Juízo Final: Odisséia dos Deuses
Capítulo 53
Outro helicóptero chegou. Era a Comissão de Ressuscitados Hansenianos de Israel. Falavam hebraico:
- Mestre Jesus de Nazaré. Somos representantes de duzentos e cinquenta mil ressuscitados leprosos. Mas voltamos à vida como a deixamos - desfigurados pela temida enfermidade. Ninguém nos aceita. Não temos comida nem água. Expulsaram-nos das cidades. Aqui estamos para fazer um pedido, com todo o respeito: julgues-nos a todos o mais rapidamente possível.
Jesus de Nazaré:
- Sempre curei os leprosos, segundo escreveram os evangelistas. Diante da enormidade do sofrimento dessas criaturas, declaro que todos estão absolvidos de seus pecados e todos que creram no que diziam meus apóstolos, serão imediatamente conduzidos ao céu.
- Um momento! - exclamou Jeovah. Meu voto é no sentido de que esses doentes sejam mantidos em leprosários na Terra. No céu não temos condições de curar suas enfermidades, já que não existem hospitais no meu Reino. Além disso, muitos dos que aqui se apresentam viraram leprosos por minha decisão, como castigo por não terem seguido meus sacerdotes, entregando-se ao deus Baal e às deusas Asserá e Artemis.
Interveio Paulo de Tarso:
- Pois o meu parecer é o de que eles devem ingressar no céu. Afinal, basta que tenham tido fé nos meus sacerdotes e em minhas pregações para que sejam salvos. Nada mais se lhes pode exigir. Tenho, no entanto, uma ressalva: eles devem subir em forma de espíritos. Com isso não necessitarão de tratamentos médicos nem permanecerão com as deformidades resultantes da lepra. Além disso, eles poderiam ser confinados no Segundo Céu.
Jesus de Nazaré:
- Não há como concordar com o seu parecer, Paulo de Tarso. Eu subi com carne e ossos - como já se disse e se comprovou tantas vezes neste Juízo Final. Não há como termos duas espécies de seres humanos no céu, uma visível, como eu, e outra invisível, como é o caso dos espíritos, que, evidentemente, caso existam, não possuem carne, ossos ou qualquer outro tipo de átomos, células ou moléculas. E quanto a irem para o Terceiro Céu, temos que melhor examinar esse tema bíblico. Afinal foi você que o estabeleceu, mas o deixou sem regras de acesso a ele.
O impasse causava estupefação. Segundo Céu? O que significaria isso? Mas o Mestre logo encontrou a solução:
- Proponho que todos os duzentos e cinquenta mil enfermos ressuscitados sejam por mim curados, voltando ao seu estado normal de antes de serem atingidos pela lepra. Com isso o Juízo Final os declararia absolvidos e os Anjos Separadores os admitiriam e levariam ao céu. E o Segundo Céu seria uma alternativa a ser considerada, no caso de não se levar a efeito a cura, por qualquer razão.
- Concordo em parte - interveio o apóstolo Tiago. Proponho que, antes de serem arrebatados ao céu com seus corpos curados, sejam devidamente julgados. Muitos deles eram pecadores, foram salteadores, alguns assassinaram até mesmo seus pais, foram adoradores do deus Baal, e, segundo me informam, blasfemaram contra o Espírito Santo.
Esse voto foi acolhido pela maioria. Dois arcanjos trouxeram o primeiro dos leprosos. Os ossos da sua mandíbula estavam expostos em razão do ataque da enfermidade que não tinha cura no seu tempo de vida normal na Terra.
- Vou curá-lo agora - disse Jesus de Nazaré.
Imediatamente o rosto do leproso voltou a ser como era antes de contrair a doença. Regozijou-se muito e ajoelhou-se diante do Mestre, agradecendo o milagre.
Jesus de Nazaré:
- Não agradeça. Se a Bíblia diz que curei, continuo a viver com tal possibilidade. Quero saber se podemos te admitir nas nuvens. Diga: você foi justo? Vejo que não. Você se arrependeu de seus pecados? Vejo que não. Você blasfemou contra o Espírito Santo?
O ex-leproso:
- Não, Mestre. Vou resumir. É que eu nasci e morri duzentos anos antes que você, e, nessa época, nossos sacerdotes não mencionavam a existência desse espírito. Não fui justo. Matei meu pai e não me arrependi disso, porque ele, alcoolizado, batia na minha mãe diariamente. Eu a salvei, pois estava ele prestes a matá-la e as leis não protegiam as mulheres. Além disso, o crime poderia ser perdoado pelo sacerdote, mediante um pagamento.
Jesus de Nazaré:
- Agiste em legítima defesa de terceiros. Isso não é crime nem pecado. Obviamente não cumpriste com o mais importante dos pressupostos para salvar-se das fornalhas da Geena e do Inferno: crer em mim, castigo com o qual eu não concordo evidentemente. Mas, como vemos, não tinhas como crer, já que eu sequer havia nascido. Nesse caso, faço a pergunta final: você foi ímpio e pecador?
- Sim, cometi muitos pecados e crimes.
- Nesse caso você está absolvido. Está escrito: "Não vim para salvar os justos, mas os ímpios e pecadores".
O Tribunal parecia concordar, mas novamente Jeovah:
- Não posso admitir comigo um pecador que não se arrependeu. Recomendo que ele vá até uma sinagoga e faça ofertas ao sacerdote com vistas a obter o perdão, como estabelecem os livros de Moisés.
Todos concordaram, afinal, era essa a regra contida no Velho Testamento. Mas, para acelerar o julgamento, ordenou Jeovah que viesse o sacerdote até o Tribunal. Chegou - imponente como o Sol da manhã, vestindo o éfod criado por Moisés. As pedras preciosas brilhavam ante a luz dos holofotes dos helicópteros e os nomes das Doze Tribos de Israel resplandeciam enquanto os sinos de ouro, fixados na parte de baixo da imponente vestimenta, anunciavam a chegada do representante do Senhor dos Exércitos, o grande deus Jeovah, o deus dos israelenses:
- Eu te saúdo, Jeovah. Eu te saúdo, jovem judeu Jesus de Nazaré, filho de Davi e habitante de Nazaré.
O ex-leproso, sem perda de tempo:
- Digno sacerdote da tribo de Levi: pequei, pequei muito e preciso do seu perdão. Para isso ofereço-te as minhas terras na Galiléia, com todos os seus vinhedos e um rebanho de três mil cabeças de gado vacum e mais mil ovelhas.
- O seu pedido de perdão está aceito. Antes, contudo, examinarei o local.
Retirou-se o sacerdote e Jesus de Nazaré:
- Vejo que teus pecados foram perdoados devidamente, como o mandam as regras de Moisés. Jeovah: pronuncie seu voto.
- Diante da obediência às regras fixadas por Moisés, nada mais me resta: que seja levado ao céu o judeu, agora devidamente curado da lepra pelo dirigente deste Tribunal.
Doze querubins arrebataram o judeu e o conduziram para cima. Como sempre, passada uma meia hora, caíram todos, congelados. É que não havia nuvens baixas e a cada quinhentos pés a temperatura cai um ou dois graus centígrados, fato ignorado pelos humanos daquela época, com exceção de Elias e profetas que já viviam nas nuvens há séculos. Somente o rosto da águia querubínica parecia à vontade e nada sofrera.