Juízo Final: Odisséia dos Deuses
Capítulo 38
Jesus de Nazaré foi até Pedro, aquele que subira ressuscitado como o primeiro Papa. O outro Pedro, aquele que já estava com o séquito do Tribunal em Roma, aquele que julgaria as doze tribos de Israel, esse permanecia em seu trono.
- Observe o que disse o Papa: os adeptos não são obrigados a doar nem dízimos nem outros bens. O fazem espontaneamente.
- Concordo plenamente, Mestre - respondeu Pedro.
- Não, Pedro! Você não pode dizer isso. Você escreveu enquanto não tinha ainda se unido aos romanos, em Atos 2,42: "Perseveravam eles na doutrina dos apóstolos e de todos se apoderou o temor pelos prodígios e milagres, vendiam as suas propriedades e os seus bens". E em 4,33: "Com grande coragem os apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus e todos os que possuíam terras ou casas vendiam, e traziam o preço do que tinham vendido e depositavam-nos aos pés dos apóstolos, assim fez Barnabé, levita que vendeu um campo que possuía e o valor da venda foi depositado aos pés dos apóstolos".
Aproximou-se Jesus de Nazaré:
- E você fez com que Ananias e sua mulher Safira vendessem um campo, ficando com o dinheiro, causando a morte dos dois porque eles retiveram parte do preço, causando grande pavor aos seus dizimistas, como se lê em 5,1-11.
Pedro respondeu:
- Mas nós distribuíamos o dinheiro recebido.
Jesus de Nazaré:
- E quem fiscalizava isso tudo? E eu ensinei a incutir esses medos? Quem vende sua casa comete o maior dos desatinos. Sua família, onde ficará? Sob o relento, sob a chuva? Promessas de receber cem vezes mais, posteriormente? Ameaças de fogo, fornalhas, sofrimentos terríveis, isso é comportamento de quem prega o amor?
Pedro:
- Mas você dizia isso, Mestre! Basta ler os Evangelhos!
Jesus de Nazaré:
- Nunca escrevi nada, Pedro. Os medos foram criados por vocês. O pavor para os que não se tornassem parte dos seus rebanhos é inaceitável. Vocês escreveram e agiram exatamente como o faziam os sacerdotes descritos no Velho Testamento! Minha mensagem sempre foi o amor, a fraternidade, o perdão. Como poderia eu produzir ameaças de torturas em fornalhas, eu, o arauto do bem?
Pedro:
- Pois vou ler o que está no Velho Testamento, Mestre. Sei que você nada escreveu. Mas os sacerdotes de Jeovah escreveram, no Velho Testamento, em Números 18,28: "Desse modo, fareis também vós uma reserva devida ao Senhor de todos os dízimos que receberdes dos israelitas, e esta oferta reservada para o Senhor, vós a entregareis ao sacerdote Aarão". Não está claro que o teu pai Jeovah, pelos escritos de um sacerdote judeu, ordenou que os sacerdotes devem receber dízimos, no caso, Aarão? Obviamente que estes sacerdotes não têm como enviar moedas, trigo, cordeiros e terras para os céus. Aarão ficará com tudo. E ficava com terras de judeus que cometeram graves pecados, concedendo o perdão e absolvendo-os.
Pedro apanhou novamente a Bíblia Sagrada:
- Paulo de Tarso recolhia os dízimos que lhe eram dados espontaneamente. Vou ler a carta que ele enviou aos Filipenses, em 4,16-19: "Já por duas vezes mandastes para Tessalônica o que me era necessário. Não é o donativo em si que eu procuro, e sim os lucros que vão aumentando a vosso crédito. Recebi tudo, e em abundância. Estou bem provido, depois que recebi de Epafrodito a vossa oferta: foi um suave perfume, um sacrifício que Deus aceita com agrado".
- Continue Pedro - falou Jesus de Nazaré.
Pedro, novamente com a Bíblia Sagrada:
- Leio em Malaquias 3,8: "Pode o homem enganar o seu Deus? Por que procurais enganar-me, vós, o povo todo? E ainda perguntais: Em que vos temos enganado? No pagamento dos dízimos e na contribuição. Trazei o dízimo integral para o tesouro a fim de que haja alimento em meu templo. Se assim for feito, sereis abençoados e mandarei que os gafanhotos não vos destruam os frutos da Terra".
- Como se vê - continuou triunfalmente Pedro - caro Jesus de Nazaré, Malaquias descreveu reprimendas que suas ovelhas recebem - exatamente como as que eu descrevi no caso de Ananias e sua mulher. O meu relato causou grande temor entre as minhas ovelhas. Sonegar dízimos sempre foi e sempre será um grande desrespeito. Veja as riquezas incalculáveis que a igreja romana amealhou. Possui terras, Bancos, castelos suntuosos, ouro e no Vaticano estão obras de arte avaliadas em muitos bilhões de euros e outros tantos dracmas. Um terço das propriedades da Itália, França, Espanha e outros países pertencem à Igreja do Vaticano.
Jesus de Nazaré:
- De fato, Pedro. Relatam assessores que igrejas não romanas, adotando o Grujuem, atualmente possuem, só uma delas, em torno de dez mil pastores em mais de cem países e que seus dízimos mensais ultrapassam milhões de dólares, essa moderna moeda em uso por toda parte. E me dizem que existem milhares de seitas religiosas rotuladas de evangélicas que adotam o Grujuem, como bem lembras.
Pedro:
- Moisés indicou a tribo de Levi para que nomeasse - em cada cidade, os sacerdotes. Era uma classe de privilegiados, evidentemente. Quem não gostaria de viver no ócio e receber as contribuições dos melhores produtos colhidos? Quem não gostaria de ser o cidadão mais importante e de mais poder, em cada localidade? E isso não se constituía em favor. Era o próprio Jeovah que o ordenara, segundo Moisés. Leio sobre o tema em Números 18,21: "Quanto aos levitas, dou-lhes como patrimônio todos os dízimos de Israel pelo serviço que prestam na tenda de reunião". Moisés obviamente indicou Aarão para ser o primeiro sacerdote. Era irmão de Moisés.
Pedro parecia exultante:
- Por que nós, os seguidores de Jesus de Nazaré, haveríamos de contrariar o texto bíblico? Jeovah punia os sacerdotes que recusassem o dízimo! Lemos em Hebreus 7,5: "Os filhos de Levi, revestidos do sacerdócio, na qualidade de filhos de Patriarca, têm por missão receber o dízimo legal do povo, isto é, de seus irmãos". Pois lemos muito mais em II-Reis 12,4: “Joás disse aos sacerdotes: Todo o dinheiro consagrado, que for trazido ao templo do Senhor, assim como o dinheiro que for entregue por todo israelita recenseado, e o que provir do resgate das pessoas, após avaliação, como também os dons espontâneos oferecidos ao templo do Senhor”.
Continuou Pedro, o primeiro Papa e aparentemente o único que havia casado. Possuía mulher com pelo menos um filho em Cafarnaum. Um Papa casado. E judeu. Cujos descendentes seriam mortos aos milhões nos dois mil anos que se seguiram.
- E lemos em Neemias 10,38: “Do mesmo modo, de levar aos sacerdotes, nas salas da casa de Deus, as primícias de nossos alimentos, nossas oferendas, assim como dos frutos de todas as árvores, do vinho e do azeite; e de entregar o dízimo de nosso solo aos levitas, que estavam encarregados de transportá-lo para todas as nossas aglomerações agrícolas”.
E em 12,44 - continuou Pedro: “Naquele tempo, estabeleceram-se homens para guardar as salas que serviam de depósito para as oferendas, as ofertas reservadas, as primícias e os dízimos, onde foram recolhidas, em suas diversas divisões, as partes assinaladas pela lei aos sacerdotes e aos levitas. O povo de Judá alegrou-se, vendo em seus postos os sacerdotes e os levitas”. Em Neemias 13,12: “Então todo o Judá trouxe para os armazéns o dízimo do trigo, do vinho e do óleo”.
Jesus de Nazaré dirigiu-se ao agora a um sacerdote ricamente vestido e que viera visitar o Tribunal:
- Inicialmente, seja benvindo! Pergunto: Papa, julgas justo exibir essa opulência? Não escreveram os evangelistas que os ricos dificilmente receberão o Reino de Jeovah? Não é pobreza uma qualidade de vida a ser respeitada? Julgas justo receber dízimos de pobres para ostentares vestes e templos opulentos e repletos de preciosas joias, ouro e pedras preciosas? Ou a Bíblia autoriza essa ostentação, como se lê em Êxodo 28: “Eis as vestes que deverão fazer: um peitoral, um éfod, um manto, uma túnica bordada, um turbante e uma cintura. Tais são as vestes que farão para teu irmão Aarão e para os seus filhos, a fim de que sejam sacerdotes a meu serviço”; e em muitas outras citações.
- Como podes ver - respondeu - são os judeus os que criaram as regras consagradoras que ostentam bispos, cardeais e o Papa. Os romanos as copiam e adaptam como lhes convém.
Jesus de Nazaré parecia resignado:
- Vejo que dizimar e ostentar riquezas se generalizou após minha morte. E vejo que tudo parece perfeitamente permitido e até incentivado tanto pelo Velho como pelo Novo Testamento. E vejo que ser sacerdote é uma profissão por todos ambicionada. Os pastores necessitam usar das ameaças, tal como Paulo de Tarso e os demais. O Diabo é o personagem mais usado nos programas de televisão. Quando alguém acusa o sacerdote de cometer extorsões, logo o acusador é apontado para seu rebanho de ovinos como sendo o Diabo. Não falam em Anjo Caído. Usam o termo mais contundente, pejorativo. Vejo que isso é prática permanente entre os sacerdotes de Jeovah no Velho Testamento, imitada a prática no Novo Testamento.
- Perdoe - mas os romanos nada mais fazem do que cumprir regras impostas pelos narradores supostamente criadas por Jeovah e por Jesus de Nazaré para as práticas dizimatórias.
Jesus de Nazaré secou o suor que escorria de sua testa:
- Mas quero agora examinar o tema das ameaças que teriam partido de mim aos que se negam a crer. Vou ler Mateus 23,33: "Serpentes! Raça de víboras! Como escapareis ao castigo do Inferno?" Essas palavras injuriosas teria dito Jesus de Nazaré? E teria dito que os judeus, meus irmãos, iriam arder em fornalhas, queimados vivos? Como ousaste escrever isso?
Mateus:
- Mestre - criei exatamente o mesmo texto que produziram os sacerdotes de Jeovah, tal como Malaquias, que acabamos de examinar. A única diferença é que os que se negam a crer queimarão nos fornos das lixeiras da Geena ou no Inferno, no interior do globo terrestre, após suas mortes. Os judeus que viveram nos tempos do Velho Testamento, antes do Ano Um da atual Era, seriam queimados enquanto vivos ainda, na superfície terrestre. Lembro que os castigos descritos pelos rabinos de Jeovah, como já vimos, são bastante mais cruéis: morte por chagas enviadas por Jeovah, morte por úlceras, tumores, por lepra, por tísica, por hemorroidas, por queda de granizo, por pragas várias, por golpes de espadas flamejantes desferidos por anjos enviados das nuvens.
Jesus de Nazaré:
- Jeovah realmente tinha que ser cruel. Os israelitas e seus sacerdotes continuamente trocavam de divindades. Sacerdotes fiéis a Jeovah escreviam e liam aos judeus essas ameaças. Baal era o principal dos concorrentes dos pastores, rabinos. Havia ainda Emad, Arfad, Ana e Ava, deusas de Sefarvaim, Asserá.
Abriu a Bíblia:
- Vou ler outras crueldades que escreveste Mateus, em 24,14 e seguintes, como tendo sido ditas por mim em 24,11-34: "Levantar-se-ão muitos falsos profetas e seduzirão a muitos. E, ante o progresso crescente da iniquidade, a caridade de muitos se esfriará. Entretanto, aquele que perseverar até o fim, será salvo. Este Evangelho do Reino será pregado pelo mundo inteiro para servir de testemunho a todas as nações, e então chegará o fim, os habitantes da Judéia fujam para as montanhas”.
- Novas ameaças, Mateus. Mandas fugir o meu povo! Mandas acovardarem-se meus irmãos! E será o fim! – dizes. A massa ignara de então cumpria com suas obrigações. Obrigações – sim, esse é o termo que é incutido nas ovelhas do seu rebanho, como se lê em I-Timóteo 4,20: “Os que faltam com as suas obrigações, repreende-os diante de todos, para que também os demais se atemorizem”. Se atemorizem! Obrigações é termo de uso comum por parte dos pastores.
Jesus de Nazaré:
- “Ai das mulheres que estiverem grávidas ou amamentarem naqueles dias! No inverno e no sábado a tribulação será tão grande como nunca foi vista desde o começo do mundo até o presente, nem jamais será. Se aqueles dias não fossem abreviados, criatura alguma escaparia, mas por causa dos escolhidos, aqueles dias serão abreviados. Como o relâmpago, parte do oriente, assim será a volta do Filho do Homem. O Sol escurecerá, a Lua não terá claridade, cairão do céu as estrelas e as potências dos céus serão abaladas. Então aparecerá no céu o sinal do Filho do Homem. Todas as tribos da Terra baterão no peito e verão o Filho do Homem vir sobre as nuvens do céu cercado de glória e de majestade. Ele enviará seus anjos com estridentes trombetas, e juntarão seus escolhidos dos quatro ventos, duma extremidade do céu à outra. Não passará esta geração antes que tudo isso aconteça".
Jesus de Nazaré respirou fundo:
- Verifico que me atribuem poderes para prever o futuro, eu, o humano, filho da amada Maria e filho de Jeovah, do Espírito Santo, da sombra que teria coberto minha amada mãe, ou, ainda de José, como vocês, evangelistas, escreveram. Mas passou a geração de seres humanos que viveram na metade do primeiro século da Era atual, ou seja, há dois mil anos. Constatamos que, primeiro, vocês evangelistas se teriam equivocado ou cometeram inverdades para os seus leitores. Segundo, Jesus de Nazaré não possuiria poderes para predizer, profetizar, corretamente. Terceiro, teriam os copistas dos Evangelhos esquecido de modificar esse texto?
Jeovah havia se retirado do Juízo Final. Foi conduzido por seis robustos anjos conhecidos por Potestades para seu reduto preferido, nas nuvens conhecidas por cirrus, situadas a dez quilômetros de altura. Jesus de Nazaré:
- Escrevem que a caridade esfriará. Ou seja, os dízimos serão reduzidos. Escrevem que "entretanto aquele que perseverar até o fim, será salvo". Aqui vocês redigem um texto que dá a entender que haverá o prêmio de uma salvação para os que continuarem a ser caridosos, um incentivo à dizimação.
Jeovah retornou. Foi colocado suavemente sobre o seu trono e acenou para que continuasse o julgamento, enquanto seu querubim predileto fechava as quatro longas asas e se postava, ao fundo, para observar seu amo. Jesus de Nazaré:
- Escreveu Mateus, como já referi antes: "Este Evangelho do Reino será pregado pelo mundo inteiro para servir de testemunho a todas as nações, e então chegará o fim, os habitantes da Judéia fujam para as montanhas". Este texto certamente foi introduzido, interpolado, pelos romanos ao adotarem o uso do Grujuem. Eu não teria dito que os apóstolos não devem dar pérolas aos porcos? E não teria ordenado que os cães, os gentios, os não-judeus, não deveriam receber a salvação, seja lá o que isso significa?
Os evangelistas permaneciam em silêncio. Prosseguiu:
- "O Filho do Homem virá sobre as nuvens. Ele enviará seus anjos com estridentes trombetas, e juntarão seus escolhidos dos quatro ventos, duma extremidade do céu à outra", leu novamente na Bíblia Jesus de Nazaré. Vocês escreveram que Jesus de Nazaré foi arrebatado para as nuvens, quarenta dias após ressuscitar, logo depois da sua crucificação. E agora dizem que ele virá sobre nuvens.
- Quem irá juntar escolhidos, serão os anjos! Não mais haverá julgamento, Juízo Final! Haverá uma mera escolha! E vocês esqueceram que nesse dia do Juízo Final devem ressuscitar todos os que haviam morrido até aquele dia! De que forma esses anjos farão a seleção, já que, atualmente cem bilhões de ressuscitados devem ser separados por menos de quinze milhões de anjos que supostamente moram nas nuvens com Jeovah e demais habitantes celestiais, aqui sobre Jerusalém? Voarão até o fim do mundo, a belíssima Patagônia? Voarão até São Paulo, onde terão que escolher entre dezoito milhões de vivos e outros tantos de ressuscitados? Dizem-me que esse número de anjos foi anunciado por um dizimador romano elevado ao nível de santo, há alguns séculos. Como ele conseguiu contar essas criaturas, da Terra, não está informado em parte alguma, nem na Máquina.
Jesus de Nazaré foi novamente até Mateus:
- Afinal, Mateus - Jesus de Nazaré não é um dos julgadores? Como você pôde dizer que haveria Anjos Escolhedores? Você esqueceu que havia escrito que Jeovah viria julgar, também, os humanos vivos e os ressuscitados? Você se deslembrou que está escrito na Bíblia Sagrada que doze tronos com os doze apóstolos desceriam das nuvens para julgar as Doze Tribos de Israel?
O silêncio continuava. A nevasca se tornava mais forte, mas Jesus de Nazaré continuou o julgamento:
- Vê-se claramente que vocês querem impressionar e atemorizar os seus candidatos a ovinos. Vocês lhes dizem, em seus escritos, que as estrelas cairão e que a descida do céu, por parte de Jesus de Nazaré, será como um relâmpago. Atemorizam até mesmo as mulheres grávidas! Mandam os pobres judeus que residem na Judéia fugirem para as montanhas! E escrevem que "então será o fim". O Criador de tudo bíblico e seus filhos celestiais jamais poderiam ignorar que as estrelas são milhões de vezes maiores do que o globo terrestre! Vocês sequer sabiam que a Terra é uma esfera!
Um dos helicópteros começou a soltar fumaça e rapidamente partiu. Chuva fria castigava severamente a todos. Prosseguiu o Nazareno:
- Então será o fim? O fim de quê, escreventes evangélicos? A Terra ficará deserta? Todos os vivos e os ressuscitados serão arrebatados aos céus, como Jesus de Nazaré, e a outra parte, a que não for escolhida ou separada pelos anjos, será introduzida em um vulcão ativo, com o destino Inferno? Cinquenta bilhões de humanos ressuscitados serão escolhidos? A metade? Serão arrebatados, elevados para as nuvens, para o céu ou para os céus? Ou na pequena fornalha da Geena, onde não cabem mais do que uma ou duas dezenas de condenados e onde o estoque de madeira deveria ser de centenas de bilhões de toros e lascas de madeira para alimentar esses rústicos instrumentos de incineração do lixo de Jerusalém e de crianças sacrificadas por sacerdotes impiedosos e cruéis?
Parecia muito triste o grande mestre judeu, aquele que foi chamado de Rei dos Judeus, o Messias, o Cristo, o Salvador. Aquele jovem judeu que foi combatido pelos muitos sacerdotes judeus mencionados no Novo Testamento.
- Você escreveu - Mateus: será o fim - continuou Jesus de Nazaré. Ou seja, a Terra ficará deserta. Todos subirão para viver em nuvens ou irão viver no interior do globo terrestre, mergulhados na lava, no magma, onde a temperatura é tão elevada que dissolve e faz desaparecer em segundos qualquer ser que lá seja jogado. Não te parece isso um absurdo, Mateus? Conduzirem-se para as nuvens bilhões de humanos e para a Geena o restante?
- Nunca te ocorreu – prosseguiu - a ti e aos dizimados, que nas nuvens não há comida e água suficientes para viabilizar a vida desse descomunal número de pessoas? Nunca te ocorreu que os corpos dos que não foram escolhidos desapareceriam, queimados nas fornalhas da lixeira – Geena – ou no Inferno, deixando então de serem eternos, contrariando o texto bíblico? Nunca te ocorreu, Mateus - que a Terra seria imediatamente reabitada pelos que descem do céu?
- Nunca te ocorreu que todos voltariam imediatamente, fugindo do frio, da fome e da falta de oxigênio, principalmente nas nuvens mais altas, os cirrus? Nunca te ocorreu que os anjos ditos rebeldes teriam descido, ou caído? Nunca te ocorreu que não existem anjos suficientes para ficarem segurando esses escolhidos no ar? Nunca te ocorreu que a Terra seria o melhor lugar para viverem os escolhidos pelos anjos, ou, os julgados no Juízo Final? Nunca te ocorreu que os anjos seriam abatidos pelas armas dos humanos, logo que condenados, ou escolhidos para o fogo? Ignoravas que os humanos possuiriam lança-chamas, metralhadoras, lança-mísseis? Não conseguiste prever tudo isso?
- Há ameaças - continua o Mestre. Escreves ameaças contra as mulheres que amamentam -Mateus. E atribuis a mim essas injúrias torpes, ultrajantes, cruéis. Eu, o arauto do amor, da fraternidade, do perdão. Eu, o que pela primeira vez na história humana defendeu a igualdade das mulheres!
Folheou a Bíblia e continuou:
- Vou ler e repetir algo verdadeiramente admirável, escrito por Mateus em 22,30: "Na ressurreição os homens não terão mulheres nem as mulheres, maridos; mas serão como os anjos de Deus no céu".
Jesus de Nazaré:
- Escreveste que os ressuscitados, quando casais, lá no céu não irão mais ter a capacidade de manter relações sexuais. É isso, Mateus?
- Sim, Mestre. Quando digo que serão como os anjos, é porque não mais poderão os ressuscitados manter relações que tenham por objetivo procriar - respondeu Mateus.
- Queres dizer que julgas que os anjos não produzem filhos? Nesse caso, como se multiplicam?
Mateus:
- Não sei responder a isso.
Jesus de Nazaré:
- Como você explica que nas igrejas dos romanos e dos demais usuários do Grujuem existem milhares de pinturas e esculturas onde se observam anjos muito jovens, verdadeiros bebês-anjos? E os anjos judaicos?
Mateus:
- Isso deve ser perguntado aos pintores e escultores e aos que os contrataram para realizar as obras.
- Hás de convir que, havendo anjos-bebê devem existir obrigatoriamente pai e mãe dessas criaturas-aves. Em igrejas situadas na cidade de Veneza se observam anjas, com seios. Amamentam, portanto.
- Parece lógico.
Jesus de Nazaré:
- Escreveste tanto sobre os anjos, sua vinda, sua capacidade de fazer trombetas produzirem seus estridentes sons, mas, ignoras sobre sua origem. Você viu tais criaturas, na Terra? Você viu anjos-bebê? De onde você obteve informações sobre eles? O que te autorizou a dizer que não mantêm relações sexuais? Como eles se reproduziram? Quem os criou – voltamos a indagar?
Mateus:
- Confesso que no Velho Testamento não há explicação sobre a origem das aves humanas. Parece-me que, como Jeovah criou todas as coisas, criou também os seres alados. Melhor pensando: ele os deve ter criado, já que diz o Velho Testamento que ele criou tudo. E parece que os criou antes mesmo de Adão e Eva. Ele postou anjos com espadas de fogo junto ao Paraíso, após expulsar o casal do Éden.
Jesus de Nazaré:
- Já constatamos que todos os habitantes das nuvens, do céu, possuem carne e ossos, segundo a Bíblia. Isso se confirma com o que escreveste: os humanos ressuscitados não poderão copular. Ficarão se contemplando e conversando. No entanto terás que explicar como isso sucederá. Você não tinha conhecimentos, na sua vida terrena, para saber que o homem produz substâncias conhecidas atualmente como testosterona. Com isso, a libido o força a manter relações com mulheres e até mesmo outros homens. Haverá uma grande explosão populacional nas nuvens. Bilhões de casais produzindo filhos. Vale lembrar que nas nuvens, nos céus, não existem anticoncepcionais. Lá somente parecem existir os tronos e as espadinhas dos anjos, além das trombetas que eles assopram.
Mateus:
- Pois foi por isso que escrevi: os casais serão como os anjos.
Jesus de Nazaré:
- O que te autorizou a dizer isso?
Mateus:
- Não fui eu que o disse. Repeti o que me disseram.
Jesus de Nazaré:
- Sim, sim. Mas como as pessoas que te disseram isso poderiam saber o que se passa lá nas nuvens, nos céus?
Mateus nada respondeu.
- Concluo que os anjos surgiram nos escritos bíblicos por iniciativa de sacerdotes. E já existiam no imaginário de dizimistas em outras nações e religiões muitos séculos antes de Moisés ter nascido. Está escrito por João que ninguém jamais viu Jeovah, contrariando Moisés que afirma ter falado face a face incontáveis vezes com Jeovah. Ora, igualmente não poderiam ser vistos os anjos que o circundam. Com isso, não poderiam saber como se comportam as criaturas-aves, nem como surgiram os anjos-bebê. Mas algo é certo: a existência de anjos-bebê, anjas-meninas e anjos-meninos nos obriga a concluir que tais bebês possuem mães com asas e, para que se viabilize a gestação, obrigatoriamente terá que haver a fecundação por um anjo-macho. E que amamentam. Estou certo? Praticamente todos os seres somente conseguem multiplicar-se com a união de machos e fêmeas. É totalmente ilógico admitir-se que seja diferente com os milhões desses seres.
- Encontramos anjos atualmente na Terra? – prosseguiu o Mestre Ou eles somente existiam entre os ignaros humanos de dois mil ou mais anos atrás? Eles não causavam espanto no mundo bíblico. Legiões e exércitos deles são noticiados pelos evangelistas, por exemplo, por ocasião do nascimento do Mestre em Belém. E hoje? Onde estão?
Jesus de Nazaré chamou o mais famoso dos anjos, Gabriel:
- Gabriel, diga ao Tribunal do Juízo Final: você foi bebê? Ou já nasceu adulto? Ou você foi criado já adulto? Nesse caso, por quem e quando? Seus anjos colegas, de milhares de anos de vida, têm o aspecto de idosos? Ou eles param de envelhecer em determinada idade? A oxidação, obrigatória nos organismos de humanos terráqueos, não se manifesta nos seres humanóides?
Gabriel não pareceu inseguro quando respondeu:
- Eu já existia quando Jeovah desceu até a Terra e criou Adão e Eva. Tanto isso é verdade que eu, já adulto, fui colocado na entrada do Jardim do Éden, lá entre o rio Eufrates e o rio Tigre, como guarda, com minha espada flamejante. Logo, nós os anjos, já existíamos antes que o primeiro humano fosse criado. Quem me criou? Não sei. Quando? Não sei.
Jesus de Nazaré:
- Está escrito no Velho e no Novo Testamento: você já existia antes de Adão. E você teria descido das nuvens várias vezes, há dois mil anos, quando a amada Maria estava viva ainda, como escrevem os evangelistas no Novo Testamento. Logo, você atualmente conta com milhares de anos e jamais ressuscitou. Você é um anjo de grande longevidade. Você possui milhares de anos. Eu volto a perguntar: de onde surgiram os bebês-anjos? Se você surgiu, não se sabe como nem de onde, já adulto, como surgiram os bebês-anjos? Está agora com mais de cinco mil anos de vida. Se você foi bebê, você virou adulto. Logo, agora deveria estar alquebrado pela ação oxidante que envelhece os humanos e todos os animais, com exceção das águas-vivas dos mares. Elas têm muitos predadores e por isso evoluíram e desenvolveram defesas que evitam a oxidação e, assim, podem viver eternamente, evitando a extinção da espécie.
Gabriel:
- Não se pode duvidar: sendo bebê, fui gestado em um útero de uma anja. Estou muito idoso, obviamente.
Jesus de Nazaré:
- Nesse caso o que escreveu Mateus é produto de equívoco? Ou seja, se os anjos mantêm relações sexuais para procriarem, igual comportamento haverá entre os humanos, quando ressuscitados e elevados para as nuvens?
Sem aguardar resposta dirigiu-se o Mestre novamente para Mateus:
- Você evidentemente se equivocou - Mateus. Mas precisa me esclarecer mais uma coisa: você diz que os ressuscitados não terão esposas nem elas maridos. Mas, e os vivos, aqueles menos de dez bilhões de seres humanos que ainda não morreram e que agora serão julgados neste Juízo Final, eles continuam copulando normalmente e produzindo filhos, ou eles, por algum processo que não esclareces, param de produzir testosterona e passam a viver sem se conhecerem?
Aproximou-se e, face a face como Moisés e Jeovah na montanha:
- Esses seres vivos, subirão com seus corpos? Não, diz Paulo. Pergunto: o que será feito desses corpos? Como irão libertar os chamados espíritos, ou almas, para que se elevem ao céu? De sete a dez bilhões de corpos queimados, como o sugere Paulo para os apóstatas em sua carta aos Hebreus 10,27: “Fogo ardente que há de devorar os rebeldes”. Fogo, sempre o terrível uso de fogo. A cruel morte das mulheres e das adolescentes nas fogueiras da Inquisição. Em Sodoma e Gomorra os sacerdotes narradores usam de fogo e mais um ingrediente: enxofre, vindo do alto, de algum depósito celestial não esclarecido.
Face a face com Mateus:
- Falas em falsos profetas. Falsos por quê? Recebem dízimos e te fazem concorrência? A dizimação é ato bíblico correto, legal, moralmente aceito por todos. Não cabe a ninguém avaliar e rotular de falsos quaisquer sacerdotes.
Repentinamente a Máquina noticiou: “Anjos foram vistos consumindo laranjas em Valência, na Espanha. Várias legiões pousaram em vinhedos no sul da Itália e se alimentavam com cachos de uvas. Oliveiras estavam sendo dizimadas em toda a Europa. Por onde passavam as aves humanas deixavam um rastro idêntico aos deixados por enxames de gafanhotos”.
O anjo Gabriel veio imediatamente explicar:
- As regras da Bíblia Sagrada devem ser acatadas. Este Tribunal do Juízo Final acaba de decidir que a interpretação espiritual não subsistiu. Os anjos e demais ocupantes do céu possuem corpos. Logo, necessitam de alimentos e da energia por eles gerada para que possam continuar batendo suas asas. Agora temos fome. Corpos têm fome, têm frio, têm necessidade de descanso e de oxigênio. Já se fala em uma nova rebelião – terminou sua exposição o mais célebre de todos os alados.
Convocados, chegaram Marcião e Ireneu - o Bispo de Lião da Gália, todos dizimadores pertencentes à organização religiosa romana. O Mestre acionou a Máquina: “Marcião era muito rico e foi a Roma, em que fez uma grande doação. Era admirador de Paulo de Tarso e concordava com ele: Jeovah era o deus dos judeus e Jesus de Nazaré tinha um pai que era um outro deus”.
Jesus de Nazaré:
- É muito estranho. Diga a este Juízo Final: como chegou a essa conclusão?
- Jesus de Nazaré foi enviado para salvar a população dos castigos de Jeovah, ao qual não se deveria obedecer mais.
O Bispo de Lião da Gália:
- Isto é um absurdo. Escrevi Adversus Haereses, décadas após Marcião cometer heresia. Jeovah é deus e pai de Jesus de Nazaré.
O Mestre:
- Obviamente que um ou os dois cometem inverdades. Marcião diz - não se sabe de onde tirou isso - que há um segundo deus. O Bispo diz que é Jeovah o deus correto. Ou um ou o outro mente. Não há como fugir dessa conclusão. O Bispo francês usa o latim, língua dos romanos, esses grandes opressores de Israel. Conclui-se facilmente que os relatos conflitantes de ambos buscam obter dizimistas e glória bíblica.
A Máquina: “Surgiu o gnosticismo, um parasita religioso. Tinha como fonte criadora Jesus de Nazaré e como transportador de textos, esse israelita que misteriosamente desapareceu do cenário. Os sacerdotes surgiram em grande profusão. Seitas cristãs se multiplicaram - op. cit.”.
Jesus de Nazaré:
- Aí está a confirmação: o Grujuem começou a ser usado logo após a minha morte na cruz. As cartas de Paulo de Tarso referem disputas entre os dizimadores que se hostilizavam e possuíam cada qual regras próprias de arrebanhamento. Em Corinto Jesus de Nazaré era um mito. Havia os ultra-puritanos e os orgiásticos. Meu fiel amigo e pescador de Cafarnaum, casado e com filho, virou Papa em Roma! Como se poderia prever isso, Pedro, quando navegávamos em humilde barco no Mar da Galiléia? Ou quando você, Pedro, sacou de sua espada e investiu contra os soldados romanos para tentar me repelir dos invasores de nosso País? Todos os apóstolos usavam espadas? Essa era a atitude de amor que eu ensinava? Pedro tentou assassinar o escravo? O primeiro Papa foi julgado por essa tentativa? O golpe de espada visava a cabeça do pobre escravo, evidentemente, com clara intenção de matá-lo. Ou o evangelista construiu mais um fato testemunhal, já que está escrito que a orelha foi grudada na cabeça do escravo por Jesus?
Paulo de Tarso interveio:
- Devo confessar. Encontrei, como está escrito nas minhas epístolas, rebanhos liderados por presbíteros que mandavam suas ovelhas adorar a anjos e espíritos.
A Máquina: “Havia os cristãos ofitas, adoradores de cobras, os egípcios basílides. Estes negavam que Jesus de Nazaré jamais tivesse existido como um ser humano. Tertuliano surgiu e confirmou, contrariando Marcião, dizendo aos seus dizimistas que Jeovah é, sim, irado e que ele tem que incutir medo. Em caso contrário o seu rebanho se inebriaria de luxúria. Os ofitas – do grego, serpente – é o nome genérico para várias seitas gnósticas da Síria e do Egito no final do primeiro século desta Era. Eles davam grande valor para a serpente descrita no Gênesis. Os sacerdotes patrísticos Ireneu e Orígenes descreveram que a essência dessas crenças era a de que o deus judaico Jeovah era uma divindade da qual os judeus e o mundo deveriam se livrar”.
Jesus de Nazaré:
- Novamente o medo. A ovelha deve ser vítima do terror: crê ou morre para sempre em fornalhas.
A Máquina: “Tertuliano, que viveu no século II da era Atual, introduziu a língua latina entre os cristãos. Ele era de Cartago e dizia que Satanás contrariava os dizimadores romanos, já que os judeus cristãos liderados pelo sacerdote Ebion haviam sido extintos. Desde então os pastores romanos e seitas evangélicas reforçam as ameaças de fornalhas com os temores diabólicos para receberem os muitos dízimos bíblicos e divinos. Sempre com o valioso auxílio de Lúcifer, o anjo que se teria rebelado contra Jeovah no céu – texto de Paul Johnson na obra já referida”.
Jesus de Nazaré manuseou o teclado da Máquina e leu:
- “Já no século I da atual Era, se dizia que os cristãos eram ingênuos porque acreditam sem provas e era difícil reconhecer quem eram os sacerdotes criminosos, os que deliravam, os convictos, os profissionais e os atores”.
Jesus de Nazaré dirigiu-se ao Bispo Ireneu e a Marcião:
- Vou ler o que escreveu dois séculos após a morte de vocês, o Bispo Alexandre em uma carta para os demais Bispos: “Os arianos estão frequentemente tentando apropriar-se das dioceses mais ricas”.
Examinou de alto a baixo os dois ressuscitados que haviam vivido um século ou dois após sua crucifixão e continuou o Mestre de Nazaré:
- Estou convencido que minhas mensagens de fraternidade para muito pouco serviram. A mesma cobiça dos príncipes dos sacerdotes, dos fariseus, dos escribas, dos saduceus e do Sumo Sacerdote que eu tanto teria combatido, se instala nos corações humanos em todos os tempos. Cada um de vocês usa do meu nome, da minha família, dos apóstolos e demais integrantes do Grujuem, para obterem riquezas e glória. Gloriar-se não desejou – escreveu Paulo. Mas tanto ele como quase todos os pastores são iguais: sermões com vida eterna, em troca do vil metal e das reverências. Não farei perguntas. Podem aguardar no solo pelo seu julgamento.
Com um gesto o Mestre deu por finda a jornada e partiu no querubim. Subiu alguns quilômetros e encontrou uma legião de anjos armados com espadas flamejantes. Sofrenou sua montaria espacial. Lembrou que também Jeovah se locomovia montado em um deles e foi visto sobre uma escultura numa tenda de reunião, a precursora das sinagogas.
- Sempre quis examinar mais de perto essas armas que vocês manejam com tanta eficiência. Notável foi o extermínio de cento e oitenta e cinco mil assírios num só noite por um de vocês. Quem foi o autor desse massacre?
Apresentou-se imediatamente um dos querubins e lhe exibiu com grande orgulho sua poderosa arma:
- Eu também estava entre os anjos que montaram guarda à entrada do Paraíso para que Adão e Eva não retornassem. Poucos sabem que esse lugar encantador, também rotulado de Jardim das Delícias, tinha no centro as duas árvores, a do conhecimento e a da juventude. Situava-se no atual Iraque, entre os rios Eufrates e Tigre e mais dois rios menores, o Fison e o Geon. Alguns sacerdotes dizem que esse paraíso teria uma réplica aqui nas nuvens, o que, no entanto, nunca foi encontrado por nós. Além disso, tal porção de terras obviamente cairia de volta para o solo terrestre logo que elevada para as nuvens por alguma forma não explicitada nem imaginável.
Jesus de Nazaré examinou a espada. Estava em ótimo estado, embora tivesse sido obra de ferreiro há vários milênios. O anjo não soube explicar como e de onde sairia da arma o fogo descrito por Moisés: “Jeovah colocou a oriente do jardim do Éden os querubins com o cintilar da espada fulgurante, para guardar o caminho da árvore da vida”.
Parecendo adivinhar os pensamentos do Nazareno, explicou o anjo com quatro faces:
- Não fora isso, querido Mestre, o leão do meu rosto sempre assustava eventuais invasores. Os seus dentes são poderosos e ele ruge enquanto a parte boi solta mugidos de vez em quando e a parte águia emite guinchos sinistros.
- Compreendo. E formulo mais uma pergunta: até que ano o Paraíso foi guardado por vocês, já que não há a menor notícia da existência atual dele, entre os rios Eufrates e Tigre? Por que vocês deixaram de montar guarda à Árvore da Vida?
- Moisés deve explicar isso, afinal foi ele que descreveu a existência de um paraíso e de anjos com espadas cintilantes. Talvez os anjos tenham cansado de viver na Terra. Ou foram dizimados por um dos inúmeros povos que dominaram esse local hoje conhecido por Iraque. Ou morreram de inanição. Quem o sabe?
Noticiava Sara Moshê: “Jeovah não produzira anjos. O deus judaico não criara tudo, nos alegados seis dias da Criação. Quem os fez surgir”?
Moisés estava aflito. Sussurrou ao ouvido do seu irmão Aarão: “Que faremos? Milhões de anjos sem qualquer origem. Como pude excluir esses seres aves-humanos na Semana da Criação, em meu livro do Gênesis?”.
Aarão:
- Não se preocupe. Esse detalhe passa a não ter a menor importância. Os dizimistas desejam ser enganados. Eles acreditam que existem anjos, cobras que falam, serafins com seis asas e carroças de fogo conduzidas por cavalos fulgurantes. Eles querem amparos, bengalas psíquicas, esperanças. Infelizmente não nos ocorreu criar ressurreições. O Grujuem é imbatível. Nada o suplanta. Nada jamais será tão eficaz para formar rendosos rebanhos e levar felicidade às sofridas ovelhas que aguardam a inevitável morte.