Juízo Final: Odisséia dos Deuses

Horst Schadeck · Capítulo 15 de 96

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Juízo Final: Odisséia dos Deuses

Capítulo 14

 

No dia seguinte já não havia mais peixes, vinho e pão. As manchetes das televisões informavam isso, que foi ouvido por Jesus de Nazaré. Fez um gesto com a mão direita em direção às poucas nuvens que havia e logo o mundo foi inundado com mais de cem bilhões de peixes e igual número de pães. Era essa a lógica: quem fabrica alimentos jamais deixará de perder essa habilidade, não importa quantos sejam os comensais.

Estava atendendo ao pedido do Bispo protestante, ressuscitado, que, em vida, maior número de dízimos tinha obtido em todo mundo. Era um dos Bispos derivados, conhecidos por protestantes. Foi então trazido para ser julgado. Jesus de Nazaré:

- Vejo que foste um dizimador de grande capacidade laborativa. Em poucos anos obtiveste tantos dízimos que eras e és dono de estações de televisão, centenas de templos e muitas outras posses. Usaste o Grujuem para isso. Legalmente. No entanto, não te parece que dos pobres foi obtido dessa forma o dízimo, aumentando a fome desses dizimados e suas famílias?

- Absolutamente - respondeu o Bispo evangélico. Os apóstolos agiam assim e a Bíblia diz claramente que não devem os pastores trabalhar sem receber o pagamento. E os pobres? Sabemos que eles necessitam de uma bengala psicológica. Um apoio às suas sofridas vidas. Nós lhes damos isso. Aliás, os estudos de vários pesquisadores mostram que a fé em divindades faz bem à saúde. Usando imagens de ressonância magnética funcional, que mede a oxigenação do cérebro, neurocientistas descobriram que a interferência de um ser muito superior seria uma explicação eficiente para aplacar a necessidade de entender o que não se consegue com o conhecimento comum.

Jesus de Nazaré:

- Estou percebendo que a dizimação é vista como bíblica. Eu te pergunto - Bispo, sobre os pressupostos dessa mesma Bíblia para a tua admissão no céu: te arrependeste de teus pecados? Creste em mim? Nunca blasfemaste contra o Espírito Santo? Foste um justo? Foste batizado?

O Bispo:

- Certamente. Permita que eu lembre: Moisés trouxe ordens expressas de Jeovah instituindo os integrantes da tribo de Levi como sacerdotes perpétuos e regras para que eles recolhessem dízimos generosos - sob pena de castigos terríveis. E você - segundo escreveu Mateus 10,10 - disse que os operários (apóstolos) merecem o seu sustento e, em 12,4, que os sacerdotes têm pães reservados nas sinagogas.

Jesus de Nazaré:

- Ele escreveu, sim. Mas eu, Jesus de Nazaré jamais escrevi uma linha sequer. Mas, prosseguindo, vejo que foste e continuas riquíssimo – o que é visto como um ponto extremamente negativo; não estou seguro que creste em mim; não foste justo; não te arrependeste de teus pecados e blasfemaste contra o Espírito Santo, pecados esses criados pelo interpoladores romanos e de outros povos. Diante disso, como queres que eu te absolva?

O Bispo evangélico, que fazia parte dos ressuscitados no Juízo Final:

- Porque fiz uma grande obra. Obedeci: fui a todas as nações do mundo e propaguei as tuas mensagens, exatamente como está escrito por Marcos em 16,15-20: “E disse Jesus de Nazaré antes de ser levado ao céu: ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura. Quem crer e for batizado será salvo, mas quem não crer será condenado”.

Jesus de Nazaré abriu a Bíblia:

- O evangelista Marcos não escreveu isso, Bispo. Nos manuscritos mais antigos não existem os versículos 9-20, do capítulo 16. Ele foi acrescido justamente para que pessoas como tu pudessem se valer do Grujuem e praticar a dizimação dos gentios. Aliás, em várias bíblias os tradutores fazem essa observação sobre as interpolações encontradas.

O Bispo:

- Pouco importa. Está escrito na bíblia que uso em meus milhares de templos. Não sou obrigado a usar de bíblia específica. Os religiosos anglo-saxões não possuem também a sua bíblia particular? Além disso, em Mateus 28,19, consta : “Ide, pois, e ensinai a todas as nações; batizai-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”. E até o evangelista grego Lucas, diz em 24,47: “Em seu nome se pregasse a penitência e a remissão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém”. Aqui se interpolou também a prática da penitência, é bem verdade.

Jesus de Nazaré:

- Certamente. Cada dizimador possui liberdade religiosa garantida pelas leis. Para finalizar esse assunto, quero lembrar que está escrito em Mateus 15,24: “Jesus respondeu-lhes: Não fui enviado senão às ovelhas perdidas de Israel”. Aliás, convém que se analise melhor o que seja o batismo. É evidente que esse é um ato criado para manter o dizimista batizado na situação de cativo por toda sua vida. Tal como já inventaram os sacerdotes do Velho Testamento a prática da circuncisão. Quem a executava? O sacerdote, evidentemente!

Jesus de Nazaré estava pálido. Não se alimentava há muito tempo. Pediu que lhe servissem um cálice de vinho tinto com mel e especiarias e continuou:

- Diz Mateus, na primeira parte do seu evangelho, em 10,5 e 23: “Não ireis ao meio dos gentios nem em Samária (que são pagãos), ide antes às ovelhas que se perderam na casa de Israel e não acabareis de percorrer as cidades de Israel antes que volte o Filho do Homem”. Ele escreveu que eu teria dito, em 15,24 que não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel e que não convém jogar aos cachorrinhos o pão dos filhos e que não devemos dar pérolas aos porcos. Como sabes -porcos era a denominação que se usava, em Israel, aos que não são judeus, mas não tinha qualquer conotação injuriosa.

O Mestre caminhou sobre os anjos. Foi até os apóstolos juízes, passou em frente à Jeovah, e, finalmente se decidiu:

- Meu veredito é: sejas condenado a arder nas fornalhas da Geena, pois essa é a ordem bíblica. Em seguida, reduzo essa pena, pois minha mensagem é a de perdoar a todos. Deverás permanecer na Terra até que tenhas devolvido aos dizimados todos os bens que deles tenhas obtido.

O Bispo, sem perder a serenidade:

- Permita que interponha imediatamente meu recurso. Ele consiste em pedir que haja reconsideração, já que a figura do Espírito Santo é uma invenção romana. Os copistas juntamente com o Imperador Romano Constantino é que inventaram essa figura. E Mateus pode confirmar isso. Ele não escreveu sobre a existência do Espírito Santo, há interpolações.

Jesus de Nazaré:

- Ainda que sobre esse ponto eu pudesse te perdoar, vejo que você não atende a nenhum dos outros requisitos de admissibilidade no céu.

O Bispo:

- Fui e agora continuo riquíssimo, é verdade. As estações de televisão que possuo no mundo todo não deixam dúvidas sobre isso. Mas, em compensação, eu não trouxe alento e esperanças aos dizimados? Isso não é o que você fazia - segundo Mateus e os demais? E na Bíblia não está escrito que ninguém deve trabalhar gratuitamente? E você não disse que os seus contemporâneos deveriam dar a Deus o que é de Deus e a César o que é de César? Assim, não sou rico. Sou meramente depositário dos dízimos dados a Jeovah. Não tenho como mandar o dinheiro para cima, para o céu. Jeovah, esse mesmo deus do povo israelita, nunca manda buscar o vil metal.

O Bispo falava com fluência. Era um grande orador:

- Basta que se leia em Malaquias 3,10 a ordem de Jeovah: "Pagai integralmente os dízimos ao tesouro do templo, para que haja alimento em minha casa". E Jesus de Nazaré teria dito, segundo Mateus, em seu capítulo cinco que, "Ao fazer a oferta no altar, deixa a oferta e depois vá reconciliar-te com teu adversário, com quem tens contenda". Disse o Nazareno, segundo Mateus 12, que há pães reservados aos sacerdotes e em Timóteo 5 está escrito que os sacerdotes devem ser honrados com dupla remuneração. E o romano judeu Saulo, natural de Tarso, também conhecido por Paulo, lembra em Hebreus, que os filhos de Levi, revestidos de sacerdócio devem receber o dízimo legal do povo, ou seja, de seus irmãos. Em Números 18, Moisés escreveu que Jeovah lhe determinou: "Para ti, Aarão, e teus filhos, perpetuamente, serão dadas as primícias, os óleos, os vinhos, o trigo, todos os primogênitos humanos e animais; receberás cinco ciclos de prata para que os israelitas possam resgatá-los após atingir um mês. Aos levitas serão dados todos os dízimos de Israel pelo serviço que prestam na tenda da reunião".

Jesus de Nazaré:

- Mas você não se sente desconfortável em receber dinheiro de pobres operários?

O Bispo:

- Sim. Mas o que eu lhes dou vale muito para eles. Da mesma forma que os ricos - que se consolam com as mensagens religiosas e as usam como uma muleta, uma bengala, um consolo. A morte é dolorosa para todos. Eu, pois, os ajudo, os tranquilizo. Não é a fé uma esperança, um remédio para o indesejado fim que é a morte?

Jesus de Nazaré:

- Certamente que eu não preguei a dizimação dessa forma. Mandei os apóstolos formar rebanhos, sim, mas eles somente poderiam ficar sem trabalhar, recebendo sustento dos adeptos que cativassem. Seria talvez um ócio justo em troca de consolo. Ou eu não ordenei nada disso? Foi esse comportamento criado pela pena dos evangelistas?

O Bispo:

- Perdoe Mestre, mas eles pararam de pescar para viverem à custa de rebanhos humanos. Os apóstolos abandonaram suas famílias e suas profissões. E Paulo de Tarso percebeu que isso era muito mais proveitoso do que persegui-los. E isso não se constitui em ofensa ou heresia, como usam dizer os romanos. Essa troca de doutrinações por sustento e glória está prevista pelos que escreveram os dois Testamentos.

Jesus de Nazaré:

- Pois a Bíblia confessa, realmente, tudo isso. Mas eu considero que os pastores não devem enriquecer a custa de dízimos, geralmente obtidos de pobres operários.

O Bispo evangélico:

- Pois você lá do céu certamente não pôde perceber quantas riquezas os romanos juntaram durante dois mil anos. O Banco do Vaticano e o Estado do Vaticano possuem bilhões de dólares e euros em moedas, imóveis, museus e obras de arte. Os seus agentes, bispos, cardeais, padres, frades, abades e outros muitos de seus integrantes, vivem no fausto e em palácios suntuosos.

Parecia estar em dúvidas sobre o que iria dizer. Finalmente falou:

- É verdade que existem sacerdotes que são usados pelos líderes e levam vida de sacrifícios. Os missionários eram e são enviados a regiões perigosas. As pobres sinagogas foram integralmente desprezadas pelos gentios, os goin, como são conhecidos os não-judeus nos textos bíblicos.

Jesus de Nazaré:

- Ouvi comentários de que eles se valem do Grujuem, o Grupo de Judeus Emprestados. Nenhum desses romanos é judeu, mas usam de vinte e dois deles para conseguir seus dizimistas. E esses romanos mataram um milhão de cidadãos israelenses, no tempo em que eu vivia no solo terrestre. E vejo que mataram milhares de judeus nos dois milênios que passaram.

O Bispo evangélico:

- O Grujuem é usado por todos os que fundam seitas. Martin Luther, o protestante alemão, era da grei vaticana. Separou-se criando novo enfoque religioso, mas sempre usando do Grujuem. E disse, surpreendentemente, que os judeus deveriam ser eliminados, como consta em escritos dele. A minha organização religiosa e milhares de outras se valem desse mesmo Grujuem para conseguir adeptos. Mas não fazemos discriminações.

Jesus de Nazaré:

- Pois bem. É da minha índole perdoar - como ninguém ignora. Vamos, no entanto, para os outros pressupostos bíblicos já referidos. Não creste em mim e usaste o Grujuem, exatamente como o fazem os romanos, como acabaste de confessar?

O Bispo evangélico:

- Como haveria eu de crer em textos escritos para os romanos? Admito que cheguei a crer. Isto não basta?

Jesus de Nazaré:

- Basta. O texto bíblico menciona que é suficiente crer. Não diz por quanto tempo. É de minha suprema bondade perdoar, como já disse. Mas vejo que não te arrependeste dos teus pecados. Isso é grave.

O Bispo evangélico:

- Não, permita que o diga. Isso é grave para o julgamento que faz Jeovah. Ele não perdoa e foi implacável com os judeus que o traíram adorando Baal e outros deuses concorrentes. Mas Mateus escreveu que você teria dito que não veio para salvar os justos, mas os ímpios e pecadores. Se não fui justo e se não me arrependi de ter colhido tantos dízimos - previstos como até elogiáveis pela Bíblia - e se não posso arrepender-me do que julgo não ser pecado, devo ser salvo. Não são os ímpios e pecadores os que vieste salvar?

Jesus de Nazaré:

- Devo alertá-lo, Bispo, para que não invoques - em teus púlpitos, altares, programas televisivos, livros - o deus de Israel com a denominação de Deus. É absolutamente obrigatório que o chames de Jeovah, Javé, Senhor dos Exércitos de Israel e, também pelo seus títulos, que vou enumerar em seguida. Esse deus que usas no Grujuem é nosso, é propriedade intelectual do povo de Israel. É criação israelita desde antes de Moisés. Quando o mencionas junto com outros personagens judeus integrantes desse Grupo de Judeus Emprestados – Grujuem - és obrigado a mencionar as fontes literárias de onde ele provém. Isso é a lei. A fonte literária, no caso, é a Torá, da autoria do profeta de Israel, Moisés.

Assustado, o Bispo balbuciou palavras incompreensíveis.

- Deves sempre citar a fonte dos escritos, portanto. Nas sinagogas esse deus dos israelenses é identificado mais precisamente como O Altíssimo, Javé, Rei dos Reis, Rei de Israel, Eloeka, o Senhor Teu Deus, Jeovah Hosseu, o Senhor que Nos Criou, Jeovah Tsdekeneu, O Senhor da Justiça de Meu Povo, Jeovah Shalon, Senhor da Nossa Paz, Elohin, o Criador, Adonai.

Jesus de Nazaré deu o assunto por encerrado e passou ao tema que estivera em foco:

- Recebo teu recurso e lhe dou provimento. Não irás ranger os dentes e queimar nas fornalhas da Geena. Devo perdoar e amar. Se fores meu inimigo, mais ainda devo te amar, como está escrito.

Jeovah proferiu seu voto:

- Pecou contra minhas ordens. Mas vejo que ele, embora tenha usado o Grujuem, não teve outros deuses além de mim, salvo esse jovem Jesus de Nazaré. Não adotou, em sua organização religiosa, as imagens humanas de argila, cerâmica, madeira ou de ouro de pessoas conhecidas como santos entre os romanos. Ele disse que teve fé, em algum momento, em outro deus – no caso, Jesus de Nazaré. Sua pena será: sofrer de lepra, chagas, tumores e deverá receber esterco no rosto uma vez por mês, eternamente.

A indignação tomou conta de todo o planeta. Era humilhante a pena imposta. Mas Jeovah contestou imediatamente:

- Está escrito no livro sagrado de autoria do sacerdote Malaquias, em 2,3. O esterco é uma forma de castigo perfeitamente bíblica. Sugiro que leiam com mais atenção esse livro que se informa ser de inspiração divina.

Foi um dos dias mais tristes do Juízo Final. O grande deus adotado pelos romanos e seitas derivadas não se revelava misericordioso nem piedoso.

Os sacerdotes silenciavam. Mas os protegidos desse deus, em Israel e no mundo todo, não mostraram nenhuma surpresa pela sentença que seu milenar Senhor dos Exércitos, seu Javé, seu Adonai, voltava a pronunciar naquele Juízo. Tudo estava escrito. Era sagrado. Era assim que os sacerdotes o criaram, há mais de três milênios.

Jesus de Nazaré:

- Temos que ler o que Moisés escreveu em Números 31,1-54, resumidamente: “Jeovah disse a Moisés: vinga os filhos de Israel do mal que lhe fizeram os madianitas; doze mil homens com Finéias, filho do sacerdote Eleazar, levando trombetas e objetos sagrados, atacaram e conquistaram, matando todos os homens inclusive os reis de Madiã; incendiaram todas as cidades e levaram prisioneiras todas as mulheres com seus filhos; Moisés ordenou que matassem todos os filhos varões e as mulheres que tivessem tido comércio com um homem; trinta e duas mil jovens virgens, deixadas vivas, faziam parte do espólio de seiscentos e setenta e cinco mil ovelhas, setenta e dois mil bois e sessenta e um mil jumentos; os chefes militares deram a Moisés e ao sacerdote Eleazar, para expiação, braceletes, correntinhas, anéis, brincos e colares de ouro com o peso total de dezesseis mil e duzentos e cinquenta ciclos, tomados dos conquistados; tudo foi levado para a tenda de reunião”. Receberam 18,564 quilos de joias, eis que cada ciclo equivale a 11,424 gramas.

O Mestre prosseguiu:

- Novamente constatamos que são os sacerdotes os que recebem o ouro. É o dízimo. O dízimo bíblico que torna legítimo o que é depositado aos pés do altar. E Jeovah o decretou em Números 18,7: “O sacerdócio é um dom que eu vos faço, para ti e aos teus filhos por lei perpétua”. E em 18,8-11: “Tu e tua família comerão do que for ofertado, por oblações, sacrifícios pelos pecados e reparações”. Moisés o escreveu. E afirmou que ouviu de Jeovah essa ordem, no alto do monte. Os ignaros – há três milênios – atemorizados, permanecem no vale, obedientes dizimistas.