Juízo Final: Odisséia dos Deuses
Capítulo 6
Trouxeram então um grupo de ressuscitados no domingo da ressurreição de Jesus de Nazaré. A maioria havia morrido muito enferma e voltara a viver miseravelmente até a nova morte. Agora ressuscitaram mais uma vez para cumprir com as regras bíblicas do Dia do Juízo Final. Não tinham sido beneficiados com o paradoxo, fenômeno que haveria de ser criado somente dois mil anos após, em um livro. Jesus de Nazaré:
- Foi Mateus que escreveu, em 27,51-53: “Eis que o véu do templo se rasgou em duas partes de alto a baixo, a Terra tremeu, fenderam-se as rochas. Os sepulcros se abriram e os corpos de muitos justos ressuscitaram. Saindo de suas sepulturas, entraram na Cidade Santa depois da ressurreição de Jesus e apareceram a muitas pessoas”. Lázaro ressuscitou por obra minha. Mas eu estava já morto quando vocês saíram dos túmulos, como o diz a Bíblia Sagrada. Quem operou essa ressurreição de vocês?
Eles se entreolharam e permaneceram em silêncio.
- Vocês ressuscitaram e ninguém se espantou com isso. Como vocês foram recebidos pelas suas famílias? Pilatos os convocou para explicar o grande acontecimento?
Novo silêncio. Jesus de Nazaré:
- Mateus, explique ao Juízo Final: quem te relatou que ressuscitaram muitos mortos no grande dia da cristandade? O simples ressuscitar de um só homem - Jesus de Nazaré - é motivo de alegria e espanto entre os dizimistas gentios cristãos. Quanto mais não deveria ser quando ressuscitassem muitos justos. Seria um fenomenal acontecimento, muito mais impressionante do que a ressurreição de um só. Em algumas bíblias se lê que os ressuscitados seriam pessoas rotuladas de santos, em evidente interpolação por copistas romanos.
Mateus:
- Certamente. Mas escrevi o que me relataram. Aliás, dizem que o publicano que você teria admitido como apóstolo, seria eu. E eu, nesse caso, seria testemunha ocular. Dizem que eu escrevi o texto no ano de 54 da atual Era. Isso ocorreu uns vinte anos após tua morte na cruz. Mas dizem historiadores que o primeiro evangelho foi escrito somente quarenta anos após a tua morte.
Jesus de Nazaré:
- Vamos ao que interessa para este julgamento. Lendo os demais livros do Novo Testamento, não se tem notícias dessa espetacular ressurreição múltipla. O que pretendias com essa criação, Mateus? Não vês que ela lança sombras sobre a ressurreição de Jesus de Nazaré? Não vês que ela faz com que seja minimizada e diminuída a ressurreição de Jesus de Nazaré? Não vês que tal fenômeno, o maior que pode nos sensibilizar, se banalizou com essas múltiplas ressurreições? E eu, quando saí da tumba de José da Arimatéia, bem que poderia ter encontrado esses justos ressuscitados na mesma data. Mas isso não se relata na Bíblia.
Mateus:
- Sou agora obrigado a repetir: quem escreve, escreve o que lhe aprouver.
Jesus de Nazaré:
- Sim, e quem lê, precisa entender o que se esconde atrás dos escritos. E, desde logo, temos que concluir: os sacerdotes têm a insuperável necessidade de convencer, de produzir relatos que construam, na cabeça dos destinatários, dos dizimistas, um sentimento capital para os fins deles - a fé.
Jesus de Nazaré se voltou para os justos ressuscitados:
- Voltemos ao julgamento. Vocês tiveram fé em mim?
- Não. Somos judeus e somente temos um único deus - Jeovah, aqui presente.
Um dos ressuscitados:
- Jovem filho da casa de Davi. Eu morri no sábado, enquanto teu corpo se decompunha no sepulcro de José da Arimatéia. Quero informar que, no dia anterior, sexta-feira, eu estava entre os judeus que pediam a tua morte, junto a Pôncio Pilatos. Ai de mim, se não o fizesse. Os rabinos de Jeovah a isso me obrigaram e eu concordava com eles. Jeovah não admitia outros deuses e muito menos a ti, que propalavas ser filho do Senhor dos Exércitos.
A surpresa foi arrebatadora. Havia uma testemunha ocular do julgamento de Jesus de Nazaré!
Jeovah sorriu, satisfeito. Aqueles eram seus fiéis judeus. Mas ele mal sabia que logo mudaria de humor.
Jesus de Nazaré:
- Estamos diante de um novo buraco narrativo, Mateus.
Todos se indagavam: o que seria agora? O Mestre:
- Vejam. No sábado, segundo dia da minha morte na cruz, eu estava inerme, morto, sepultado. O corpo que haveria de ser arrebatado quarenta e um dias após, estava desintegrado pela ação de microrganismos. Bilhões de meus neurônios viraram uma massa disforme. Quem ou o que providenciou na ressurreição de vocês, justos ressuscitados? Jeovah não o foi, já que ele ainda não decidiu se e quando terá vontade de ressuscitar o seu povo, Israel, como se pode ler nos demais escritos dos rabinos, meus colegas nos tempos em que eu vivia ainda no solo terrestre.
Mateus:
- Realmente tens razão novamente, caro Mestre. O meu texto é claro: as tumbas se romperam na sexta-feira, após tua morte e os ressuscitados somente saíram a caminhar por Jerusalém no domingo. E quem foi o autor dessa proeza certamente não tinha a menor ideia de quem era justo ou santo. Não teria como saber se alguma das ossadas pertencera a uma pessoa com essas qualidades. E eles tinham a faculdade de aparecer a muitos, como escrito está.
Jesus de Nazaré:
- O teu relato é inverossímil, Mateus. A ressurreição de Jesus de Nazaré teve que ser prevista por profetas, séculos antes, segundo dizes. Não é crível que, num estalar de dedos de narrador bíblico, muitos outros ressuscitem, assim sem mais nem menos. Vou dizer o que penso: os vários relatos dos evangelistas procuram, como Paulo de Tarso, criar fatos e testemunhas que possam dar ares de veracidade aos Evangelhos, esses livros escritos por quatro pessoas desconhecidas e das quais pouco se sabe. E vamos examinar isso mais tarde, com minúcias. E aparecer e desaparecer é uma qualidade que o Papa, no terceiro milênio, afirma ter somente havido uma vez em toda a história da humanidade: seria o paradoxo atribuído a Jesus de Nazaré. Nem Jeovah o possuiria, já que necessita de nuvens para vir falar com os terráqueos - sem ser visto.
Jeovah, prosseguindo o julgamento:
- Esses duplamente ressuscitados devem ser absolvidos, Jesus de Nazaré. Foram fiéis a mim e não merecem ser castigados com hemorroidas ou chagas ou de qualquer outra forma que aqui na Terra se queira impor ao meu povo.
- Bem sei - Ro’eh Yisrael, Pastor de Israel - respondeu o Mestre. Milhares de nossos irmãos foram castigados por você com essas enfermidades, como lemos nos livros judaicos hoje chamados de Velho Testamento e como nossos sacerdotes o ilustravam em nossas sinagogas, tendas de reunião e lugares altos, ou, ainda, altares.
Os apóstolos confabulavam. Pedro falou:
- Decidimos em conjunto. Não podemos concordar com a absolvição. Esses réus foram ressuscitados por ocasião da crucifixão de nosso Mestre Jesus de Nazaré. Eles devem gratidão a ele, portanto. Confessam que não creram nele. Ora, isso os impede de serem admitidos no céu e devem ser condenados ao fogo eterno na Geena. Esse é o nosso voto.
Os demais apóstolos concordaram com o voto. Mas foi Judas Iscariotes o que divergiu:
- Antes de proferir minha decisão, digam judeus duplamente ressuscitados: vocês estavam enterrados desde que ano?
- Eu morri no ano 575 antes de Cristo - respondeu um dos ressuscitados.
Judas Iscariotes:
- Não podias, portanto crer, já que não estavas vivo quando Jesus de Nazaré nasceu e morreu. Nem sequer foste agraciado com a mensagem cristã. Logo, se não creste por absoluta falta de oportunidade para isso, não podes ser condenado neste Juízo Final.
Os demais apóstolos concordaram e mudaram seu voto. Mas Tomé foi o que agora não estava conforme:
- Também julgo que nós apóstolos devemos absolver aos que creram e condenar aos que não creram. No caso desse réu, temos que verificar se ele realmente viveu cinco séculos antes de Jesus de Nazaré. Eu não posso concordar simplesmente porque ele me afirma algo. Você possui algum documento que prove a sua data de nascimento, ou certidão de óbito?
Nenhum deles possuía qualquer desses documentos. Eles eram enterrados sem esses papéis e, passados dois milênios, os papiros poderiam ter resistido, mas, infelizmente nada possuíam.
- Eu duvidei e exigi que Jesus de Nazaré me exibisse os furos e o corte no lado em suas mãos. Agora meu pensamento não é diferente. Não posso absolver a pessoas que não tenham sido crentes, após terem sido doutrinados, o que pode estar acontecendo. Exijo que produza a prova de seu nascimento e da primeira vez em que morreram.
Houve agora um grande silêncio. O apóstolo Tomé estava com a razão. Esses réus podiam estar mentindo. Mas, enviá-los ao Inferno ou à terrível Geena de Jerusalém poderia ser uma grande injustiça. Viver eternamente nas fornalhas da Geena, sendo inocentes - isso era intolerável para todos os julgadores. Jesus de Nazaré interveio, finalmente:
- Está escrito que eu estive em Israel para salvar os ímpios e pecadores e não os justos. Logo, os réus preenchem, de qualquer forma, os requisitos para a absolvição.
Tomé, o apóstolo judeu que possuía um sósia que ostentava o título de São Tomé, outorgado pelos romanos:
- Não! Perdoe Mestre, mas há outro impeditivo. Esses ressuscitados viveram após a morte de Jesus de Nazaré! Logo tomaram conhecimento da sua mensagem! Ao ressuscitarem eles devem ter ficado obviamente espantados e curiosos para saber as causas da sua ressurreição! E, obviamente, devem ter entrado em contato com os sacerdotes judeus e com os apóstolos, ou seja, conosco! Isso aconteceu? -perguntou Tomé, dirigindo-se aos ressuscitados no ano trinta e três da Era atual.
- Não posso informar - respondeu um deles. Seria interessante que fossem consultados os sacerdotes judeus, as autoridades da época e quem escreveu esses textos.
Tomé voltou a falar:
- Não há qualquer registro na Bíblia a respeito da vida desses ressuscitados após o fenômeno ocorrido. Isso é muito suspeito para mim e eu só creio mediante provas.
- Mas nossos parentes estavam todos mortos, Tomé - falou um deles. Já se tinham passado mais de um ou mais séculos após nossa primeira morte. Nossas famílias não mais existiam. Estavam todas nos cemitérios e não foram agraciadas com uma ressurreição, como nós. As pessoas que nos viam não sabiam quem éramos. Eu estava muito doente e morri poucos dias depois, novamente.
Tomé:
- Vocês tiveram a suprema sorte de receber esse prêmio. A Bíblia não informa quem foi o responsável por isso. Mas também não esclarece se tiveram o mesmo destino de Jesus de Nazaré, ou seja, serem arrebatados para o alto. A ressurreição foi inútil. Ninguém mais soube de vocês, aparentemente. E, ainda, não foram arrebatados, morrendo de novo, exatamente como aconteceu com Lázaro. Para afastar dúvidas, determino que sejam ouvidos os sacerdotes judeus da época. Tragam-nos! -ordenou e logo uma dúzia de anjos Potestades, que estavam de plantão, partiram, trazendo-os. Saudaram respeitosamente a Jeovah e nenhuma atenção dedicaram aos demais julgadores. Tomé indagou, sem perda de tempo:
- Vocês tomaram conhecimento da existência desses ou de outros ressuscitados, ocorridos, segundo a Bíblia, no ano trinta e três, por ocasião da morte de Jesus de Nazaré?
Nada responderam, limitando-se a fitar Jeovah. Tomé, encolerizado:
- Por que não respondem? Não sou eu um judeu como vocês? Não respeitam aos juízes das Doze Tribos de Israel?
Sem mover um músculo, os sacerdotes ignoraram as perguntas que lhes eram feitas. Jeovah interveio:
- Exijo que respondam a mim. Além da ressurreição de Jesus de Nazaré, vocês tiveram notícias de outras ressurreições?
- Baruch Adonai leolam amen veamen. Baruch Adonai mitsion, shochen Ierushalayim halelulá. Com grande honra me dirijo a vós, grande Senhor dos Exércitos de Israel. E respondo com muito prazer. Jamais vimos nenhum ressuscitado, mesmo porque isso nunca foi previsto por vós, ó grande Jeovah.
Jeovah - Ro’eh Yisrael – Pastor de Israel:
- Sois meus fiéis sacerdotes, fiéis seguidores das lições que deixei com Moisés. Estais aqui ressuscitados, neste assim chamado Dia do Juízo Final por título criado por judeus constantes do Novo Testamento. Jamais eu autorizei qualquer ressurreição. No entanto, já que aqui estais nada mais me resta do que seguir os caminhos bíblicos. Digam: deram falta de corpos e violações de túmulos em seus cemitérios?
- Nunca tivemos notícia disso, embora não seja impossível, já que existiam centenas de cemitérios em Israel.
Jeovah mandou chamar Pilatos e Herodes. A mesma pergunta.
Pilatos, visivelmente contrariado:
- Nunca me foi informado que algum dos túmulos sob minha jurisdição houvesse sido violado ou que houvesse dele saído algum ser humano caminhando. Obviamente que isso teria sido um acontecimento de grande repercussão e teria que ser comunicado ao imperador de Roma. Tal pessoa deveria certamente ser objeto de estudos e de pesquisas, mais ainda se fossem vários os mortos ressuscitados - como agora me é informado.
Herodes acenou afirmativamente, concordando com Pilatos.
Tomé, apóstolo também conhecido por Dídimo, voltou-se para os ressuscitados. Afinal a Bíblia é considerada infalível pelos romanos e as demais seitas derivadas. Voltou-se para Jeovah e disse:
- Jeovah – Tzur Yisrael – Rocha de Israel, bem sabemos que jamais admitiste a ressurreição. Por minha interpretação bíblica, no entanto, esses homens ressuscitaram. Está escrito por Mateus. Julgo que devem ter sua vida melhor pesquisada, já que podem ser admitidos no céu se efetivamente creram também em Jesus de Nazaré.
- Tomé, és um judeu que frequentavas a sinagoga ou o templo, não importa. Não admito que contraries minhas ordens. Eles não adotaram outros deuses. Logo devem ser absolvidos por mim -respondeu Jeovah.
Tomé sentia-se um importante juiz. Os holofotes do mundo estavam sobre ele.
Jeovah:
- Mas creste nos meus sacerdotes. E me temias. Como queres agora mudar?
- Porque a mensagem de Jesus de Nazaré me pareceu melhor. Ele sempre ensinou a amar e a perdoar. Você, ao contrário, somente nos impunha regras e castigos terríveis e - o que é pior - nunca nos prometeste expressamente a ressurreição após nossa morte. Pelo menos é assim que Moisés e os demais sacerdotes escreveram.
Jeovah, muito irritado com aquele desafio que lhe era feito:
- A minha ira recaia sobre você. Sofrerás o castigo das hemorroidas, das chagas, dos dartros, da sarna e dos tumores, como já castiguei tantas e tantas e se lê em Deuteronômio 28,27 e outros escritos de Moisés no Pentateuco, no Velho Testamento.
Tomé não parecia ser aquele apóstolo tímido e desconfiado que exigira de Jesus de Nazaré a visualização do buraco e marcas remanescentes nas mãos de uma ressurreição defeituosa. E, com altivez e desenvoltura, elevou-se e foi até Jeovah:
- Não temo suas vinganças. Creio na bondade de Jesus de Nazaré. E quero que saiba: ninguém mais, após a ressurreição agora ocorrida, tem qualquer medo da morte. Somos eternos. Está escrito.
Jeovah:
- Não leste os livros do Pentateuco? Não te lembras o que escreveram sobre meus poderes? Não leste quantos milhares mandei passar pela espada? Ordeno que te submetas.
Tomé:
- Sou agora santo. Mesmo que esse título me tenha sido dado pelos nossos terríveis inimigos romanos, eu aqui estou como juiz, exatamente como está escrito. Quero também te dizer que meu mestre, meu deus, Jesus de Nazaré, jamais foi um dizimador como você.
Jeovah pareceu não entender:
- Dizimador? Eu, Jeovah, o Senhor dos Exércitos, Avinu Malkenu? Pois eu somente dizimei os inimigos de Israel e aos judeus que me desagradaram.
- Não é isso, Senhor dos Exércitos. Dizimadores são todos os que vivem dos dízimos fornecidos por ovelhas de um rebanho humano. Esses dízimos servem tanto para o sustento dos sacerdotes, como para o enriquecimento das organizações religiosas a que pertencem. Nos dois Testamentos isto está claramente exposto pelos sacerdotes.
Agora é o mundo todo que se viu diante da perplexidade. O que pretendia dizer o apóstolo judeu, fiel seguidor de Jesus de Nazaré?
Continuou o perspicaz e destemido Tomé:
- Dizimadores são os que vivem graças às contribuições dos seus seguidores. Não ordenaste – pelo menos é o que escreveram Moisés e teus demais adeptos judeus – que os sacerdotes devem receber as primícias e tendo que alimentar-se com a melhor parte dos bois, dos cordeiros, dos azeites de oliveiras, dos vinhedos, dos trigais, que são fornecidos e depositados sobre os altares dos templos?
Jeovah:
- Antes de te aniquilar quero que saibas: não foi Moisés que me inventou ou criou. Jeovah já existia antes da criação do universo. Como ousas me desafiar?
Tomé:
- Porque és produto do que relatou um dizimador. Dízimo é o que os sacerdotes querem e têm direito por lei escrita. Com isso se tornam poderosos. E biblicamente gloriosos. Cabe perguntar de que foste feito, se nada existia? E quem te fez?
- Certamente. Está escrito que os sacerdotes devem receber os dízimos. Caso contrário, como iriam administrar os templos e as sinagogas? E quanto à sua pergunta: surgi graças aos escritos de Moisés. É uma lástima que ele não tenha explicado quem me construiu - quem me criou. Quem é meu pai? Com que átomos fomos feitos se nada existia? E quem me deu a capacidade de engravidar mulher para gerar os filhos que Moisés relata terem descido?
- Permita que volte ao tema anterior, grande Jeovah. Moisés quis afastar as concorrências sacerdotais para garantir aos levitas o dízimo? Por isso era necessário destruir o bezerro de ouro que criaram para um novo deus?
- Obviamente. Qualquer concorrência enfraqueceria os sacerdotes eleitos pelas palavras de Moisés. Não vejo mal algum nisso.
- Claro. Todos os dizimadores leram o que Malaquias escreveu na Bíblia Sagrada, no capítulo 3, e que teria sido ordem tua: “Pagai integralmente os dízimos ao tesouro do templo, para que haja alimento em minha casa. Por que procurais enganar-me no pagamento dos dízimos e nas ofertas”?
- E eu, segundo os escritos de Moisés, digo em seguida também, nesse livro: “Eu, Senhor dos Exércitos, para vos beneficiar afugentarei o gafanhoto, que não destruirá mais as vossas vinhas”.
- Malaquias foi um excelente dizimador, portanto – exclamou Tomé. E escreveu sobre terríveis castigos para os que lhe sonegassem os dez por cento de seus ganhos: há diferença entre o que serve o Senhor dos Exércitos e quem não o serve. Todos os que cometem o mal serão queimados nas fornalhas supostamente eternas da Geena, em Jerusalém.
Tomé foi interrompido pelo apóstolo Mateus:
- Os dizimadores somos todos nós – confessou Mateus. Fomos obrigados a isso pelo Senhor dos Exércitos, por Jeovah, aqui presente – disse olhando para o trono em que estava sentado o deus de Israel.
- Explique melhor isso, Mateus.
- No mesmo livro que citaste, de Malaquias, no capítulo dois, esse narrador escreveu o que Jeovah ordenou a ele: "A vós, ó sacerdotes, dou esta ordem: se não me ouvirdes, se não tomardes a peito a glória de meu nome – diz o Senhor dos Exércitos – lançarei contra vós a maldição, vou abater vosso braço, espalhar-vos-ei esterco no rosto" – respondeu Mateus.
Todas as atenções estavam com Mateus e ele arrematou:
- Leio também que Jeovah disse a Moisés que a tribo de Levi teria o poder sacerdotal para sempre.
- Dizimadores são todos os que usam o Grujuem! – bradou Jeovah irado. Sejam eles romanos ou pertencentes a outros povos! Dizimador é Paulo de Tarso! Dizimador é Pedro.
Die Maschiene exibiu : “Grujuem – Grupo de Judeus Emprestados. São os vinte e dois personagens bíblicos usados com grande sucesso por milhares de pessoas que fundam seitas cristãs. Geralmente alugam um local e anunciam a salvação. Logo ovelhas surgem sequiosas de ajuda. O líder então usa da Bíblia para ler as passagens que possam emocionar os crédulos, dar-lhes alento e promessas de vida eterna e sucesso em suas profissões. Deles obtêm, então, diária ou semanalmente, seu sustento e logo exibem automóveis novos”.
Yeshua olhou serenamente para Jeovah, Ro’eh Yisrael – Pastor de Israel:
- Não deverias acusar assim aos meus adeptos. Não exigiram primícias para satisfazer a Jeovah ou a quem quer que seja.
- Não? - esbravejou Jeovah. E o que escreveu o próprio Paulo de Tarso sobre isso? Não leram com atenção a carta que ele remeteu a Corinto no seu capítulo nove: “Dê cada um conforme o impulso do seu coração”. Não leram em I-Coríntios que no primeiro dia da semana, os adeptos devem separar o dízimo ou “o que puderam poupar e para que não esperem a minha chegada para fazer as coletas, e, se valer a pena que eu também vá a Jerusalém com vossa oferta, irei junto”?
Jesus de Nazaré estava agora aparentemente surpreso. Após sua morte voltou a se registrar a existência de dizimadores. Mateus interveio:
- Sim, está escrito que Paulo de Tarso recolhia dízimos, assim como o fizeram sempre os sacerdotes judeus. A única diferença é que agora esse romano utilizava o Grujuem para obter os dízimos. Paulo não recolhia o dinheiro por ordem de Jeovah, nem enviava para nuvens as coletas. O ex-soldado a serviço dos romanos fazia tudo por sua conta e sempre respaldado por amplas e claras autorizações da Bíblia.
Fazia muito calor. Somente havia nuvens cirrus, a vinte mil côvados de altura. Os deuses Jeovah e Jesus de Nazaré observavam essas altas nuvens ao mesmo tempo em que se entreolharam – haviam visto uma mulher montando um anjo.