Juízo Final: Odisséia dos Deuses

Horst Schadeck · Capítulo 84 de 96

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Juízo Final: Odisséia dos Deuses

Capítulo 83

 

O Mestre dirigiu-se aos repórteres na segunda-feira, ao se reiniciarem os trabalhos:

- Pedem-me novos feitiçarias - que chamam de milagres. Falta peixe, pão e vinho em toda a Terra. Não poderei paralisar minhas ajudas.

Tudo tinha sido transmitido para o mundo. Um helicóptero aproximou-se rapidamente. Estava com as insígnias do exército de Israel. Postou-se ao lado do trono de Jesus de Nazaré e fez sinal de que alguém desejava falar com ele. Jesus de Nazaré pediu que o helicóptero da BBC se afastasse e, tendo se aproximado o emissário judeu, pediu que falasse.

- Jesus de Nazaré – aceite nossa manifestação do mais profundo respeito e nossas saudações mais efusivas. Ouvimos o que disseste. És cidadão israelense. Queremos agradecer por tua magnanimidade e informar que Israel, felizmente, não necessita de tua ajuda alimentar. Sabemos que tuas doutrinas nunca foram admitidas por nossos sacerdotes e, portanto, estamos fora da tua jurisdição. Nosso único deus é Jeovah, aqui presente e a quem rendemos também nossas homenagens milenares. Por seres um falso Messias, não te condenamos. Por pretenderes ser um segundo Deus, te condenamos. Desobedecer as ordens de Jeovah e de Moisés, te levaram a um doloroso fim, o que lamentamos profundamente. Queremos dizer, ainda, que tuas mensagens – resultado de escritores desconhecidos - em favor das mulheres e dos desvalidos é compartilhada por nossos sacerdotes. Boa sorte.

O helicóptero partiu. Jesus de Nazaré olhou para o lado, fitou Jeovah interrogativamente e fez um sinal de perplexidade. Jeovah sorriu. Parecia muito feliz com tudo que acontecera:

- Jesus de Nazaré: não podes alimentar os gentios, os não judeus, por imposição da primeira parte dos Evangelhos e por ordem minha. E não podes alimentar os descendentes das Doze Tribos de Israel porque não tens jurisdição sobre eles. O povo judeu possui sua religião há milênios. Não admite que haja Juízo Final nem que sejas meu filho e, muito menos, que tenhas ressuscitado. Deves deixá-los em paz. Deves respeito ao meu povo e aos meus sacerdotes, da mesma forma que eles respeitam profundamente os romanos e os evangélicos. Todos são benvindos ao solo de Israel onde estão situados seus lugares santos. Mesmo porque nossa economia necessita da vinda de peregrinos. Eles trazem dólares. Muito dólares.

Jesus de Nazaré meditou longamente. Estava visivelmente contrariado. Possuía aparentemente tanto poder, segundo escreveram os evangelistas, e nada podia fazer. Nunca antes conseguira comandar as legiões de anjos de que necessitava.

Finalmente encontrou a solução: acenou para o helicóptero da BBC e sentenciou:

- Dentro de sete horas multiplicarei pães e peixes para todos. Transformarei água em vinho. Não posso negar essa ajuda. Seria acusado do delito de omissão e de ter causado flagelos terríveis aos vivos e aos ressuscitados, já que eu detinha - como escreveram - o poder de produzir alimentos. Disseram que sou bondoso, amoroso, misericordioso. Logo é essa a regra bíblica que vale para mim. Lamento, Jeovah- disse, com um raro sorriso no mundo das técnicas dizimatórias.

Jeovah estava contrariado. Mas o mundo todo exultava. O anjo Gabriel, que tantas vezes descera do céu para executar trabalhos para Jeovah, foi agora enviado pelo Mestre para obter os melhores pães de Berlim. Após muito procurar, encontrou - ocultos por uma mãe apreensiva e assustada - vários pães feitos de trigo, centeio, cevada, mel, açúcar, fermento, ovos e passas. Levou também o famoso Apffelstrudel. Trouxe salmões, sardinhas, badejos, anchovas, traíras, filhotes de tubarões, carpas, camarões e lagostas, além de ostras e polvos. Encontraram caviar russo da melhor qualidade num castelo situado às margens do rio Reno, próximo a Koblenz.

A cesta com os pães estava sendo segura por um querubim - convocado para auxiliar na procura. Os produtos marinhos e de água doce, em vários sacos, muito mais pesados, tiveram que ser carregados com a ajuda de um helicóptero que se apressou a socorrer os anjos, não acostumados com tamanhos pesos. Eles mal conseguiam transportar os tronos, as cornetas e os demais habitantes do céu. Exatamente sete horas após o anúncio, o mundo viu aparecerem bilhões de pães, vinho, peixes, fígado de aves, além de crustáceos e o cobiçado caviar.

A maior das feitiçarias jamais vistas fez com que em todo o globo terrestre surgissem esses alimentos. Os peixes se espalhavam por ruas, praças, prédios, campos e montanhas. Mas os que caiam em rios, lagos e mares, saiam nadando e desapareciam. O vinho surgia em forma de chuva, já que não foram fabricados vasos, garrafas ou jarras, não previstos pelo milagre. Os mais de cento e seis bilhões de humanos lambiam o vinho que escorria em calçadas e descia por calhas ou diretamente dos telhados. Os peixes saltitavam, eram frescos e logo iam para panelas para serem preparados. Salmões eram devorados crus. Milhões de polvos se misturavam com lagostas e ostras. O caviar russo em breve se tornou alimento trivial. O pâté de foi gras transformou-se em moeda de alto valor. Os produtores franceses tinham sido compelidos a fornecer o maravilhoso produto para que a feitiçaria pudesse se realizar.

O mundo todo festejava a bondade que vencera as tradições. Aquele era o amado Jesus de Nazaré, o suposto realizador de milagres. Ou de feitiçarias, pouco importava. Ninguém iria acusá-lo de bruxaria. Não era ele pertencente ao sexo feminino.

Mas logo começaram a apodrecer os peixes. Não havia frigoríficos suficientes para armazenar aquela descomunal quantidade. A população de Nova York era de duzentos milhões de seres humanos. Na cidade do México se debatiam quase trezentos milhões de pessoas. Os camarões eram os que logo exalavam mau cheiro. O homo erectus e o homo sapiens perdiam as disputas pela comida. Suas armas eram demasiadamente rudimentares.

Três dias depois já não havia mais pão, vinho e os frigoríficos armazenavam somente o necessário para dez por cento da população. E eram então assaltados pelas massas famintas.

No Olympia Stadiom continuavam os interrogatórios de testemunhas. Tudo era transmitido pelos canais de televisão e rádio. Pierre, o advogado das Mulheres Queimadas, estava inquirindo um célebre cientista da Universidade de Oxford. Pediu que ele explanasse sobre a origem do corpo humano e as discrepâncias com as histórias bíblicas criadas por Moisés e outros escritores.

- Há quatro bilhões de anos – disse o professor - surgiu uma molécula que tinha a capacidade de fazer cópias de si mesma. Na evolução que se seguiu surgiram moléculas com proteínas. Estas armazenavam o material genético. Com isso surgiram as células e estruturas multicelulares. Cada qual passou a ter uma função e o corpo humano herdou dez trilhões dessas estruturas.

Apanhou a Bíblia e leu o relato feito por Moisés. Mas não comentou nada sobre o que lera e continuou:

- Há um bilhão de anos surgiu a criatura multicelular primitiva. E surgiu a necessidade da visão, pois esses seres tinham que se alimentar. Os primeiros a desenvolver a visão eram vermes semelhantes aos platelmintos. Isso aconteceu há seiscentos milhões de anos.

Fez uma pausa e continuou:

- O platelminto criou um pequeno cérebro para poder administrar a visão. Esse cérebro é o nosso, o humano, com 1,4 quilos, melhorado após seiscentos milhões de anos de evolução. Há quinhentos milhões de anos os vermes passaram a ficar arredondados. E criaram o coração, para trabalhar com sangue. É o nosso coração. Repito: isso levou cem milhões de anos e fez com que surgisse o tubo digestivo deles, ou seja, o que deu origem após, ao nosso tubo digestivo. Pois bem, já tínhamos cérebro, coração, tubo digestivo. Criamos então a coluna vertebral, necessária para sustentar todos os órgãos já produzidos. Isso se observa em vermes de quinhentos milhões de anos atrás. Em seguida foram surgindo mandíbulas em cobras d’água, das quais surgiram os peixes modernos, com arcadas dentárias. E o grande herói, Picaya Gracilens e sua companheira.

- Para que se afastem dúvidas – prosseguiu - basta examinar-se o feto humano atual. Ele forma guelras, os arcos branquiais que os peixes usam para respirar. Isso está no embrião humano que, após o transcorrer da gestação, dão origem à cabeça humana. O primeiro arco branquial forma dois ossos do ouvido e do segundo arco surgem o hioide – que é o osso da garganta que ajuda a engolir – e o estribo, que faz parte do ouvido médio. Do terceiro e do quarto arcos surgem uma parte da laringe e da garganta. Isso tudo aconteceu há quatrocentos milhões de anos.

O perito olhou para todos os lados, avaliando o impacto de suas palavras. Continuou:

- Trinta milhões de anos mais tarde os peixes desenvolveram bolsas ricas em vasos sanguíneos nos seus tubos digestivos, com o que obtinham mais oxigênio do ar, o que lhes dava mais energia. Nessa época, há quatrocentos milhões de anos, esse novo órgão foi de grande utilidade para os peixes, era o ancestral dos nossos pulmões. É que ocorreu no planeta uma grande seca que reduziu o nível dos oceanos, cobrindo a Terra com pântanos. Com menos água, os peixes aproveitaram essa melhoria de forma espetacular. Alguns rastejavam no fundo do mar, usando as suas nadadeiras como patas, para poderem caçar melhor o seu alimento. Com a seca, essa habilidade fez com que eles pudessem sair para a terra, transformando-se em anfíbios. Um deles foi denominado de ichityostega. Suas nadadeiras estavam adaptadas para a vida fora d’água e são já parecidas com nossas mãos. Evoluíram então esses répteis, produzindo ouvidos a partir de partes da mandíbula dos peixes. Os nossos realizaram a mesma obra, mas com um avanço na evolução: da mandíbula dos répteis se soltaram dois ossos, ficaram menores e se deslocaram para cima. São o martelo e a bigorna, os líderes do nosso sistema auditivo. Tudo aconteceu em centenas de milhões de anos.

Pierre interrompeu:

- Diga ao Tribunal como avalia o relato bíblico da criação em seis dias.

O cientista:

- Obviamente que Moisés, esse grande personagem bíblico que viveu há mais de dois milênios, não dispunha dos conhecimentos recolhidos nos últimos séculos pelos atuais humanos. Ele inventou uma história típica de um tempo em que se acreditava na existência de anjos, demônios e carros de fogo com cavalos e espadas flamejantes. A massa – os Am ha-Arez, analfabetos e parvos - era extremamente crédula. O deus Baal exercia fascínio naqueles rudes campesinos - para desespero de Moisés e sucessores levitas. Tinham fé nos sacerdotes de Baal e suas práticas de prostituição nos templos - para conseguir boas safras . Tudo isso já se observou no Tribunal do Juízo Final que se desenrola sobre Jerusalém e é transmitido para todo o planeta.

Os anjos irromperam em uma grande vaia. O presidente teve que pedir ordem. Continuou o perito:

- Os pelos surgiram há duzentos milhões de anos atrás, nos terapsídios. Estes foram os ancestrais dos mamíferos. Certamente por acaso esses répteis desenvolveram espinhos sob as escamas. Cresceram tanto que viraram uma capa protetora que, por sua vez, era muito útil para manter o calor por tempo maior.

Novo silêncio. E continuou:

- O sangue quente surgiu – eram finalmente os mamíferos - em um grupo de animais. A comida começava a se transformar em um sistema de aquecimento interno, o que tornou esses animais muito menos dependentes da luz solar, com o que passaram a colonizar as regiões mais frias da Terra. Comiam insetos, caçando somente durante a noite para não serem predados pelos répteis, de sangue frio.

- Isso ocorreu há cinquenta milhões de anos atrás – prosseguiu. Estávamos quase formados. Dos primatas – macacos - surgiram os hominídeos e, depois o homo erectus, há dois milhões de anos. Este possuía laringe alta, que somente produzia grunhidos. Para poder articular a fala, a laringe teve que baixar, surgindo o homo sapiens, há meramente duzentos mil anos.

- Resumindo, - disse - somos o resultado da criação desse número de órgãos que teve início com os vermes, há um bilhão de anos, e o peixe Picaya Gracilens, há seiscentos milhões de anos, no Período Cambriano.

- Nossa coluna vertebral nasceu em vermes há quinhentos milhões de anos – continuou. Saímos da água como anfíbios. Nossos braços e pernas foram patas que tanto nadavam como rastejavam na Terra. Nossos ouvidos evoluíram de pedaços de mandíbulas de peixes. Isso ocorreu em direção aos répteis.

Falava pausadamente. Olhou para sua mão esquerda e prosseguiu:

- Nosso sangue quente, que nos permite muito maior autonomia, resistência e agilidade, surgiu do mamífero insetívoro, caçador noturno. E a possibilidade de produzirmos cantores como Plácido Domingo, Pavarotti ou Edith Piaf, surgiu porque há milhares de anos nossa laringe desceu para criar espaço para que nossa língua e cordas vocais pudessem ser tão eficientes como somos.

- Ou seja, – completou - somos produto de uma molécula que surgiu há quatro bilhões de anos atrás, quando havia transcorrido somente um bilhão de anos desde que a Terra nasceu, junto com o Sistema Solar e seus planetas, de uma nuvem de poeira estelar.

Nenhum dos advogados da parte ré ousou formular qualquer pergunta ao cientista. Pierre dirigiu-se a Moisés que fora requisitado para depor em Berlim:

- Como vês, Moisés: tua história da criação evidentemente é uma invenção. Olhe para sua cabeça: ela foi verme. Depois foi peixe que rastejava no fundo do mar. Depois foi lagarto. Depois macaco. Assim evoluíram as espécies. E mais, Moisés: tu não tens como afirmar a história do Éden. Afinal, além disso, você não estava lá. Você somente nasceu e viveu milênios após os fatos que narras.

As Mulheres Queimadas irromperam em gritos:

- É outro mentiroso! É sacerdote como os que nos queimaram! Ele é usado pelos pastores romanos e evangélicos. E é usado pelos rabinos! Ele quer o poder e os dízimos para seu irmão Aarão e os seus protegidos levitas!

O presidente ameaçou mandar retirar do Tribunal as que não se continham.

- Veja – Moisés: o que o cientista acabou de expor está evidenciado e qualquer adolescente sabe das origens humanas. Agora tenho que te contestar em mais uma das tuas narrativas bíblicas: você diz que Jeovah, após criar o que chamas de luz, céu e Terra, teria criado os animais e, por último, Adão.

Pierre parecia ler uma anotação e continuou:

- E escreveste que Jeovah criou Adão semelhante a ele mesmo, Jeovah. Após, e só após, teria criado a mulher, no caso, Eva. Tenho que te dizer - Moisés, que isso é impossível. Sabes por quê? Simplesmente porque Adão surgiu com o primeiro verme – ou peixe. De peixe transformou-se, passados milhões de anos, em répteis e, depois, no restante dos animais.

Mas Moisés redarguiu:

- Olhe - advogado. Quando eu escrevi que tudo levou uma semana, isso possuía um sentido figurativo. Um dia no Livro de Gênesis, na realidade, significa um lapso de tempo indeterminado que pode ser de milhões de anos.

- Vejo que os líderes religiosos sempre acham uma solução para as narrativas que se revelam falhas. Mas aqui não podes salvar tua história - Moisés. Simplesmente porque Eva teria sido criada com o uso de uma costela de Adão.

- Justamente, advogado. Jeovah levou bilhões de anos para chegar ao momento em que o ser humano, ou seja, Adão - teria surgido. Eva foi verme ou peixe fêmea - tenho que concordar agora. Tudo isso foi ilustrado pelos sábios atuais, como pude ler em hebraico.

Pierre:

- Não há lógica nisso, Moisés. Jeovah não criou Adão semelhante a ele mesmo? Está aqui presente e, como podemos ver, ele é semelhante ao ser humano, efetivamente. Mas Jeovah não poderia possuir os genes nem os cromossomas dos seres humanos, pois ele não passou pelo processo que levou seiscentos milhões de anos para apresentar o resultado atual, ou seja, os humanos.

- As trilhões de células que formam os corpos humanos jamais poderiam existir antes do Big Bang, data em que, de uma grande explosão, surgiram os bósons e átomos que futuramente serviriam para o surgimento de minerais e de células. Moisés - dizes que Jeovah já existia quando da grande explosão ou Criação Bíblica! Como ele possuiria os bilhões de genes que os humanos somente iriam adquirir após passar pelo período da evolução, ou seja, seiscentos milhões de anos desde o período cambriano até hoje? Podemos deduzir que criaste - por tua imaginação - tanto Jeovah, quanto Adão e Eva? E o restante dos personagens e ações? Os filhos de Jeovah são mitos – segundo dizem? A Torá é mítica? A Bíblia é resultante de mitos sacerdotais?