Juízo Final: Odisséia dos Deuses

Horst Schadeck · Capítulo 69 de 96

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Juízo Final: Odisséia dos Deuses

Capítulo 68

 

Uma multidão de aproximadamente cento e oitenta e cinco mil soldados assírios ressuscitados armados de espadas e escudos se formara surpreendentemente na parte não judaica de Jerusalém. Dez mil guerreiros vigiavam os milenares combatentes. O seu líder foi trazido por cinco serafins. O Tribunal o recebeu sem esconder certo ar de desconfiança.

- O que tens a dizer a este Juízo Final? - logo indagou o Mestre.

- Sou o general comandante dos cento e oitenta e cinco mil cidadãos assírios que o anjo mais poderoso do deus judaico aniquilou. Queremos que seja identificado, julgado e condenado – respondeu o general.

Ele vestia seus trajes de guerra e portava uma espada incrustada de rubis. A bainha reluzia com o ouro cuidadosamente polido e dizeres ornados com diamantes.

Jesus de Nazaré:

- Constato que ocorreu um genocídio e que, como o descreve claramente a Bíblia, foste morto, juntamente com todo teu exército, durante a noite, por um anjo a mando de Jeovah. Era o Aniquilador, como o chamaram os assírios. Não houve combate. Houve extermínio. Houve induvidosamente um genocídio. Penso que tanto Jeovah como o anjo, por ser uma ave humanóide, devem ir a julgamento. No entanto, não é este Tribunal do Juízo Final o lugar adequado para isso.

O general assírio:

- Protesto. Ressuscitamos, somos agora réus como todos e temos o direito de reconvir. Indico como prova a confissão constante do texto bíblico de II-Reis 19,35: “Ora, nessa mesma noite o anjo do Senhor apareceu no campo dos assírios e feriu cento e oitenta e cinco mil homens. No dia seguinte pela manhã só havia cadáveres”.

- Protesto negado. Ocorreu a prescrição punitiva de vinte anos dos alegados ilícitos penais. Vamos ao julgamento: você e seus soldados, para serem salvos e arrebatados para as nuvens, devem cumprir com pressupostos bíblicos. Pergunto: vocês creram em Jesus de Nazaré? Vocês foram batizados? Vocês se arrependeram dos seus pecados? Vocês foram justos? Vocês possuíam algum familiar crente nas doutrinas que eu difundi, junto com os meus apóstolos? Vocês foram ímpios e pecadores?

O general respondeu enfurecido:

- Os pecados judeus não nos dizem respeito. Respondo – sob protesto - não a todas as perguntas. Há uma exceção: nós somos ímpios, sim. Nós defendemos nosso país e não temos piedade de nossos inimigos em uma guerra.

Jesus de Nazaré:

- Muito bem. Escreveram que eu não vim salvar os justos, mas os ímpios e pecadores. Eu os absolvo, os declaro salvos e determino que os anjos levem-no e seus cento e oitenta e cinco mil homens para o céu.

O general:

- Somente posso aceitar essa subida com uma condição: lá deve ser instaurado um Tribunal para julgar o executor e o mandante da morte de meus soldados.

Jeovah:

- Eu sou Kaddosh Yisrael – Rei de Israel, O Senhor dos Exércitos; Jeovah Shalom – Sou a Paz; Jeovah Tsdekeneu – Deus da Justiça de Israel; Jeovah Rafa – Jeovah que Ama Israel; Jeovah-Jiré – o Deus que Provê; Elohin – o Criador; Jeovah Hosseu – o Deus que Criou Israel. Sou o Altíssimo e tenho o poder e não tenho que dar satisfações aos inimigos de Israel. Meu voto é no sentido de que todos esses ressuscitados devem ser condenados a arder eternamente nas fornalhas na Geena.

Os Anjos Separadores e os Anjos Ceifadores votaram no mesmo sentido. Os apóstolos não votaram, pois os réus, no caso, não pertenciam a nenhuma tribo de Israel.

Mas, para surpresa geral, Jesus de Nazaré ordenou que o anjo assassino noturno fosse trazido:

- Usaste tua espada para o genocídio. O que dizes em tua defesa?

O anjo genocida:

- Cumpri ordens de Jeovah. Ai de mim se as descumprisse. O Anjo Caído, Satanás, não foi lançado para fora das nuvens, ao se rebelar contra Jeovah? A espada que usei era realmente poderosa. Os soldados sírios eram valentes, mas a espada conseguiu matar em torno de dezessete mil deles por hora. A cada minuto ela matou cerca de trezentos inimigos do povo judeu.

Jesus de Nazaré:

- Ou seja, matavas cinco assírios por segundo. Um genocídio tão eficiente como esse sequer se registrou nos fornos nazistas ou no Dilúvio confessadamente praticado por Jeovah. O Tribunal deverá decidir sobre o teu futuro e do mandante dos ilícitos no devido tempo.

O anjo acusado:

- Mas se tratavam de atos de guerra! Nesse caso não há genocídio, mas, sim, ações de legítima defesa de Israel. Peço que seja reconsiderada a decisão.

Jesus de Nazaré:

- Não houve combate, soldado contra soldado. Houve o mesmo morticínio perpetrado pelos romanos quando ocuparam o território de Israel.

Anoiteceu e as estrelas pareciam faróis. O Tribunal encerrou os trabalhos por aquele dia.

Jesus de Nazaré aproveitou para abraçar sua amada mãe terráquea. Ela descansava nos fundos do tribunal.

- Mamãe, eu te amo muito e estou muito feliz que ressuscitaste. A Bíblia não previu tua ressurreição antes da instauração deste Tribunal do Juízo Final. Somente falas hebraico e aramaico, como em nossos tempos felizes em Nazareth – humilde, mas amada vila com seus poucos e modestos casebres.

- Sim, filho amado. Estive muito triste porque não vieste me abraçar logo que saíste do túmulo. Nem deixaste que eu te tocasse, lembra? E estou muito surpresa porque vi que nas sinagogas com torres e sinos as pessoas rezam para que eu interceda por elas junto a ti, segundo traduzem aqui. Interceder – com que objetivo? Para serem salvos? Isso me parece despropositado, meu filho. Não basta crer? Se o pedinte não crer, de nada adiatará interceder? Eu somente aprendi a falar hebraico e aramaico. Escreveram alguns que eu teria fugido dos romanos navegando para a Gália com Maria Madalena, onde esta é idolatrada. Muitos grupos de ciganos se reunem anualmente na praia de Les Saintes Maries de La Mer, no sul da França, onde se diz que Maria Madalena teria desembarcado, fugindo dos romanos, logo após tua morte na cruz. Ela estaria acompanhando Jose da Arimatéia, Maria Jacobe e Maria Salomé. E talvez eu. Foi mais um ato de crueldade dos romanos, dezessete anos após a tua morte na cruz.

- Minha doce Maria! Sacerdotes romanos te escolheram para seres tu a idolatrada. Não lhes importa que continuavas aguardando, como todos, o Juízo Final nem que nada compreendes do que dizem na língua deles. Tudo são estratégias de ovelhização por parte de sacerdotes, tal como observavas nas sinagogas, no Velho Testamento. Às ovelhas desses gentios não importa que não entendas ou fales as centenas de idiomas que usam para rezar. Os romanos não se envergonham das humilhações que cometeram contra nossa família. Cada açoite que estalava em minhas costas era um golpe doloroso e humilhante contra Israel. Eles estavam acostumados a cometer esses atos de agressão.

- לש דעי םע ומישיו ינא םג golgotha יכ escohesteש דעי םע ומישיו ינא םג .ילש רקיה ןבה ., respondeu a amada Maria.

A Máquina imediatamente traduziu para o mundo de dizimistas emocionados que assistiam o encontro:

- “Meu amado filho. Quanto chorei com o destino do Gólgota que escolheste”.

A mãe voltou a abraçar o filho longamente. Beijou suas faces e suas mãos.

- Meu filho – quero te relatar o que ocorreu após tua morte. Fomos perseguidas pelos romanos e tivemos que fugir, dezessete anos após tua morte. Nosso barco foi levado pelo vento até a atual cidade de Saintes Maries de La Mer, na costa da França. Nesses dezessete anos especulávamos se você realmente estava ressuscitado e residindo logo acima, nas nuvens sobre Jerusalém. Escreveram anos após os evangelistas, que realmente estavas morando nas nuvens, junto com nosso temido deus Jeovah.

- E o que vocês pensavam a respeito?

- Meu filho – teus discípulos juntavam fiéis judeus e deles recebiam sustento. Mas o que muito nos entristeceu durante esses dezessete anos foi o fato de você nunca ter descido para a Terra. Dezessete anos, meu filho! Até Elias e Moisés teriam descido enquanto ainda vivias na Terra. Ficávamos pensando: se os meros profetas podiam descer e fazer visitas, por que nosso amado filho nunca desceu? Subir podias? Descer não? Nem sequer um anjinho enviaste com recado? Se Jeovah descia oculto em uma nuvenzinha e falava, por que não fizeste o mesmo comigo?

- Minha querida e amada mãe! Não percebes que Mateus, Marcos, Lucas e João são os autores tardios dos relatos do Novo Testamento? Quem realmente poderia crer que um corpo poderia viver no frio e na fome reinante no espaço das nuvens? Não te deste conta que isso é impossível?

- Não sei o que dizer. Eles escreveram tudo décadas após minha fuga. O fato é que dezessete anos após tua morte, sem mais qualquer notícia da tua parte, nada mais me restava do que concluir com imensa tristeza que os apóstolos na realidade não te viram ser arrebatado para as nuvens.

- Minha adorada mãe! Você acredita que eu, caso transformado em Deus nas nuvens, te deixaria desamparada nas mãos dos romanos? Logo que estivesse eu com os poderes divinos normais, meu coração amoroso me levaria a descer para te socorrer. Essa suprema ingratidão que surge dos relatos bíblicos deve ser debitada às falhas cometidas pelos narradores bíblicos ao engendrar os evangelhos, décadas após. De qualquer forma - vejo que tiveste sucesso na fuga, levando contigo o amigo José da cidade de Arimatéia - junto com as duas Marias. Mas nem o mais abjeto dos humanos deixaria sua mãe desprotegida nas mãos dos invasores de nosso país. Me resta perguntar: José, meu querido pai terráqueo – o que é feito dele?