Juízo Final: Odisséia dos Deuses
Capítulo 17
Eva foi trazida após algumas horas de procura. Tinha ressuscitado de um longo período de morte bíblica de mais de cinco mil anos.
Pedro, o que descera do alto do céu em seu trono:
- Vejo que, como primeira mulher bíblica, estás em ótimo estado, surpreendentemente. Falas o idioma hebraico. Primeiro gostaria que me informasses onde estava localizado o Paraíso, em que parte da Terra, já que Moisés não escreveu sobre isso. E de quem aprendeste a falar hebraico.
Eva vestia peles de animais. Falava hebraico, língua ensinada aos seus três filhos, Caim, Abel e Set - mas aparentemente havia esquecido tudo. Ressuscitar um cérebro terráqueo tão antigo, com trilhões de neurônios a serem restabelecidos, não parecia ser obra simples para quem estivesse encarregado de levar a cabo essas ressurreições em cem bilhões de seres humanos.
Jesus de Nazaré assumiu o interrogatório:
- Eva, você está aqui para ser julgada. Este é o Dia do Juízo Final, como consta da Bíblia Sagrada. Você acabou de ressuscitar e, conforme tenha se comportado em vida, poderá sofrer terríveis queimaduras e outras atrocidades num lugar chamado Geena. Mas também poderá ser absolvida e ser elevada para as nuvens onde esses flagelos não existem. Você compreendeu?
Eva fez movimentos com a cabeça indicando que compreendera tudo. O computador – Die Maschiene - fora conectado na cabeça dela e interagia com seus vários trilhões de neurônios, incrivelmente restaurados após milênios. Mas ela falava hebraico.
- Diga ao Tribunal se você se arrependeu de seus pecados, se você creu em mim, Jesus de Nazaré, se você foi justa, se você jamais blasfemou contra o Espírito Santo, se foi batizada e se você sempre foi pobre.
Eva produziu sons que o computador interpretou assim:
- Pequei, pois comi da árvore da vida, o que me fora proibido por Jeovah. Não me arrependi de pecados e fiquei revoltada com Jeovah porque ele me fez sair do Paraíso e ir trabalhar. Não sei o que seja o Espírito Santo. Não tive jamais notícia da existência de Jesus de Nazaré. Sempre fui muito rica, pois eu, Adão e meus dois filhos, éramos donos de tudo que nos rodeava.
Jesus de Nazaré:
- Explique como você aprendeu a falar, qual era o idioma, e se você falou com Jeovah, esse senhor aqui presente.
Eva olhou para Jeovah:
- Sim, este senhor se dirigiu a mim logo que me criou com o uso da costela de Adão. Proibiu que eu comesse uma maçã. Acho que já nasci - se assim se pode dizer - adulta e falando hebraico razoavelmente. Nunca tive nenhum professor.
Jesus de Nazaré:
- O apóstolo João escreveu que Jeovah jamais foi visto por humano algum, como se lê em seu Livro em 1,18: “Ninguém jamais viu Deus”. No entanto vocês falaram com ele. Ele se assemelhava a Adão. Ele era um espírito?
Eva:
- Eu o via e ouvíamos os seus passos. Era gente.
Jesus de Nazaré abriu A Bíblia e leu o que escreveu Moisés em Gênesis 3,10:
- “Jeovah passeava no Jardim do Éden e se ouviam os seus passos”. Logo, Jeovah possui corpo. Seus passos produzem ruídos. Tem voz, cordas vocais, pulmões. E vejo que os anjos também têm corpos, como se pode ler em Gênesis 3,24: “E Jeovah colocou querubins armados de uma espada flamejante, para guardar o caminho da árvore da vida”.
Levantou-se do trono Jesus de Nazaré. Ordenou aos querubins que o aproximassem de Jeovah:
- Jeovah. Escreveram os Evangelistas que eu sou teu filho e filho da amada Maria, esposa de José. Esta mulher, Eva, acaba de dizer que falava contigo, ela e o seu companheiro, e que produziram filhos. Esse casal é ancestral de Maria. E eu, sou o produto da tua união com Maria. Pergunto-te: és realmente meu pai - está correto o que escreveram esses quatro evangelistas?
Jeovah:
- Não.
O espanto não poderia ser maior. O próprio Jeovah negava ser pai de Jesus de Nazaré? Pelo mundo a notícia correu mais rápida do que o relâmpago. E Jesus de Nazaré:
- Queres dizer que esses quatro escritores bíblicos não falaram a verdade ao afirmarem que eu seria teu filho. Peço que confirmes isso. Lembro o que escreveu o apóstolo João em 7,12-18: “Disse Jesus: comigo está o Pai que me enviou; são duas testemunhas, Jeovah, e eu mesmo”. E lembro João 6,38: “Desci do céu não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou; quem crer e ver o Filho terá a vida eterna e eu, Jesus de Nazaré, o ressuscitarei no último dia”.
- Eu somente reconheço o que está narrado no Velho Testamento, escrito por Moisés e meus seguidores e profetas judeus. Podes perguntar a qualquer um do meu povo, no Estado de Israel ou onde for: nunca tive um filho que tivesse descido com o encargo de profanar lares. E o meu povo somente reconhece a existência válida do Pentateuco e demais livros contidos no chamado Velho Testamento. Meus filhos somente desceram para ter filhos com as mulheres belas, como bem o descreve meu profeta maior, Moisés, no livro que escreveu - o Gênesis, em 6,1.
Moisés interrompeu:
- Escrevi tudo isso e me senti extremamente injuriado porque alguns seres humanos me acusaram de reproduzir simples mitos em Gênesis e demais livros. Que esses filhos de Jeovah seriam produto de relatos mitológicos, anteriores ao meu livro. Pois se assim fosse, os anjos querubins, com suas espadas fulgurantes, obviamente seriam também resultantes de mitos. E o que é um mito? Um mito, do grego mithós, é um relato de caráter simbólico. Ele procura explicar a realidade. É às vezes usado de forma pejorativa.
- Vou reler Gênesis 3,24 - continuou o grande sacerdote de Israel: “Jeovah convocou querubins armados para guardar o Paraíso, o caminho da árvore da vida...)” Por que seria isso um mito? Querubins não são as montarias de Jeovah? Anjos não são citados incontáveis vezes no Novo Testamento? Querubins e outros anjos não povoam praticamente todos os relatos dos Evangelistas? O anjo Gabriel não fala com os humanos a todo o momento? Se meu relato fosse um mito, todos os anjos seriam inexistentes e simples integrantes de relatos de caráter simbólico. Exércitos de anjos não foram celebrar o nascimento de Jesus de Nazaré?
- Os anjos que descrevi são mitos? – continuou Moisés. Pois vou relacionar referências a eles em toda a Bíblia. Isso levaria a Bíblia Sagrada a ser um amontoado de mitos?
As longas barbas brancas de Moisés foram alisadas por suas provectas mãos e prosseguiu:
- Em Mateus 16,27 lemos: “Porque o Filho do Homem há de vir na glória do Pai, com os anjos, e então dará a cada um conforme as suas obras”. E em I-Pedro 3,22 lemos: “Ele subiu ao céu e está à direita de Deus, depois de receber a submissão dos anjos, das autoridades e dos poderes”. Tudo isso são mitos?
O evangelista João interferiu:
- Pois eu escrevi em 1,51: “Jesus disse: Vereis o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem”.
- Muito agradeço sua ajuda, João. Pergunto a este Tribunal: os milhões de anjos aqui presentes são inexistentes, são mitos, são delírios? A montaria querubínica de Jeovah é fantasia? Por que os relatos dos evangelistas seriam melhores do que os meus? Por que os meus seriam mitos e os dos novos sacerdotes não o são? Ou este Livro está todo correto, ou todo ele é um turbilhão de mitos visando objetivos idênticos? Já não estamos todos convictos que a Bíblia Sagrada revela a existência permanente de ovelheiros e de ovelhas, de dizimadores e de dizimistas? Fui eu um dizimista? Sim! Obviamente! Não nomeei os filhos de Levi para serem eternamente os sacerdotes dizimistas de Israel? O primeiro nomeado não foi meu irmão, Aarão?
- É doloroso concluir pela exatidão de suas palavras, Moisés. Da mesma forma assim agiram meus apóstolos. Está escrito pelos evangelistas. Está confessado. E está dito em qualquer templo onde o Grujuem é utilizado. Lá ele é conhecido por obrigações. E os humildes não deixam de doar regularmente a décima parte de seus ganhos. Os pastores, obedecendo aos ensinamentos de Paulo de Tarso, ameaçam, atemorizam, insistem: quem deixar de contribuir para os pastores sofrerá males os mais terríveis.
Jesus de Nazaré:
- Mas eles escreveram nos Evangelhos que você teria falado, do meio das nuvens, durante o batismo de João Batista, que Jesus de Nazaré seria seu filho, mandando, como sinal, que uma pomba sentasse na sua cabeça.
Jeovah:
- Certamente desejaram produzir com esse relato uma aparente evidência – prova plantada - de que eu faria parte da história que os transformava em novos sacerdotes. Não querem todos ser sacerdotes?
Jesus de Nazaré:
- Resulta certo, então: você possui filhos homens no céu. Releio, para que não paire a menor dúvida, em Gênesis 6,1: "Os filhos de Jeovah viram que as filhas dos homens eram belas e escolheram esposas entre elas e elas geraram filhos". Pergunto: como você produziu esses filhos homens, morando lá no céu? Quem era a mãe dessas criaturas? Eles voltaram para as nuvens para não morrerem afogados no dilúvio que provocaste? E teus netos, subiram com teus filhos? Ou morreram também por tua pesada mão?
O mundo se perguntava: como nunca tinham os dizimados, os fiéis, os clientes dos sacerdotes do Velho Testamento, percebido a existência bíblica desses inúmeros filhos de Jeovah? Havia cochilado quem teria escrito isso? Foi o grande Moisés quem redigira isso? Freneticamente os comentaristas das rádios e televisões retransmitiam esses dados bíblicos e milhões de bíblias foram abertas em todo o planeta.
Jesus de Nazaré:
- Negaste a validade do Novo Testamento. Mas garantes que o Velho Testamento não é mentiroso. Moisés disse que você criou todas as coisas e depois criou Adão e Eva. Mas você já possuía homens na gelada escuridão do Cosmos, seus filhos. Moisés é claro em seus escritos. Diz: seus filhos, filhos de Jeovah. Adão e Eva não foi, pois, o primeiro casal. Moisés mentiu? Ou, ele se enganou? Ou, a Bíblia Sagrada é mentirosa? Ou cada rabino ou pastor escreve o que lhe parece mais conveniente? Ou esses filhos nasceram após o Big Bang ou, então, após a criação bíblica do mundo?
Ante um novo silêncio continuou Jesus de Nazaré:
- A Bíblia Sagrada não só noticia a existência de filhos celestiais de Jeovah, como, ainda, relata reuniões que fazes com esses filhos, Jeovah! Vou ler no Livro de Jó: “Um dia em que os filhos de Deus se apresentaram diante do Senhor, veio também Satanás entre eles”.
Silêncio. Jesus de Nazaré:
- Vemos que não se trata de um engano dos autores do livro de Gênesis e de Jó. Há, assim, confirmação de que Jesus Celestial possui irmãos. Disso não se pode duvidar. Está escrito na Bíblia Sagrada.
Agora Jeovah parecia explodir de fúria. Olhava para todos os lados como que procurando auxílio. Mas Jesus continuou:
- E Jó descreve como natural, como habitual, o encontro de Jeovah com seus filhos celestiais, no capítulo dois: “Um dia em que os filhos de Jeovah se apresentaram diante do Senhor Jeovah, Satanás apareceu também no meio deles na presença do Senhor Jeovah, que perguntou: De onde vens tu? Andei dando volta pelo mundo - respondeu Satanás - e passeando por ele. O Senhor Jeovah disse a Satanás: entrego-te Jó, mas poupa-lhe a vida. Satanás feriu Jó com uma lepra maligna”.
Parecia que algo não estava devidamente analisado. Logo continuou o Mestre:
- Vemos que o Anjo Caído, Lúcifer, esse ex-habitante do céu, não mora num lugar conhecido por Inferno. Ele passeia, dá voltas pelo mundo. E vemos que o grande deus Jeovah não é onisciente. Não sabe de tudo. Ele é obrigado a perguntar. E o faz justamente para aquele anjo que teria se rebelado e teria sido expulso das nuvens e que seria o grande inimigo dele Jeovah e de todos os humanos.
O Mestre, visivelmente abatido:
- Quero lembrar que os evangelistas dizem que Jesus de Nazaré é filho unigênito de Jeovah. Não leram com atenção o Velho Testamento. Ou alguém está mentindo? Obviamente que não o foi Moisés, esse sacerdote maior da história do povo de Israel. No afã de formar rebanhos, contradições e encontros absolutamente inverossímeis com o Anjo Caído também são visíveis no Novo Testamento. Em Mateus 4,1-11 lemos: “Em seguida Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto para ser tentado pelo demônio”. Que espírito é esse, capaz de conduzir à força um ser humano ou uma divindade? E para ser tentado? Pelo demônio?
Jesus de Nazaré não escondia sua indignação:
- E escrevem que eu não resisti a um simples personagem do mal? Eu ser tentado? Tentado a quê? E escreve Mateus, em seguida: “O demônio transportou-o à Cidade Santa, colocou-o no ponto mais alto do templo; depois o transportou a um monte muito alto; partiu o demônio e os anjos vieram para servir a Jesus de Nazaré”. Mateus: devias ter imaginado melhores comportamentos para Jesus de Nazaré, nunca, jamais, essas humilhantes faltas de poder do seu Mestre.
As emissoras de televisão americanas passaram a comentar essas surpreendentes revelações. Sara Moshê perguntava aos seus telespectadores: “Jeovah e Jesus de Nazaré mantinham relações de amizade com Satanás? Não eram eles inimigos? O Diabo foi autorizado a supliciar ao fiel judeu Jó, seu adepto exemplar? Por que Jeovah, tendo tal ex-anjo rebelde à sua frente, não o eliminou com o uso da espada poderosa do anjo que matou cento e oitenta e cinco mil assírios numa só noite, como descrito em II-Reis 19,35?”. Jeovah, tendo ouvido o comentário:
- Mandei matar cento e oitenta e cinco mil assírios, sim. Mas absolutamente ninguém tem o menor interesse em eliminar esse insignificante Anjo Caído. Moisés que o explique.
Moisés, visivelmente entediado com o assunto em debate:
- Eliminar o Diabo não é útil para os sacerdotes e para a obtenção de adeptos e dízimos. Baal, Emat, Arfad, Ana e Ava, Sefarvaim, Nesroc e centenas de outros deuses logo se apropriariam de dizimistas judeus, como vinha ocorrendo há séculos. Agora mesmo, ouçam-se os sermões, em sinagogas ou em templos cristãos; ouçam-se os inflamados discursos de pastores evangélicos nas televisões: a figura do Diabo é absolutamente necessária. Qualquer crítica que se faça contra o enriquecimento dos pastores, tem resposta imediata: é o demônio que está agindo contra a fé dos dizimistas. A desqualificação é usada pelos pastores quando os argumentos lhes são irrespondíveis.
O autor da Torá também teve um grande acesso de tosse. O julgamento foi interrompido por trinta minutos. Do alto um anjo Príncipe lhe trouxe uma bebida parecida com xarope. E continuou o grande sacerdote de Israel:
- O temor, o medo de fornalhas que são visíveis na divisa de Jerusalém como a Geena, e as infernais, invisíveis, pois aparentemente situadas no subsolo, tudo é indispensável para o processo de dizimação. Quero lembrar o que o apóstolo Paulo em sua carta I-Coríntios 6,9, decreta: “Nem os impuros nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os devassos hão de possuir o Reino de Deus”. E ensina os seus presbíteros, em II-Timóteo 4,2: “Prega a palavra, insiste oportuna e importunamente, repreende, ameaça, exorta com toda paciência e empenho de instruir”.
Moisés surpreendentemente revelou-se um profundo conhecedor do Novo Testamento:
- E o apóstolo Paulo não será poupado: afirmou que os efeminados não serão admitidos no Reino do céu. Por quê? Informam-me que milhares de sacerdotes romanos são celibatários e mantêm relações de sexo com outros homens. E praticam a pedofilia. Segundo esse Paulo, tais sacerdotes não poderão ser admitidos no Reino de Jeovah. Nem os homens que se casam legalmente entre si. Nem as mulheres que se unem em matrimônio oficial também entre si.
O maior dos profetas judeus alisou suas longas barbas e prosseguiu:
- Isso me faz lembrar meu colega profeta Jeremias. Ele escreveu em 8,10: “Do maior ao menor, todos se entregam aos ganhos desonestos. Desde o profeta até o sacerdote, praticam todos a mentira”.
Moisés fez menção de retirar-se. Chamou uma equipe de serafins para levá-lo, mas, virando-se para a jornalista americana no helicóptero:
- Ninguém quer eliminar Lúcifer. Todos os sacerdotes necessitam dele. Ou você pode conceber que Jeovah, tendo Satanás à sua frente, como consta da Bíblia Sagrada, não o teria aprisionado, se o desejasse? Mas não é Jeovah, na realidade, quem decide: são os sacerdotes, os narradores bíblicos, os dizimistas, os que velam para que esse personagem jamais saia dos textos sagrados, dos sermões e dos programas de TV. Os historiadores que vierem a narrar os acontecimentos ocorridos neste Juízo Final com toda a certeza serão hostilizados pelos donos de rebanhos.
Moisés saudou Jeovah e foi arrebatado pelos seus anjos para o alto. Desapareceu entre as nuvens e deixou um grande silêncio no Juízo Final.
Eva aguardava. Atônita.
Jesus de Nazaré:
- Antes de encerrar os trabalhos de hoje, devo pedir para que Jeovah esclareça: por que criou Adão e Eva, se já possuía filhos no céu?
- Moisés deve explicar, já que ele escreveu sobre isso.
Jesus de Nazaré, com seu celular, ligou para o líder judeu:
- Moisés: escreveste várias vezes nos teus livros bíblicos que Jeovah possuía filhos no céu e que estes desceram e tiveram filhos, consequentemente netos do deus judaico. Por que Jeovah não enviou seus filhos celestiais simplesmente para a Terra, para povoá-la? Sabemos que havia mulheres no céu. E não eram tão bonitas como as terráqueas, já que os filhos de Jeovah desceram justamente porque julgaram belas as que viviam no solo terrestre, como está escrito claramente no livro de Gênesis 6,2.
Anjos conhecidos por Virtudes tinham retornado do solo de Israel onde bilhões de ressuscitados e de vivos se aglomeravam em Jerusalém e nos campos ao redor da cidade milenar. Tinham agarrado várias ressuscitadas, mas elas fizeram um clamor tão grande que decidiram vir consultar o Juízo Final. É que tinham fobia às alturas.
Imediatamente a Máquina informou em sua tela um cálculo estatístico aproximado: seis bilhões, entre ressuscitados e vivos, sofriam dessa fobia. Em seguida um email chegou à tela do computador. Os humanos que tinham medo de alturas pediam para não serem salvos e remetidos para as nuvens celestiais. Alegavam que não sobreviveriam ao pânico.
O pedido foi posto em votação e com exceção de Jesus de Nazaré, todos os julgadores decidiram que não havia respaldo no texto bíblico para atender ao pedido. Todos tinham que ser julgados e, salvos ou condenados, teriam que cumprir com o que escreveram os quatro evangelistas e Paulo de Tarso.
Moisés havia desligado o telefone celular, deixando o Juízo Final sem a devida resposta. A noite chegara com o frio e neblina. Ventos fortes trouxeram o pânico quando amanhecia. Balançavam perigosamente os tronos e todo o Tribunal foi empurrado para a cidade de Séforis.
Jesus de Nazaré reconheceu o lugar pelas colinas onde passeara tantas vezes. Séforis já era então uma grande cidade, de cultura grega, situada a menos de uma hora de caminhada da minúscula Nazaré e suas quinze choupanas. Possuía circos, ginásio, teatro, banhos públicos. Em todos os escritos do Novo Testamento estranhamente esse lugar não foi mencionado. Uma grande cidade, tão próxima da miserável Nazaré, que, por sua vez, só tinha casas muito pobres e distava cento e dezoito quilômetros de Jerusalém. Nazaré foi avistada pelo Mestre. Emocionado observou Cafarnaum, onde Pedro morava e pescava para sobreviver com sua mulher e filho.
O vento amainara ao amanhecer. Os anjos tiveram que fazer tremendos esforços para empurrar o Tribunal de volta. Viram a Leste a cidade de Filadélfia. A Oeste avistaram a Samária com o Monte Gerizim. Foram desviados para o Mar Morto. Veio uma chuva forte e todos tremiam de frio.
- Era muito sofrida a vida no céu - comentou Tadeu, um dos apóstolos que menos falava. Mal sabiam que estavam correndo grande perigo, já que haviam invadido o espaço aéreo de outros povos.