Juízo Final: Odisséia dos Deuses
Capítulo 27
Jesus de Nazaré olhou longamente para Jesus Celestial. Este sorria. Fitou o sacerdote asteca que, muito impaciente, parecia desejar partir logo dali. Jesus de Nazaré:
- Que Pedro decida.
E Pedro, o que descera num trono:
- Sacerdote asteca. Temos que te julgar. Alegas que este Tribunal não possui competência para isso. Desde já rejeito tua defesa preliminar. Quanto ao mérito: os espanhóis e seus padres que invadiram tua nação tentaram te catequizar, pelo que me informam. Mas não creste em Jesus de Nazaré. Logo, a condenação às fornalhas da Geena e do Inferno parece inarredável, já que, como escreveram os evangelistas, quem crer será salvo, quem não crer, será condenado.
- Quanto aos outros pressupostos bíblicos - continuou - não foste bom, mataste cruelmente as donzelas, arrancando seus corações; não te arrependeste dos teus pecados; eras uma pessoa cheia de posses, pois sacerdote, o que te condena; não foste justo; pronunciaste palavras vãs; não tinha familiar que tenha acreditado nos apóstolos ou em Jesus de Nazaré. Diante disso, te julgo culpado e deves arder eternamente nas chamas das fornalhas da Geena.
O sacerdote asteca, demonstrando grande serenidade:
- Pois quero interpor recurso. Eu li a Bíblia. Eu pequei. Eu matei, com transgressão do mandamento de Jeovah. Mas sacrifiquei muito menos pessoas do que as atribuídas na Bíblia para Jeovah. Mas está escrito nessa mesma Bíblia Sagrada que Jesus de Nazaré não veio para salvar os justos, mas sim, os ímpios e pecadores. Portanto, deve ser obedecido o mandamento bíblico. Repito: eu li o Livro, sou pecador, pois, tanto por descumprir o mandamento de Jeovah, por possuir outros deuses e por matar, como por ser ímpio e pecador frente a Jesus de Nazaré.
O sacerdote da América Central continuava muito impaciente. Seus olhos faiscavam, mas demonstrava grande inteligência e conhecimento. Prosseguiu:
- Apelo para que recebam meu recurso e me absolvam. Quero lembrar que os dizimadores espanhóis aplaudiram a matança de meu povo e participaram da pilhagem dos nossos tesouros. E lembro que esses sacerdotes espanhóis são os mesmos que se valem do assim chamado Grujuem, o Grupo de Vinte e Três Judeus Emprestados para justificar suas dizimações, todas perfeitamente legais e previstas no livro que li e que tem o nome de Bíblia Sagrada. E lembro que nem mesmo os sacerdotes espanhóis podem ser condenados, já que consta da Bíblia, texto atribuído a Marcos, em 3,28: “Todos os pecados são perdoados aos filhos dos homens, mesmo as suas blasfêmias”.
Jesus de Nazaré:
- Sim, Marcos usa de todos os recursos para juntar ovelhas ao seu rebanho. Quanto ao seu apelo: recebo seu recurso, sacerdote asteca. Realmente, está escrito que eu vim para salvar os ímpios e pecadores, e não os justos. Mas, embora tenhas cumprido com as regras de teus deuses, aos meus olhos és um pecador. Matar um ser humano é pecado. É o mais infame de todos os crimes. Mas eu te absolvo, pois és ímpio, pecador e injusto e dos mais bárbaros e cruéis assassinos de que se tem notícia. E eu vim para trazer a mensagem do amor, do perdão, da fraternidade. Vim para salvar os pecadores, os impiedosos.
Jeovah condenou o sacerdote asteca e Jesus de Nazaré o absolveu. Com o empate, deveriam votar os vinte e seis apóstolos. Mas estes se declararam incompetentes para julgar o gentio, já que somente poderiam absolver ou condenar integrantes das Doze Tribos de Israel. Falou um Arcanjo Separador:
- Consta de Mateus 13,49: “Assim será no fim do mundo: os anjos virão separar os maus do meio dos justos e os arrojarão na fornalha onde haverá choro e ranger de dentes”. Que venha à nossa presença esse sacerdote asteca.
- Um momento - interveio o Mestre. Antes de continuarmos, quero alertar para esse texto: os ressuscitados e os vivos rangem dentes. Logo, os ressuscitados não são espíritos! Como poderia um espírito ranger dentes? Com que dentes? Se todos os possuem, não se tratam de espíritos.
O sacerdote asteca foi levado à frente dos anjos julgadores. Primeiramente o arguiu o líder dos serafins:
- Você proferiu palavras vãs?
O sacerdote asteca:
- Digo em minha defesa: obviamente. Durante uma vida toda, os humanos dizem coisas vãs. Mas sei por que me perguntam sobre isso. Está escrito no Evangelho desse sacerdote judeu, Mateus, em 12,36: “No dia do juízo os homens prestarão conta de toda palavra vã que tiverem proferido. É por tuas palavras que serás justificado ou condenado”. Li também essa passagem junto com os padres espanhóis. Mas isso não impede que eu seja separado e incluído no grupo dos bons. Quero aduzir ainda: eu fui justo. E, por isso, deve ser aplicado o versículo 13,43, escrito por Mateus, tradutores e copistas, em que Jesus de Nazaré teria dito: “Então, no Reino de seu Pai, os justos resplandecerão como o Sol”.
Os Anjos Separadores se entreolhavam, admirados com os conhecimentos do sacerdote asteca.
Vendo que seria admitido no céu aquele sacerdote sacrificador de virgens, Tomé interferiu:
- Não se pode admitir que esse matador de adolescentes tenha sido justo. Embora eu não vote neste caso, proponho que o Conselho dos Anjos Separadores determine que o sacerdote prove e demonstre ter sido justo. Matar é proibido pelos mandamentos de Jeovah e pela doutrina do Mestre Jesus de Nazaré.
Os anjos julgadores concordaram e determinaram que o sacerdote asteca indicasse que provas desejava produzir. Ele falou com a altivez sacerdotal asteca:
- Já informei. Minha palavra é prova mais robusta do que a sua montanha do Sinai. Eu arranquei o coração de não menos de mil virgens porque isso era a lei dos nossos deuses. Elas eram jogadas no lago, junto com os cadáveres de nossos inimigos. Jeovah, por exemplo, por sua lei pessoal, cometeu milhões de mortes, a se dar crédito a Moisés e outros narradores do Velho Testamento. Vou ler Deuteronômio, 28,27: “Jeovah te ferirá da úlcera do Egito, de hemorroidas, de sarna e de dartros incuráveis”. E em Samuel 5,9: “A mão do Senhor foi contra a cidade, causando nela um grande terror. Feriu os habitantes desde o menor até ao maior com muitos tumores de hemorroidas” .
Um grande alarido ocorreu. Em um helicóptero de bandeira nazista surgiu o ressuscitado, o Fuehrer, o aniquilador de seis milhões de judeus. Um silêncio constrangedor se estabeleceu no Tribunal e no mundo. Como ousava esse bárbaro genocida apresentar-se diante do Juízo Final? E como ele conseguiu ter sido ressuscitado, se o seu corpo foi totalmente queimado?
- Saudações, Jeovah. Quero lembrar que minha família e eu pertencíamos à igreja romana e tu eras o grande deus desses romanos. Acusam-me de genocida. Pois quero dizer que nada mais fiz do que agir biblicamente, tal como Jeovah, Senhor dos Exércitos, Deus de Israel e da seita romana e suas derivadas, as chamadas evangélicas.
Os protestos surgiram em todo o planeta. Assassino! Besta! – gritavam em Jerusalém. Em Tel Aviv reinava o caos.
- Mas você queimou milhões de judeus, ciganos e outros povos em fornos crematórios – bradou Jesus de Nazaré. E te dizias cristão.
O terrível algoz nazista cofiou seu bigode preto:
- Sou fiel discípulo de Jeovah, esse mesmo deus que era e é utilizado pelos sacerdotes romanos e derivados. Mas as mortes que pratiquei não foram levadas a cabo após torturas como as que praticou Jeovah. Não provoquei chagas, úlceras, dartros, sarna, tísica, lepra, tumores que levam a mortes lentas e dolorosas. A minha forma de matar era rápida. O gás matava instantaneamente. Já as chagas, a lepra, a úlcera e tantos outros meios cruéis empregados pelo deus Jeovah, faziam sofrer durante meses as vítimas da cólera do Senhor dos Exércitos. Até mesmo a morte das jovens astecas era rápida: um golpe no peito e o coração era arrancado pelo sacerdote.
Novos protestos. Dos helicópteros lançavam objetos contra o Fuehrer. Jesus de Nazaré ordenou que o nazista fosse conduzido aprisionado dali para posterior julgamento.
O líder dos anjos do grupo das Potestades interveio então:
- Voltando ao julgamento anterior. Ambos, Jeovah e o sacerdote asteca, agiram dentro das leis que imperam em seus campos e tempos. Transgrediram o mandamento de não matar, no entanto. Suas leis permitem somente a eles a transgressão. Mas, penso que pouco importa tudo isso. Jeovah condena o réu asteca por ter ele adotado outros deuses que não ele, Jeovah, transgredindo seu primeiro mandamento. Jesus de Nazaré o absolve porque o sacerdote gentio foi ímpio e pecador e ele, Jesus de Nazaré justamente veio para Israel para salvar os não justos. O meu voto seria o de absolver o sacerdote asteca pelo motivo exposto em seu recurso, no sentido de que ele, estudando a Bíblia Sagrada que lhe foi fornecida pelos padres espanhóis, teria se enquadrado na regra contida no capítulo 15,24, de Mateus: “Eu Jesus de Nazaré, não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel”. Lembro que as leis de Jesus de Nazaré não se aplicam a quaisquer pessoas que não sejam israelenses. Recordem-se do que consta em Mateus 7,6: “Não lanceis aos cães as coisas santas, não atireis aos porcos as vossas pérolas, para que não as calquem com os seus pés, e, voltando-se contra vós, vos despedacem”.
O anjo Potestade falava com grande segurança. Encolheu as duas asas e disparou:
- Está claro que, segundo esses escritos de Mateus - os gentios não podem ser ajudados. Como vamos admitir no céu, junto a Jeovah e seus familiares - um sacerdote estranho aos judeus - estranho a Jesus de Nazaré?
O líder do grupo de anjos conhecidos por Tronos:
- Não me agrada contrariar a Jeovah. Sou anjo de Tronos e ele expulsou do céu o Anjo Caído, Lúcifer, e seus seguidores, por haverem se rebelado contra ele. Quero registrar que fui muito amigo de vários desses rebeldes.
O anjo de Tronos olhou em volta para ver a repercussão do que havia dito. Criou coragem e continuou:
- Todos conhecemos a fúria, a ira e o peso das vinganças do Senhor dos Exércitos. Lembrem-se que ele mata enviando lepra branca, hemorroidas, úlceras, chagas, gafanhotos, tísica, uso da espada, do fogo, enxofre e outras formas cruéis.
Olhou para Jeovah que, impassível, não parecia sequer ouvir o que se dizia no Tribunal do Juízo Final. E arrematou o anjo de Tronos:
- Mas, ao mesmo tempo, não devemos desagradar ao grande Mestre Jesus de Nazaré, cujos títulos são Rei, Deus, Filho de Deus, Filho de Jeovah, Salvador de Israel como Messias e Salvador da Humanidade. O réu asteca foi por ele absolvido. Sugiro que o Conselho de Anjos Separadores vote no sentido de declararmos a total incompetência deste Juízo Final para julgar o sacerdote asteca e o enviemos de volta para a América Central onde deverá ser recolocado em sua tumba à espera do julgamento dos seus próprios deuses, com os pedidos de desculpas aos nobres descendentes do bravo povo asteca. Pedido de desculpas que se faz tanto pelo fato de ter sido violado o túmulo de um de seus proeminentes líderes religiosos, como pelas atrocidades cometidas pelos invasores espanhóis, exércitos e Inquisidores, soldados ou simples sacerdotes dizimadores.
Jesus de Nazaré:
- Terminemos com o julgamento do nazista. Sua mulher, Eva Braun, era crente e isso o absolve -como o determina o texto do apóstolo Paulo de Tarso em sua Carta aos I-Coríntios 7,14: “O marido que não tem fé é santificado por sua mulher, se ela for crente”.
O absurdo dos escritos sacerdotais estampava as manchetes dos principais jornais do planeta. Die Biebel Blutet - escrevia o principal jornal da Alemanha. A Bíblia Sangra – era também a manchete dos jornais de Portugal.
Paulo de Tarso estava novamente na cena principal. Falou-lhe o Mestre:
- Maridos assassinos passam a ser santos. Maridos sem fé, bandidos, salteadores são santificados ? Está escrito na Bíblia Sagrada. Leio e não consigo acreditar no que escreveste - Paulo de Tarso.
O ex-soldado romano:
- As mulheres daqueles tempos eram as principais dizimistas. Os varões eram os mais astutos. Eles, entre os Am ha-Arez é que foram meus prepostos em cada localidade. Eram os diáconos e os presbíteros. Eram os pastores de ovelhas humanas. Estavam autorizados a proferir ameaças, como escrevi. Dizimar é uma arte. Pastorear humanos é uma obra de inteligência.
De um dos helicópteros surgiu a voz de Sara Moshê, usando um megafone:
- Varões escravagistas, isso é o que eram! Paulo escreveu para I-Timóteo 2,12-15: “Não permito à mulher que ensine nem que se arrogue autoridade sobre o homem, mas permaneça em silêncio. Pois o primeiro a ser criado foi Adão, depois Eva. E não foi Adão que se deixou iludir, e sim a mulher que, enganada, se tornou culpada de transgressão”.
De outros helicópteros bradavam mulheres:
- Culpados são os varões! Em silêncio devem ficar os Queimadores de Mulheres, os Inquisidores, os discriminadores, os que fazem as guerras e praticam a escravidão, os que rotulam os homossexuais de torpes!
Jesus de Nazaré:
- Os dois textos de autoria de Paulo de Tarso são ignóbeis. Mas temos que obedecer à Sagrada Escritura: declaro absolvido o nazista, já que todos sabemos que sua mulher Eva Braun era crente.
Jesus de Nazaré:
- Esse Saulo, Paulo, nasceu na Silícia, próximo a Turquia, no ano 5 da Era atual e foi decapitado no ano 67 da atual Era, quando o imperador Nero iniciou perseguições e massacres de cristãos, acusando-os de terem incendiado Roma. Era da tribo de Benjamin e seu pai pertencia à seita dos Fariseus. Nascido em território dominado pelos romanos no município de Tarso embora de origem judaica, recebeu o título de cidadão romano por haver nascido lá. Foi diligente estudante e obviamente percebeu que o sacerdote é sempre uma pessoa importante e de posses, seja qual for a religião, começando pelos levitas. Os pobres geralmente são auto-iludidos.