Juízo Final: Odisséia dos Deuses
Capítulo 73
Levantou-se de seu trono Jesus de Nazaré:
- Geena, como já vimos várias vezes, era um local próximo a Jerusalém em que se assassinavam crianças, por ordem de sacerdotes como este que aqui chegou. E nesse local se queimava o lixo que ali era depositado. O fogo jamais se extinguia. Na Geena eram queimados cadáveres. E os sacerdotes do primeiro século da Era atual ameaçavam os pobres candidatos a dizimistas com castigos eternos com o uso do fogo nesse local.
- Um momento! - interrompeu um personagem que desembarcava de um helicóptero. Era um sacerdote que ainda não havia morrido e sua religião dizia ser partidária do deus judaico e pertencia a uma seita derivada da organização romana, do grupo de protestantes alemães.
- Não sou judeu, mas quero defender o Senhor dos Exércitos. Ele jamais concordaria com esses sacrifícios eternos para os que não aceitassem a doutrina de Jesus de Nazaré ou para os que lhe desagradassem. Mesmo porque ele jamais prometeu ressurreições num Dia de Juízo Final. O derradeiro lugar de punição, evidentemente é a Geena, no Vale de Hinom. O mau cheiro, a fumaça e o fogo eram ali um lembrete constante, para os habitantes, do que acontecia às coisas que haviam já servido ao seu fim -eram destruídas.
Jesus de Nazaré:
- Seja bem-vindo, sacerdote. E vejo que, no entanto, também concordas em produzir ameaças -exatamente como os escritos dos evangelistas. Esse local, a Geena, era realmente repugnante. E vale lembrar que Mateus usava essas ameaças, como se lê em 10,28: "Temei aquele (Jeovah) que pode precipitar a alma e o corpo na Geena". Obviamente que nem Mateus nem nenhum outro sacerdote pode afirmar que coisas como almas e espíritos possam ser destruidos.
O sacerdote evangélico:
- Permita-me divergir, grande Mestre. Jeovah pode, sim, destruir almas e espíritos. Mas ele não castigaria eternamente um ser humano deixando-o sob labaredas e sofrendo as lancinantes dores que o fogo inflige.
- Pois não é o que escreveram os evangelistas. Os mortos ressuscitam seus corpos para a eternidade e devem aguardar serem julgados. É o que estamos fazendo neste Juízo Final. E desde já vamos proceder ao teu julgamento, sacerdote. Pergunto: se tu fores condenado, se tu não fores admitido no céu, irás morrer na Geena?
- Certamente. Eu não poderia permanecer por toda a eternidade sendo vítima de queimaduras. Mesmo porque espíritos não queimam.
- Ah! - respondeu Jesus de Nazaré. Nesse caso mentiram os evangelistas? Ninguém pode morrer na Geena?
Visivelmente embaraçado respondeu o sacerdote evangélico:
- Sim, mas somente os que ainda não morreram e, portanto, não ressuscitaram. Esses, aqui e agora sendo julgados, se condenados devem ser queimados vivos na Geena.
Jesus de Nazaré:
- Sim, e os que já morreram e agora ressuscitaram seus corpos: deverão morrer novamente? E quem os matará? Onde deverão ser torturados os que não forem absolvidos?
Jesus de Nazaré ordenou que fosse trazido um sacerdote pertencente à seita dos que testemunham em favor do deus israelense, o Senhor dos Exércitos. Ordenou que expusesse sobre as mensagens que utilizava e se ele se valia do Grujuem, como as igrejas cristãs o faziam. Respondeu:
- Sabemos que Geena foi equiparada pelos sacerdotes romanos e pelos protestantes como Inferno. E assustam a seus adeptos dizendo que lá passarão grandes sofrimentos. E os atemorizam dizendo que para lá são levadas almas pecadoras, após a morte de seus corpos, tudo por suposta ordem de Jesus de Nazaré.
Parecia estar muito nervoso. O ruído das pás dos helicópteros e o farvalhar das penas das asas dos anjos atraíam seus olhares. Finalmente continuou o pastor tentando aparentar alguma segurança:
- Geena pode servir de símbolo de aniquilamento, mas não de tormento consciente. Jeovah, Deus de amor, jamais iria condenar a uma eternidade de tormentos àqueles que pecaram somente por poucos dias ou até anos.
Jesus de Nazaré:
- Vejo que tu e teus colegas sacerdotes criaram uma seita evangélica, derivada da Igreja romana. E vejo que defendem Jeovah. Mas eu te pergunto: se Jeovah for um ser misericordioso e que ama os não judeus, os gentios, que é o teu caso, o que ele fará com os condenados à Geena?
O sacerdote:
- Ele será piedoso: ele aniquilará os condenados à Geena. Ele não os deixará sofrendo eternamente.
Jesus de Nazaré:
- Mas você julga que matar, destruir, aniquilar, assassinar friamente seres humanos seja um ato piedoso?
O sacerdote:
- Certamente. Pode parecer violação do mandamento de Jeovah. Matar é proibido somente para os humanos. Ele tudo pode. Afinal ele deve castigar aos que mataram em suas vidas terrenas ou cometeram outros crimes. E o apóstolo Paulo de Tarso confirma isso em sua carta aos Tessalonicenses: "Aqueles que causavam tribulação a Jeovah seriam submetidos à punição judicial da destruição eterna diante do Senhor e da glória da sua força". Ou seja, são mortos imediatamente e assim escapam do tormento eterno.
Jesus de Nazaré:
- Realmente, Jeovah para sua seita é muito bondoso. Mas esses escritos são novamente claras ameaças a ovelhas sendo disputadas entre sacerdotes. Tens mais relatos de piedade de Jeovah?
O sacerdote:
- Em Revelação 20,14, lemos: "E a morte e o Hades foram lançados no lago de fogo. Este significa a segunda morte, o lago de fogo." Em Mateus 10,28, Jesus de Nazaré avisou a seus ouvintes a "temer aquele que pode destruir na Geena tanto a alma como o corpo". Lembram que não se faz ali menção de tormento no fogo da Geena, mas, antes, destruir na Geena. De modo que concluem que as referências à Geena de fogo têm o mesmo significado que o lago de fogo, de Revelação 21,8, ou seja, a destruição, a segunda morte, da qual não há ressurreição ou retorno. Jeovah tudo pode. Aqui ele mostra quão piedoso ele é.
Jesus de Nazaré:
- Meus colegas rabinos discordam de mim e de você, integrante da seita testemunha do deus judaico Melech ha-Melachim. Vale a pena repetir: "No dia de julgamento final, haverá três classes de almas: as dos justos serão imediatamente inscritas para a vida eterna; as dos iníquos, para a Geena; mas as daqueles cujas virtudes e pecados se equilibrarem baixarão à Geena, e flutuarão para cima e para baixo até que se ergam, purificados." Aqui não são os espíritos, entes preferidos por Paulo e seus adeptos, os que flutuam. Nem corpos irão flutuar. Serão almas!
- Diante dessas divergências, temos que concluir que tal lugar é assustador, e visível aos olhos dos terráqueos. Eles eram contundentemente passíveis de serem aterrorizados pelos dizimadores. O que era a Geena conhecida pelo povo de Israel? Pois respondo. Geena refere-se ao Vale de Hinom ou Enom, situado fora das muralhas de Jeruslém. No Velho Testamento foi chamado de Vale dos filhos de Hinom, ou Ben-Enom, Portão do Vale, descrição que está em Josué 14:8, II-Reis 23,10, Neemias 3,13. Era denominado Vale dos Cadáveres e das Cinzas, como se lê em Jeremias 31,40. Está situado a Sudoeste e a Sul da antiga Jerusalém, estende-se ao Sul desde as proximidades do atual Portão de Jaffa, conhecido na língua árabe por Bob-el-Khalil. No lado Sul está Hacéldama, o Campo de Sangue, o campo que Judas teria comprado de um oleiro com as trinta moedas de prata referidas por Mateus em 27,3-10 e Atos 1,18, 19. O Vale do Hiron fazia parte da fronteira entre as tribos de Judá e de Benjamin e atualmente é conhecido como Uádi er-Rabani, ou Ge Ben Hinnom.
- Durante o reinado de Acaz, rei de Judá –, prosseguiu o Mestre – na Geena se sacrificavam crianças em adoração a deuses das nações vizinhas, principalmente para Moloch. Sacerdotes do rei Acaz imitaram as práticas dos sacerdotes dos reis de Israel, fazendo estátuas para ídolos. Ele queimou incenso no Vale dos Filhos de Enom e lá sacrificou alguns deles queimando-os, como consta em II-Crônicas 1,6-9. Na Bíblia Rabbinica, editada em Jerusalém em 1972, se reproduzem escritos do célebre David Kimhi do século XII sobre Tofete (pandeiro em hebraico): faziam passar pelo fogo seus filhos para o deus Moloch, dançando e tocando pandeiros por ocasião da adoração, para que pai e mãe não escutassem os gritos do filho quando o estivessem passando pelo fogo.
- Os dizimistas pastoreadores de todos os tempos tentam contornar os fatos claramente confessados nos Evangelhos – prossegue o Nazareno. Os meus apóstolos e Paulo de Tarso proferiam as ameaças claras e visíveis: ou crê no que te digo, ou será jogado teu corpo, vivo ou cadáver, além de tua alma e teu espírito, no vale da Geena, junto aos cadáveres de bandidos, esqueletos de humanos e de animais, lixo e fogo de enxofre. Não poderiam os ignaros ser atemorizados de forma mais cruel, já que todos sabiam dos sacrifícios humanos que ali se realizaram. Não importam mais discussões sobre ser ou não ser a Geena o destino dos condenados no Juízo Final. Não importam as elocubrações que fazem os pastores em TVs e jornais religiosos: o que conta é a induvidosa existência de sacerdotes perspicazes em busca de mais e mais dizimistas.
- O modo de agir de Pedro, sacerdotes de Levi, protestantes, evangélicos, bispos de qualquer seita criada em tempos modernos, é exatamente o mesmo: prometer eternidade, curas e prosperidade em troca de contribuições de dinheiro aos pés do altar para Deus, tudo acompanhado pelas ameaças de fogo eterno. Conveniente troca em campos bíblicos revestidos da mais absoluta legalidade. O Anjo Caído, o Diabo, com suas ameaças, é o mais útil dos personagens do Grujuem. Basta que se assistam aos programas religiosos dessa invenção esplêndida que chamam de televisão. Mencionar o Diabo rende dízimos, como já rendia junto aos Am ha-Arez.