Juízo Final: Odisséia dos Deuses
Capítulo 52
Jesus de Nazaré apanhou a Bíblia Sagrada:
- Vamos dar por encerradas as discussões sobre espíritos. Tais coisas – espíritos - são produto da imaginação de cada sacerdote ou de seus dizimistas. Até vinho existe nas nuvens, no céu, nas alturas. Mateus o disse, em 26,26-29: “Tomai e comei, isto é o meu corpo. Doravante não bebereis mais desse fruto da vinha até o dia em que o beberei de novo convosco no Reino do meu Pai”. Ou seja, Paulo de Tarso, os corpos se deliciarão com a ingestão do vinho, segundo o evangelista Mateus. Corpos! Espíritos não bebem nem comem!
Jesus de Nazaré ordenou que lhe trouxessem uma garrafa do vinho mencionado por Mateus. Um dos anjos rotulados de Príncipes chegou voando com dificuldades. Estava visivelmente embriagado. Entregou a garrafa de vinho e voltou a partir para, provavelmente, a adega das nuvens.
- Vamos brindar - Paulo de Tarso. Você não é um espírito. Você fala, caminha, vocifera e bebe vinho! Você ressuscitou e subiu com seu corpo, exatamente como eu e Elias! Mas você teve ainda mais sorte: um sósia de Paulo subiu por decreto de Roma, com o nome de São Paulo, no século I, II ou III desta Era. E você voltou a subir, agora, no Juízo Final, após sair de seu túmulo, no Vaticano. Eu fui arrebatado, com meu corpo - está escrito. Não deixei nem corpo, nem alma, nem espírito em Israel. E com esse organismo sento no trono. À direita de Elohin, o Eloeka, o Senhor Nosso Deus, aquele que mandou subir ao céu o único ser humano vivo, o conhecido personagem israelense Elias. E não me diga que Elias seja meramente um mito. Ele não teria descido das nuvens para me visitar, juntamente com o ressuscitado Moisés, quando eu estava na companhia do pescador Pedro, quando nós dois ainda estávamos vivos no solo terrestre?
- Ele subiu em seu carro com cavalos de fogo, como está escrito na Bíblia Sagrada, no seu Antigo e Velho Testamento. Não há certeza, como confessas, Paulo de Tarso, se o seu amigo em Cristo subiu com ou sem o corpo, como escreves em II-Coríntios 12,2. O Papa Emérito, teu abdicado sumo sacerdote atual, escreveu o livro Jesus de Nazaré, que muito me honrou. Escreveu, na página 240, que eu teria subido com um corpo misto, ou seja, que se transforma em algo estranho, que não é espírito nem fantasma e que é corpo com ossos e sangue e não o é, ao mesmo tempo.
- Brindemos aos rabinos, aos sacerdotes, aos presbíteros, aos pastores, aos curas e a todos os dizimadores de todos os tempos – finalizou levando aos lábios o vinho tinto. Die Maschiene foi acionada pelo Mestre. Leu, pensou um instante e ordenou que viessem vários ressuscitados. Chegaram cinco horas depois, carregados por arcanjos mais um líder Serafim.
- Você é o duque Toto de Nepi, pelo que percebo. Relate a este Tribunal o que ocorreu no ano de 768 desta Era em Roma.
- Conquistei Latrão e proclamei Constantino, meu irmão, novo Papa. Infelizmente Cristóvão, o primicerius, não se sujeitou às nossas ordens e tivemos que supliciá-lo. Ele teve seus olhos vazados e morreu. Dois Papas rivais foram nomeados. Houve derramamento de sangue. Um deles foi cegado.
- Custo a crer que o amor que preguei e que me custou a vida na cruz tenha gerado tais barbáries. Pelo menos Constantino teve melhor destino?
- Sou Constantino II – apresentou-se outro recém-trazido. Quero saudá-lo e ilustrar este Juízo Final. Arrastaram-me montado de lado em um cavalo com pedras amarradas às minhas pernas. Fui preso em um mosteiro e me cegaram. Meus olhos foram atirados aos cães, segundo me disseram às gargalhadas. Fui levado até o Papa que me combatia, Estêvão II. Jogaram-me no piso do palácio e tive que suportar insultos do líder do Vaticano.
O próximo visitante:
- Sou o Papa Leão III e fui sequestrado e quase cegado.
- Agradeço pelas suas explanações. Falem sobre a taxa funerária.
- “Nos séculos XII e seguintes os dizimistas davam aos clérigos a taxa mortuária. Os sacerdotes alegavam que a pessoa falecida não teria pago todos os dízimos que lhe eram exigidos em vida. Com sua morte, os herdeiros do dizimista tinham que entregar à Igreja romana o seu segundo e mais valioso imóvel” – respondeu Die Maschiene.
Outro convocado interferiu:
- Nos eram tomados pelas abadias um terço de nossos bens. Enquanto não fossem entregues ao sacerdote os bens exigidos - joias, terras, móveis - raramente se fazia o sepultamento. Na Alemanha a Igreja romana era já proprietária de um terço dos imóveis do país. Na França a metade dos bens do país pertencia aos sacerdotes romanos. As catedrais abrigavam obras de arte e serviam de iscas para mais dinheiro. Se não havia santo do local, pagavam regiamente os sacerdotes de Roma para obtê-los. Santo sempre proporciona grandes lucros para todos os integrantes da igreja romana. Na Inglaterra, Maria Tudor – a Maria de Sangue - reconquistou dizimistas protestantes queimando centenas deles em praças públicas. Seiscentos fugiram para o Continente. Milhares abjuraram de seus sacerdotes e se declararam adeptos da igreja romana.
Corriam lágrimas dos olhos de Jesus de Nazaré:
- Sou culpado pela morte de tanta gente. Estou nauseado. André, Simão, Tiago, Bartolomeu, Tomé, Mateus, – o que vocês fizeram usando de minhas mensagens de amor? Usando meu nome - humilde morador de uma das quinze casas de Nazaré - me transformaram em um veículo de morticínios, de cobiça, de crueldades, de iniquidades? Os dízimos que vocês e Paulo de Tarso obtinham - as terras que o apóstolo Pedro tomou de Ananias e Safira, todo esse escólio se propagou pelo mundo. Estou prostrado. Entendo agora o Papa Emérito.
A sua tristeza, no entanto, estava recém começando. Quarenta anjos ditos judeus traziam uma preciosa carga. Era Carl Sagan, o grande astrofísico que ressuscitara. Die Maschiene exibiu o livro O Mundo Assombrado Pelos Demônios, editado pela Companhia das Letras, de autoria do recém-chegado, no ano de 1995. Jesus de Nazaré levantou-se de seu trono e, abraçando ternamente seu conterrâneo, lhe deu as boas-vindas e o fez assentar-se em um dos tronos, de onde saudou Jeovah e os demais integrantes do tribunal.
- Li sua obra e quero que me expliques muitas coisas importantes que me chamaram a atenção no Capítulo 7 – iniciou Jesus de Nazaré.
Die Maschiene exibiu o texto, com a concordância do seu autor. Carl Sagan:
- Estou certo que este julgamento é uma ficção, perdoem que o declare. Deus de Israel não prevê ressurreições. Eu combati as assombrações e as terríveis perseguições que fizeram contra as mulheres durante séculos.
Jesus de Nazaré:
- Bem sei que o papa Inocêncio mandou escrever o mais terrível dos livros da história humana, o Martelo das Bruxas. Os padres que se intitulavam os Santos Inquisidores agiam por ganância, crueldade, sadismo e vendetas. Logo eram vistos na Europa e até em colônias para combaterem demônios. Às torturas se unia a suprema infâmia de não se conceder aos acusados a menor chance de defesa. Talvez milhões de mulheres tenham sido queimadas, já que o chacais recebiam recompensas para cada execução. E toda essa abominação tinha por objetivo manter os rendosos empregos dos padres, tudo mediante o uso do nome de Jesus de Nazaré e pelo que se escreveu no Velho Testamento “Não deixarás viva um feiticeira”. O feiticeiro nada sofria.
Sagan:
- Observei no meu livro que os caçadores de gratificações e informantes pagos, agiam sempre com o uso da corrupção – em toda a história da humanidade. Mais e mais adolescentes e mulheres casadas eram queimadas por que “demônios as possuíam”. A sociedade era dominada pelos homens e os padres assassinos prestavam bastante atenção à qualidade e à quantidade de orgasmos nas supostas cópulas das rés com os demônios ou com o Diabo. Escrevi que Santo Agostinho era de opinião que o Diabo – de grande utilidade para ele pois aterrorizava os dizimistas - não seria um fornicador. As “marcas do Diabo” eram encontradas “em geral sobre os seios ou nas partes pudentes. Em seguida eram raspados os pelos púbicos e as genitálias era cuidadosamente inspecionadas por Inquisidores do sexo masculino. Na imolação de Joana d’Arc, depois que seu vestido pegou fogo, o carrasco de Rouen apagou as chamas para que os espectadores pudessem ver “todos os segredos que podem ou devem existir numa mulher”. À parvoíce se unem atos escravizantes.
- Meu caro professor Sagan. A Bíblia afirma que os seres humanos não podem ressuscitar. A Bíblia comete falsidades? Ela é mentirosa? Ela é falsa? Assim não é, afirmam os sacerdotes. Pois então temos que admitir o que ela afirma sem qualquer dúvida: os seres humanos não podem ser imortais. Está escrito que Jesus, filho de Sirac – em 17,27-30 do livro de Eclesiastes: “O ser humano não é imortal”.