Juízo Final: Odisséia dos Deuses
Capítulo 69
A Bíblia não fala que Paulo seria um dos julgadores do Juízo Final. Ele disse que julgaria anjos! Convocou Jesus de Nazaré então os quatro evangelistas para uma reunião. Deslocaram-se para uma nuvem, seguros pelos anjos.
- Não está previsto que Paulo de Tarso seja um dos julgadores no Juízo Final - desde logo ponderou Mateus. Somente descem em seus tronos: Jesus de Nazaré, Jeovah, os Doze Apóstolos Julgadores das Doze Tribos de Israel, os Anjos Separadores e os Anjos Ceifadores.
Jesus de Nazaré:
- Bem sabemos disso todos nós. Mas temos que nos lembrar: se Paulo de Tarso participar do julgamento poderemos ser criticados e hostilizados pelos homossexuais. E eles possuem armas poderosas em seus helicópteros. Contra esse poder nossos anjos nada podem fazer. Seriam queimados ou metralhados. Hostilizar os homossexuais foi um grave erro de Paulo de Tarso. Rotulá-los de torpes em suas cartas, foi temerário e um erro sacerdotal muito grave. O que devemos fazer? Lembro ainda que, a se confirmar o número de dez por cento, que atualmente ocorre, teremos mais de dez bilhões de homossexuais entre vivos e ressuscitados.
Marcos:
- Sugiro que ele seja afastado do julgamento através de um destacamento de querubins e levado até Roma e entregue aos cuidados do Papa. Afinal ele é centurião romano e pastor dos gentios.
Essa proposição foi imediatamente aceita por todos. Uma centena de trombetas ecoou e, após, Paulo de Tarso foi conduzido para Roma. Os homossexuais, visivelmente satisfeitos com o desagravo havido, se retiraram com seus helicópteros.
Mas eis que - passadas oito horas - surge novamente Paulo de Tarso em um potente helicóptero italiano:
- Lembrei que a Bíblia Sagrada instituiu a mim e aos demais santos como julgadores de anjos. Exijo que se cumpram as ordens bíblicas. Está em I-Coríntios 6,2-3: "Não sabeis que os santos julgarão o mundo? Não sabeis que julgaremos os anjos?", respondeu o sacerdote dos romanos e dos gentios em geral.
Os anjos se entreolhavam estarrecidos. Tentaram protestar, mas Jesus de Nazaré ordenou que trouxessem um trono e fosse colocado em lugar de destaque, entre os apóstolos e os Anjos Ceifadores. Estava escrito, tinha que ser cumprido. Ele iria julgar os anjos e talvez invocasse depois o seu direito bíblico de julgar o mundo.
Logo Paulo de Tarso ordenou que chamassem o Anjo Caído, Lúcifer, Satanás. Este chegou com suas gigantescas asas brancas.
- Saudações, nobres habitantes das nuvens! Saudações, grande deus judeu, Senhor dos Exércitos de Israel - Kaddosh Yisrael! Meus respeitos, nobre Yeshua - Jesus de Nazaré, ilustre descendente do grande Davi! Meus mais fortes abraços, grande soldado romano, Paulo de Tarso, agora sacerdote e doutor dos nossos inimigos romanos!
Paulo de Tarso:
- Cale-se, maldito! Queiras ou não, és um anjo rebelde e desde já vou proferir meu voto. Mas, antes, quero que digas a este Juízo Final: qual foi a causa da tua rebeldia no céu e dos anjos a ti subordinados?
Lúcifer respondeu com uma sonora gargalhada:
- Não pretendia responder a qualquer pergunta. Não reconheço nenhuma autoridade a este Tribunal. Mas vou responder, sim. Vou mostrar que os sacerdotes todos, como tu, Paulo de Tarso, usam do meu nome para levar a cabo, com mais eficiência, as ameaças de que se valem para atemorizar aos seus dizimados. Ananias e sua mulher Safira tiveram que vender suas terras e depositar o dinheiro obtido aos pés do apóstolo Pedro e colegas. E depois foram mortos por haverem supostamente ficado com pequena parte do dinheiro. São duas mortes produzidas e confessadas pelos agora rotulados santos apóstolos. Usam meu nome para atemorizar rebanhos inteiros em programas de televisão.
Paulo de Tarso:
- Isso é um relato a que não se deve dar crédito. Trata-se de uma metáfora.
Mais uma sonora gargalhada e Lúcifer apanhou a Bíblia Sagrada:
- Estás vendo esse livro, Paulo de Tarso? Mostre-me uma só morte claramente atribuída a mim! Pois vou ler os horrendos e cruéis morticínios atribuídos a esse senhor aqui presente e contra o qual nos rebelamos, eu e centenas de colegas anjos. Desde já afirmo que essas centenas de milhares de mortes foram criação literária de sacerdotes. Nenhuma palavra está escrita por Jeovah ou por esse jovem judeu, Jesus de Nazaré, com quem tive o prazer de subir montanhas e templos e conviver no deserto. Muitas vezes mantive reuniões também com Jeovah e seus filhos - como já se referiu neste Tribunal. Até fui muito bem tratado pelo deus judeu. Ele me confiou a vida de Jó, pessoa extraordinariamente fiel a Boré, o deus dos judeus.
Era impressionante a figura de Satanás. Suas asas angelicais brilhavam e seus olhos pareciam dois enormes rubis incandescentes. Tinha certamente mais de vinte côvados de envergadura de asas. Os demais anjos pareciam sentir-se diminuídos diante da magnificência de Lúcifer, o Anjo da Luz. Continuou ele:
- Em I-Crônicas 21,14 no Velho Testamento, lemos: "E Jeovah mandou a peste a Israel e tombaram setenta mil homens. Jeovah mandou a Jerusalém um anjo para destruí-la". Sugiro que esse anjo seja julgado e, desde logo lhes digo que ele não pertence aos Anjos Rebeldes, do qual sou o líder.
Todos olhavam para Jeovah. Paulo de Tarso:
- Jeovah, é verdade que provocaste uma peste para dizimar setenta mil judeus?
Jeovah:
- Isso foi escrito na Bíblia. Por quem? Eu jamais escrevi nada. Há que se trazer para o julgamento o sacerdote judeu que descreveu essa mortandade.
Paulo de Tarso, agora com o cargo de juiz dos anjos:
- Afirmas que a Bíblia está mentindo? E, quanto ao anjo, não o enviaste para destruir a mais importante cidade do teu povo? Vou ler o que se segue em I-Crônicas 21,16: "Davi, tendo levantado os olhos, viu o anjo de Jeovah que estava entre o céu e a Terra, com uma espada desembainhada em sua mão, dirigida contra Jerusalém".
Jesus de Nazaré:
- Veja - Paulo de Tarso: aqui temos novas provas de que no céu estão seres, humanos, deuses e aves humanas que possuem carne e ossos. São capazes de segurar espadas e matar humanos terráqueos.
Paulo de Tarso fez de conta que não ouvira e continuou:
- Estou incumbido de julgar anjos. Esse que aí está é o líder dos rebeldes, conhecido também como o Anjo Caído. Mas por que ele travou luta contra Jeovah, ele e seus anjos seguidores? Seria por atos como os que leio no Velho Testamento, em II-Reis 10,7-12: "O Senhor Jeovah realizou o que ele havia predito pelo seu servo Elias. Tomaram os setenta príncipes e os massacraram. Puseram em seguida suas cabeças em cestos e as mandaram a Jeú que as exibiu em dois montes na entrada da cidade".
Tomou a palavra Judas, irmão de Tiago:
- Quero ler minha epístola, em 6: "Os anjos que não tinham guardado a dignidade de sua classe, mas abandonado os seus tronos, ele os guardou com laços eternos nas trevas para o julgamento do Grande Dia. Da mesma forma Sodoma, Gomorra e as cidades circunvizinhas, que praticaram as mesmas impurezas e se entregaram a vícios contra a natureza, jazem lá como exemplo, sofrendo a pena do fogo eterno. Quando o arcanjo Miguel discutia com o demônio e lhe disputava o corpo de Moisés, não ousou fulminar contra ele uma sentença de execração, mas disse somente: Que o próprio Senhor te repreenda!”. Portanto, devem ser julgados esses anjos.
Paulo de Tarso:
- Qual é a acusação?
Judas, irmão de Tiago:
- Ela está em Apocalipse 12,7: "Houve uma batalha no céu. Miguel e seus anjos tiveram de combater o Dragão. O Dragão e seus anjos travaram combate, mas não prevaleceram. E já não houve lugar para eles no céu. Foi então precipitado o grande Dragão, a primitiva serpente, chamado Demônio e Satanás, o sedutor do mundo inteiro. Foi precipitado na Terra, e com ele todos os anjos".
Paulo de Tarso:
- No céu não pode haver carne e ossos, muito menos um dragão ou uma serpente, animais que necessitam de alimentos. Quem escreveu o Apocalipse foi João. Vamos perguntar a ele: João, esse dragão possuía asas para manter-se no céu, nas nuvens, com Jeovah? Ou tratava-se de uma serpente? Ou se trata de um espírito-dragão? Ou você inventou esse personagem?
João:
- Será possível que não tenha esse Juízo Final entendido que cada sacerdote tem o direito de escrever o que julga interessante para seus dizimistas? Ou será que alguém pode crer que uma víbora falou, no Éden? Será que alguém pode crer que na arca de Noé, por ocasião do dilúvio, coubessem os animais que viviam na Austrália, na Ilha de Páscoa, nos Polos Norte e Sul, na África, no alto de montanhas espalhadas por toda a Terra? Alguém pode censurar os sacerdotes egípcios por mandarem embalsamar seus faraós, seus deuses?
João parecia estar exasperado com as perguntas que lhe eram feitas. E continuou:
- Podemos censurar a Jesus de Nazaré e seus familiares judeus por crerem que seu deus Jeovah pudesse ser tão vil, torpe, assassino, como ele é descrito por incontáveis sacerdotes no Velho Testamento? Ou censurar os apóstolos e evangelistas por escreverem que arderá eternamente na Geena ou num lugar chamado Inferno o cidadão abordado que desdenhar o que lhe é dito? Crê ou morre! Miserável sem fé? Tudo faz parte da técnica dos sacerdotes. No Velho Testamento eles não enriquecem com o que cobram de seus clientes?
- Voltemos ao julgamento dos anjos - interrompeu Jesus de Nazaré. Continue - Paulo de Tarso.
- O que está escrito na Bíblia Sagrada não pode ser contestado. Pergunto-te, Satanás: declaras-te culpado pela rebelião no céu?
Satanás, resplandecente:
- Eu somente existo porque sou muito útil aos sacerdotes. Sou imprescindível para eles todos. Imprimem o medo, usando o meu nome. Usam Jeovah para impor o terror, no Velho Testamento. E usam Jesus de Nazaré para criar pânico, no Novo Testamento. E, mesmo sendo eu um anjo, me usam para assustar aos mais incrédulos. Mas sou um anjo! Por que não chamam para ser julgado o anjo, meu colega, que matou cento e oitenta e cinco mil assírios, como está descrito em II-Reis 19,35: "Ora, na mesma noite o anjo de Jeovah apareceu no campo dos assírios e feriu cento e oitenta e cinco mil homens. No dia seguinte pela manhã só havia cadáveres".
Paulo de Tarso, agora orgulhoso juiz de anjos, olhou demoradamente dentro dos olhos de Lúcifer:
- Tens razão. O morticínio do anjo de Jeovah ocorreu à noite, sem combate e sem chance de defesa - ao que parece - para os seres humanos assassinados. Que venha esse anjo!
O anjo assassino, por coincidência, se encontrava sustentando um dos tronos. Foi substituído e se aproximou de Paulo de Tarso:
- Eu te saúdo, doutor dos gentios, santo julgador de anjos.
Paulo de Tarso:
- Confirma a este Tribunal do Juízo Final: você matou, durante a noite, cento e oitenta e cinco mil seres humanos? Utilizou sua espada para isso?
- Está escrito na Bíblia, não está?
Paulo de Tarso:
- Se você matasse um assírio por segundo, levaria setenta e nove horas. Teria que matar dez assírios por segundo para exterminá-los numa só noite.
O anjo:
- Parece correto. Mas eu era o anjo de Jeovah, como ainda sou. Recebi as ordens e tive que cumpri-las de qualquer forma.
Paulo de Tarso dirigiu-se a Jesus de Nazaré:
- Devemos considerar seriamente que esse relato não deve ser aceito. Como ensinei aos gentios: não há carne e ossos no céu. Esse anjo que aqui se apresenta e que teria matado cento e oitenta e cinco mil inimigos de Israel numa só noite, manejaria muito bem a sua espada.
- O que sugere - Paulo de Tarso? - indagou Jesus de Nazaré.
- Parece óbvio que se trata de uma fantasia de algum sacerdote judeu do Velho Testamento -respondeu o líder dos gentios.
Jesus de Nazaré - Yeshua:
- Está insinuando que as Escrituras Sagradas possuem relatos falsos?
Paulo de Tarso:
- É justamente isso que deve ser decidido por este Juízo Final. Esse serafim de carne e ossos deve habitar algum lugar oculto na Terra e somente voar para o alto quando assim determinado por seus superiores.
Jesus de Nazaré:
- Insistes que eu subi sem o meu corpo? Insinuas que o meu corpo ressuscitou e depois foi novamente sepultado em algum lugar não revelado? Insistes que eu fui arrebatado para as nuvens, como dizem os evangelistas, com corpo e roupas e que chegando às nuvens me transformei em espírito? E minhas roupas, foram guardadas por anjos? Meu corpo onde ficou? Numa geladeira celestial, para ser descongelado quando necessário? E passei a ser completamente invisível, assim como teria ocorrido quando visitei Tomé e seus companheiros? Segundo o Papa, o paradoxo teria ocorrido somente comigo.
- Pois bem – prosseguiu o Nazareno. No solo terrestre eu teria usado do paradoxo e, então, uma vez invisível – espírito, portanto – teria me transformado em algo que não existe senão na imaginação. O espírito não pode ser visto, não pode falar, não possui cérebro, ou seja, é algo criado para ser inútil.
Espanto geral no mundo. O que acabara de ser dito era bombástico. Mas tinha a mais absoluta lógica – diziam os repórteres.
- O mais importante dessas análises isentas de paixões ou ideologias – falou Jesus, filho de Maria- surge agora. Não há qualquer utilidade ou interesse em que nas nuvens, no céu, na companhia de Jeovah e sua família celestial, permaneça o recém-chegado nessa inútil situação de espírito! Jesus de Nazaré voltará imediatamente ao estado humano! Ele quer viver normalmente, ele quer degustar merecidamente o vinho e a páscoa com os doze apóstolos, conforme prometido nos escritos dos evangelistas! Ele deve -sim – assentar-se à direita do deus judaico no trono para ele reservado! E dizem que ele voltará para a Terra. Com o corpo? Que ficou armazenado em uma geladeira?
- E ele deve, obrigatoriamente – prosseguiu - em algum momento, deflagrar o Juízo Final, embora dois mil anos já se tenham passado! Esse julgamento já estava prometido para logo após a crucificação! Está escrito na Bíblia! Um atraso de dois mil anos! Ele deve observar os bilhões de humanos e anotar seus comportamentos para poder julgá-los! Bilhões e bilhões deles!
- Como irá condenar ou absolver esses humanos se não os vigiar detalhadamente cada qual? Como saberá se creram? Se pecaram? Se cobiçaram alguma mulher de outro homem? Se foram justos? Se houve arrependimento dos pecados? Se blasfemaram? Se falaram contra o Espírito Santo? Se pronunciaram palavras vãs? Se foram apóstatas? Se tiveram familiar crente, para poderem ser beneficiados com isso no julgamento? Se deixaram de pagar dízimos? Se foram batizados? Não é isso que fazem Jeovah, os Anjos Ceifadores, os Anjos Separadores e os doze apóstolos julgadores das Doze Tribos de Israel?
- Saberá identificar a cada um dos ressuscitados e os vivos? Poderá saber se mentem? Saberá se pecaram os que não foram catequizados? Saberá de quem são os ossos existentes em minas soterradas na China ou da África do Sul, a milhares de metros de profundidade, onde só sobraram esqueletos?
Yeshua tiritava de frio. A neblina invadira o Juízo Final. Continuou o Mestre:
- Voltando ao tema subida em Betânia: se assim fosse – subir sem o corpo e roupas - como poderiam os apóstolos ter sequer visto tal arrebatamento? Espíritos são destituídos de matéria, estou certo? Mas Tomé e os demais, na sala fechada a chaves, viram os furos em minhas mãos e o corte de lança no meu lado, não está escrito? Teria eu dois espíritos: um, que subiu ao céu logo que morri, na sexta-feira, e outro, que teria subido juntamente com meu corpo ressuscitado, quarenta dias após, como relatam os evangelistas? O paradoxo sugerido agora pelo Papa Emérito, me atribui, assim, dois espíritos e um corpo subidos até as nuvens? Quero a verdade.
Paulo pareceu surpreso com esses dados, mas logo se recuperou:
- Pois discordo, grande Mestre, com todo o respeito. Esqueçamos isso, por ora - caro Messias. Está escrito que os santos devem julgar os anjos. É o que me incumbe fazer, para que se cumpra o que ordena a Bíblia, já que sou santo e doutor. Vou agora ler passagens bíblicas em que se observa que os espíritos celestiais possuem a capacidade de aparecer.
- Muito bem. Os anjos pecam? Podem ser condenados a queimar nos fornos da Geena ou do Inferno? Suas penas queimarão – como irão voar após esse suplício? E, se antes fugirem, serão capturados por seus colegas e até parentes? Ou inimigos, como são descritos os anjos que se rebelaram e desceram caindo para o solo terrestre? Os seiscentos anjos judeus, com seus nomes, certamente não acatam as eventuais ordens de Jesus de Nazaré.