Juízo Final: Odisséia dos Deuses
Capítulo 9
Os serafins, voando facilmente com suas seis asas, trouxeram uma mulher que acabara de dar à luz um menino. Não portavam suas espadas nem suas trombetas. Especulava-se sobre seu destino. Haveria equipes de anjos suficientes para sustentar esses objetos para que não caíssem?
A mãe vinha amamentando seu bebê enquanto os anjos se esforçavam para não perturbar mãe e filho com o farfalhar das asas ensopadas pela chuva. Ela pediu para ser julgada urgentemente, pois os médicos não lhe deram esperanças de sobreviver a complicações que se seguiram ao parto. Jesus de Nazaré avocou a ambos para o julgamento e disse com sua voz doce:
- Não se preocupe. A criança está salva, pois não está escrito na Bíblia que dos pequenos é o reino de Jeovah? Já quanto a você, vejo que foi uma mulher pecadora. O que tem a dizer em sua defesa?
- Eu frequentava cultos religiosos e acreditava em Jesus de Nazaré e em Jeovah. Doava a décima parte do meu salário todos os meses para os pastores.
Jesus de Nazaré:
- Está bem. Está escrito que Jesus de Nazaré veio para salvar os ímpios e pecadores e os que cressem nele. Você certamente jamais ofendeu o Espírito Santo. Como está escrito, tal ofensa não pode ser perdoada nem por Jesus de Nazaré. Mas, você se arrependeu de seus pecados?
- Sim - respondeu a mulher que parecia prestes a desmaiar.
Jesus de Nazaré:
- Eu te absolvo com louvor. Levem-na para as nuvens mais altas – ordenou.
Mas Jeovah o interrompeu:
- Um momento! Eu não posso admitir que ela seja absolvida. Pecou contra meus mandamentos. Adorou outro deus. Não obedeceu ao primeiro mandamento. Meu voto é pela condenação dela e pela absolvição do menino.
Pedro passou a votar:
- Ambos têm suas razões e devo respeitá-las. Mas esta mulher não pode ser separada do seu filho. Está amamentando-o. Deve Jeovah reconsiderar seu voto, se me permite opinar.
Jeovah levantou-se do trono enquanto trovões ensurdecedores espocavam e relâmpagos riscavam o céu e penetravam em Jerusalém. O vento jogou o deus dos judeus sobre um grupo de arcanjos que batiam suas asas freneticamente. Todos os tronos ameaçavam cair com a fúria da tormenta. Jeovah foi levado de volta e, agarrado aos braços do trono, praticamente urrou:
- Saibam - pobres criaturas, que eu tudo criei! E se Moisés escreveu que eu sou o detentor do poder, assim é! Não sou de mudar de opiniões. Sou o Senhor dos Exércitos, como está escrito na Bíblia Sagrada. Esta mulher pecou e descumpriu os meus mandamentos. Pagará por isso e as anjas cuidarão do filho.
O julgamento da mulher não pôde chegar ao seu final. Ventos de mais de cem quilômetros por hora dispersaram todos seus integrantes para longe. Muitos deles foram parar no lago de Tiberíades; outros em Cafarnaum e um grande número no rio Jordão e no lago de Genesar. Outros ainda caíram entre os gadarenos, em Zabulon e Neftali, ou os que lá passaram a ocupar as terras.
As condições do tempo melhoraram após duas horas de borrasca. Os quinze tronos voltaram a se postar nas nuvens baixas e Jeovah ordenou ao anjo Gabriel:
- Traga-me o meteorologista de Jerusalém. E diga para que os anjos tentem capturar o maior número possível de pessoas naturais do meu povo.
Jesus de Nazaré interveio:
- Pois eu exijo que me apresentem também o condenado que morreu ao meu lado na cruz e que teria reconhecido que eu seria realmente o filho de Jeovah.
Os juízes estavam exaustos e descansaram durante as dez horas que os anjos levaram para retornar. Jeovah ordenou ao meteorologista para que descrevesse as nuvens e as condições climáticas para aqueles dias.
- Existem as nuvens conhecidas por stratus. Estão normalmente muito próximas do solo. Existem os cirrus, que ficam a vários quilômetros de altura e os cumulus nimbus. Estes geralmente têm a forma de uma bigorna e possuem ventos que sobem até mais de dez quilômetros de altura e depois, esfriadas lá no alto, descem com violência, muitas vezes trazendo chuva de granizo.
Jesus de Nazaré não se conteve:
- Jeovah, tu conheces tudo isso. Afinal somente falavas para os humanos de dentro de nuvens. Quero ouvir a pessoa que foi crucificada ao meu lado.
Foram buscá-lo e ele chegou muito assustado. Jesus de Nazaré:
- Lucas escreveu em 23,43: “Hoje estarás comigo no paraíso”. Eu teria dito isso a você. Logo que você morreu, o seu corpo se soltou dos pregos da cruz e subiu ao céu? Ou você subiu como espírito? Ninguém viu subir qualquer corpo, na sexta-feira. Quero lembrar-te que não possuis asas e que eu, para subir, tive que ser arrebatado, quarenta dias após minha ressurreição, no Domingo, certamente por anjos. Com o corpo! Tudo observado pelos apóstolos, em Betânia, pelo que escreveram!
O interrogado:
- Meu nome não está escrito pelos evangelistas. E como eu subi, não sei informar. Mas, por dedução lógica, eu subi com o corpo. Você não o fez igualmente, segundo escreveu esse Lucas?
Jesus de Nazaré:
- Sim e não. Lucas muda a história em 24,39: “Vede minhas mãos e meus pés, sou eu mesmo, apalpai e vede: um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que tenho”. Parece que nós subimos juntos, na sexta-feira. Já meu corpo, carnes e ossos, subiu - com um espírito - vestido, quarenta dias depois, arrebatado por seres não informados, em Betânia. Isso teria sido possível graças ao paradoxo referido pelo Papa Emérito em seu livro.
Continuou o Mestre:
- Escreveu Lucas que você subiu antes de mim e que você ressuscitou na sexta-feira mesmo. Como você foi recebido por Jeovah?
- Não sei responder a isso.
Jesus de Nazaré dirigiu-se a Pedro:
- Você viu o corpo desse crucificado ser arrebatado para o céu? Você ficou sabendo que seu corpo desapareceu da sua cruz?
Pedro:
- Não houve notícias nesse sentido. Mas está escrito pelos evangelistas que você teria dito, na hora da sua morte na cruz: pai, nas tuas mãos entrego meu espírito. Não teria esse crucificado subido somente em espírito?
Jesus de Nazaré:
- Queres dizer que eu, Jesus de Nazaré, ressuscitei meu corpo três dias após. E dizes que esse corpo foi erguido, elevado, arrebatado para as nuvens, quarenta dias após, por personagens não informados, em Betânia. E que esse bandido, crucificado ao lado, ressuscitou e, no entanto, deixou seu corpo no Gólgota? Ou seja, o bandido sobe o espírito no momento da morte do seu corpo. Deixa o corpo. E Jesus de Nazaré está obrigado a ressuscitar esse seu corpo
Pedro:
- Há que se perguntar sobre isso ao evangelista Lucas e demais narradores do Novo Testamento. Mateus escreveu em 27,52 que muitos mortos ressuscitaram no dia da crucifixão e saíram caminhando de seus túmulos, na mesma data. Mas não subiram.
Jesus de Nazaré:
- Realmente. Mas você, Pedro, e Paulo, e centenas de outros declarados santos, subiram já há vinte séculos; no entanto não levaram seus corpos consigo! Como explica isso? Lembra-se que esse seu corpo estava lá no Vaticano e irrompeu do túmulo somente quando agora foi deflagrado o Juízo Final? E Paulo, que teve que reunir agora sua cabeça ao corpo - separados há dois mil anos?
Jesus de Nazaré dirigiu-se ao crucificado:
- Vejo que Mateus referiu a tua subida em forma de uma coisa que chamou de espírito. Logo, estás aqui agora, ressuscitado. E eu vou te julgar imediatamente. Por que te condenaram a morrer na cruz?
- Combati os romanos. E só os que lutavam contra os romanos eram crucificados. Os bandidos comuns morriam por outras formas - mais rápidas e menos cruéis.
- Vejo que creste em mim, embora na última hora - como o narrou Mateus. E vejo que lutaste em favor do povo de Jeovah e o meu. Deves merecer o céu. Ao combateres os invasores romanos de Israel, não eras pecador, não eras malfeitor, assaltante ou homicida. Eras um guerrilheiro a defender o teu país. Eram inimigos que acabaram por destruir o templo de Jerusalém, uma das maravilhas do mundo, junto com a cidade santa, décadas após, no ano 70 da Era atual.
Jeovah concordou, resmungando, bem como todos os apóstolos, os Anjos Ceifadores e os Anjos Separadores. A decisão provocou muitas controvérsias.
A Máquina informava: não havia vestimenta para os mais de cem bilhões de ressuscitados. Não havia água. As mulheres eram as que mais padeciam com a sua nudez, sendo estupradas sem piedade. Soldados nazistas ressuscitados com fardas eram perseguidos como cães.
Governantes eram depostos. Tiranos comandavam exércitos. Mas o pior estava por vir. A Máquina estampava: Solução Fogo. Dizia ser essa Solução Tarso e que ela estava prevista biblicamente.
Especulava-se no Pentágono. A repórter Sara Moshê recebera informações de uma de suas fontes. Havia temor de que os corpos dos humanos que ainda não haviam morrido poderiam ser destruídos pelo fogo e pelo enxofre bíblicos para que seus espíritos pudessem subir ao céu ou passassem a queimar eternamente na Geena ou no Inferno. Foi solução adotada por Jeovah no caso de Sodoma e Gomorra, como se lê em Gênesis 19,28. Em favor dessa tese estariam as palavras escritas por Paulo de Tarso em Hebreus 10,27: “Só teremos que esperar um juízo tremendo e o fogo ardente que há de devorar os rebeldes”. Ou crê, ou, se te rebelas, sejas devorado pelas chamas.
Sara Moshê agora ficara muito preocupada. Comentou com um colega jornalista italiano:
- Paulo de Tarso preconizava a ida ao céu de espíritos, sem carne e ossos. Isso, caso absolvidos. Seriam levados com corpos até o Juízo Final? Após, se absolvidos, seriam queimados seus corpos? Ou o enxofre seria novamente usado, agora para queimar todos os quase dez bilhões de humanos vivos e, só depois desse holocausto, subiriam para o Juízo Final? É um absurdo? Ou a Bíblia não possui equívocos, já que seus escritos seriam originados por inspirações divinas?
- Não importa. O que está escrito, está escrito e deve ser cumprido. É o que penso – replicou Paulo de Tarso. Lembro a todos que a Santa Inquisição cumpriu com minhas apologias: fogo para os hereges, para os apóstatas, para os judeus que não se curvam diante dos nossos sacerdotes.
- Eles escrevem o que lhes interessa! – disse Sara. O Rei James, da Inglaterra, não mandou elaborar sua própria Bíblia? Veja o que ontem li nela em Galatians 1,8-10: “But though we, or an angel from heaven, preach any other gospel unto you than that which we have preached unto you, let him be accursed. As we said before, so say I now again, If any man preach any other gospel unto you than that ye have received, let him be accursed”. Ou seja: “Mas, ainda que nós mesmos ou um anjo descido do céu vos anuncie um evangelho diferente do que vos anunciamos, seja amaldiçoado. Eu já vos disse antes e repito agora: Se alguém vos pregar outro evangelho, diferente do que recebestes, seja amaldiçoado”.
Jesus ouvira tudo:
- Ameaças e maldições por parte do Rei James e seus pastores. Quanto ódio. Paulo amaldiçoa pastores concorrentes e admite que anjos falem. Admite que possuam cordas vocais, bocas, pulmões, tecidos. Não são espíritos! Afinal, Paulo: você não escreveu que no céu somente existem espíritos, que, evidentemente não possuem os órgãos necessários para poderem pronunciar sons, palavras, cantos, manejar espadas, formar batalhões para combates, beber vinho, procriar anjinhos, estes tão comuns nas pinturas das ekklesias – essas novas sinagogas com torres, sinos, confessionários, pias, água rotulada de benta, incenso, imagens de madeira e outros materiais, novos deuses de barro?
- E vejo que tais sinagogas gentias adotaram o obelisco, copiando os egípcios faraônicos. Os sacerdotes desse povo propalavam a seus dizimistas que o espírito do deus Sol, Ra, habitaria no obelisco. O maior deles no mundo é o monumento a Washington nos Estados Unidos.
- Na Praça de Pedro, no Vaticano – continuou o Mestre olhando significativamente para seu apóstolo pescador, judeu casado –, os romanos colocaram uma dessas colunas. Vejo que quase todas as ekklesias usam desse símbolo de pagãos, ou seja, de povos que não se tornaram dizimistas de Paulo de Tarso e seus seguidores. Obeliscos e anjos, esses seres humanóides de carne, ossos, penas, faces de bovinos, águias e leões – interessantes imaginações de deuses muito anteriores a Jeovah ou Baal. Desde então o fascínio de dizimistas por esses relatos continuam firmes. Não é sem propósito, pois, que o Anjo Caído continue a ser tão útil aos apascentadores de rebanhos humanos.
Chovia. Tentou secar o rosto. O vento fustigava os longos cabelos do Nazareno. Sua túnica, capa e manto, encharcados, fizeram que tremesse de frio. Era a vida cruel que levavam todos os habitantes do céu, muitos deles há milhares de anos. Prosseguiu após um acesso de tosse:
- Lúcifer impõe o terror e sempre esteve presente nas práticas religiosas de quase todos os povos. Eva foi a vítima mais conhecida nesse meio tão ricamente criativo de dizimadores e dizimados. Sempre a mulher - devo lembrar. Sempre apedrejada. Sempre a culpada por permitir que a força bruta cometa os estupros. Sempre obrigada a manter em seu ventre o produto do crime hediondo de que é vitima todos os dias em todo o mundo, pena de violar as leis sacerdotais. Leis de homens que queimaram milhares de feiticeiras, que se valem do Grujuem e me deixam prostrado.