Juízo Final: Odisséia dos Deuses

Horst Schadeck · Capítulo 55 de 96

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Juízo Final: Odisséia dos Deuses

Capítulo 54

 

Jesus de Nazaré entregou a direção dos trabalhos para Jeovah e retirou-se para uma nuvem mais alta. Foi para lá arrebatado por um séquito de quarenta anjos de todas as nove ordens.

Jeovah sorriu pela primeira vez. E sua voz fez estremecer o Juízo Final:

- Que venha à minha presença Saulo de Tarso.

Assentou-se o santo romano em frente ao grande deus dos judeus. Sorria, confiante.

- Vou ler o que escreveste na tua carta aos Romanos em 7,22 e 8: “Deleito-me na lei de Jeovah, no íntimo do meu ser. Sinto, porém, nos meus membros outra lei, que luta contra a lei de meu espírito e me prende à lei do pecado, que está nos meus membros. Homem infeliz que sou! Quem me livrará deste corpo que me acarreta a morte?”. Você afirma que minhas leis, meus mandamentos, minhas ordens transmitidas a Moisés, que tudo isso te trazia infelicidade? Você ousou dizer que Jeovah impôs leis que trazem tristeza ao povo de Israel?

Paulo de Tarso:

- Certamente que eu o disse e escrevi em minha carta aos Romanos.

Jeovah:

- E escreveste, logo após: “De agora em diante, pois, já não há nenhuma condenação para aqueles que estão em Jesus de Nazaré. Essa lei me libertou da lei do pecado e da morte”. Quem te autorizou a ignorar minhas leis, Saulo de Tarso?

Paulo de Tarso:

- Eu! Eu, Paulo de Tarso, o grande sacerdote da nova religião - com igrejas - que criei! Meus seguidores não mais sofrem as ameaças que fazias aos israelenses. As chagas, os tumores, as hemorroidas, a tísica, a lepra, o esterco no rosto, o granizo, nada disso pode atingir o meu rebanho. Agora os gentios, os pagãos, os romanos, os evangélicos, os seguidores de Martin Luther, todos podem pecar. Basta que acreditem em ressurreição dos mortos e que o seu deus seja Jesus de Nazaré: além de ressuscitarem, esses meus rebanhos serão agraciados com uma vida feliz no céu.

Jeovah, diante dessa resposta não pareceu enfurecer-se, como se esperava:

- Constato que o meu povo, Israel, não seguiu tuas palavras. Os rebanhos de gentios, de não-judeus, são teus clientes e esses não me dizem respeito. Nenhum sacerdote judeu jamais integrou o grande número de dizimadores romanos ou derivados.

- Certamente, grande Jeovah, digno e supremo deus de Israel - respondeu Paulo de Tarso. Meus rebanhos, liderados por padres, pastores, novos apóstolos, Bispos, cardeais, abades, frades, freis, freiras, irmãos e irmãs, se valem do Grujuem, aqui tantas vezes mencionado. São os santos personagens que enfeitam os templos que inventamos, com suas torres, cúpulas, confessionários, ídolos de madeira, de metal, de ouro. As sinagogas continuam com teu povo, Israel. E todos os gentios, como os israelenses, vivem felizes: os líderes com os dízimos e os liderados com as promessas de vida eterna.

Jeovah:

- Jesus de Nazaré jamais escreveu textos religiosos. Você o fez e se tornou o grande sacerdote dos que não são judeus. Jesus de Nazaré, segundo escritos dos evangelistas, não ordenou que seus apóstolos fossem dizimar a quem não fosse israelita - como se lê em Mateus 7,6: “Não lanceis aos cães ou aos porcos as vossas pérolas”. Esses animais, como se sabe, designavam os gentios, os que não eram judeus, chamados de goin. Só mais tarde é que você e copistas romanos interpolaram os textos da Santa Ceia, em evidente e inconciliável contradição.

Paulo de Tarso:

- Tudo isso é evidente. As interpolações no texto dos evangelistas estão comprovadas. Mas, o que importa isso? Eu sou o maior personagem bíblico! Eu, o grande Paulo das igrejas romanas! Minha atuação dizimadora é incalculavelmente maior do que as do judeu Pedro e demais apóstolos! O rebanho que estes lograram juntar não prosperou! Eles e seus israelenses circuncidados, os dizimistas do sacerdote Ebion, logo se dispersaram e retornaram às sinagogas!

Jeovah – Kaddosh Yisrael, Santo de Israel:

- E teus rebanhos passaram a desprezar seus próprios corpos. Dizes-lhes que, após a morte, subirão ao céu seus espíritos. E em seguida afirmas que esses fiéis queimarão nas fornalhas se não acreditarem em tuas mensagens! Te contradizes terrivelmente: para o céu, para as nuvens, irão teus adeptos em forma de espírito. Já para as fornalhas tais entes arderão como se mantivessem seus corpos!

Paulo de Tarso:

- Jeovah: és uma criação de Moisés. Nasceste efetivamente no dia em que Moisés decidiu usar-te para dominar os judeus e instituir como felizes sacerdotes os que fossem da Tribo de Levi. Por que eu, um mero soldado romano, não teria também o direito de criar minhas leis dizimadoras? Os sacerdotes do Velho Testamento eram levitas. Possuíam clientes que lhes pagavam com terras e produtos alimentícios para se ver livre de pecados e de ilícitos penais, tudo como está escrito na Bíblia. E tinham que dar aos sacerdotes os primogênitos de seu gado e de seus filhos! E passados alguns dias poderiam resgatá-los, mediante um pagamento a Jeovah - ou seja, para o sacerdote!

Pediu que lhe servissem água e continuou Paulo:

- Moisés e seus seguidores ficaram com Jeovah. Seu rebanho é infimamente pequeno perto do que eu criei. São bilhões - Jeovah! As igrejas são majestosas! As abadias são riquíssimas! Os Bancos estão abarrotados de ouro e o vinho que consomem os sacerdotes é esplendoroso. As igrejas derivadas prosperam e se multiplicam a cada dia, com centenas de milhares de pastores. Eu sou muitíssimo mais notável do que o amado Jesus de Nazaré, permitam que o diga. Sou muito mais renomado que Pedro e seus colegas apóstolos. As sinagogas são edificações modestas. Não evoluíram. O fausto romano, sua riqueza, ao contrário, causam fascínio aos dizimistas. Agora surgem templos evangélicos em cada rua. Milhares de seitas e sacerdotes novos surgem a cada dia.

Prosseguiu Paulo de Tarso:

- Os romanos mataram um milhão de israelitas, nos tempos em que Jesus de Nazaré se dizia o Salvador, segundo os escritos bíblicos. E mataram mais centenas de milhares de judeus, em dois milênios, todos o sabemos. Eu, tendo me aliado aos romanos como soldado, eliminei os judeus que caíam em minhas mãos. Mas me tornei grande, como grande é a igreja romana. Sou maior que Jesus de Nazaré, e mais grandioso que Moisés. Por que os escritos de Moisés ou dos evangelistas devem ser mais importantes do que os meus?

- Ouvi o que disse - interrompeu Jesus de Nazaré que retornava de seu descanso. E quero dizer que concordo plenamente com o que acabas de expor.

O espanto foi geral. O que mais esse Juízo Final haveria de revelar?

- Todos usam meu nome – prosseguiu o Mestre. Os evangelistas me atribuem atrocidades terríveis. Dizem que teria eu prometido matar a milhões em fornalhas, na Geena de Jerusalém. Bastaria que não cressem no que lhes vinha dizer um desconhecido qualquer. Acusam-me de não ter salvado Israel dos romanos, pois teria prometido, até como Messias, a vinda do Reino de Jeovah ainda quando estivessem vivos muitos dos que me teriam ouvido enquanto vivo estive. Não só essa salvação não ocorreu como os romanos destruíram o templo de Jerusalém, orgulho do povo judeu, poucas décadas após minha morte. Jeovah é acusado de ter eliminado milhares de humanos da forma mais cruel e torpe. Jeovah é acusado de matar a milhões, por afogamento, no dilúvio que ele provocou. E escrevem que sou seu filho.

Paulo de Tarso interrompeu:

- Perdoe - grande Jesus de Nazaré. Sua mensagem é que foi grandiosa, pouco importando as interpolações feitas pelos copistas romanos. Você trouxe para o mundo a maior de todas as recomendações: o amor aos seus irmãos. Você ensinou a amar até mesmo os inimigos. Você libertou as mulheres do jugo dos varões. Você amou Maria Madalena, acusada injustamente de torpezas. Você ensinou a respeitar e amar as crianças. Você mudou a humanidade.

- Pouco importa – prosseguiu - que os sacerdotes cobrem dízimos - que eles e a Bíblia chamam também de obrigações - afinal eles precisam sobreviver e até enriquecer. Pouco importa que as promessas sejam de vida após a morte com ou sem o corpo terreno. Pouco importa que as fortunas se avolumem nas mãos de líderes religiosos. O que importa é que bilhões de humanos se sentem mais confortáveis com as promessas dos pastores. E se eu, um miserável soldado que trocou seu povo por outro, tive a suprema inspiração de criar os sonhos de eternidade para os gentios, para a humanidade não judaica, estou muito feliz neste Juízo Final.

O controle remoto foi acionado pelo Mestre e a Máquina voltou a exibir o texto de Mr. Johnson: Era sempre difícil distinguir entre os verdadeiramente inspirados, os auto-iludidos e os meros criminosos.

Jesus de Nazaré:

- Recomendo que, tendo em conta que este julgamento levará milhões de anos para acabar, os dizimistas observem bem os rostos dos pastores nas televisões. A grande maioria possui belos semblantes e vozes encantadoras. São convincentes como o devem ser todos os que pretendem aumentar o número de suas ovelhas. Devem ser bons oradores, afetuosos, aparentarem solidariedade, incentivarem os seus dizimistas a promoverem obras filantrópicas, darem esmolas aos necessitados. Devem apresentar-se sempre bem vestidos, mas com sobriedade.

- Muitos pastores – prosseguiu - são afastados se atingirem em suas igrejas um faturamento mensal abaixo das metas traçadas pelos líderes, geralmente auto nomeados Bispos. Tudo isso eu venho observando com grande atenção. E confesso que essas técnicas já eram praticadas quando eu ainda vivia. Somente não aceito que digam que eu e minha família teríamos sido dizimadores.

- Foram os apóstolos que viram na minha morte a grande oportunidade de igualar-se ou até superar sacerdotes e Sumo Sacerdotes famosos da época. E não se diga que os apóstolos não eram cópias dos pastores de agora. Todos buscam rebanhos. E todos os rebanhos são grandes produtores de dádivas, dízimos, ofertas, oferendas, mensalidades. Além disso as dóceis ovelhas compram livrinhos com ensinamentos relativos aos deveres junto a uma entidade denominada simplesmente Deus e seu Deus-Filho. Vendem-lhes azeite, pedras, fotografias, água afirmando que foram trazidos do solo israelense. É a Grande Indústria da Fé, incentivada pelos governos e pelos comerciantes.

Grandes tumultos se estabeleceram em todo o planeta. Mulheres idosas corriam em socorro dos seus pastores. Nos canais de TV que ainda funcionavam, surgiram os pastores vociferando contra as revelações de seu Jesus de Nazaré.

Prosseguiu o Mestre:

- Vejam com segurança se eles são os inspirados de que fala Mr. Johnson ou se são meros criminosos, atores ou profissionais. Mas jamais façam doações sem primeiramente ver se vocês não estão diminuindo o pão que servem às suas crianças ou os cadernos que elas usam nas escolas. Em verdade vos digo – usando o estilo literário da Bíblia Sagrada - nunca escrevi nada. As licenças para dizimação contidas em todo o Novo Testamento são também de autoria de pessoas que eu não conheci e que viveram muitos anos após a minha morte. Nunca autorizei que o apóstolo Pedro e outros sequer pensassem em aceitar vendas de casas e campos para obterem dinheiro. Nunca poderia supor que haveria de surgir Paulo de Tarso com sua avaliação de que os dízimos eram um suave perfume para ele.