Juízo Final: Odisséia dos Deuses

Horst Schadeck · Capítulo 4 de 96

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Juízo Final: Odisséia dos Deuses

Capítulo 3

 

Ro’eh Yisrael – Pastor de Israel – Jeovah, estava amuado e mal cumprimentou a Jesus de Nazaré. Chovia torrencialmente, mas isso não impediu que os anjos trouxessem um dos humanos para serem julgados. Eles estavam com grandes dificuldades na tarefa da captura de pessoas para serem ceifadas, separadas, escolhidas ou julgadas. Olharam para os quinze tronos e ficaram aguardando.

O réu, cuja carga genética era metade cristã e metade israelense, chorava copiosamente. Jogou-se aos pés do Mestre e beijou-lhe a desbotada túnica.

- Sou judeu e cristão novo! – bradou o réu. Quero declarar que ninguém aqui tem o poder nem a competência de me julgar.

Jeovah, totalmente encharcado pela chuva:

- Não julgarei a esse judeu. Minhas ordens ao meu povo nunca incluíram qualquer promessa de ressurreição e muito menos um Juízo Final para após a morte de cidadãos de meu povo, Israel. Esse homem está neste julgamento sem respaldo meu.

Yeshua:

- Pois esse judeu foi forçado pelos Inquisidores Romanos a adotar a religião romana. Assim sendo, pergunto: você teve fé em Jesus de Nazaré? Você foi um homem justo? Você arrependeu-se de seus pecados? Você falou mal do Espírito Santo? Você foi rico? Você foi batizado? Você foi justo? Você pronunciou palavras vãs? Você teve cônjuge crente? Você fez penitência?

- Meu nome é Samuel. Vivi em Portugal e a Inquisição me obrigou a renegar minha religião, a religião dos meus ancestrais, a religião de Moisés. Se não o fizesse, toda minha família seria morta. Fui obrigado a adotar o nome de Oliveira. Por isso lhe respondo que jamais acreditei que Jesus de Nazaré fosse filho do deus judaico Jeovah nem que houvesse ressurreição dos mortos.

Yeshua – Jesus de Nazaré:

- Oliveira. Vejo que fingiste aos Inquisidores. Ficaste com tua fé somente para Jeovah, como manda a Torá e demais livros judaicos, além de estar expresso nos Mandamentos que não podias ter outros deuses além de Jeovah.

Jesus de Nazaré olhou para Jeovah e completou:

- Declaro-me incompetente para te julgar, Samuel.

Jeovah – Emet – Verdade:

- Também eu assim o declaro e confirmo. Mas pergunto: como israelita, foste um homem justo, um dos pressupostos bíblicos para a absolvição?

Samuel:

- Creio que sim. Eu somente adotei outro deus, no caso Jesus de Nazaré aqui presente, por imposição dos romanos através de seus agentes, os Inquisidores, em Portugal.

Jeovah – Avinu Malkenu – Pai Nosso, Rei Nosso:

- Nesse caso vejo que foste um judeu que mereceu castigo. Declaro-me competente para te julgar. Minha sentença: sofrerás o castigo das hemorroidas somente. Chagas – não mereces. Levem-no! – ordenou aos anjos.

- Um momento! – levantou-se uma voz entre os treze apóstolos e evangelistas. Era Mateus, escritor de origem desconhecia.

- Os discípulos estão aqui, por força do que estabelece a Bíblia Sagrada. E têm a competência para julgar todos os integrantes das Doze Tribos de Israel. Suscito, portanto, conflito de competência e desde já enfatizo: havendo esse homem abandonado as práticas judaicas, cometeu em tese, um grave pecado e cabe aos apóstolos julgá-lo.

Jeovah:

- Mateus – és um simples escritor de coisas que foram modificadas e adotadas pelos nossos inimigos romanos. Não tinhas o direito de escrever que os doze apóstolos descessem do alto das nuvens em doze tronos para julgar as Doze Tribos de Israel – e pior – sem terem sido submetidos primeiramente ao devido julgamento neste Tribunal. Nas nuvens somente há um deus, o Altíssimo, o Senhor dos Exércitos, Boreh, Jeovah, Deus, o Criador e único julgador, que sou eu. Aqui estão, além de Elias, que subiu num carro de fogo, o Patriarca, Isaac, Jacó, Moisés, os vinte e dois profetas e mais os meus filhos que desceram para coabitar com as mulheres belas da Terra e familiares que não quero declinar porque somente interessam a mim. Os profetas eu não mandei subir. Quem escreveu isso foi um dos judeus do Novo Testamento, que não aceito e não me diz respeito.

Mateus sofria do mal das alturas - o que lhe causava vertigens constantes. Disse:

- Isso que dizes é o que escreveram Moisés e outros judeus. Bem sei que teus filhos desceram, como se lê no Velho Testamento, em Gênesis 6,1-2. Por que terá menos valor o que redigimos nós, os evangelistas? Não estamos todos na Bíblia Sagrada? Por que os relatos de Moisés teriam maior valor do que os nossos? Quem há de crer nesses relatos, tão mirabolantes que são, se me permite assim dizer? Dizem que são mitos. Anjos procriariam seres com asas. E não teriam a mesma carga genética dos humanos.

Jeovah levantou-se encolerizado:

- Ousas acusar a Torá de conter inverdades? Tens a coragem de afirmar que esse livro contém falsidades? Eva é verdadeira, filhos de Jeovah não? És israelita, Mateus e, portanto, me deves total obediência. Nunca hesitei em eliminar a quem me desobedecesse e não serás tu que hás de me impedir de usar meus poderes só porque te declararam sacerdote de Jesus de Nazaré. Já basta que Paulo, esse romano, apregoasse que meus mandamentos não mais devem ser observados.

Simão, irmão de Jesus de Nazaré, ergueu-se agora:

- Jeovah, nosso grande E’in Sof, não podes negar que Jesus de Nazaré seja um segundo Deus. Está escrito no Novo Testamento que tu assim reconheceste. Não disseste – oculto nas nuvens como é teu modo de agir – que, segundo Mateus 3,16-17: “Batizado Jesus de Nazaré por João Batista, os céus se abriram e viu descer sobre ele, em forma de pomba, o Espírito de Jeovah, dizendo uma voz: Eis meu filho, muito amado em quem ponho minha afeição.” Ou seja, os céus se abrem e, pois, se fecham. As pombas falam. Jeovah possui um espírito. E que fala! Fala sim, pois diz a voz “eis meu filho, muito amado em quem ponho minha afeição”.

Jeovah estava furioso:

- Isso foi escrito por Moisés? Não. Foi escrito pelos quatro ditos evangelistas. E eu jamais derroguei nenhum dos meus mandamentos. Eu ordenei: não terás outros deuses além de mim e não prestarás culto nem a eles nem a astros do firmamento. Nem Moisés nem outros escritores sacerdotes do Velho Testamento escreveram que eu haveria de ressuscitar judeus e, muito menos, inimigos de Israel ou outros povos. Trata-se de mais um testemunho plantado.

Interveio agora Lucas:

- Pouco importa o que dizes – Jeovah. Está escrito na Bíblia. Logo, estão os doze apóstolos autorizados expressamente a julgar as Doze Tribos de Israel.

Jeovah:

- Caterva! Hienas, chacais, serpentes! Formam novos rebanhos com o uso da astúcia. Leram e fingem não existir o que escreveu o meu profeta Jesus, filho de Sirac no seu livro do Velho Testamento chamado Sirácida, ou Eclesiástico. Atesta esse sacerdote: em Eclesiastes 17,30-32: “O ser humano não é imortal, todos são terra e cinzas”.

- Como ousam contestar-me? Como ousam criar essa seita que admite tornar eternos os mortos que simplesmente acreditarem nas suas invencionices? Como podem se abalançar a negar os escritos de Moisés e os demais sacerdotes do Velho Testamento? Como ousam afirmar que a Bíblia pratica mentiras?

Lucas não pareceu abalado:

- Efetivamente. Não podemos concordar. Mas afirmo sem medo, grande deus dos judeus: Sirac escreveu que não existe imortalidade. Eu garanti que existe, desde que o interessado aceite nossas condições: adquirir um sentimento, ou seja – fechar os olhos e concordar com as nossas condições – praticando o pagamento do dízimo, por menor que seja. Por que minha mensagem terá menos valor do que a do seu sacerdote? Quem mente? Pouco importa. O que vale é a criatividade para se formar um grande e rico rebanho.

Jeovah tremia. Sua idade verdadeira era ignorada. Seriam os quinze bilhões de anos desde o Big-Bang? – especulavam os jornalistas. Após minutos de silêncio ouviu-se uma voz:

- Um momento! Também eu tenho o direito de me sentar num trono.

Era Judas Iscariotes. Jesus de Nazaré ordenou que continuasse.

- Eu sou um dos Doze Apóstolos. Vejo que fui substituído por outro judeu, Matias, que está usurpando meus direitos e meu dever de vir julgar as Doze Tribos de Israel.

Jesus de Nazaré:

- Tens razão – Judas. Está escrito. Mas parece que foste acusado de grave pecado.

- Não! Não pratiquei pecado algum! Eu fiz um favor a Jesus de Nazaré. Ele não veio para Jerusalém para salvar o mundo, provocando sua própria crucifixão? – indagou Judas Iscariotes.

E logo continuou o apóstolo:

- Está escrito em Mateus 16,21: “Desde então Jesus começou a manifestar a seus discípulos que precisava ir a Jerusalém onde seria morto e ressuscitaria ao terceiro dia” e em 20,17-19: “Disse Jesus de Nazaré: o filho de Jeovah será entregue aos príncipes dos sacerdotes que o condenarão à crucifixão, sendo que ressuscitará no terceiro dia”. E disse, em 17,21: “O filho de Jeovah deve ser entregue para que seja morto e para que ressuscite ao terceiro dia”.

Judas pigarreou. Parecia muito confiante:

- Todos sabíamos claramente que ele planejara sua própria morte. Como ousaram escrever esses evangelistas que eu poderia evitar o destino que teve esse Am ha-arez - pessoa da terra, ignorante – que eu sou? Que absurdo é atribuir a mim a causa dessa morte! Ela não era ardentemente almejada pelo meu querido Mestre? Não era esse o seu grande plano? Se ele não fosse crucificado, o mundo deixaria de ser salvo! Não estaria tudo previsto no Velho Testamento, começando pela entrada triunfal montado no burro, de propriedade não informada?

Judas gesticulava muito. O sol batia em seu rosto e o obrigou a cerrar os olhos, enquanto continuava sua defesa:

- A sua morte na cruz não foi sempre o grande objetivo de sua vida? Jeovah não teria enviado Jesus de Nazaré justamente para ser crucificado e assim salvar Israel? Judas poderia impedir essa morte premeditada há anos por Jesus de Nazaré e supostamente por Jeovah? Jamais! – temos que convir todos. Não ser crucificado impossibilitaria a salvação do povo judeu ou, de acordo com as interpolações havidas no final dos textos dos Evangelhos, de toda a humanidade. O Evangelho de João informa, em 16,5 até 17 e 18, resumidamente: “Agora, porém, vou para aquele que me enviou; convém a vós que eu vá, pois se eu não for o paráclito não virá a vós; ainda um pouco de tempo e não me vereis mais; mais um pouco de tempo e me tornareis a ver; Pai é chegada a hora; mas agora vou a junto de ti”.

Mateus interveio:

- Tens razão – Judas Iscariotes. Ao trazer os soldados agiste para que a vontade do Mestre e a de Jeovah se realizasse. Disse João em 18: “Dito isso Jesus de Nazaré foi com os discípulos até um jardim, ao lado da torrente de Cedron. Judas, que havia de traí-lo, tomou um pelotão de soldados cedidos pelos Sumo Sacerdotes. Ciente de tudo que lhe ia lhe acontecer; disse: será que não devo beber o cálice que meu Pai me deu? Foi preso e levado a Caifás”.

- Não se pode ter qualquer dúvida: a vontade de Jesus de Nazaré e de Jeovah não tinha como ser obstada. Judas ajudou e, ainda que nada tivesse feito, o calvário se realizaria de qualquer forma! Era a ordem do próprio Jeovah! O cálice que meu Pai me deu! Os relatos de João e dos demais narradores bíblicos revelam uma das grandes incoerências bíblicas, um raciocínio típico dos humanos daqueles tempos, onde me incluo, infelizmente. E o digo com a maior humildade agora, neste Juízo Final. Quantos irmãos judeus foram perseguidos e mortos por esse colossal equívoco, durante dois milênios, como agora se informa! Além disso, temos que lembrar que todos conheciam o Mestre! Ele reunia multidões em toda parte? Produzia milagres – feitiçarias - de multiplicação de pão, vinho e peixes? Qual o militar romano que não conhecia o famoso fazedor de curas e ressuscitações de mortos e aquele que rotulava as autoridades locais de víboras? Não havia necessidade de traições, evidentemente. Ou tudo também é mito?

- O que estamos agora deliberando – prosseguiu – é que está na Bíblia: os doze apóstolos vieram do alto das nuvens. Caso não houvesse nuvens? Onde Jeovah se ocultaria? Não importa. Os apóstolos desceram de lá e são os únicos humanos – além do Patriarca, Jacó, Isaac, Elias, Moisés, os profetas e um amigo de Paulo de Tarso – que lá residem desde muito antes do Juízo Final. Judas, você ressuscitou somente agora e nem sequer foi julgado ainda.

- Como podem descer doze apóstolos, se eu fui excluído?

Mateus:

- Porque houve uma substituição, como está escrito e já foi mencionado.

Judas:

- E quem tomou o meu lugar de direito? Matias? Não existiram mais do que doze apóstolos oficiais nos primeiros tempos! Além disso, esse décimo terceiro apóstolo também foi admitido no céu antes mesmo do Juízo Final.

Jesus de Nazaré interveio:

- Decido sobre o assunto. Tragam mais um trono e teremos doze apóstolos e mais um suplente. As palavras de Judas o absolvem inteiramente de uma suposta traição descrita pelos evangelistas. Jesus de Nazaré jamais permitiria essa alegada traição, caso fosse desnecessária. Pela sua comprovada coragem é evidente que iria pessoalmente apresentar-se aos opressores romanos. E mais, tivesse ele poderes para prever o futuro – como escreveram – trataria imediatamente de proteger o seu discípulo, em evidente crise. Esse seria o comportamento do verdadeiro Jesus de Nazaré, fraternal, piedoso, amigo, companheiro de anos de caminhadas e perseguições.

- E lembro – continuou – o que escreveu Marcos em 9,30-32: “Ao atravessar a Galiléia ia instruindo os discípulos: O Filho do Homem vai ser entregue aos que o matarão e três dias depois ressuscitará”. O Mestre nasceu para morrer dessa forma. Nada o poderia impedir. Dirigiu-se livremente até Jerusalém. Não mais quisesse morrer na cruz, obviamente já teria há muito tempo fugido de Jerusalém. E ainda: não diziam que Jesus de Nazaré podia prever o futuro? Ao locomover-se para Jerusalém, já não sabia que seu destino era a morte na cruz? Já não sabia que seu discípulo Judas cometeria a delação? Era essa delação necessária? Sem Judas, a crucificação teria sido evitada? Por que não fugiram todos, como já haviam feito tantas vezes? O relato de traição é evidentemente obtuso e possui objetivos.

- Os narradores buscam criar verossimilhança ao que dizem – prosseguiu Jesus de Nazaré. O raciocínio, no entanto, é falho e exibe justamente o contrário. Procura trazer ao leitor dos evangelhos detalhes que o convençam. Eram tempos de ignaros, de pessoas crédulas. De pessoas que temiam a morte, as doenças, as ameaças dos pastores, dos demônios, do Anjo Caído. A propósito – pastor é um termo que desnuda tudo: é o dono do rebanho, é o todo poderoso que faz com as ovelhas indefesas o que bem desejar. Crê ou queimarás eternamente. Crê e terás vida eterna e cem vezes mais bens. E me atribuem essas iniquidades. A mim, o rabino da sinagoga, o servo de Jeovah.

Imediatamente cinco querubins partiram para buscar o trono que faltava. Foram até o Líbano onde residia o fabricante oficial de tronos mais próximo do céu. Eram feitos do melhor carvalho de Basã e de cedro do Líbano, madeiras das ilhas de Quitim, mas tinham um grande inconveniente: pesavam muito. Isso dificultava bastante o trabalho dos anjos. Eles cansavam rapidamente e muitos turnos eram estabelecidos diariamente para que os tronos permanecessem entre as nuvens.

O trono era novo e contrastava com os demais. O mais antigo era o de Jeovah, que possuía em torno de quinze bilhões de anos e fora construído com materiais desconhecidos, já que antes do Big Bang ou da criação bíblica não existia matéria alguma, pois nada havia ainda sido criado por Jeovah ou tinha surgido espontaneamente, muito menos madeira, metais e pedras preciosas. Até a existência mesma de Jeovah era logicamente impossível, segundo especulavam os jornais. Quem o criou? Com que matéria ele foi produzido, já que nada havia? Moisés era interpelado para que explicasse esse seu buraco narrativo. Mas ele se recusava a dar entrevistas.

Judas sorria satisfeito. Finalmente, após dois mil longos anos fora feita justiça. Ele não era traidor e nem Jesus de Nazaré um mau líder que pudesse permitir que um de seus amados discípulos se tornasse um ser humano odiado por abominável traição.

Os jornalistas especulavam. O que parecia deixar Judas triste era o fato de não possuir um sósia. Judas não foi declarado santo e com isso nada subiu ou se criou no céu com seu nome. Todos os outros apóstolos tinham vindo do alto do céu e, supostamente, haviam sido para lá conduzidos antes do Juízo Final. Agora, para o julgamento, os seus respectivos corpos, sepultados no solo terrestre, haviam ressuscitado e tinham que se submeter como os demais humanos, ao julgamento previsto na Bíblia. Indiscutivelmente a Bíblia Sagrada revela e decreta: havia dois Pedros, dois Tiagos, dois Andrés, dois Joãos, dois Filipes, dois Bartolomeus, dois Tomés, dois Mateus, dois Tadeus, dois Simãos e dois Matias.

Mas Judas voltou a reivindicar:

- Está escrito que eu sou o titular entre os Doze que ocupam os tronos. Leio em Mateus 19,28: “Vós, que me haveis seguido, estareis sentados em doze tronos para julgar as Doze Tribos de Israel”. Eu estava entre os doze. Logo há que se cumprir com a ordem bíblica. Peço que se faça justiça.

Jesus de Nazaré tinha muita consideração pelo apóstolo injustiçado durante dois milênios. Realmente estava escrito.

- Vamos cumprir com a lógica bíblica. És doravante apóstolo e juiz titular. Matias deverá ocupar o lugar de juiz como substituto eventual.

Jesus de Nazaré voltou ao tema principal:

- Estamos diante de novo buraco narrativo – observou Jesus de Nazaré. E isso é muito grave. Não há como aceitar a inverdade neste Juízo Final. Pedro desceu num trono, junto com os outros onze apóstolos. Está escrito. E outro Pedro acaba de sair de seu túmulo, ressuscitado, no Vaticano.

Os noticiários traziam espanto ao mundo. O mais famoso dos apóstolos era Pedro. Ele é considerado o fundador da igreja em Roma. Ele e Paulo foram martirizados e tinham seus corpos sepultados na capital do império. Pedro na Basílica que leva seu nome, na colina do Vaticano, sob o Baldaquino de Bernini, como o primeiro Papa. Ao mesmo tempo estava já na porta do céu outro, conhecido como São Pedro, imaginado, criado e encarregado pelos romanos para, de posse de uma chave, fechar e abrir o céu, e, ainda, enviar chuva. E o terceiro, o apóstolo julgador, recém-chegado do alto, sentado em um trono no Juízo Final.

Mas houve um protesto. Era Tiago:

- Está escrito em Mateus 19,28 que os doze apóstolos descem em seus tronos. Nós não somos meros santos assim declarados pelos religiosos romanos. Nós descemos da parte superior do céu com nossos corpos até este julgamento por imposição da Bíblia Sagrada e não de meros decretos romanos. Em consequência, exijo que seja inscrito nos anais deste Juízo Final pelo Historiador, que nós, os treze apóstolos, morremos, ressuscitamos e subimos ao céu com nossos corpos já antes da instauração do Juízo Final.

Jesus de Nazaré interrompeu:

- Estou vendo que muitas pessoas já ressuscitaram antes da instauração deste Juízo Final. Não fui somente eu. Está escrito, efetivamente, em Mateus 19,28: “No dia da renovação do mundo, quando o Filho do Homem estiver sentado no trono da glória, vós, que me haveis seguido, estareis sentados em doze tronos para julgar as Doze Tribos de Israel”. Conclui-se que, de alguma forma não esclarecida pelos evangelistas Mateus, Marcos, Lucas e João, já se encontravam nas nuvens, sem julgamento, quando o Juízo Final se instalou. Mateus, como isso foi possível se os corpos dos treze apóstolos estão, nesse momento, enterrados no solo e sendo ressuscitados? E quem autorizou a subida deles antes do julgamento do Juízo Final?

Jesus de Nazaré prosseguiu:

- Vou repetir o nome dos apóstolos descritos em Mateus 10,2: Pedro – seu nome completo era Simão Pedro, casado e um filho. Ele usava a espada, no homicídio tentado, que decepou a orelha de Malco, escravo do Sumo Sacerdote; seus colegas foram André, irmão de Simão Pedro, Tiago, filho de Zebedeu, João, seu irmão, Filipe, Bartolomeu, Tomé, Mateus, o publicano, Tiago, filho de Alfeu, Tadeu, Simão, o cananeu, e Judas Iscariotes, originário da região de Cariote, substituído, por sorteio, por Matias, após a morte desse apóstolo. Estranho é que relatam a existência de homicídio tentado e não tenha havido a prisão desse apóstolo, no ato, ou, então, a natural reação por parte dos soldados.

Continuou Tiago:

- Os ossos de Pedro não estavam no Vaticano até o exato momento em que o Juízo Final se instaurou? Deixaste aqui um novo buraco narrativo, Mateus. E tu, Pedro, tens que te conformar com o que escrevem os sacerdotes evangelistas: estavas enterrado em Roma e agora ressuscitaste; estavas também, ao mesmo tempo, vivendo no céu, em um trono, junto com os demais apóstolos. E agora desceste do alto até o Juízo Final e, ainda, estaria também no céu outro Pedro, virtual, caso os romanos tivessem te declarado santo, o que parece ter ocorrido. Aliás, nunca entendi o que seja um santo.

Os jornalistas publicaram a manchete: a Bíblia descreve a existência de três Pedros. Os sacerdotes já preparavam a explicação para esse novo buraco narrativo cometido pelos seus colegas sacerdotes e evangelistas.

Anoitecia. Jerusalém acendia suas luzes enquanto centenas de milhões de ressuscitados não tinham o que comer. Não havia água para todos. Mulheres e crianças dormiam nas calçadas.

A Máquina – Die Maschiene – não parava de transmitir: “Milhões de presidiários soltos não tinham onde ser encarcerados. Antropófagos ressuscitados atacavam quem estivesse desatento. Índios da América do Sul que haviam vivido nas selvas há séculos, até mesmo antes do nascimento de Jesus de Nazaré, estavam alvejando com flechas os humanos vivos. Estavam entrevistando o agora ressuscitado Bispo Dom Pedro Fernandes Sardinha, que fora devorado por integrantes da tribo dos Caetés, no Brasil. Ele se dizia muito feliz por terem os ressuscitadores celestiais, encontrado os átomos que compunham seu corpo devorado.

- Meus átomos, ou melhor, os que eu possuía na hora da minha morte, serviram para fazer parte dos corpos dos indígenas que se alimentaram de meu corpo – agora ressuscitado. Com a morte desses índios, esses átomos foram consumidos por microrganismos. Não tive túmulo. Sem ter sido sepultado, devo ter tido um processo de ressurreição muito complicado. Estou muito feliz e quero dizer que perdoei os pagãos que me martirizaram.