Juízo Final: Odisséia dos Deuses
Capítulo 96
O Tribunal do Juízo Final recebeu ultimatum do premier de Israel – relatava Sara Moshê. Deveriam retirar-se do seu território no prazo de quarenta e oito horas. Jeovah, Moisés, Isaac, Jacó e Elias estavam convidados a habitar novamente as nuvens entre o Monte Sinai e Jerusalém. Seriam armadas milhares de tendas de reunião - as sinagogas de outrora - e os sacerdotes levitas ressuscitados e todos os rabinos prestariamhomenagens ao seu deus único, Yahweh, o Elohim, o Yahweh Shalom.
Diante da grave situação, Jesus de Nazaré montou em um esbelto querubim. Partiram como um relâmpago – ao som de rugidos, mugidos e guinchos dos demais humanóides. Os helicópteros os seguiram. Em um deles levavam Moisés, por ordem do Mestre. Após enfrentarem uma borrasca próximo à Ilha de Capri, chegaram à Basílica de São Pedro, no Estado do Vaticano, onde o Juízo Final eclodira.
As torres lembravam as edificações dos gentios, dos povos vizinhos. Havia obeliscos e torres, tudo certamente imitado dos templos de antigos deuses. Assim como nascimentos de deuses ocorridos em ventre de virgens eram comuns em incontáveis religiões.
O Papa, que já retornara de Jerusalém, abraçou novamente aquele jovem israelita a quem aprendera a admirar como ser humano e fiel apóstolo. Foram até o túmulo de São Pedro. Estava rompido, como todos os jazigos.
Jesus de Nazaré ficou maravilhado quando se aproximou do Baldaquino de Bernini e a cadeira que seria do pescador Pedro, judeu pobre e humilde de Cafarnaum que fizera parte de seus discípulos. Era o único judeu admitido entre os romanos e os evangélicos. Era feito de bronze dourado de quase trinta metros de altura, construído de 1624 a 1633 da Era atual. De plintos em mármore, que mostram o escudo de armas do Papa, erguem-se quatro colunas torcidas que suportam o peso do baldaquino com um globo e uma cruz. Simão Pedro, aqui conhecido pelo termo latino Petrus, reinou até o ano de 67, da atual Era. Reinou nas ruas. Papa casado, pai e judeu. Um estorvo aos romanos.
Pedro nasceu em Betsaida. André era seu irmão e também apóstolo. Ambos possuíam uma frota de barcos pesqueiros, em sociedade com Tiago, João e o seu pai Zebedeu. Era casado e tinha pelo menos um filho. Sua esposa era de uma família rica e moravam numa casa própria de estilo romano.
Do lado de fora o caos. Bilhões de ressuscitados urravam como animais feridos. A fome, a sede, a nudez, tudo era muito mais doloroso do que a pior das Geenas e dos Infernos imaginados pelos sacerdotes humanos de todas as seitas religiosas.
Os soldados da Guarda Suíça do Vaticano, com seus uniformes coloridos, começaram suas atividades no século XVI desta Era. Conduziram os deuses até o altar principal da deslumbrante basílica. Jesus de Nazaré, de volta àquele templo, olhava extasiado para a riqueza daquela sinagoga tão estranha. O Grujuem efetivamente estava presente. Os personagens judeus estavam em quadros e esculturas magníficos. Mas todos pareciam muito tristes. O sofrimento, a dor, a angústia estavam estampados no rosto de Maria, José, Paulo de Tarso, dos doze apóstolos, dos quatro evangelistas e de algumas ovelhas do grande rebanho que rezavam inutilmente, pois ninguém os ouvia. Dores. Profundas dores. Sofrimentos.
Quando se viu retratado na cruz, Jesus de Nazaré sorriu - como da primeira vez que para ali fora. Ele estava em Roma! Ele, o judeu que pretendera, sem obter sucesso algum, expulsar os invasores romanos de sua pátria há dois mil anos! O Messias que somente venceu uma figueira, secando-a com uma maldição. Uma feitiçaria que, se praticada por mulher, a levaria à morte na forca judaica ou no poste da fogueira dos Inqisidores Romanos. Também teria causado a morte de dois mil porcos em um confronto com uma pessoa que estaria endemoninhada. “A produção de tais danos não deveria ser sua conduta habitual, já que arauto da boa covardia - dar a outra face ao agressor” – escreveu um jornal oriental. Além disso, maldição é e sempre foi uma exortação para o mal. Mal dizer: o magnânimo salvador da humanidade expressaria tais termos? Jesus de Nazaré não teria jamais praticado maldades, malfeitos, crimes.
Viu então a figura do seu deus. Yahweh, o Senhor dos Exércitos, Jeovah em Roma! E viu sua amada mãe Maria vestida ricamente. A pobre judia, aquela que fora levada a ter seu filho numa estrebaria. Lembrava-se dela chorando junto à cruz. Lembrava-se das vestimentas pobres que toda família usava na miserável Nazaré com suas quinze choupanas em que José atendia a encomendas de serviços de carpintaria. E não compreendia o Mestre: como poderia ela ser reproduzida, nas pinturas e esculturas feitas muitos séculos antes - todas proibidas pelo deus Jeovah - com roupas tão faustosas e uma coroa com pedras preciosas? Afinal ela somente poderia ressuscitar no Juízo Final.
Sob o esplendor do Baldaquino de Bernini, onde fora sepultado seu apóstolo Pedro, os olhos do Nazareno verteram lágrimas. E ante a escultura da Pietá, de sua amada mãe Maria, que tem em seu colo o corpo de Jesus de Nazaré após crucificado, soluçou como uma criança. Michelangelo Buonarotti jamais sonhara que algum dia sua obra-prima fosse visitada pelo seu Mestre Maior.
Os opressores de sua amada Israel não lhe deixaram nada. Levaram sua vida, sua família, seus amigos, seus discípulos e sua dignidade. Primeiro, com o uso da força do então imbatível exército romano. Depois, com a apropriação dos deuses e profetas de seu povo e da imagem de sua mãe Maria e de seu pai José. E o mais terrível: não pudera usar do paradoxo de que falara o Papa Emérito, ou seja, a faculdade de desaparecer no caminho para o Gólgota. Lembrou que Jeovah – ou Moisés - não tiveram dúvidas em produzir o Dilúvio, o maior de todos os holocaustos. Já ele, diante da brutal ocupação de Israel – ao contrário - foi deixado à sua sorte para morrer na cruz com os supostios bandidos ao seu lado. Não lhe era realmente compreensível tudo isso, no momento em que os pregos penetravam em suas mãos e pés.
Uma mesa com três cadeiras ricamente trabalhadas foi trazida pela Guarda Suíça. O Papa, com seu enorme chapéu, a mitra:
- Somos escravos de escritos gregos conhecidos por Evangelhos. Não podemos negar que eles foram sorteados entre dezenas de outros no Concílio realizado na cidade de Nicéia, na Turquia, por ordem do nosso imperador romano Constantino, no longínquo ano de 325 desta Era. Cumpriram-se agora- após dois milênios - as profecias bíblicas de um julgamento no Juízo Final. Julgamento de vivos e ressuscitados. No entanto, o que fazer com mais de cem bilhões de ressuscitados famintos e desesperados?
- Todos somos sacerdotes – exclamou Moisés. Todos nós escrevemos o que interessa para o processo que forma nossos rebanhos, que estavam felizes. E ressuscitaram. Sugiro que se anulem os Evangelhos, no entanto. O sofrimento dos humanos e dos anjos agora está insuportável. No céu passam fome e sede se não houver nuvens. Na Terra a miséria é total. Nem tuas feitiçarias conseguem fabricar peixes, vinho e pão.
Jesus de Nazaré:
- Já consultei os evangelistas. Eles se negam a fazer qualquer modificação em suas narrativas. E têm razão. Se escreverem em um adendo aos Evangelhos que não haverá Juízo Final e ressurreição, terão que retornar aos seus milenares túmulos. Agora são eternos. Por que haveriam de abdicar dessa vida eterna e voltar às suas tumbas e vermes que a tudo aniquilariam novamente?
O Papa olhava para aqueles dois judeus com certo enfado. Eles tinham sido úteis para Roma. Em dois mil anos os Papas dominaram - graças a eles, desta vez sem o uso da força militar - quase todos os povos da Terra.
Finalmente Jesus de Nazaré, levantando-se e olhando para o alto da mais exuberante ekklesia construída em vinte séculos, decretou:
- O maior dos fundamentos da Bíblia Sagrada é o respeito aos direitos humanos, sempre orientados pelo amor ao próximo. Esse princípio, do Novo Testamento, se sobrepõe aos de ódio e olho por olho do Velho Testamento. Os escritos que impõem a ocorrência do Juízo Final, no entanto, não estão se subordinando ao amor nem aos direitos humanos. Ameaças de morte na Geena e nas supostas fornalhas infernais eternas não podem sobrepujar o princípio da fraternidade.
O grande líder romano, visivelmente preocupado:
- Lá fora a miséria, a fome, as doenças estão grassando. A Bíblia assim determinou. Não nos cabe contrariar o Livro Sagrado. Vocês, Moisés e Jesus de Nazaré, estão aparentemente salvos e talvez vivam por mais tempo nas nuvens. Sem comer nem beber. E nós, os vivos e os ressuscitados? Julgam justo que todos tenham o destino de morrer e habitar tumbas pela eternidade? Ou até que a Supernova traga de volta o frio Kelvin e o Sistema Solar se transforme em um grande cemitério de matéria estelar?
Todos se negavam a modificar o texto bíblico. Nem os evangelistas, nem o grande líder romano concordavam em anular o texto que criou o Juízo Final.
Jesus de Nazaré passou a percorrer toda a deslumbrante catedral. Voltava a admirar as figuras de israelitas, nos quadros e nas esculturas. Eram obras de arte de uma beleza indescritível que ele, das nuvens de Jerusalém e do Monte Sinai, nunca pôde ver. E que Jeovah jamais permitira ao seu povo. Escritos de Moisés assim determinavam.
Finalmente Jesus de Nazaré encontrou a solução. De posse de uma caneta suíça de ouro que lhe alcançaram, escreveu um texto, pela primeira vez em toda sua vida - em hebraico, a língua de Jeovah, Eva, Noé e dos anjos.
Esse único escrito religioso – o Decreto de Jerusalém - do grande israelita foi então solenemente assinado, entrando em vigor no ato. Dirigiram-se todos até a imponente porta que dá acesso à Praça de Pedro. A multidão acercou-se perigosamente. De posse de um microfone, o Papa se preparava para ler o papel firmado pelo Mestre.
Dez milhões de anjos chegaram então espetacularmente, vindos de Jerusalém. Batiam as asas criando turbilhões de ar com o farfalhar que parecia ser um sussurro vindo da eternidade. Nunca se soube explicar de que forma conseguiram voar por vários milhares de quilômetros, desde Jerusalém, em tão pouco tempo, carregando cada qual suas trombetas, harpas, cítaras e pandeiros além das mesas, taças de estanho, tonéis com vinho, pães de Páscoa, enxofre e tábuas de pedra próprias para dez mandamentos com seus cinzéis.
A Praça de Pedro escureceu. Os metais dos instrumentos musicais ecoavam, a princípio como as Walkirias de Wagner e, logo, com o estrépito dos tambores de Karl Orff. Um milhão de pandeiros logo se impuseram. Outro milhão de harpas também passou a disputar com outros milhões de cítaras. O órgão da basílica emitia lamentos lancinantes. Um concerto digno de uma deusa que, sendo mulher, finalmente se impunha aos varões.
Um helicóptero desceu lentamente enquanto andrajosos ressuscitados se espremiam entre Mulheres Queimadas e soldados romanos dos tempos do Império vestindo somente capacetes. Desembarcaram a Secretária Americana e o General Israelita enquanto relâmpagos riscavam o céu e trovoadas repentinas se mesclavam com o rugido de terremotos. Rasgava-se o solo da Praça de Pedro, tal como teria ocorrido durante a crucificação de Jesus de Nazaré há dois mil anos. Enxofre incandescente, tal como em Sodoma e Gomorra, parecia estar sendo jogado do alto por gigantescos cântaros de estanho.
Um querubim – parecia ser o mesmo que Jeovah montava, descrito por Ezequiel no Velho Testamento - chegou fechando as imponentes asas lentamente e dele desmontou com graça e elegância a Deusa Oculta de Israel. Apesar de bilhões de anos de idade não parecia idosa. Irradiava o brilho que fez silenciar o mundo.
O Papa estendeu a mão para ser beijada. Mas a israelense divinal exibiu a sua, que foi aos lábios do líder romano. Sem admitir qualquer contestação, tomou do Papa o Decreto. Foi até o alto da escadaria e, protegida da chuva, leu:
“Eu, Jesus, filho de Maria e de José, nascido em Israel - decido e decreto, no âmbito da Bíblia Sagrada, como segue:
I – Amarás o teu próximo e perdoarás o teu inimigo; homens e mulheres têm os mesmos direitos;
II – As regras bíblicas sobre o Juízo Final não atendem a esse mandamento, pois seus princípios básicos são ameaças e castigos pelo fogo;
III – Declaro revogadas perpetuamente todas as disposições bíblicas que contrariem os itens I e II, o que corresponde à interpretação humana e justa do Antigo e Novo Testamentos”.
A repórter relatou como tudo ocorrera:
“Passaram-se poucos segundos quando a Praça de Pedro se esvaziou subitamente. Uma chuva fina e gelada continuava a cair enquanto os ressuscitados e as divindades desapareciam. Restara o Papa. Logo surgiam cardeais com suas roupas esplendorosas. A Secretária de Estado e o general de Israel apertaram-se as mãos e se despediram com uma mesura.
Os sinos das igrejas vazias da Itália voltaram a chamar seus adeptos desesperadamente. O Conhecimento triunfara parcialmente. Depois de dois mil anos de obscurantismo.
Os demais repórteres informavam que, em Jerusalém, o Tribunal do Juízo Final desaparecera. Nenhum anjo restou visível. Os tronos caíram, junto com mesas e barris de vinho, taças de estanho, as comidas da páscoa, trombetas, enxofre, túnicas, mantos, sandálias, capas, espadas de anjos, carros de fogo e seus cavalos flamejantes. Não se soube que fim levara o único humano, o profeta judeu Elias, que jamais morrera. A Máquina caíra sobre o Gólgota de onde foi recolhida por soldados de Israel.
Outros helicópteros ocuparam a Praça de Pedro, no Vaticano, praticamente vazia. Na porta da basílica não mais se encontravam nem Jesus de Nazaré, nem Moisés, nem Ro ‘eh Yisrael, o deus do povo de Israel e, graças ao Grujuem - também divindade adotada pelos gentios por iniciativa do imperador Constantino I.
O túmulo de Pedro voltara a abrigar seu milenar hóspede sob o Baldaquino de Bernini. O Juízo Final acabara. O mundo voltava aliviado à sua população normal. Nunca mais o fogo haveria de queimar em Geenas, fornalhas ou em praças públicas os adeptos do grande e amado cidadão israelita nascido em Belém e abrigado numa manjedoura.
Os gentios rezavam agora para ele, o novo e humano Jesus de Nazaré. E para uma deusa, finalmente - também emprestada dos israelenses e agora fazendo parte do Grujuem. A Deusa ocultada pelos varões bíblicos. As divindades igualadas por suas mensagens de amor. Nas sinagogas havia paz. Jeovah era seu Elohin Eloeka, Melech ha-Melachim, Rei dos Reis.
Jesus de Nazaré era novamente aquele ser normal de Nazaré e ainda mais amado pelas mulheres, agora libertas de culpas e temores. Os opressores milenares perderam sua credibilidade. E a da sua sagrada escritura. O Mestre era agora mais idolatrado por todos que buscavam consolo para suas tristes vidas, curas para suas enfermidades, amparos em funerais, ajuda para seus problemas financeiros e familiares.
A Deusa Oculta, montada no querubim da família celestial israelense, acenou e desapareceu no horizonte, por entre nuvens, ribombos e ventos em direção a Jerusalém. Milhões de anjos, adultos e bebês, tocando suas trombetas desgastadas por séculos de uso, subiam lentamente batendo suas asinhas até sumirem. A face-leão dos milhões de querubins rugiam junto com os guinchos estridentes da face-águia e os mugidos da face-boi. No alto não havia mais mesas, tronos, enxofre, espadas flamejantes, vinho, mel, pães da páscoa, carros de fogo, vestimentas de anjos e outros personagens, túnicas, capas, mantos, sandálias, cálices de estanho, trombetas, pandeiros, cítaras.
Elias, que subira com seu corpo no carro de fogo, nunca mais foi visto. O seu veículo não passava de escritos sacerdotais – dizia-se -, embora vários jornalistas jurassem ter visto um carro flamejante carregado com os profetas Habacuc, Eliseu, Moisés e outro passageiro, que talvez fosse o Rei Davi, rumando de volta para o seus jazigos em Israel. Os ossos de Pedro e Paulo de Tarso habitavam novamente as suas tumbas em seguida novamente seladas, em companhia de ídolos antigos e novos. Cem bilhões de ressuscitados tornaram a morrer com seus filhos nascidos após a eclosão do Juízo Final. O crânio de Maria Antonieta retornava às catacumbas de Paris.
As mulheres exultavam. Desnudadas as práticas sacerdotais, as suas culpas podiam ser exterminadas. Acabara o medo de castigos. Governavam agora suas uniões homo e heterossexuais, úteros, prazeres, controle de natalidade, uso de contraceptivos. Não tinham mais tanto medo do fogo da Geena e do Infeno. Porque nunca mais se livrariam completamente dessas angústias. Seus cérebros haviam sofrido verdadeiras lavagens cerebrais levadas a cabo por padres, pastores, freiras, rabinos, professores, mães.
O fogo, as fogueiras, o desprezo de um deus judaico-cristão - ora destruidor ora raramente misericordioso para os israelitas – permanecia na memória das vítimas. Vítimas do lobo com seu sorriso melífluo e olhos gelados como os dos crocodilos. Raposas, com vozes treinadas para enternecer, acompanhadas de rezas e cantos hipnóticos junto a vitrais onde a luz sugere lúgubres ameaças medievais. Ou das vozes fraternais e hóstias criadas por auto-iludidos sorridentes e bem nutridos.
Em contrapartida, elas logo iriam reivindicar postos como os de Bispas, Cardeais e Papisas, com acesso aos dízimos amealhados no mundo a cada dia e depositados no Banco do Vaticano ou dos Paraísos Fiscais. Embora teoricamente celibatárias, teriam filhos povoando as abadias, os mosteiros e os palácios romanos, com sacerdotes e outros humanos sendo levados à Justiça para exames de DNA. Psicólogos afirmam que jamais deixarão de existir dizimistas sedentos de promessas, de esperanças e de consolos.
A disputa dos evangélicos para chegar à liderança do fausto e cada vez maior número de ovelhas, prosseguia com grandes e renovadas habilidades. A incrível crença em aves humanóides não arrefecera. Não se apercebem os dizimistas da total impossibilidade da veracidade desses relatos. Na Geena agora só se viam edifícios abrigando a milhares de israelitas com seus filhos e cães de estimação.
Tal como os ignaros Am ha-Arez, os modernos frequentadores de promessas, em sinagogas e igrejas, preferem a bengala. Tal como a vítima do estelionato, preferem um duvidoso paraíso de grande valor, em troca de moedas. Fazem uma transação vantajosa: um céu com um paraíso, em troca dos dízimos - morlacos jogados na sacolinha dos dízimos. Pensam enganar o generoso ofertante da vida eterna. E este, na sala de Jeovah, nos fundos da igreja, ri, gargalha e se jacta junto com seus associados e seus agora sacos com o vil papel, o vil metal de outrora. Tudo de acordo com as leis civis e bíblicas e com o apoio dos governantes
Uma rabina já se estabelecera criando um rebanho de israelitas bastante expressivo - com vitória exuberante sobre os varões. Escravas, filhas vendidas pelos varões, meninas compradas, apedrejamentos de adúlteras e de adolescentes estupradas que não gritassem, condenações de estupradas em pré-julgamentos sem castigos aos violadores, mulheres purificadas por Inquisidores mediante estupros coletivos, e após queimadas em fogueiras por nada, por heresia, prática de enfermagem ou por supostas feitiçarias, torturas hediondas, empalações, esmaga-crânios, eviscerações, mulheres proibidas de usarem seus corpos como o desejassem, orgasmos e uniões homoafetivas, estupradas culpadas, silêncios impostos, cativas acorrentadas pricologicamente em seus lares, apedrejamentos, estigmas de pecadoras - tudo seria logo uma lembrança do passado obscuro da humanidade”.
A Tarântula, a terrível Aranha Espanhola, caíra das nuvens sobre a escadaria da basílica e suas afiadas pontas pareciam quatro olhos sinistros reclamando mais vítimas. Recolhida por um cardeal foi novamente depositada nos porões medievais de onde viera.
Foi pulicado o que seria o encerramento da Ata do Julgamento do Juízo Final:
“Conclui-se que as Escrituras descrevem amplamente atos de seres e aves humanóides - de carne e ossos - ocorrentes no solo terrestre e onde houver nuvens. E também revelam outra versão, tímida - defendida por Paulo de Tarso - em que nas alturas celestes, nas nuvens, somente existiriam seres invisíveis conhecidos por espíritos, por almas, por anjos também invisíveis e uma assim chamada vida espiritual. Esse conflito inconciliável é resultante da existência do objetivo comum dos sacerdotes de todos os tempos e lugares: a troca de dízimos, contribuições e glória para os pastores e rabinos, por promessas e consolos aos rebanhos, tudo amparado pelas leis e pelas regras bíblicas”.
Sara Moshê escreveu na sua coluna relatando o que uma leitora lhe transmitira:
“Tenho uma orquídea - perfeita, esbelta, resplandecente e majestosa. A flor morre -sorridente como as estrelas nas noites de lua cheia - em dez semanas. Eu - uma obscura descendente dos heróicos Picaya Gracilens e sua companheira - posso pretender muito além de uma vida humana? Livre dos predadores - passarei a ser tão feliz como ela, minha adorada flor - que vive tão pouco. Herança dos oceanos, meus genes serão elos na longa ponte da primata que vivia nas florestas sul-africanas - rumo à Supernova. Que orgulho tenho em compreender”.
Horst Schadeck
Juízo Final – Odisséia dos Deuses
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Você terminou Juízo Final: Odisséia dos Deuses
Horst Schadeck