Juízo Final: Odisséia dos Deuses

Horst Schadeck · Capítulo 20 de 96

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Juízo Final: Odisséia dos Deuses

Capítulo 19

 

Assustadoras nuvens se aproximavam e logo escureceu. Os helicópteros tiveram que se afastar. Os anjos batiam suas asinhas sem terem o aparelho denominado horizonte artificial, utilizado pelas aeronaves modernas para manter a estabilidade. Logo os tronos estavam inclinados e os julgadores do Juízo Final tiveram que agarrar-se neles e nas asas do snajos tentando não cair.

Mas acabaram todos caindo e a visibilidade voltou quando estavam a quinhentos pés de altura. Os anjos, acostumados com milhares de anos de acontecimentos como esses, logo conseguiram estabilizar os assentos reais. O Juízo Final poderia continuar, agora fora das nuvens bíblicas, mas bem rente a elas e muito próximo do solo. Aqui o ar não era tão rarefeito e todos respiravam com facilidade.

Eva continuava ali, aguardando, sem saber realmente o que se passava. Jesus de Nazaré voltou-se novamente para Jeovah, também encharcado pela forte chuva que caía:

- Parece que meu parentesco contigo se resume à carga genética que Maria possuía em razão de terem teus filhos, Jeovah, desposado e coabitado com as mulheres belas, descendentes de Adão e desta mulher aqui presente, Eva. O que escreveram os evangelistas não está correto. Eu não posso ser teu filho. Não forneceste espermatozoides para a fecundação do óvulo da amada Maria. Mas agora precisamos esclarecer outras coisas.

Jesus de Nazaré observou que os helicópteros retornaram, reiniciando as filmagens.

- Os teus filhos, Jeovah, aqueles que desceram do céu, como narrado por Moisés, certamente eram eternos como tu és. Pelo menos é isso que está em muitas passagens bíblicas. Assim sendo, teus filhos e os filhos de teus filhos possuem graus de eternidade. E o fato de teus filhos celestiais coabitarem com as belas mulheres, deixa fora de qualquer dúvida que eles possuem órgãos genitais e, assim, produtores de espermatozoides.

Havia obviamente grande espanto, como sempre. E Jesus de Nazaré continuou:

- E, se teus filhos homens possuem os ditos órgãos genitais, sendo todos semelhantes – Jeovah, seus filhos celestiais e Adão – concluímos que você possui testículos também. Pergunto a você e a Mateus: por que não se escreveu no evangelho, que você desceu das nuvens para coabitar com Maria? Por que o Espírito teria que trazer – para fecundação in vitro - teus espermatozoides até o óvulo, em dia fértil, de Maria, pena de não ser gerado filho teu?

Mateus levantou-se:

- Maria deveria permanecer virgem. Ela não poderia coabitar com ninguém, nem mesmo com Jeovah. O Espírito Santo encarregou-se de tudo.

- Muito bem - respondeu Jesus de Nazaré. Nesse caso não pode ser filho de Jeovah. Sem espermatozoides de Jeovah, na fecundação, não há paternidade. Mas, continuemos com o julgamento dessa mulher. Ela e seu companheiro Adão não eram casados. Mas coabitaram e produziram dois filhos, Caim e Abel e, mais tarde, um terceiro filho. Para isso mantiveram relações sexuais, obviamente. Eram simples humanos, mortais e não eternos. Mas as descendentes de Abel e de Caim, belas, foram fecundadas pelos filhos de Jeovah, que desceram do céu, como está claramente escrito na Bíblia por Moisés em Gênesis 6,1.

Jesus de Nazaré:

- Isso nos leva a constatar que teus filhos celestiais obrigatoriamente possuem uma mãe, ou mães, que os carreguem em seus ventres. Não podes ter filhos sem mães: não és semelhante e tens a mesma imagem que Adão? Quem é ou são as mães de teus filhos celestiais? Onde elas estão, já que eternas? Não as vi aqui nestas nuvens.

Jeovah:

- Tua lógica não pode ser contestada. Mas deves falar com Moisés. Ele tudo escreveu.

Jesus de Nazaré:

- Pergunto-te, Jeovah, Deus dos Exércitos de Israel, como também te chamam na Bíblia Sagrada: por que tiveste o trabalho de fazer Adão e, depois dele, Eva, esta com o uso de uma costela de Adão, em uma operação cirúrgica complicada e dolorosa para ela, se já tinhas teus filhos no céu? Ou esses filhos somente foram gerados após teres fabricado Adão e Eva?

- Torno a perguntar. Por que não os fizeste descer das nuvens simplesmente? - continuou o Mestre após enxugar o rosto novamente molhado pela chuva. Não seria isso muito mais fácil? E, assim, desde já povoarias a Terra com pessoas eternas, como tu? Não seria muito mais cômodo para todos viver em solo firme do que permanecer sendo carregados pelos anjos, sem alimentos, oxigênio, roupas adequadas ao frio abaixo de zero graus, chuvas e temporais? E a mãe desses filhos ou as mães deles?

Jeovah:

- Ordeno que profiras imediatamente teu julgamento para essa mulher! Não vou tolerar que continues a me interrogar. Não sou eu o réu neste Juízo Final. Só quero que saibas que nunca tive necessidade de ser carregado pelos anjos.

Jesus de Nazaré:

- Não possui asas, Jeovah. Não se pode voar sem elas ou sem esses aparelhos que os humanos inventaram e que chamam de helicópteros. E não me diga que és uma coisa que os dizimadores chamam de espíritos. Eu, segundo Mateus e todos os demais dizimadores, subi levando meu corpo. Tanto é que fui arrebatado, como está escrito. Os romanos são taxativos: eu subi com o corpo, já que este ressuscitou e desapareceu do sepulcro do judeu José da Arimatéia.

- Não vou repetir - Jesus de Nazaré. Ou continuas com o julgamento ou...

- Vais me castigar com hemorroidas - Jeovah? – retrucou o Mestre. Não, não temo nada, sou eterno, diz a Bíblia. Quero que me respondas: onde estão teus filhos celestiais, esses que coabitaram com as mulheres belas, descendentes desta mulher, chamada Eva? E eu, que teria também vivido contigo nas nuvens, antes de descer para a Terra? Afinal está escrito que eu, ou um Jesus, teria descido rumo à Maria?

Ante o silêncio de Jeovah, Jesus de Nazaré:

- Não os vejo nem a mãe deles e minha, a celestial. Não devemos esquecer que os evangelhos dizem claramente que eu já vivia nas nuvens junto ao meu pai. Logicamente que eu teria que ter mãe nas nuvens! Que filho seria eu, sem mãe?

A pergunta explodiu como uma bomba de hidrogênio.

Emudeceram os vivos e os ressuscitados do mundo. Prosseguiu o Mestre:

- Escreveram que o filho de Jeovah vivia com esse filho nas nuvens. Deduz-se que, fosse eu, Jesus de Nazaré, esse filho, cabe a pergunta: quem era minha mãe nas nuvens? Por que ela jamais foi apresentada? Por que eu nunca a mencionei, segundo os relatos dos evangelistas?

Respirou fundo e assentou-se no seu trono:

- Não aceitar essa mãe vivendo nas nuvens, levaria à conclusão de que Jeovah pode gestar em útero próprio um ou mais filhos. E essa assertiva não se sustenta, já que Adão é semelhante a Jeovah. Se Adão necessita de uma mulher para procriar seus três filhos, também Jeovah, por não ser hermafrodita -tal como não o é Adão – deve obrigatoriamente também fecundar uma mulher, para de seu ventre obter filhos. Ninguém ousava pronunciar qualquer palavra. O que mais viria?

O Mestre:

- Meu pai Jeovah e minha mãe de nome não revelado, assim, me mantinham nas nuvens em seu convívio por tempo não informado pelos narradores bíblicos. Até o dia em que eu teria sido enviado para habitar de forma inexplicável o útero da minha outra mãe Maria, moradora de Israel.

Agora nada mais poderia espantar os humanos. Estupefatos, em seguida ouviram, contudo:

- Desses relatos se deduz que eu teria duas mães. A mãe celestial e a mãe terráquea. E teria eu somente um pai, já que propalam os narradores que Maria gestou estando no estado de virgindade, sendo a fecundação produzida por uma sombra angelical, sem uso de espermatozoide, o que afasta a possibilidade de ser esse Jesus de Nazaré um filho de Jeovah. Ou de qualquer humano.

- Esses narradores evangelistas, deixaram os rastros das suas reais intenções. Não se concebe que as confusões que observamos sejam produto de pessoas parvas. Não se pode entender que cinco evangelistas cometessem meros equívocos narrativos. As mensagens de Mateus, Marcos, Lucas, João, Pedro e Paulo, são bastante semelhantes.

- Segue-se que há evidente e clara intenção de impor aos destinatários uma ideia destinada a atender a seus desígnios – prosseguiu o Mestre. Não se tratam de meros erros. E isso nos leva a mais uma importante conclusão: os novos fiéis dificilmente perceberiam as incongruências, as impossibilidades. O que prevalece até a atualidade, após milhões de mortes terem sido provocados em dois mil anos. Neste Juízo Final, no entanto, procuramos e encontramos as verdades.

- E cabe uma derradeira pregunta: Jesus de Nazaré já vivia nas nuvens quando teve início a gestação de Jesus de Nazaré no ventre de Maria? Ou o que lá existia - como induvidosamente já se decidiu - seria o filho de Jeovah com mãe não identificada até agora e que havia já sido gestado antes da Criação, como o diz o evangelista João?

- E cabe indagar também: todos são irmãos – os que desceram para casar com as mulheres belas da Terra; o Jesus Celestial; o Jesus conhecido por Jesus de Nazaré que teria descido até Maria; o Jesus de Nazaré gestado por Maria após nove meses e o Jesus Espírito, aquele que teria subido na hora da morte na cruz? A pergunta é pertinente, pois, como os humanos, o varão pode ter filhos com mais de uma mulher.

Após um intervalo de trinta minutos, prosseguiu o Mestre:

- Jeovah - muitos séculos se passaram até que surgisse Moisés e tu lhe entregasses, face a face, as placas, ou tábuas de pedra, com os dez mandamentos. É importante, assim, verificar que antes de Moisés não havia pecado, já que não existiam teus mandamentos. Logo, Eva não poderia pecar e, se isso for confirmado, devemos absolvê-la. A mera proibição que fizeste, segundo Moisés, para que Eva não comesse frutos da árvore proibida, não se constitui em pecado. Leia os dez mandamentos: eles não proíbem comer maçãs ou quaisquer outros frutos.

Jeovah rangia os dentes e suas mãos se crisparam:

- Dou-te o último aviso: julga a essa mulher imediatamente e pare de me importunar!

Jesus de Nazaré:

- Não posso fazer isso. Nada me atemoriza quando tenho que fazer justiça. Principalmente por se tratar de mulher, sempre tão discriminada e perseguida. Aqui só a verdade há de imperar. Pois tenho a te dizer algo que vai te desagradar: teus bisnetos, tataranetos e demais descendentes por parte dos filhos celestiais - que coabitaram com as mulheres belas - foram por ti eliminados! Moisés escreveu isso! Disse claramente que, insatisfeito com tua descendência, afogaste a todos, menos a Noé, sua mulher e seus três filhos, com suas mulheres! Não percebes - Jeovah, que, com isso, podes ser acusado de graves violações dos teus próprios mandamentos? Afogaste até mesmo os pais e avós de Noé e de sua mulher. Quanto choro, quanta dor suportaram todos. Nem os Inquisidores conseguiram atingir tal grau de mortandade.

Relâmpagos riscaram o horizonte ao norte de Jerusalém. Trovoadas ensurdecedoras fizeram com que o julgamento do Juízo Final fosse interrompido.