Juízo Final: Odisséia dos Deuses
Capítulo 51
O espanto era geral. Mas o Mestre continuou serenamente:
- Considerando que a Bíblia não produz mentiras, temos, inicialmente, três Jesuses. Isso é indiscutível. Temos o Jesus Celestial, aquele que já existia junto com Jeovah antes da criação do universo. Temos o Jesus de Nazaré, aquele que nasceu do ventre da amada Maria, após uma gestação de nove meses. Temos o Jesus de Nazaré Espírito, que teria subido ao céu no exato momento da sua morte na cruz, como está escrito em Lucas 23,46! E temos também um quarto - o Jesus de Nazaré que teria subido no estado de paradoxo, em Betânia. Nesse último caso o que sobe é um corpo vestido e que leva junto um espírito não aparente, aquele que assumia quando o corpo desaparecia, por exemplo, na casa fechada com Tomé e demais apóstolos.
- Esse espírito – prosseguiu o Mestre - não pode ser o mesmo que subiu no momento da morte na cruz, pois ele já está no céu há quarenta e três dias, ou seja, desde aquela sexta-feira da Crucifixão. O que subiu da cruz, portanto, já está no céu junto com o malfeitor crucificado ao lado. Temos, portanto, relatados pelos sacerdotes a existência de dois espíritos. Para que o Tribunal veja com clareza, vou fazer um gráfico a respeito.
Na tela da Maschiene surgiu a mais extraordinária revelação bíblica em dois mil anos:
I – Jesus Celestial – Existente antes da Criação Mosaica ou da Criação via Big Bang, referido pelo evangelista João. Pode ser este o mesmo Jesus relatado como sendo o enviado por Jeovah, com o qual teria convivido desde tempos não informados - segundo os quatro evangelistas.
II – Jesus de Nazaré – Gestado após nove meses por Maria e que viveu na Terra com um corpo humano, durante trinta e três anos, de pai incerto e filho de Maria.
III – Jesus de Nazaré Espírito – Que teria subido para as nuvens no exato momento da morte física na sexta-feira, no Gólgota.
IV – Jesus de Nazaré Híbrido - que teria subido em Betânia, levando o corpo ressuscitado e devidamente vestido juntamente com o invisível espírito que propiciava ao corpo vestido os aparecimentos e desaparecimentos relatados e que agora seriam o resultado de um paradoxo. Nesse caso são dois espíritos que teriam subido até Jeovah: aquele que teria se libertado do corpo do crucificado ao lado de Jesus de Nazaré e aquele que teria subido em Betânia, componente do corpo paradoxal, de criação recente pelo Papa Emérito em seu livro Jesus de Nazaré.
- Não há a menor dúvida. Relatam os sacerdotes narradores o resultado do grande buraco narrativo: subiram dois espíritos e um corpo e já existe nas nuvens um Jesus Celestial, nascido antes da Criação.
- Cabe informar ao Tribunal, para que não pairem dúvidas: O Jesus enviado para a Terra por Jeovah, nunca foi visto ou dele se teve notícias. Parece que os evangelistas desejam fazer crer que o Jesus enviado por Jeovah tenha de algum modo não esclarecido – talvez pela Sombra Fecundadora -ingressado na misteriosa semente que deu início à gestação da amada mãe Maria. Desejo a verdade – custe o que custar - como já afirmei tantas vezes. E faço os relatos para que sejam compreendidos pelos dizimistas - pobres ou ricos.
- Peço – prosseguiu - que se lance na Ata de Julgamento a relação das fontes bíblicas desse resumo: I-João 17,24; II–Mateus 1,18; III–Lucas 23,45; IV-Lucas 24,50-51 e 15,24-26.
Ninguém parecia respirar. A lógica sobre o texto bíblico encontrada pelo grande mestre Jesus de Nazaré, o judeu descendente do grande rei israelita Davi, não tinha como ser desmentida por sacerdote algum.
- E Paulo de Tarso - o grande sacerdote dos gentios, dos romanos, dos inimigos, dos que destruíram nossa amada Jerusalém e milhares de jovens de meu povo - se apoia agora nos escritos de seu aluno, o apóstolo Lucas. Vê-se que Lucas é, de fato, discípulo de Paulo de Tarso. Ele relata, como seu mestre, que para o céu subiu o espírito de Jesus de Nazaré, no exato momento da sua morte na cruz, ao contrário dos demais evangelistas. Eu te pergunto - Paulo de Tarso - o que ocorreu com o corpo de Jesus de Nazaré? Ressuscitou no Domingo, três dias após a subida do espírito e permaneceu quarenta dias sem esse espírito?
Ante o silêncio de todos, prosseguiu Jesus de Nazaré:
- Temos que o espírito de Jesus de Nazaré chegou aos céus, cumprimentou a Jeovah de alguma forma e assentou-se no trono a ele destinado. Um espírito tem o que assentar?
Jesus de Nazaré para Jeovah:
- Diga ao Tribunal: você não ficou espantado, observando um dos Jesuses terrenos ao seu lado, como espírito, e, ao mesmo tempo observando das nuvens o Jesus de Nazaré, de carne e ossos, caminhando na Terra?
- Certamente, jovem e brilhante judeu - respondeu Jeovah. Além desses dois Jesuses eu convivia com o Jesus Celestial, aquele que já existia e vivia comigo quando eu criei o universo, como o afirma o evangelista João. Há no Novo Testamento mais de uma centena de citações em que Jesus de Nazaré teria mencionado "Eu vivia com meu pai no céu".
- Poderias informar ao Tribunal do Juízo Final: o que aconteceu quando o Jesus de Nazaré, de carne e ossos, que ficara quarenta dias vagando na Terra após sua ressurreição, foi ocupar seu trono, do teu lado direito?
Jeovah:
- Não tive mais notícias do espírito de Jesus de Nazaré. Eu sou constituído de ossos e carne, exatamente como você e os meus filhos - que desceram para coabitar com as mulheres belas e me deram netos, bisnetos e gerações até o holocausto do Dilúvio. E como os anjos que portam espadas flamejantes. Como Adão, semelhante a mim e Elias, o judeu que aqui chegou transportado por um carro de fogo, sem jamais haver morrido. Os meus filhos que desceram para coabitar com as mulheres belas tiveram por sua vez filhos, de carne e ossos, meus netos, como já disse. Eu, num acesso de extrema loucura, acabei por afogar no Dilúvio, como já se disse também tantas vezes. Todos, portanto, são de carne, ossos e sangue. Um espírito não possui espermatozoides, aptos a engravidar as mulheres da Terra.
- Um momento! - interrompeu novamente o destemido Paulo de Tarso. Também o evangelista João escreveu em 4,24: "Deus, Jeovah, é espírito e os seus adoradores devem adorá-lo em espírito". Insisto para que seja declarado pelo Tribunal que Jeovah não possui carne nem ossos, como o diz também o evangelista João.
Jesus de Nazaré foi até Paulo de Tarso, visivelmente contrariado:
- Não basta que eu tenha feito sangrar minha mão e todos os interessados tenham colocado a mão no ferimento que o centurião me causou com a lança, no meu lado? Não vês que Jeovah possui corpo igual ao de Adão e, com isso pode assentar-se no seu trono? Não basta que esteja escrito já no Velho Testamento que ele teve filhos que desceram para coabitar - e dar-lhe netos - com as mulheres belas da Terra?
- Continuo dizendo que no céu não existe nem carne nem ossos. E vou lembrar o que escreveu João em 20,26: "Estando trancadas as portas, veio Jesus, pôs-se no meio deles e Tomé introduziu o dedo nos furos das mãos e do lado". Está claro que para ingressar num local de portas trancadas, somente poderia se tratar de um Jesus sem carne nem ossos, um espírito. E mais: as aparições de Jesus de Nazaré, durante os quarenta dias em que permaneceu na Terra, deixam claro que ele desaparecia. Para poder aparecer, é óbvio que ele deveria desaparecer igualmente. Isso é a lógica. Um corpo de carne e ossos não desaparece. Ou ele ali está, existe, é visível, ou não se cogita de outra coisa do que um espírito.
- Estás insinuando que os apóstolos mentiram ao afirmar que Jesus de Nazaré foi arrebatado com sua carne e seus ossos ressuscitados? Insinuas que é verdadeiro o que se lê em Mateus 27,12-15: "Homens da guarda, reunidos com os anciãos, deram aos soldados uma importante soma de dinheiro, ordenando-lhes: 'Vós direis que os discípulos de Jesus de Nazaré vieram retirar seu corpo durante a noite, enquanto dormíeis'. Essa versão é ainda hoje espalhada entre os judeus". Insinuas que o corpo de Jesus de Nazaré não ressuscitou, sendo oculto pelos apóstolos?
Paulo de Tarso:
- Cada um dos sacerdotes age como melhor lhe aprouver. Se a versão – devo dizê-lo - de ocultação do corpo de Jesus de Nazaré, do povo de Jeovah, do bravo povo de Israel, for verdadeira, mais ainda se confirma o que sempre disse e repito: somente espíritos podem habitar as nuvens, o céu, o Reino de Jeovah ou o Paraíso celeste. Se o corpo do Mestre não ressuscitou, confirma-se o que escreveu Mateus: o espírito de Jesus de Nazaré subiu já na sexta-feira santa. Caso contrário, onde estará a vida espiritual de que tanto se fala nas igrejas romanas e evangélicas? Não há vida espiritual? Como isso se poderá confessar aos dizimistas? O que dirão as ovelhas desses grandes rebanhos? Onde ficará a credibilidade dispensada aos ovelheiros se estes passarem a falar a verdade que aqui se pretende desnudar? Não percebem que isso poderá acabar com a fé? Uma mudança tão radical será suportada pelos que necessitam das bengalas?
Do Vaticano vieram mensagens assinadas por importantes sacerdotes:
- Nós declaramos que subiu foi o corpo de Jesus de Nazaré, visto pelos apóstolos, vestido, em Betânia. Jamais houve uma ocultação do corpo no solo terrestre, como pretende a versão judaica descrita pelo evangelista Mateus. Ele subiu com um corpo revestido do paradoxo de que fala o livro do Papa, Jesus de Nazaré, editado em 2012. Lá nas nuvens ele se transforma em espírito quando assim desejar e volta a ser corpo igualmente quando isso for de seu interesse, como ocorreu junto a Tomé, em Emaús, no lago e em Betânia.
Jesus de Nazaré abriu a Bíblia, procurou um texto:
- Esse paradoxo exposto dois mil anos após os fatos bíblicos pelo Papa, não foge do interior do buraco narrativo, infelizmente. Volto a Paulo de Tarso: você escreveu em I-Coríntios 15,12: "Se não há ressurreição dos mortos, nem Cristo ressuscitou. Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e também é vã a vossa fé". Você aqui admite aos seus dizimistas que a ressurreição de Jesus de Nazaré pode não ter ocorrido. Mas afirma que está certo que ela aconteceu. Você nada viu. Você praticou os mais graves delitos contra o povo judeu, seus irmãos de sangue, antes de se proclamar sacerdote cristão. E se arvora em doutrinador. Está me parecendo que deve ser julgado imediatamente por este Tribunal do Juízo Final. Por que teria um tratamento diferente dos demais?
Nova mensagem chegou. Agora era o maior de todos - o Papa Emérito:
- “No livro que publiquei há alguns meses, Jesus de Nazaré, eu afirmo que foi um fenômeno único ocorrido em todos os tempos, ou seja, um paradoxo. Esse Jesus de Nazaré, após morrer na cruz, ressuscitou com a capacidade única, em todos os tempos, de aparecer e desaparecer”.
Jesus de Nazaré sorriu:
- Vejo que o buraco narrativo em que se enredaram os sacerdotes narradores bíblicos está sendo objeto de uma clara tentativa de cura, de salvação. Mas não se pode matar a figueira dos fatos. João teria escrito em 20,26: "Estando trancadas as portas, veio Jesus, pôs-se no meio deles e Tomé introduziu o dedo nos furos das mãos e do lado". Esse texto é o grande buraco narrativo que todos os sacerdotes têm que enfrentar. Jesus de Nazaré, ressuscitado, jamais teria dito que ele passara a ser um paradoxo. Ele teria dito: “Tomé introduziu o dedo nos furos das mãos e do lado e viu que era de carne e ossos".