Juízo Final: Odisséia dos Deuses

Horst Schadeck · Capítulo 83 de 96

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Juízo Final: Odisséia dos Deuses

Capítulo 82

 

Palavras escravocratas foram escritas pelo soldado romano Paulo de Tarso em sua carta a I-Timóteo 2,9-15! – lembrou o Mestre. E as mulheres deixariam penetrar em suas casas gente perversa! As mulheres seriam carregadas de pecados e paixões! Elas seriam enfeitiçadas! Seriam obtusas a tal ponto de se exigir que permaneçam caladas diante dos homens, sem qualquer ornamento ou joias!

Respirou fundo e prosseguiu:

- Bem me lembro: nas sinagogas as mulheres não poderiam ser admitidas como estudantes. Eu aperfeiçoei meus conhecimentos na língua hebraica com os rabinos, quando estudava a Torá. Eu lia esses livros, mas nunca me dei conta da suposta ordem de Jeovah de não deixar vivas as feiticeiras. Que mal faziam: curar enfermos? Como eu o teria feito com meus próprios métodos? Por ser homem, eu não era rotulado de feiticeiro? Fabricar peixes, pão e vinho - não seria uma prática claríssima de feitiçaria? Curava e realizava supostas ressurreições? Por que não me mataram? Por ser homem? Jeovah e seu criador Moisés somente queriam matar mulheres? O machismo cruel dos judeus de então?

- Torquemada e seus sacerdotes condenavam mulheres que fizessem unguentos e remédios para curar feridos e doentes – continuou. Se usassem cabelos compridos estavam destinadas já, só por isso, às fogueiras. As mulheres mais novas e mais bonitas tinham que ser purificadas através de estupro coletivo dos moradores dos mosteiros ou dos porões de palácios, castelos e igrejas. Eram os Santos Inquisidores. Os romanos que haviam dominado o mundo pela força bruta das armas e depois, pela força ainda mais cruel da escravização psicológica - logo imitada por facções que descobriram o Grujuem. Esse Grujuem, essa fenomenal ferramenta de novas seitas, foi a grande descoberta de todos os não judeus, os gentios.

- Perguntam-me como sei de tudo isso? – indagou o Mestre. Embora eu jamais tenha escrito nada, li tudo sobre o uso de meu nome. Valeram-se de minha bondade, usaram de minhas mensagens de amor e fraternidade. Quantas dores, quanta miséria, quantas torturas as hienas provocaram.

- Queimaram meninas. Queimaram adolescentes. Fogo, sempre o fogo. O fogo de Jeovah, de Paulo de Tarso, de Mateus. Feiticeiras – inocentes curadoras de chagas. Ou pessoas de comportamento absolutamente inatacável. Feiticeiras, desesperadas mães tentando salvar seus filhos com unguentos, com chás, com plantas medicinais. Depois sendo arrastadas como animais para o processo de purificação: os estupros coletivos nos mosteiros.

Estava emocionado e abatido o filho de Nazaré. Prosseguiu:

- Por que, pergunto novamente – não queimaram a mim? Afinal, não escreveram Mateus e seus colegas sacerdotes, que eu curava e ressuscitava pessoas? Não disseram que bastaria que eu tocasse nos leprosos para que estes ficassem sarados de suas chagas? Isso não é muito mais do que feitiçaria?

- Pobres mulheres – prosseguiu. Por serem mulheres, os vilões não podiam admitir que essas criaturas para eles inúteis, praticassem atos iguais aos do maior personagem do Grujuem. Parece lógico a este Tribunal que alguém faça surgir - do nada - um peixe sequer? Cinco mil teria ele fabricado. De onde vieram? Por que não os produziria Jesus de Nazaré em todos os dias e para todo seu povo, Israel, ou para o mundo todo? E o vinho? De que parreirais foi buscado? E os pães? De que lavouras chegou o trigo e a cevada para a farinha? Em que fornos foram assados?

Die Maschiene informou:

“Os quatro evangelhos foram escolhidos arbitrariamente entre uma dúzia. O escrito por Tomás afirma que Jesus de Nazaré transformava seus companheiros de folguedos em bodes. Teria transformado lodo em aves e ferramentas do pai carpinteiro teriam sido por ele movidas sem que as tocasse. Todos têm o status de lendas” – Richard Dawkins – Deus Um Delírio.

Houve espanto geral, e, em seguida Die Maschiene prosseguiu as lições de Dawkins:

“Nunca se soube quem eram os evangelistas Mateus, Marcos, Lucas e João. De onde surgiram ou se os manuscritos foram feitos por terceiros. As evidências são de que jamais conheceram Jesus de Nazaré”.

- Esse evangelho não foi incluído na Bíblia. Por quê? – indagou o Mestre.

Sem aguardar uma resposta:

- Palavras escravocratas foram escritas pelo soldado romano Paulo de Tarso em sua carta a I-Timóteo 2,9-15! – lembrou o Mestre. E as mulheres deixariam penetrar em suas casas gente perversa! As mulheres seriam carregadas de pecados e paixões! Elas seriam enfeitiçadas! Seriam obtusas a tal ponto de se exigir que permaneçam caladas diante dos homens, sem qualquer ornamento!

Respirou fundo e prosseguiu:

- Bem me lembro: nas sinagogas as mulheres não poderiam ser admitidas como estudantes. Eu aperfeiçoei meus conhecimentos na língua hebraica com os rabinos, quando estudava a Torá. Eu lia esses livros, mas nunca me dei conta da suposta ordem de Jeovah de não deixar vivas as feiticeiras. Que mal faziam: curar enfermos? Como eu o fazia com meus próprios métodos? Por ser homem, eu não era rotulado de feiticeiro? Fabricar peixes, pão e vinho - não seria uma prática claríssima de feitiçaria? Curava e realizava supostas ressurreições. Por que não me mataram? Por ser homem? Jeovah e seu criador Moisés somente queriam matar mulheres? O domínio cruel sobre as mulheres dos judeus de então- prática hoje usual igualmente?

- Torquemada e seus padres celibatários condenavam mulheres que fizessem unguentos e remédios para curar feridos e doentes – continuou. Se usassem cabelos compridos estavam destinadas já, só por isso, às fogueiras. As mulheres mais novas e mais bonitas tinham que ser purificadas através de estupro coletivo dos moradores dos mosteiros ou dos porões de palácios, castelos e igrejas. Eram os Santos Inquisidores. Mas desprezavam as mulheres, tal como Agostinho. Os romanos que haviam dominado o mundo pela força bruta das armas e depois, pela força ainda mais cruel da escravização psicológica - logo imitada por facções que descobriram o Grujuem. Esse Grujuem, essa fenomenal ferramenta de novas seitas, foi a grande descoberta de todos os não judeus, os gentios.

- Perguntam-me como sei de tudo isso? – indagou o Mestre. Embora eu jamais tenha escrito nada, li tudo sobre o uso de meu nome. Valeram-se de minha bondade, usaram de minhas mensagens de amor e fraternidade. Quantas dores, quanta miséria, quantas torturas as hienas provocaram. Usaram a cruz para suas cruentas guerras, protestantes e romanos. A cruz para as chacinas de judeus. A cobiça dominando a razão. Dois mil anos de flagelos.

Os olhos do Mestre de Nazaré estavam transbordando lágrimas de dor por ter que dizer o que disse. Nem na cruz seus olhos verteram tantas lágrimas. Após longos minutos e sem aguardar uma resposta prosseguiu:

- Os livros escolhidos pelos romanos no Concílio de Nicéia, no ano 325, eram consideravelmente menos suspeitos. As evidências plantadas não poderiam mais inverossímeis, mas, nos tempos de parvoíce de então, os ignaros a tudo aceitavam. O que nos interessa neste Juízo Final, no entanto, é a grande constatação: todos os sacerdotes tentam criar essas provas plantadas. Afinal os Am ha-Arez, os ignaros camponeses, eram tão crédulos que chegaram a levar seus filhos bebês para serem queimados pelo sacerdote do deus Moloch, na Geena! Se o menino Jesus de Nazaré é capaz de prodígios, é por que ele deve ser um deus novo. A Boa Nova!

- E, muito mais importante - continuou: vê-se claramente que os atos de homens seriam milagres, e os atos de mulheres, feitiçarias. Se endeusam os feiticeiros e se queimam as assim rotuladas de bruxas! Mulheres Queimadas. Mostra-se o implacável machismo e o milenar desprezo pelos corpos e inteligências das mulheres. Jeovah permitira a venda de filhas, não de filhos varões! Milagres e feitiçarias!

- O varão pode transformar água em vinho, barro em pássaros, meninos em bodes, multiplicar peixes e pão. A mulher, contudo, por muitíssimo menos do que aparências suspeitas, é estuprada pelos Inquisidores e cruelmente amarrada em postes, onde queima com filhos em seus ventres. Milhões de Mulheres Queimadas! E o Segundo Deus, o Novo Deus, o Deus de Nazaré, humano e desocupado (ou rabino?), adotado por Paulo de Tarso, aquele sim, pode transformar crianças em bodes, colar orelhas decepadas, caminhar sobre as águas, ordenar que ventos se acalmem, curar doenças incuráveis, ressuscitar pessoas, fazer secar uma frondosa figueira, matar dois mil porcos sem indenizar o proprietário, provocar terremotos, fazer previsões (Com erros parvos: voltar das nuvens no primeiro século), subir para nuvens com o seu corpo humano em tempos onde não existiam nem helicópteros nem balões.

- O varão pode cometer traições como as que faz Paulo de Tarso, desprezando as regras mandamentais do deus judaico Jeovah e, ao mesmo tempo, incluí-lo como autor da ressuscitação de Jesus de Nazaré (afinal quem mais teria poderes para ato tão extraordinário?), fazendo com que os seis quilômetros de veias do sepultado Jesus de Nazaré se reconstituissem, junto com bilhões de células cerebrais, após três dias de decomposição.

- O varão pode cometer os hediondos crimes de pedofilia; a mulher será queimada após a investigação – suprema iniquidade, bestial opróbrio, pelos Santos Inquisidores, sobre qual a intensidade dos orgasmos supostamente ocorridos pelas pecadoras, feiticeiras, hereges! Orgasmos, esse ato corporal criado para que se perpetuem os humanos! As hienas hostilizavam o ato mais importante para a evolução da humanidade! Queimavam doces esposas que nada mais faziam do que seguir as regras que viabilizaram a existência mesmo da humanidade! Graças a esses estratagemas criados pela Evolução é que eles, sacerdotes, existiam!

- A mulher era apedrejada, caso fosse acusada de não se terem ouvido gritos que pudessem caracterizar estupros. Jesus de Nazaré passou um lenço na testa. Suas feições denotavam uma profunda tristeza. Die Maschiene novamente:

“No livro Deus, um Delírio, de autoria do renomado professor Richard Dawkins, está amplamente demonstrada a grade farsa das religiões em geral. John Adams, em sua carta a Thomas Jefferson, Author of America, alude ao que este escreveu: “Quase estremeço só de pensar em aludir ao exemplo mais fatal dos abusos de sofrimento que a história da humanidade já preservou – a Cruz. Pense nas calamidades que esta máquina de sofrimento já produziu!

Prosseguiu:

- Sacerdotes tudo podem. Os simplórios agricultores de Jericó, Nazaré, Betânia, Cafarnaum, Jerusalém, Emaús, Cesareia, Magdala, Betsaida, Arimatéia, acreditam nas feitiçarias que nunca viram. Como hoje.

Levantou-se do trono:

- O conhecimento se instala neste Tribunal do Juízo Final. O grande e incrível equívoco que cometem os escritores e críticos Bertrand Russel, Saramago, Nietzsche, Dawkins, Hitchens, Sagan, é o de não perceber que as religiões são resultado da natural astúcia de humanos em todos os grupos sociais em todos os tempos. Os escritores não se retiram do pantanal dialético. Eles se revolvem, se encharcam com o lodo. Não há porque discutir com sacerdotes. Afinal, eles sempre possuem uma resposta seja qual for o absurdo comprovado. Neste Juízo Final estamos observando o pântano do alto e percebemos que, lá embaixo, às práticas religiosas somente interessam os dízimos e a glória. Não há a menor dúvida que aqui estamos doando aos humanos um grande salto no conhecimento. Que me escutem os pensadores ingênuos.

A cultura do Mestre causava espanto. Seu cérebro havia se transformado em uma massa inútil até o domingo da ressurreição. Quem o ressuscitou? Afinal, como ele estava morto, somente sobraria Jeovah para ressuscitá-lo! E isso seria impossível, já que o deus único dos israelitas não tinha o menor interesse em ajudar um concorrente, um novo deus do seu povo. E, ainda que o tivesse, não o poderia ressuscitar, já que essa tecnologia ele jamais alardeou possuir.

Até o moderno conceito de ciência ele dominava: esqueça os dogmas, reconstrua; espante verdades impostas, abrace dúvidas – elas trarão progressos. Esse era o moderno caminho da evolução em todos os campos do conhecimento.

Um dos anjos conhecidos por Potestade chegou voando com dificuldade. Trazia uma mulher de cabelos longos e desgrenhados. Possuia ela alguns dentes apenas, mas sorria e irradiava simpatia. Uma judia ressuscitada.

Jesus de Nazaré:

- Relate ao Juízo Final: quem deixou essas marcas terríveis em teu corpo?

- Fui acusada de ter sido feiticeira. Examinaram meus órgãos sexuais e afirmaram que haviam encontrado marcas de mordidas de demônios. O inquisidor do Papa me condenou à morte, alegando que cumpria ordens bíblicas. Mas eu jamais multipliquei coisas do nada. Jamais amaldiçoei árvores. Jamais caminhei sobre águas de rios ou lagos. Jamais ordenei que ventos amainassem. Nunca matei porcos. Nunca colei órgãos humanos que tenham sido cortados, muito menos orelhas. Nunca curei leprosos com feitiçarias, magias ou qualquer outro nome que se queira dar a tais absurdos.

Jesus de Nazaré olhou para Moisés:

- De fato – temos que enfatizar a existência dessa cruel apologia ao crime - está escrito em Êxodo 22,18, do Velho Testamento judaico: “Não deixarás viva uma feiticeira”. Moisés, o que dizes?

- Escrevi o que me pareceu ter sido ordenado por Jeovah. Evidentemente que homens não podem ser feiticeiros, nem entre os judeus bíblicos, nem em tempo algum. A pecadora foi Eva. A mulher tem que pagar pelo erro que cometeu. Agora mesmo vimos que Agostinho, o sacerdote romano, afirma que a mulher é execrável em razão de seus órgãos genitais pecaminosos. E que o Diabo, surpreendentemente, não fornicaria com elas! Ele se dizia celibatário, como seus seguidores atuais. Só não confessa que os pedófilos seviciam meninos. Eles desprezam as mulheres e as conspurcam com seus hálitos de chacais.

Jesus de Nazaré:

- Sem dúvidas é uma lei bíblica cruel. Ela foi usada também pela Inquisição Romana para justificar a morte de centenas de milhares de mulheres. O fogo parece ser uma grande predileção dos líderes religiosos, seguindo as determinações de Paulo de Tarso. O que fazias, para que te considerassem uma feiticeira? – indagou Jesus de Nazaré - agora dirigindo-se à mulher.

- Chás, infusões e curativos. Eu me ocupava em ajudar pessoas enfermas. Queimaram minhas filhas ainda meninas. Os abutres rezavam em voz baixa enquanto eu as via sendo empaladas lentamente, suspensas no teto e abaixadas até a madeira que penetrava em seus ânus. Depois todas nós fomos amarradas em postes, defronte à igreja. O fogo as consumia lentamente. Minhas adoradas filhinhas, eu tudo vi enquanto os sinos badalavam como hienas sinistras diante de seu almoço de fezes. Depois foi a minha vez. Desfaleci, me jogaram água, acordei e me disseram que eu poderia receber o benefício do garroteamento, se confessasse ao povo presente que eu estava arrependida - não sei do que. Elas têm vergonha de seu easpecto e não querem ser trazidas a este tribunal.

Chorava copiosamente. O julgamento foi suspenso por várias horas.

Jesus de Nazaré, abalado com aqueles atos levados a cabo com o uso do seu nome, mal conseguia falar. Finalmente:

- Curioso – prosseguiu. Eu também teria curado pessoas. Escreveram que eu cheguei a reviver os mortos. Os meus discípulos também. Muitas outras mulheres e homens de outros povos, igualmente praticavam a medicina rudimentar de então. Pergunto - fui eu um praticante de feitiçaria?

- Quero que o mundo observe bem. Perdoem se volto ao assunto. Pelos relatos dos evangelistas, sim! Multiplicava pães, peixes e vinho? Caminhava sobre as águas? Fazia previsões? Depois da minha morte, eu aparecia e desaparecia? Curava enfermos? Dizem que eu ressuscitava pessoas. Sim – claríssimos atos de feitiçaria. Ou alguém poderá duvidar disso? Se uma mulher realizasse todos esses atos relatadas pelos evangelistas – não seria imediatamente condenada e queimada como bruxa ou feiticeira? Os supostos milagres são mais provas plantadas pelos dizimistas. Para os sacerdotes, homens não podem ser considerados feiticeiros? Ou, fosse eu uma grande divindade, iria realizar proezas tão insignificantes para provar algo? No mínimo faria surgir montanhas com vulcões. Ou abriria águas do mar, criando caminhos, como Jeovah teria feito quando da fuga dos judeus do Egito. Dizimadores, a ambição unida às perfídias aqui reveladas é nauseante. Diante dessas considerações, mulher, vou te admitir imediatamente nas nuvens. Levem-na! - ordenou para quatro serafins.

- Um momento! - interveio Jeovah. Essa mulher mente. Ela foi uma feiticeira, foi morta pelos meus súditos e deve ser levada para a Geena.

Jesus de Nazaré:

- Não! Ainda que ela tivesse sido injusta e pecado, está escrito que eu vim para salvar os ímpios e pecadores. O pressuposto de minha autoria, ou melhor, da autoria de Mateus e seus colegas escritores, é o que deve prevalecer.

- E se ela estiver mentindo? Se ela tiver sido queimada pelos Inquisidores há poucos séculos, acusada de heresia? Determino que um vídeo tape de toda a vida dela seja exibido ao Tribunal.

Foi então ligado o aparelho. Decidiu-se que seriam exibidos somente os últimos vinte anos de vida dela, com evidente atraso no julgamento.

Os juízes estavam apáticos. Pareciam cansados com a demora. Já se especulava que bilhões de anos seriam necessários para julgar a todos. Frio, fome, chuvas, trovoadas, ausência de luz à noite, permanente risco de queda, tudo já era insuportável até mesmo para os ocupantes dos helicópteros.

- Repito: me atribuem graves atividades de feitiçaria – prosseguiu o Nazareno. Mateus e Marcos me colocam como autor de crime de danos. Em Mateus 8,28-32 está resumidamente: “Chegaram à terra dos Gadarenos onde haviam dois possessos em cemitério que pediram fossem expulsos seus demônios, e mandados para uma vara de dois mil porcos próxima. Ide, ordenou Jesus de Nazaré. Os porcos se jogaram ao mar e morreram afogados”. Isso que escreveram é feitiçaria e o consequente crime de dano. Não há notícias de que o dono dos porcos tenha sido indenizado. Também Mateus escreveu em 21,18-20: “Jesus de Nazaré vendo uma figueira à beira do caminho e tendo fome, somente encontrou folhas e disse: Nunca mais nascerão frutos de ti e a figueira secou subitamente”. Acusam-me de crime de dano de patrimônio alheio e de dano ambiental, além de me atribuir ódios e sentimentos maléficos.

Vestiu o manto. Chovia.

- Mas o fundamental - volto a enfatizar – é que esses evangelistas – para impressionar candidatos a dizimistas - me expõem ao mundo como praticante desse exercício de feitiçaria. Matar porcos, matar a figueira - a árvore símbolo de Israel, a árvore mais frondosa e bela da minha terra. Tais atos são claramente ilícitos e, se praticados fossem por mulher, fatalmente a levaria ao apedrejamento naqueles tempos ignaros. E a conduziria à fogueira, após ser estuprada, nos tempos da dizimação romana e do império de Paulo de Tarso. Seriam atos da mais clara feitiçaria, segundo a ótica e as orientações dadas aos Santos Inquisidores por Tomás Torquemada e outros líderes. Triste destino dessas mulheres. Milênios se passaram, mas elas continuam sendo apedrejadas em certos países e estupradas impunemente em todos os demais – como constatei por várias fontes e já o afirmei tantas vezes neste Tribunal. E os estupradores não eram punidos. Por que somente matavam tão cruelmente a própria filha? Sequer se cogitava em punir o suposto estuprador? Tudo como atualmente, me informam.

Die Maschiene passou a seguinte mensagem:

“Milagre é a criação de uma ilusão que leva os ouvintes a fazer parte do grande rebanho de dóceis ovelhas. Crer em humanos que desejam dominar, desejam a glória, o dinheiro e uma vida sem trabalhar. Absolutamente todos os milgares são farsas criadas para esse fim. Supostos enfermos jogam fora a muleta e passam a caminhar, em troca de míseros trocados que os sacerdotes lhes alcançam”.

Um dos repórteres protestou do seu helicóptero:

- Não concordo! Os milagres de Jesus não foram farsas!

- Aceitas esses relatos – continuou - que advém de evangelistas, claramente interessados em dizimar? E qual será a vantagem de se ter assistido um dito milagre, ainda que não seja constatada uma farsa? Isso te dá garantia de ressurreição? Não percebes, estimado jornalista, que milagres, ainda que ocorrentes honestamente, não trazem qualquer garantia para o dizimista? Os milagres são inúteis. São provas plantadas. As curas não impedem a morte do enfermo, no futuro de sua vida. Unhas encravadas curadas são exibidas nos canais de televisão como milagres. Vale lembrar que os sacerdotes atualmente vendem azeite brasileiro como se fosse de Israel para suas vítimas. Livros inúteis são impingidos às ovelhas. Revistas beócias com poses de bondade são empurradas aos dizimistas. Tudo dentro da lei! Tudo com o amparo do Velho e do Novo Testamentos! Os romanos sempre venderam cartões com santinhos. E venderam por altas somas cadeiras no céu - as indulgências!

Escureceu e o julgamento foi interrompido para o shabat que iniciava no final do dia daquela sexta-feira. No solo a miséria, a fome, o desespero. Crianças famintas aos milhões vagavam pelas ruas. Nas abadias, nos mosteiros, nas sinagogas, nas catedrais, não faltava vinho.