
a = b − b + , k ≥ 1. (Uma tal série denomina-se série telescópica.) k k k 1
a) Verifique que
b) Conclua que se com b real, então a soma da série será
finita e igual a b − b. 1
Solução
EXEMPLO 5. Calcule a soma
Solução
Trata-se então de uma série telescópica:
Logo,
O próximo exemplo mostra como utilizar as séries do Exemplo 5 para acelerar a convergência da série Com auxílio das séries de
Fourier, prova-se que a soma desta série é (Na página 328 da referência
bibliográfica 9 você encontrará a bela “prova” de Euler para este resultado.)
EXEMPLO 6. Sendo onde mostre que
Solução
a) É o exemplo 3 com α = 2.
b) Pelo exemplo anterior,
Daí e, portanto,
Pelo Exemplo 3,
Logo,
c) Vimos pelo item b) que e, pelo exemplo anterior,
daí
e, portanto,
Logo,
Como
resulta
Observação. O item a) nos diz que é uma aproximação (por
falta) de s com erro inferior a Assim, para se ter, por exemplo, um erro inferior a 10 −3 é preciso tomar n no mínimo igual a 1000. O item b) nos diz que
com erro inferior Neste caso, com n = 23 já conseguimos um erro
inferior a 10 −3 Pelo item c)
com erro inferior −3 Agora basta n = 9 para que o erro seja inferior a 10.
A convergência pode ser acelerada ainda mais. Pense!
EXEMPLO 7. Supondo 0 < α ≤ 1, mostre que
Solução
a) Este problema será resolvido com auxílio da progressão geométrica. Sabemos que
Daí
Fazendo r = −x 2, resulta
Como arc tg dx, resulta
Agora é só mostrar que, para 0 < α ≤ 1, Seja então
0 < α ≤ 1.
Temos
Daí
e, portanto, De 0 < α ≤ 1, segue que e, portanto,
Fica provado assim que, para 0 < α ≤ 1,
(Esta série é conhecida como “Série de Gregory”, James Gregory (1638-1675). Veja referência bibliográfica 9.)
b) De resulta
e, portanto, tendo em vista ,
■
EXEMPLO 8. Verifique que
e avalie o módulo do erro que se comete na aproximação
Solução
Pelo exemplo anterior,
Ainda pelo exemplo anterior,
Assim, na aproximação
o módulo do erro é inferior a
■
Observação. De do exemplo anterior resulta
Daí, a aproximação acima será por falta se n for ímpar e por excesso se n for par.
EXEMPLO 9.
a) (Fórmula de Machin.) Verifique que b) Avalie o módulo do erro que se comete na aproximação
Solução
a) Vamos utilizar a fórmula
Primeiro vamos determinar b tal que
Pela fórmula acima
Daí, Assim arc tg arc tg Vamos, agora, determinar c tal
que
arc tg = arc tg + arc tg c.
Aplicando novamente a fórmula anterior, resulta
Então
Agora, determinamos d tal que arc tg = arc tg + arc tg d.
Raciocinando como acima, obtemos
Finalmente, deixamos a seu cargo
verificar que arc tg Temos então a bela fórmula
de Machin:
b) Temos
Como
resulta que o erro que se comete na aproximação acima é, em módulo, inferior a
Observação. Utilizando a sua fórmula, John Machin (1680-1751) calculou π com 100 casas decimais! A fórmula de Machin também foi utilizada por William Shanks (1812-1882) para calcular π com 707 casas decimais!!!
Com auxílio de uma calculadora e fazendo em b) n = 20, calcule você um valor aproximado para π. Que erro você estará cometendo nesta aproximação?
Exercícios 2.1
1. Calcule a soma da série dada.
2. Lembrando de que In e raciocinando como no
Exemplo 7, mostre que, para 0 < α ≤ 1, tem-se
3. Utilizando o Exercício 2, calcule a soma da série
4. Utilizando a relação 2 = ln mostre que
5. Mostre que
6. Supondo 0 < α < 1, mostre que
7. Utilizando o Exercício 6, mostre que
8. Determine n de modo que seja um valor aproximado de ln
2 com erro, em módulo, inferior a 10 −5. (Sugestão: Utilize os Exercícios 6 b) e 7 a).)
9. Lembrando que ln e raciocinando
como no Exemplo 7, mostre que
10. a) Mostre que para todo β > 0, com β ≠ 1, existe um único α, com 0 <
|α| <|1, tal que
b) Utilizando a) e o Exercício 9 a), mostre que ln
11. Utilizando o exercício anterior, mostre que
12. Determine n de modo que seja um valor
aproximado de ln 2 com erro, em módulo, inferior a 10 −5. Compare com o Exercício 8. (Sugestão: Utilize 9 b) e 11 a).)
13. Calcule as somas das séries
14. Mostre que
15. Mostre que
16. Partindo da fórmula de Machin, mostre que
17. Considere a sequência α , m ≥ 0, com α = 1 e α > 0 para todo m, m 0 m
dada por
2 arc tg α = arc tg α . m m − 1
Mostre que
(Interprete geometricamente α .) m
Observação. Partindo de
(verifique). Pois bem, o valor π de obtido por Arquimedes é
ou seja, Verifique que α é a metade do lado do 5
polígono regular de 96 lados circunscrito ao círculo de raio 1. (Veja página 93 da referência bibliográfica 9.)
18. Mostre que, para todo natural p ≥ 1,
(Sugestão: Veja Exemplo 6 e Exercício 1 i). Lembre-se, ainda, de que
19. Suponha que s seja a soma da série isto é, Mostre
que, para todo natural p ≥ 1, tem-se
Conclua que
20. Mostre que, para todo n ≥ 2,
Conclua que
21. Seja
a) Mostre que a é decrescente. n
b) Mostre que
c) Conclua que
(Sugestão: Verifique que ln e utilize o
Exercício 20.)
22. Considere a função Seja E 1 um real dado.
a) Calcule a área do retângulo limitado pela retas
onde k é um natural dado.
b) Calcule a soma da série
c) Mostre que
Observação. O Exercício 22 nada mais é do que o método de
Fermat para o cálculo da área do conjunto
onde Fermat supunha α racional,
com α > 1. (Veja Vol. 1, 5.ª edição.)
23. Mostre que