Juízo Final: Odisséia dos Deuses
Capítulo 16
Os vinte e seis apóstolos proferiram seu voto no sentido de condenar o romano. Mas o soldado replicou em latim:
- Aquila non capitat muscas. A águia não come moscas. Vós, judeus, que vos arvorais em julgadores de um soldado romano, não sabeis o que estais dizendo. Mesmo que se admitam esses textos tolos escritos pelos ditos quatro evangelistas, não podeis sequer cogitar em condenar a um glorioso soldado romano. Está escrito nesse seu livrinho que vocês desceriam em tronos para julgar as Doze Tribos de Israel. Não aceito a vossa participação e a declaro sem qualquer valor.
Os vinte e seis judeus, diante da arrogância e da afronta do soldado romano ressuscitado, sentiram-se inesperadamente confusos e passaram a confabular.
- De fato - se ouviu Pedro - só temos poderes bíblicos para julgar israelitas pertencentes às Doze Tribos.
E, dirigindo-se a Jesus de Nazaré:
- Ele tem razão, Mestre. Está na Bíblia. Por isso te rogamos que reconsideres teu voto e acompanhes o voto de Jeovah, condenando-o também para que sofra da mesma pena imposta por Jeovah.
Jesus de Nazaré:
- Meu caro Pedro, isso contraria minhas mensagens. Sou o que busca amor e fraternidade. Não está isso escrito pelos evangelistas? Como poderia eu impor crueldades? Eu não disse que, se te ferirem uma das faces, oferece-lhes a outra? Não está escrito em Mateus 5: “Esquecei a regra do olho por olho, dente por dente, praticada por Jeovah, e amai vossos inimigos? E se querem tua túnica, dai-lhe também a capa?”. Se este romano passou pela espada o nosso amado Tiago, perdoá-lo não será obedecer aos ditames bíblicos? Meu exemplo e minhas lições foram esquecidas?
O soldado romano continuava imperturbável. Pedro e Mateus confabulavam. Finalmente Mateus apanhou a Bíblia Sagrada e, dirigindo-se a Jesus de Nazaré:
- Mestre, até tu ensinaste a violência e o ódio! Vou ler resumidamente Mateus 11,20-24: “Depois Jesus de Nazaré começou a censurar as cidades, onde tinha feito grande número de seus milagres, por terem recusado arrepender-se: Ai de ti Corozaim e Cafarnaum! Ai de ti, Betsaida. No dia do Juízo não serás elevada ao céu. Serás atirada no Inferno”.
O soldado romano interrompeu o julgamento:
- Parece claro, claríssimo, que, apesar dos milagres e curas que teriam feito Jesus de Nazaré e seus apóstolos, não receberam os dízimos que pretendiam! E ameaçaram seus irmãos judeus fiéis a Jeovah com castigos. As pessoas visitadas não se submeteram: medidas de ódio para elas! Arrepender-se? Jeovah alguma vez ordenara isso? O pressuposto apostólico não é o de crer, pura e simplesmente, na ressurreição de alguém que se chama Jesus de Nazaré? Não havia sido crucificado ainda e, por isso, se valiam de outro motivo para juntar ovelhas e naturalmente seus dízimos, sua hospitalidade, sua comida? Arrependimento era a mensagem. Depois ela mudou para fé. Para arrepender-se não havia necessidade de fé alguma. Para crer, após a morte e a fantástica ressurreição relatada pelos evangelistas, no entanto, um novo ingrediente surgiu: a fé. Sem fé os rebanhos não cresciam.
- Todos sabemos – continuou o nazareno - que fé significa ausência de espírito crítico, de pesquisa e investigação sobre quais são os objetivos do ovelheiro. O que está por trás da fé pretendida? Crença cega no que lhe dizem os apascentadores de ovelhas? Não se pergunta: por que posam eles de bonzinhos? Por que são esses pastores diferentes dos demais humanos, feras que se entredevoram em busca de poder e riquezas? O que pretendem, usando sua candura e palavras melífluas, com o candidato a ovelha?
Após percorrer o Tribunal, parecia estar a medir as palavras que pronunciaria. Finalmente:
- O candidato à ovelha deseja, necessita, anseia, luta por essa suposta bondade, dessa promessa de vida eterna após a morte. Há uma troca justa: o dízimo pela fé habilmente construída em favor do sofrido humano que bate às portas das ekklesias. Todos os sacerdotes do mundo sabem disso muito bem. E vejo que os evangelistas souberam criar o Grujuem para uso geral, excluídas as ovelhas de Jeovah e os seus filhos judeus, que jamais abandonam seus rabinos.
O que se ouviu foi realmente surpreendente. Discussões acaloradas se travavam no Tribunal aéreo, nos helicópteros e no solo terrestre.
- Silêncio! - ordenou Jeovah. Continue - Mateus.
- Leio no meu evangelho 23,1-36 o que disseste - Mestre Jesus de Nazaré: “Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Serpentes! Raça de víboras! Como escapareis ao castigo do Inferno?”. Percebe-se que há concorrência entre os fariseus e você. E se notam ameaças e ódio contra esse grupo de religiosos. Diante dessas palavras, como poderemos admitir que esse romano, que matou com a espada a nosso irmão aqui presente, Tiago, seja tratado sem a severidade que usavas contra os fariseus, judeus como todos nós?
Mateus passou a mão nos grisalhos cabelos, suspirou e prosseguiu:
- Está escrito que milhares de pessoas, habitantes dessas três cidades, terão que ser queimadas e supliciadas por ordens tuas - Mestre. E tudo porque não acolheram tuas mensagens. Por que castigas tão severamente a essas pessoas, tu que és o símbolo da bondade, do perdão, da fraternidade?
Jesus de Nazaré:
- Não posso recordar-me de ter condenado os habitantes de Corozaim e Cafarnaum e de Betsaida. Quem escreveu isso foi você? Ou foram os tradutores do grego para outras línguas que se equivocaram ou mudaram o texto? Como poderia eu mandar queimar todas as pessoas, crianças, mulheres, velhos e pessoas justas que existiam nessas cidades? Eu, que trago a mensagem do amor?
Mateus:
- Mas está escrito. E também está escrito que causaste lesões corporais usando de um chicote, no templo. Isso é crime previsto em lei. Não se pode ter dúvidas que teu imenso amor não permitiria açoitar teus irmãos judeus que lá, bem ou mal, exerciam suas profissões O mais provável é que tu abraçarias esses comerciantes. Agora queres que nos bata no rosto novamente esse romano?
Jesus de Nazaré:
- Tens razão. Nada escrevi. Se eu realmente tivesse açoitado a esses mercadores, não seria o único ser humano sem pecado. Eu seria o contrário do que sempre preguei.
Jesus de Nazaré apanhou a Bíblia. Olhou para um imenso helicóptero que filmava o julgamento apesar do temporal que se armava e da noite que começava a dificultar todo o grande espetáculo bíblico.
- Tu - Evangelista Mateus - escreveste em 15,24-28 que eu teria dito: “Fui enviado para salvar somente as ovelhas perdidas de Israel e que não convém jogar aos cachorrinhos o pão dos filhos”. Eu estaria negando ressuscitar a filha de uma habitante da Cananéia, não judia, portanto. Uma pagã, uma gentia.
Para o assombro de todos Jesus de Nazaré arrematou:
- Segundo escreveste - teria eu deixado de ressuscitar essa estranha não judia. Eu teria me negado a ser bom, caridoso, fraterno. Se eu tinha esse extraordinário poder de ressuscitar seres humanos, não fazê-lo seria omissão de socorro, delito punido com encarceramento. E eu teria ainda deixado claro que os não-judeus não deveriam ser ressuscitados nem ajudados. Eu teria ressuscitado a filha da Cananéia, pagã, depois que essa mãe, desesperada, insistiu, mostrando que tinha fé em algo meu segundo escreveste. Ou seja, me descreves como um ser vil que deixaria morrer a filha da mulher, caso ela não se comportasse acompanhada de algo que chamas de fé.
Mateus nada contestou e Jesus de Nazaré:
- Essa descrição me mostra como um ser vil e cruel, Mateus. Realmente escreveste isto?
Mateus:
- Está escrito. Nada posso fazer. Talvez copistas tenham modificado o que escrevi.
Jesus de Nazaré:
- Mateus, tu também me descreves como um ser que não fala coisas verdadeiras.
- Como assim, Mestre?
Jesus de Nazaré:
- Escreveste no Capítulo 24 que eu teria dito que “Não passará esta geração sem que eu retorne das nuvens acompanhado dos anjos com estridentes trombetas e juntarão seus escolhidos e que nessa ocasião cairão estrelas”. Ora, Mateus, já se passaram dois mil anos e eu não retornei, salvo agora neste Dia do Juízo Final. Você não falou a verdade. Você mentiu. Você não tinha como prever o futuro.
- Mas Mestre - respondeu Mateus –, escrevi o que ouvi ou o que me foi dito. Que posso fazer se passou aquela geração e tu não voltaste?
Jesus de Nazaré:
- Estás afirmando que eu é que teria dito falsidades?
Mateus, visivelmente embaraçado:
- Não, não, Mestre. Talvez você tenha mudado de ideia e deixado essa volta para dois mil anos após, ou seja, para agora.
Jesus de Nazaré:
- Não, Mateus. A tua, sim a tua profecia é que falhou. Tem mais uma coisa. Você escreveu que o Reino de Jeovah e o meu viriam em pouco tempo, ou seja, enquanto muitos dos conterrâneos ainda estivessem vivos. E consta no final do seu Evangelho que eu teria dito, após minha ressurreição dos mortos, que teria enviado os apóstolos a evangelizar todos os povos do mundo, ou seja, lançar pérolas aos porcos, contrariando o que antes havias escrito. O que dizes?
- A parte final foi alterada - respondeu Mateus. Os tradutores e copistas alteraram essas mensagens, como já se constatou. Os pergaminhos e as cópias encontrados mostram isso. Nem os cachorros, nem os porcos, ou seja, os gentios, os não-judeus, deveriam obter a tua ajuda. E a promessa de que voltarias das nuvens ainda naquela geração, após a tua crucifixão, não ocorreu. Com isso os judeus conhecidos por ebionitas, se desiludiram e voltaram, como todos os demais judeus, a crer somente no seu milenar Jeovah.
Jesus de Nazaré:
- Mateus: estou passando por mentiroso. E o pior: estou sendo visto como um judeu que odeia os cães e os porcos. É preciso deixar claro que não há nenhum intuito depreciativo no que tu escreveste. Essas palavras eram meramente simbólicas, estou certo?
Mateus:
- Lamento - Mestre, mas é assim que está escrito.
Jesus de Nazaré:
- Não aceito as afrontosas descrições de minha vida como a que escreveste. Exijo que as consertes.
Mateus:
- Nem eu, Mestre. É impossível mudar o texto agora, lamento dizê-lo. A Bíblia Sagrada não comete erros e nem produz inverdades. As mudanças do meu texto ocorreram, dizem, por obra do Imperador romano Constantino, no ano 325 da Era atual. Mas isso pouco importa. Os dizimados preferem sempre acreditar em tudo que lhes é dito. Em troca dos dinheiros mensais eles obtêm a promessa que lhes agrada: a ressurreição. E tudo está previsto na Bíblia Sagrada. Peço, assim, Mestre, que não se apoquente com as contradições produzidas pelos sacerdotes.
O romano estava impaciente:
- Afinal, o julgamento vai ocorrer ou tenho que ficar a escutar essas discussões de judeus? Um cidadão romano não tem tempo a perder com ninharias.
Jeovah:
- Cale-se - romano! Não basta que mais de um milhão de judeus tenham sido mortos ou vendidos como escravos pelos romanos, nas revoltas dos anos 70 e 135, da Era atual? Não basta que milhões tenham sido mortos nos vinte séculos seguintes? Permaneça em silêncio ou te condenarei a penar com as mais dolorosas hemorroidas e chagas que já criei para os que me desafiam.
O soldado não se intimidou. Sacou de seu punhal, bastante enferrujado por dois mil anos sem uso, e golpeou anjos, arcanjos e os serafins que o seguravam. Foi solto pelas aves e despencou.
- Deixem-no! - ordenou Pedro. Estamos com o benefício bíblico da eternidade. Ele será julgado mais tarde. Ordeno que tragam para ser julgada Eva, a primeira mulher terrena, segundo o livro de Gênesis, escrito por Moisés.
Os anjos, por serem eternos, logo estavam recuperados dos ferimentos.
Enquanto isso alguns anjos Poderes subiram com um casal encontrado próximo à sinagoga. Estavam distraídos e não tiveram tempo de fugir. Foram depositados atrás dos tronos e ali aguardariam sua vez.
A Máquina noticiou: soldados de Átila, o Huno, haviam se enfrentado com soldados russos. As armas primitivas dos hunos – recém-fabricadas - não eram páreo para as armas modernas.
O caos reinava. Soldados de Napoleão, derrotados pelos ingleses, atacavam a esses militares igualmente ressuscitados. Soldados franceses e seus adversários alemães na Primeira Grande Guerra Mundial, ressuscitados, voltavam a combater.
Não chegava nenhuma notícia da Índia, da China, do Japão, do Oriente, da Austrália - na parte que diz respeito aos humanos conhecidos por aborígenes autochthon – e dos povos indígenas das Américas. Aparentemente a Bíblia Sagrada não tinha jurisdição sobre esses povos que possuem seus próprios deuses e profetas. Os escritores bíblicos não tinham conhecimento da existência dessas terras. Muito menos que habitavam um globo, uma esfera. Os romanos adoravam Invictus, o deus Sol.