Juízo Final: Odisséia dos Deuses

Horst Schadeck · Capítulo 35 de 96

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Juízo Final: Odisséia dos Deuses

Capítulo 34

 

Jesus de Nazaré ordenou que se fizesse um recesso de vinte e quatro horas. Os anjos estavam exaustos de tanto bater suas asinhas e precisavam repousar. Os tronos foram agora suspensos por uma legião de querubins que não trabalhara nos últimos cinco dias. Enquanto isso outra legião mista de anjos partiu para descobrir o paradeiro do Espírito Santo.

Retomados os trabalhos, apresentou-se o anjo Gabriel diante de Jeovah:

- Quero comunicar que não foi possível localizar o Espírito Santo, mesmo porque ele não possui nem carne nem ossos.

Paulo de Tarso pediu para se manifestar:

- Quero alertar ao Tribunal que todos os personagens celestiais não possuem nem carne nem ossos. Todos são espíritos.

Jesus de Nazaré:

- Pois vou ler - Paulo de Tarso, o que os narradores bíblicos escreveram sobre os seres que vivem no céu. Veja o texto atribuído a Lucas 22,16, esse grego, teu fiel discípulo: "Não tornarei a comer a páscoa até que seja realizada no Reino de Deus".

Paulo empalideceu. Jesus de Nazaré:

- Como podes afirmar que espíritos comam algo? Ou bebam vinho, lá nas nuvens, como está escrito logo adiante: "Não tomarei do suco da videira enquanto não vier o Reino de Deus"? Existem videiras nas nuvens? Existem terras para que essas videiras se desenvolvam? Existem cálices para que se tome o vinho? Garrafas, barris, abridores? Toilettes? Hospitais, leprosários, prisões? Carneiros, sal, azeitonas, farinha de trigo, fornos, usinas de luz elétrica para viabilizar a vida durante a escuridão da noite ou das tempestades? O que fazer com nevascas e tornados? E os enfermos devido às severas condições de tempo? Como pode alguém desejar sair do conforto do solo terrestre para viver nessas condições inclementes?

Interveio um dos repórteres da Deutsche Welle. Era um fato inesperado e inusitado:

- Perdoem se interrompo. Mas vejo que existe aqui um grande buraco narrativo, como costumam dizer neste Tribunal.

- Continue - ordenou Jesus de Nazaré.

- A vinda do Reino de Deus estava prometida para aqueles tempos em que muitos ouvintes de discursos de Jesus de Nazaré ainda estariam vivos. Logo, poderias comer e beber na Terra, após descer do céu com o Reino de Deus. O grande buraco narrativo, no entanto, aqui é assustador e cabe a pergunta: afinal, qual história merece atenção, a vinda das trombetas com todos os tronos e consequente fim do mundo e o Juízo Final, ou a vinda do Messias, cujo objetivo bíblico e histórico era e continua sendo o de libertar Israel dos opressores?

Jesus de Nazaré:

- Concordo plenamente. O Messias deve ser o novo rei das Doze Tribos de Israel. Não se afastaria de seus súditos terrenos. Tanto é que até hoje há, em Jerusalém, uma porta que deverá servir para a entrada do sempre esperado Messias. Mas, continue jornalista.

O jovem ocupante do helicóptero da rádio alemã:

- Lembro o que está escrito em Lucas 24,21: “Nós, apóstolos, esperávamos que fosse ele quem havia de restaurar Israel”, e em Mateus 10,23: “Eu, Jesus de Nazaré, vos afirmo: não acabareis de percorrer as cidades de Israel antes que volte o Filho do Homem”; em Lucas 23,2: “E puseram-se a acusá-lo: temos encontrado este homem excitando o povo à revolta, proibindo pagar imposto ao imperador e dizendo-se Messias e rei”; em João 1,41: “Foi ele então logo à procura de seu irmão e disse-lhe: Achamos o Messias (que quer dizer o Cristo)”; em Atos dos Apóstolos 18,5: “Quando Silas e Timóteo chegaram da Macedônia, Paulo dedicou-se inteiramente à pregação da palavra, dando aos judeus testemunho de que Jesus era o Messias” e em Atos dos Apóstolos 18,28: “Pois com grande veemência refutava publicamente os judeus, provando, pelas Escrituras, que Jesus era o Messias”.

Jesus de Nazaré:

- Muito oportuna a sua observação e este Tribunal agradece. Sabemos que essa era a mensagem que os dizimistas mais apreciavam logo após minha crucificação. Esses judeus chamavam-se ebionitas e seu sacerdote era Ebion. Consideravam-me o Mashiach, o Messias, ou seja, aquele que viria salvar o povo de Israel do jugo romano e ser seu novo rei, ocupando o trono de Davi. Tanto é que colocaram na cruz dizeres, assim relatados em Lucas 23,38: “Este é o rei dos judeus”. Os ebionitas foram convencidos a dizimar para o sacerdote judeu Ebion. Seguiam as regras de Pedro naqueles dias – depois da minha subida.

O apóstolo Tomé interveio, o que causou grande surpresa:

- Observei bem tudo isso. Como o Reino de Deus não desceu do céu para expulsar os opressores romanos, os judeus ebionitas, decepcionados, voltaram a dizimar em favor das sinagogas, com seu deus único, Jeovah.

Mateus:

- Constatei após o reler várias vezes, que interpolaram meu texto, como já se referiu aqui. Na segunda parte do meu evangelho, visivelmente modificado por dizimistas provavelmente romanos, não mais se promete salvar Israel, mas, sim, todos os não-judeus, os gentios, ou os goin, como eram denominados pelos israelenses. De Messias e Rei do povo israelita, o Mestre passou a ser visto como o Salvador da humanidade. Aí está claramente a mão de Paulo de Tarso e demais sacerdotes de gentios. A interpolação está em Mateus 28,19: “Ide, pois, e ensinai a todas as nações; batizai-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”.

Mateus, como sempre, dirigiu-se a Paulo de Tarso e desferiu:

- Eu escrevi em 7,6: “Não lanceis aos cães as coisas santas, não atireis aos porcos as vossas pérolas”. Está claro que Jesus de Nazaré jamais admitiu levar a sua salvação para quem não fosse israelense, exatamente como seu apregoado pai, Jeovah, deus exclusivo de Israel, como se lê em milhares de passagens do Velho Testamento.

Jesus de Nazaré:

- Há clara interpolação no texto. Isso é por demais evidente. E mais: se Jeovah, o pai, extermina povos vizinhos para proteger Israel, como poderia o amado filho ordenar que os seus apóstolos fossem ajudar aos seus opressores, os que mataram milhões de judeus, a quem não fosse israelense? O que vale é, sem a menor dúvida, o texto da primeira parte do evangelho de Mateus, ou seja, o capítulo sete, versículo seis, que fala de pérolas perdidas.

Paulo de Tarso ignorou a insinuação:

- Sobre o que se discutia antes, sou obrigado a reconhecer: no céu todos falam normalmente, Jesus de Nazaré! Inclusive os anjos, que tocam trombetas, manejam espadinhas e transportam Jeovah em suas costas.

Jesus de Nazaré:

- Nesse caso, queres dizer que os espíritos falam? E bebem vinho? E comem? E usam toilettes? E podem sentar-se em tronos? E podem ser vistos por anjos? E vivem na companhia dos israelitas Elias, Jacó, Isaac, do Patriarca e dos profetas? Mas, se esses personagens bíblicos não possuem ossos ou carne, como irão digerir o vinho, o pão e demais alimentos? E carroças de fogo para o transporte até o solo terrestre?

Paulo de Tarso:

- Leia-se o que escreveu o evangelista João, aqui presente, em seu evangelho, no capítulo 8,21, em que você teria dito: "Aquele que me enviou – Jeovah - é veraz, eu falo ao mundo o que dele ouvi". Não está claro que Jesus de Nazaré falava e ouvia de Jeovah o que este dizia, quando supostamente ainda não tinha sido remetido para a Terra? Mas, insisto, ele era um espírito. Eu mesmo tenho meu cadáver depositado em Roma e, ao mesmo tempo, estou no céu.

Jesus de Nazaré:

- Certamente que não. Eu subi com meu corpo. E isso demonstra, novamente, que no céu os personagens possuem carne e ossos. Tanto que relatam que Jesus de Nazaré subiu arrebatado - com seu corpo ressuscitado - certamente pelos anjos, que, por possuírem asas, podem voar e transportar coisas. Lembro que os filhos de Jeovah desceram e fecundaram as mulheres belas na Terra. Para isso obviamente tinham que possuir carne, ossos e boca para falar com as terráqueas.

O grande Mestre de Nazaré foi até Paulo de Tarso:

- Paulo de Tarso – grande sacerdote do mundo: tu estás equivocado, volto a afirmá-lo. No céu estão corpos, segundo a Bíblia Sagrada. Aliás, teu túmulo, como o de Pedro e demais jazigos da Basílica de São Pedro estão vazios e rompidas suas lajes, desde que se instaurou o Juízo Final, como noticiou toda a imprensa.

Jesus de Nazaré, visivelmente cansado, continuou:

- João, leia o que escreveste em 20,16-17.

João leu:

“Disse-lhe Jesus: "Maria!”. Voltando-se, lhe diz ela em hebraico: "Raboni!" - ou seja, sacerdote, rabino. Torna-lhe Jesus: “Não me toques! porque ainda não subi ao meu pai e vosso pai, ao meu Deus e ao vosso Deus".

Jesus de Nazaré:

- O recém-ressuscitado podia ser tocado! Era visível, seu corpo desaparecera do túmulo de José de Arimatéia e podia ser tocado! Raboni significa rabino em hebraico, ou seja, sacerdote. Ou em aramaico, língua que ele falava? Mas o que é esclarecedor é que o ressuscitado, que subirá ao céu quarenta dias após, pode ser tocado por Maria. Ele possui carne e ossos. Pode ser visto, ouvido! Voltou a ser o mesmo Jesus de Nazaré de antes de ser crucificado. Repito, ele pediu para não ser tocado: logo era um humano normal, de carne e ossos. Estava coberto por roupas, já que o texto bíblico não menciona nudez em nenhum dos seus personagens do Novo Testamento! Ou um espírito usa pesadas roupas, sapatos, mantos, anéis, chapéus? E cabe outra pergunta: depois de subir ao pai, ao deus judaico, ele poderia ser então tocado por Maria ou qualquer outro personagem? Ele subiria vestido? Ou se livraria das roupas no solo, na frente dos humanos, antes de ser elevado? E nas nuvens, o que faria lá sem roupas? Ou nunca iria ser visto nem tomaria vinho, nem se assentaria no trono ao lado de Jeovah nunca mais, eternamente? Ou encomendaria novas roupas do solo, para o caso de valer-se do paradoxo e sentar-se à mesa e tomar vinho com os doze apóstolos, conforme prometera, e impedir que fosse observado nu e viesse a perecer pela ação do frio e da chuva?

Dirigindo-se a Paulo de Tarso:

- Não podemos ter qualquer dúvida. Você somente ressuscitou agora, neste Juízo Final. Tal como Pedro e outros rotulados de santos pelos romanos, não poderiam estar logicamente no céu.

Paulo de Tarso:

- Me perdoe, amado mestre Jesus de Nazaré. Todos os santos, assim declarados pela igreja romana, estão no céu após o decreto que os afirma santos. Muitos sequer necessitaram de qualquer papel: os dizimistas - como aqui se os intitula - eles próprios escolheram esses novos santos, pessoas que, obviamente, não fossem israelitas. Eles necessitam de ídolos, tão combatidos por Jeovah, seu deus tomado por empréstimo.

Jesus de Nazaré:

- Muito bem observado. Mas, voltemos ao tema anterior: quem julgam ser esses dizimadores romanos para fazerem tais afirmativas? Eu, que sou o Salvador, o Deus Filho, o Redentor, o Filho do Homem, tive que subir até as nuvens em Betânia, com o meu corpo, vestido, com minhas roupas, para poder ingressar nessas nuvens celestiais! Como ousam dizer que vocês, santos, podem entrar no Reino de Jeovah, no céu, desprovidos de seus corpos? E quem os autorizou a ressuscitar ou ressurgir antes da instauração do Juízo Final?

Paulo de Tarso:

- Porque tudo isso agrada aos rebanhos. Os dizimistas gostam desses relatos. Há uma permanente luta para a conquista de ovelhas. Você mesmo fazia de tudo para conseguir seguidores! Ovelhizar é uma arte.

- Explique isso.

Paulo de Tarso:

- Mateus, aqui presente e recém-descido da parte alta do céu em um trono, junto com os outros doze apóstolos para julgar as Doze Tribos de Israel, como está escrito, relatou, em 10,5: "Estes doze, Jesus enviou em missão; ide antes às ovelhas que se perderam na casa de Israel".

Jesus de Nazaré:

- Vejo que se confirma neste Juízo Final: todos os líderes religiosos buscam por dízimos e criam suas formas de reunir seus dizimistas. E não têm o menor pejo em rotular de ovino, de ovelha, seu dizimista. Malaquias 3,10, do Velho Testamento, e Pedro, meu apóstolo, tomaram terras de seus dizimados. E Paulo de Tarso o assevera inúmeras vezes em suas epístolas, especialmente em II-Coríntios, em todos os dois capítulos oito e nove. Mas eu somente pensei em ajudar aos pobres. Aos ricos pedi que se transformassem em pobres.

- Exatamente, grande Mestre - respondeu Paulo de Tarso. Veja o que escreveu Mateus, em 10,16: "Eu vos envio como ovelhas no meio de lobos. Sede, pois, prudentes como as serpentes, mas simples como as pombas". Os sacerdotes devem ser astutos e terem a aparência confiável das pombas - terias ensinado - segundo Mateus. E eu mesmo escrevi em II-Timóteo 4,2: “Prega a palavra, insiste oportuna e inoportunamente, repreende, ameaça, exorta com toda paciência e empenho de instruir”.

Jesus de Nazaré:

- Ameaçar. Incutir temor. Aterrorizar com fornalhas eternas na Geena e outros locais não identificados devidamente. Agradeço muito tua sinceridade, centurião Paulo, da cidade de Tarso, hoje reconhecido como o maior de todos os sacerdotes e o mais bem sucedido de todos os líderes religiosos de todos os tempos e nações. Teu rebanho é gigantesco, graças à tua habilidade ao tomar por empréstimo o deus do povo israelita, como o principal personagem do Grupo de Judeus Emprestados. Eu te parabenizo pela tua sagacidade, percepção e tenacidade.

Um helicóptero com as insígnias do Estado de Israel acabara de chegar e pedia para desembarcar um cidadão elegantemente vestido que aparecia na porta entreaberta da aeronave. A um sinal do Mestre um caminho compacto de anjos se formou e ele foi assentado em um dos tronos vagos. Disse:

- Te saúdo, Jesus, da cidade de Nazaré. Meu nome é Moshê Maimônides, sou mestre talmúdico, médico, filósofo e comentarista do povo de Israel. Vivi entre os anos 1135 e 1204 da atual Era. Venho invocar o direito de defesa em favor de todos os sacerdotes vivos e ressuscitados. Antes quero que me permitam reverenciar nosso amado Adonai, o Senhor dos Exércitos, o Altíssimo, Javé, o Criador e Protetor do povo de Israel.

Foi até Jeovah, ajoelhou-se e disse:

- Baruch at Adonai Elohêni melech haolam, hael, avínu, malkênu, adirênu, boreênu, goalênu, iotserênu, kedoshênu kedosh Iaakov, Roênu Roê Yisrael.

Traduziam as emissoras de televisão: Bendito sejas Tu, ó Eterno, nosso Deus, Rei do universo, Deus onipotente, nosso Redentor, venerado e santificado por toda a congregação de Israel.

Jeovah:

- Aní Adonai Elohechem asher hotsêti etchem meêrets Mitsrayim lihiót lachém lelohím, ani Adonai Elohechém, emét. Adonai Elohechém emét”.

Novamente traduziu uma das emissoras de televisão: “Eu, o Eterno, sou vosso Deus que vos libertei da terra do Egito para ser vosso Deus. Eu, o Eterno, vosso Deus”. Maimônides voltou ao seu trono e o próprio Jeovah ordenou que apresentasse sua defesa. Iniciou olhando para ele:

- Meus estudos da Torá revelam que treze princípios devem nortear a vida de cada cidadão de Israel: 1) Deus tudo criou; 2) Deus é único e só ele é nosso Deus, sempre existiu e sempre existirá; 3) Deus não é corpo e conceitos físicos não se aplicam a ele; 4) Deus é o primeiro e o último: 5) Não se deve rezar para ninguém e nada mais, somente para ele; 6) Creio que todas as palavras dos profetas são autênticas: 7) Creio com plena fé que a profecia de Moshê Rabênu é verdadeira e foi ele o mais importante de todos os profetas: 8) Creio com plena fé que toda a Torá foi dada a Moshê Rabênu; 9) A Torá não será alterada e nunca haverá outra dada pelo Criador; 10) O Criador conhece todos os atos e pensamentos do ser humano; 11) O Criador recompensa àqueles que cumprem Seus preceitos e pune quem os transgride; 12) Creio com plena fé na vinda de Mashiach. Mesmo que demore, esperarei por sua vinda a cada dia; 13) Creio com plena fé na Ressurreição dos Mortos que ocorrerá quando for do agrado do Criador.

Maimônides tinha um olhar sereno que dirigiu agora para Jesus de Nazaré:

- Como todos podem perceber, a Torá e todas as regras do Criador não admitem que um filho de Israel aceite as regras religiosas criadas pelos apóstolos, evangelistas, Paulo de Tarso e demais líderes. Mas eles merecem todo o nosso respeito. Todas as religiões têm o nosso mais profundo respeito, bem como todos os sacerdotes da superfície terrestre. A profissão é indispensável. Ser sacerdote é ser útil, é ser consolador, é ser mártir, é ser sublime. Se alguns, ou muitos, enriquecem indevidamente, que se busquem os caminhos legais para puni-los. Doar dízimos é bíblico. Extorquir é delito. A Torá, contudo não pode ter modificada uma só letra. Eu a estudei durante toda a minha vida. Ela é perfeita, intocável e totalmente aprovada por nosso deus Jeovah, o Altíssimo Adonai.

Jesus de Nazaré:

- Concordo. Neste Tribunal há um total e completo respeito por todos os sacerdotes e por todas as religiões existentes. O que aqui se busca é o conhecimento. Eu sou israelita, nascido na cidade de Nazaré. Bem sei que, ao escreverem o texto existente no Novo Testamento, conflitos se estabeleceram com os sacerdotes judeus. Bem sei que Jeovah, cujo nome não deve ser pronunciado pelo povo de Israel em sinal de profundo respeito, é o deus dos judeus e que os romanos adotaram.

Arrematou Jesus de Nazaré:

- Mas quero dizer que aceitamos sua defesa da Torá, Moshê Maimônides e, ao mesmo tempo, dizer que não és diferente dos demais sacerdotes de todos os tempos e lugares. Defendes teu rebanho de cidadãos de Israel e os romanos e derivados defendem os seus rebanhos de fiéis igualmente. E vejo que mil anos após os fatos bíblicos cristãos, passaram os rabinos a aceitar a ressurreição de humanos, quando assim for da vontade de seu deus Jeovah. Temos agora o conhecimento.

Foi brilhante Jesus de Nazaré! Era o que diziam os noticiários do mundo inteiro. O Berliner Morgenpost estampou: Pastores e Rabinos: Fraternidade.

Levantou-se do trono o erudito Maimônides:

- Era o que todos queríamos ouvir. Que se esqueçam as desavenças e intolerâncias que levaram ao martírio o grande filho de Israel a quem me dirijo com muita honra e a quem saúdo. E que se olvidem as torturas, mortes e desapropriações de bens impostas pelos Inquisidores ao nosso povo nesses dois mil anos.

- Adonai yimloch leolam vaed! O Eterno reinará por todo o sempre! E que seja Jeovah o deus de Israel e de todos os que o quiserem invocar.

Jesus de Nazaré:

- Também devem ser esquecidos os massacres de cristãos perpetrados pelo judeu Simão bar Kkhba no início do primeiro século desta Era. Devemos esquecer o sicário Ben Sira nos anos 70 até 120 da atual Era. Ele foi um sacerdote judeu que expulsou das sinagogas os que seguiam os pastores judeus que apregoavam Jesus de Nazaré como o Messias e o Salvador. Devemos perdoar o que pedia em suas rezas para o seu deus Jeovah: “Insurge-te e expõe teu ódio e aniquila teus inimigos cristãos”. Devemos esquecer a Amidá, com sua Décima-Segunda Bênção. Essa Birkat ha-Minim expulsou o restante de meus irmãos judeus das sinagogas no ano 112 desta Era.

Jesus de Nazaré apertou as duas mãos de Maimônides, segurou-o pelos ombros e disse, sussurrando:

- Que se olvidem as divergências e todos respeitemos integralmente a Torá. Somente uma mensagem contida nos Evangelhos está absolutamente correta: “Amai-vos uns aos outros e perdoai até o mais cruel dos inimigos”.

O helicóptero partiu. O mundo respirava felicidade. Os sacerdotes, evidentemente contrariados com as revelações surgidas no Juízo Final, se conformavam agora e não mais pareciam querer hostilizar o Juízo Final.

Jesus de Nazaré voltou aos trabalhos e disse a Jeovah:

- Que serenidade mostram os Treze Princípios desse notável estudioso da Torá e do Talmud! E o décimo-terceiro afirma que tu, prezado Jeovah, Adonai, Javé, Senhor dos Exércitos de Israel, Criador e Redentor, tu é que decidirás, quando e se o desejares, ocorrerá ressurreição dos teus protegidos, cidadãos judeus. Mas não há garantias.

- Na Torá não creio que tenham escrito isso. E os Treze Princípios de Moshê Maimônides surgiram da sua pena no século doze. Não sei como se explica ter ele aqui chegado sem minhas determinações nesse sentido.

Jesus de Nazaré:

- Voltemos ao julgamento. A Bíblia informa que Paulo de Tarso somente ressuscita no Dia do Juízo Final. O São Paulo, assim denominado pelos sacerdotes romanos, é clara inovação sacerdotal. Um existe, ressuscitado agora, ou seja, você, Paulo de Tarso. Outro existe também, mas na virtualidade de uma criação estranha tanto para Jeovah como para Jesus de Nazaré, ocorrida há dois milênios ou pouco menos por autoria da igreja romana, ao criar santos.

O Papa, sempre solene, com o olhar seguro do atual líder do rebanho originado por Paulo de Tarso:

- Os santos são de nossa autoria e propriedade. Obviamente que os israelitas os ignoram. Por que Moisés pôde criar seus relatos e nós, romanos - não o podemos? Por que Maimônides pode criar seus treze princípios e nós, romanos - não o podemos? Somos todos sacerdotes e temos os mesmos direitos. Criamos centenas de Marias - com nomes diferentes e adoradas em forma de figuras de madeira ou metais. Moisés criou o deus judeu. Nós não podemos criar novos deuses ou deusas? Quem terá mais valor? Moisés proibiu o uso de ídolos? Sim, foi ele, pois ele escreveu. Mas nossos ídolos valem tanto como os escritos de outros sacerdotes. Quem poderá se arrogar o direito de aumentar ou diminuir o valor de palavras existentes na Bíblia?

A figura do Sumo Sacerdote romano era imponente, embora suas vestes fossem pobres se comparadas com os ricos éfods dos israelitas. Prosseguiu:

- Estamos com dois Paulos? Estamos com dois Pedros, um que acaba de sair do túmulo, na Basílica de São Pedro, e o outro, conhecido como o detentor da chave da porta do céu e o responsável pela chuva em todo o planeta? Estamos com dois Josés? Dois Tomés? Dois Tiagos? São todos judeus? Que importância tem isso? Acaso nossos rebanhos se rebelam diante disso?

Jesus de Nazaré reclinou sua cabeça no trono. Lembrou-se do fausto que observara nas ekklesias. Lembrou-se dos relatos das tristes mortes nas fogueiras da Santa Inquisição, das eviscerações de meninas, da empalação de mulheres, dos estupros purificadores, das tenazes incandescentes nos mamilos de supostas feiticeiras, do gargalhar hediondo dos chacais humanos que os séculos produziram.

- Não, Papa e demais pastores de todas as seitas. A Bíblia, com todas as letras, pretende que três e até quatro Jesuses diferentes houve, como já se demonstrou à saciedade. Os sacerdotes escritores nem se deram ao trabalho de combinarem, de acordarem, de fixarem suas várias estórias. Penso, além disso, que tais autores não possuíam o discernimento suficiente para ser coerentes. Ou então estavam tão seguros do sistema doas o dízimo e te dou a vida eterna, que não lhes pareceu importante evitar a profusão de buracos narrativos constantes do livro mais lido no planeta. Mesmo porque não esperavam que fossem lidos no futuro por eruditos.

Sara Moshê publicou seus comentários na rede de TV e completou: “São inúteis pesquisas sobre vestígios de ossos no solo de Israel ou nos manuscritos, papiros ou pergaminhos de Qumran e outros lugares com astuciosas interpolações. Tudo estava claro e era incrível que os grandes pensadores não tenham percebido tudo em dois mil anos. Quantos morreram em batalhas inutilmente, como na Guerra dos Cem anos, na Europa. Quão brutal fora enviar jovens a lutar nas Cruzadas e tombar ante espadas de inimigos implacáveis. Quantas crianças ficaram sem o pão levado às abadias, aos mosteiros, aos altares dos dizimadores. Quantos séculos foram perdidos pela implantação dos ideais de pobreza”. Dois mil anos perderam os seres descendentes do peixe Picaya Gracilens. Séculos perderam-se após o incêndio da biblioteca de Alexandria. Dízimos e ignorância - a receita dos sacerdotes. Quantas indústrias poderiam ter sido instaladas com o dinheiro empregado em suntuosas ekklesias. Quanto pão se poderia ter dado às pobres crianças famintas de todos os tempos. E empregos novos, progressos industriais. Escolas. Conhecimentos.

E chorou o homem que diziam ser o Messias, o libertador do povo judeu. O mundo chorou com ele.