Juízo Final: Odisséia dos Deuses
Capítulo 81
O grande nazareno parecia estar com muito bom humor. Pediu que os helicópteros se postassem a uma distância de duzentos côvados dos tronos. Ordenou também que todo o Tribunal fosse instalado dois mil côvados acima. Haviam sido disparados tiros de fuzil, mas as autoridades israelenses já tinham efetuado a prisão de fanáticos religiosos e terroristas.
Prosseguiu o julgamento. Jesus de Nazaré:
- Em Gênesis 19,12 e seguintes lemos: "Jeovah disse ao Patriarca: Todo homem, no oitavo dia do nascimento, será circuncidado entre vós, ficando marcada na carne, nossa aliança. Quem assim não agir, cortando a carne de seu prepúcio, será exterminado”. A ameaça da divindade: ou obedece aos escritos de Moisés, ou a morte.
Procurou o Mestre no Novo Testamento e prosseguiu:
- Leio agora Lucas 2,5 e seguintes: "Para Maria, que estava grávida, completaram-se os dias dela. E deu à luz um filho primogênito, e, envolvendo-o em faixas, recolheu-o num presépio. Pastores, avisados por um anjo e um exército celeste que louvava Jeovah, foram até a manjedoura. Os anjos voltaram para o céu. Oito dias após Jesus foi circuncidado. Completados que foram os oito dias para ser circuncidado o menino, foi-lhe posto o nome de Jesus, como lhe tinha determinado o anjo, antes de ser concebido no seio materno".
A Bíblia Sagrada, encharcada pela chuva, foi entregue a um serafim que passou a protegê-la com os pés sob a asa inferior esquerda. As inferiores tinham a função de tapar esses pés. E Jesus de Nazaré continuou:
- Anjos falam. Avisam pastores. Voltam voando para as nuvens, evidentemente, já que possuem corpos e foram vistos por humanos que narraram esse inusitado acontecimento. Constituem exércitos que descem e voltam para os céus. Veja - meu caro Jesus Celestial. Esse menino na manjedoura sou eu. Observe que sou judeu e fui circuncidado no oitavo dia, como mandam as nossas tradições judaicas. E minha amada mãe, Maria, me carregou em seu ventre durante os nove meses necessários para que nasça um ser humano. Meu corpo, portanto, jamais poderia ter estado nas nuvens, não é isso mais do que claro?
Relâmpagos e trovões faziam estremecer mais uma vez os helicópteros e os tronos. Mas os ventos pareciam estar amainando quando Jesus de Nazaré continuou:
- Temos claramente que você, Jesus Celestial, residia no Cosmos, sem astro algum, com Jeovah, há quinze bilhões de anos. E viviam todos na escuridão, já que, como escreve o evangelista João em 17,24: “Pai, quero que, onde estou, estejam comigo aqueles que me deste, para que vejam a minha glória que me concedeste, porque me amaste antes da criação do mundo”. A luz somente surgiu quando teu pai a criou e o Big Bang aconteceu, numa explosão de luz e de energia que deu origem ao Universo. E um filho de Jeovah já estava lá, - no escuro e no frio de Kelvin, 270 graus Celsius negativos - amado pelo seu pai, assistindo tudo. Ninguém pode amar algo que não existe, evidentemente. E isso vale também para a versão bíblica criada por Moisés.
Jesus Celestial estava ficando visivelmente aborrecido. E disparou:
- Diga logo aonde quer chegar. Tudo que dizes é obvio e já foi aqui examinado. Quem escreveu esses textos obviamente que nada assistiu e cometeu equívocos gigantescos. Por exemplo: por que disseram que foi Jesus de Nazaré o que habitava o céu e de lá teria sido enviado? Não escreveram, ao mesmo tempo, que tu, Jesus de Nazaré, nunca saíste do solo terrestre, desde o início da gestação, no ventre da amada Maria, até a subida, quarenta dias após a dita ressurreição do corpo no Domingo de Páscoa?
Jesus de Nazaré:
- Evidente é o buraco narrativo bíblico. Está descrito um Jesus, o que já era amado e existia antes do Big Bang, ou, ainda, da criação de tudo por Jeovah. E outro - exclusivamente terreno e atual.
Jesus de Nazaré continuou:
- Voltemos ao tema anterior. Tenha paciência. Estamos em um Tribunal e aqui tudo deve ser serenamente exposto. É necessário que se esclareça: como teve início a gestação de nove meses de minha amada mãe Maria. Não julgas que isso é de vital importância para que se possa avaliar e desnudar o que pretendiam os narradores bíblicos? Não estamos todos buscando a verdade, e só a verdade?
Sem aguardar resposta, Jesus de Nazaré apanhou a Bíblia Sagrada das mãos do serafim que agora a segurava nas mãos ocultas debaixo das suas quatro asas que não eram usadas para voar:
- Leio Lucas 1,26 e seguintes, resumidamente: "O anjo Gabriel foi enviado por Jeovah a uma cidade da Galileia, chamada Nazaré, a uma virgem, chamada Maria, desposada com um homem, José, da casa de Davi. Disse o anjo: terás um filho, lhe darás o nome de Jesus, e Jeovah lhe dará o trono de seu pai Davi e reinará eternamente na casa de Jacó. E perguntou Maria a Gabriel: Para conceber, o que ocorrerá, pois sou virgem ainda?".
Lucas dormia em seu trono e não ouviu a pergunta. Continuou o Nazareno:
- Como vemos, o anjo fala e foi visto por Maria. Não se tratava de coisa imaginada, como é o caso dos espíritos, que não possuiriam matéria, boca, pulmões, língua. Gabriel detinha esses órgãos, absolutamente indispensáveis para poder falar: boca, língua, pulmões, sistema cardiovascular e vários quilômetros de veias e artérias, como os humanos normais. E possuía as asas que o identificavam como um ser humanóide. Outra coisa: ele deveria reinar na casa de Jacó, ou seja, somente para os judeus e, obviamente, num reinado situado na Galiléia e adjacências. Conclui-se, assim, que tanto Jeovah quanto Jesus de Nazaré não tinham o objetivo de reinar para outros povos.
Sorriu para seu possível meio-irmão:
- Lembro que Jeovah desceu ao jardim do Éden e, ao caminhar, seus passos foram ouvidos – Gênesis 3,8 e seguintes: “E Adão e Eva ouviram o barulho dos passos de Jeovah que lhes falou, e fez para o casal vestes de pele”. Até mesmo um artesão se revelou ser o deus criado, ou revelado, para Israel, pelo célebre judeu chamado Moisés. Ou seja, Jeovah fabrica vestimentas de peles de animais. Possui mãos, músculos, habilidades humanas. Não é um mero espírito, como pretende Paulo de Tarso.
Jesus de Nazaré percebeu que sua amada mãe Maria se encontrava agora presente em um dos tronos a ela oferecidos. Acenou-lhe com um grande sorriso. E continuou Jesus de Nazaré:
- Vou ler Lucas 1,35: "O Espírito Santo descerá sobre ti, e a força do Altíssimo te envolverá com a sua sombra. Por isso, o ente santo que nascer de ti, será chamado de Filho de Jeovah". Diante deste texto, meu caro Jesus Celestial, quem é realmente meu pai? Já vimos que os escritos dos evangelistas não podem ser aceitos quando afirmam que eu me referia a um pai com quem teria convivido nas nuvens. Afinal eu, Jesus de Nazaré, jamais subi para as nuvens durante os trinta e três anos que se passaram desde meu nascimento na manjedoura de Belém até a minha crucificação.
Jesus Celestial:
- Temos que ler ainda Mateus 1,18: "Maria e José, desposados, antes de coabitarem, tiveram um filho, por virtude do Espírito Santo. Um anjo de Jeovah disse a José, em sonho, que o filho deveria chamar-se Jesus e que este, salvará o seu povo de seus pecados".
Jesus de Nazaré:
- Não há qualquer dúvida, pois, como já vimos antes: eu, não posso ser você. Você já existia e vivia com seu pai Jeovah desde antes da criação, e eu nasci em uma gestação normal de seres humanos. Você é filho do deus judaico Jeovah, como deixam cristalinamente claro os escritores bíblicos. Vou repetir o que escreveu João em 6,38: "Desci do céu não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou". Alguém vivia no céu. Mas não podia ser eu. Eu nasci tendo por autoridade paternal um ser chamado Espírito Santo existente só na imaginação dos humanos. Meu pai - como lemos -não é nem José, nem Jeovah. É a sombra do Altíssimo, como escreve Lucas em 1,34.
Lucas interferiu:
- Perdoem a interrupção: em Lucas 1,35 está escrito que a "força do Altíssimo envolverá Maria com sua sombra". Logo, Jeovah é o pai de Jesus de Nazaré.
Jesus de Nazaré:
- Qualquer adolescente sabe que, para que tenha início uma gravidez humana, imprescindível é que um espermatozoide humano ingresse num óvulo fértil da futura mãe humana. No relato dos evangelistas a respeito de quem seria meu pai, não se consegue perceber a origem do espermatozoide. Obviamente que um espírito não possui tecidos, e, muito menos as sementes da vida.
Lucas:
- Mas o Altíssimo usou da sua força para essa fecundação.
Jesus de Nazaré:
- Lucas: você possuiu o nome de Lucarno e era médico, como dizem os historiadores. Você há de convir que o necessário espermatozoide não existe em sombras. E há de convir que, naquela época, sem energia elétrica e demais instrumentos técnicos e laboratórios sofisticados, impossível era a fecundação in vitro.
Jesus Celestial:
- E temos que lembrar ainda: não há notícia de que Jeovah, meu pai, tenha descido das nuvens, mesmo porque jamais um humano teria visto a Jeovah, muito menos Maria. Moisés o teria visto face a face, quando desceu das nuvens carregando as tábuas dos mandamentos. E, considerando que Maria permaneceu virgem até nascer o primeiro filho, inexistiu conjunção carnal.
Lucas:
- Mas não se esqueçam: nada é impossível para Jeovah. Ele pode ter agido magicamente, usando de um milagre, para que a sombra do Espírito Santo levasse a bom termo a fecundação da idolatrada Maria.
Jesus de Nazaré:
- Vou solicitar pelo informe técnico do perito. Mr. H.: esse milagre seria possível?
Mister H.:
- Não. Para que Maria pudesse engravidar, necessário seria que um espermatozoide humano fecundasse um dos seus óvulos, num dia fértil. Evidentemente que Jeovah não poderia fazê-lo, já que não possui a carga genética humana. Jeovah foi criado antes do Big Bang, há quinze bilhões de anos. Já os genes humanos começaram a ser produzidos com a evolução ocorrida entre o peixe Picaya Gracilens e os tempos atuais. Como sabemos, o período cambriano, quando teve início essa evolução, ocorreu há meros seiscentos milhões de anos.
Lucas:
- Mas Jeovah não fez Adão à sua semelhança? Não poderia ele ter os mesmos genes que agora se reclamam para a fecundação de uma mulher humana judia?
O cientista:
- Impossível. Jeovah viveu antes que sequer existisse a carga genética de Maria, seja na versão científica do Big Bang, seja na versão bíblica. Como ele poderia possuir tal carga genética? Nós sabemos que a falta de um só cromossoma, dos que possuem os humanos, impede que chipanzés possam ser fecundados por humanos.
Lucas parecia não se conformar:
- Mas, lembremo-nos que está escrito em Gênesis 6,4, que vários filhos de Jeovah desceram e casaram com as mulheres belas terráqueas, tendo filhos com elas, netos, pois de Jeovah! Se fossem filhos de Jeovah, no céu, teriam que possuir uma carga genética, capaz de fecundar óvulos férteis dessas mulheres. E obviamente teriam que possuir uma mãe celestial, certamente esposa de Jeovah. Esta esposa obviamente teria que ser semelhante à Eva, com útero como Eva. Isso é cristalinamente lógico - vejo agora.
Jesus de Nazaré estava cada vez mais fascinado pelo rumo que tomara o julgamento. Ordenou que comparecessem os filhos de Jeovah que haviam descido e tido filhos com as terráqueas. Chegaram em grande número.
Jesus de Nazaré:
- Vejo que todos nos parecemos. Vocês, recém-chegados, são irmãos inteiros de Jesus Celestial. Mas eu até posso ter alguma semelhança pela simples razão de ser descendente de vocês! Nesse caso eu, Jesus de Nazaré posso ser descendente de Jeovah, pai de vocês, jovens que desceram para coabitar com as mulheres belas da Terra! Deixaram muitos filhos na Terra? Por acaso alguém coabitou com mulheres da casa de Davi? E, sendo todos eternos, voltaram para o céu, após a morte de suas esposas terrenas? Ninguém permaneceu na Terra, durante o dilúvio ordenado por Jeovah?
Novamente trovões e relâmpagos fizeram tremer o Juízo Final. Um dos helicópteros decidiu partir. Mas Jesus de Nazaré continuou:
- Vejo que confirmam minhas perguntas. Voltemos ao nosso assunto principal, meu caro Jesus Celestial. Gostaria de trazer à discussão o seguinte tema: admitamos que Jeovah, apesar das preciosas lições proferidas pelo nosso grande físico aqui presente, seja o pai que deu origem à gravidez de Maria. Imaginemos que o Espírito Santo, com sua sombra, tenha conseguido provocar o início da gravidez da amada Maria. O que teríamos?
Um grande silêncio se estabeleceu. Os trovões haviam cessado e uma chuva fina e fria castigava a todos os integrantes do Tribunal. Ninguém parecia respirar - tal a expectativa. Com um largo sorriso, Jesus de Nazaré disparou:
- Meu querido irmão celestial! Nós somos dois! Nós existimos exatamente como relata a Bíblia Sagrada! Você vivia com Jeovah e eu nasci do ventre da humana Maria! Obviamente que você foi enviado por Jeovah, como escreveram os evangelistas. Você desceu até a casa de Maria?
- Está escrito na Bíblia? Então devo ter descido!
Jesus de Nazaré:
- E o que fez lá?
Jesus Celestial:
- Só posso ter desejado que ela tivesse uma bem sucedida gestação e que seu filho fosse um varão. O que mais poderia fazer? Evidentemente que só me restava retornar para junto de Jeovah e esperar que você nascesse saudável e varão.
Jesus Celestial parecia voltar no tempo. Dois mil anos atrás:
- Fiquei bastante triste por uma coisa: eu teria um meio irmão ilegítimo, já que o amado José não seria o pai. E triste porque esse filho de Jeovah poderia trazer a ele problemas com minha mãe celestial. Obviamente tenho mãe, não somos todos semelhantes a Adão, Eva e seus filhos Caim e Abel? Quem me gestaria? Obviamente: minha amada mãe celestial, companheira de Jeovah. Aceitaria ela um filho adulterino?
Voltou a sorrir o bravo Nazareno. Aproximou-se de Jeovah o deus mal-humorado adotado por Moisés e antecessores notáveis que não desejaram inclinar-se pela adoção do deus Baal ou das deusas Artemis, Ava, Asserá, então populares e prestigiados. Segurou os ombros do deus judeu, olhou fundo nos seus olhos, sorriu e disparou:
- Alegre-se grande divindade! Tudo é tão obscuro, amargo e misterioso nas sinagogas e nas ekklesias. Vamos mudar tudo isso. Gargalhemos! Vamos mostrar que os deuses não devem necessariamente viver como múmias!
Jeovah alisou sua bilenar barba e aumentou ainda mais o seu conhecido mutismo. Ele somente abria sua boca para proferir ameaças e causar terríveis castigos. Levantou-se do seu magnífico trono e foi confabular separadamente com Moisés. Um dos repórteres jurou ter ouvido que tramavam dissolver o Tribunal do Juízo Final.
Le Figaro estampou a manchete: Les dieux connaissent le sourire! Os deuses conhecem o ato de sorrir!