Juízo Final: Odisséia dos Deuses

Horst Schadeck · Capítulo 60 de 96

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Juízo Final: Odisséia dos Deuses

Capítulo 59

 

Os helicópteros partiram e logo outros compareceram com suas filmadoras. Os anjos que sustentavam os tronos também foram substituídos. Os julgadores adormeceram inclinados em seus tronos, apesar do vento gelado que vinha do Norte. Os Anjos Separadores dormiam seguros pelos seus colegas menos cansados com o eterno bater de suas asas.

Amanheceu e o vento amainou. Abertos os trabalhos, Jesus de Nazaré:

- Julgadores deste Juízo Final. Devo fazer um resumo do que foi já decidido: nada escrevi. Escreveram sobre mim, décadas após minha morte. A cobrança do dízimo é prevista amplamente na Bíblia. No Velho Testamento crimes podiam ser perdoados pelos sacerdotes mediante entrega de terras e outros bens para esses líderes religiosos. Dizem aos judeus o que afirmam ter ouvido de Jeovah, deus exclusivo do povo de Israel. Relatam atrocidades e crueldades que teriam sido infligidas aos judeus que se transformassem em dizimados de deuses de outros povos, principalmente do deus Baal, do deus Camos, Moloch, deus dos amonitas, e de Astarte, deusa dos sidônios e Melcom, ídolo dos amonitas.

Anoitecia e a lua cheia fazia com que o Juízo Final se banhasse de luzes prateadas. Não havia nuvens. Todo o céu era visto repleto de anjos. Até o Terceiro Céu, situado a trinta mil pés de altura, podia ser observado com o uso de telescópios. Tudo era retransmitido pelas emissoras de televisão.

Jesus de Nazaré continuou:

- Esses castigos são impostos enquanto vivos esses judeus. Após a morte não há promessa de ressurreição por parte dos sacerdotes de Jeovah no Velho Testamento. Já no Novo Testamento há promessa dessa ressurreição. Basta que os dizimados creiam no que dizem os apóstolos e demais sacerdotes.

- Ficou claro – continuou o Mestre - que os personagens descritos pelos narradores Mateus, Marcos, Lucas e João sobem para as nuvens onde encontram os demais personagens, todos com carne e ossos. Mas o centurião romano Saulo de Tarso, judeu que lutara contra o seu próprio povo, se autonomeia sacerdote. Passa a usar do Grupo de Judeus Emprestados, o Grujuem, e se torna o grande líder religioso dos que não são judeus. Intitula-se doutor e santo. Ao contrário do que escrevem os quatro evangelistas e demais narradores bíblicos, tanto do Velho como do Novo Testamento, Paulo de Tarso afirma que ossos e carne não podem existir nos céus ou nas nuvens. Com isso ele nega que Jesus de Nazaré tenha subido com seu corpo ressuscitado, sem conseguir explicar, no entanto, onde estaria oculto esse corpo.

Jesus de Nazaré parecia cansado.

- Como já se disse aqui tantas vezes, existem descritos claramente três Jesuses. Repito: três. Aquele filho de Jeovah, legítimo e eterno, que já existia antes que o deus judaico criasse a luz, as estrelas, o calor; o Jesus de Nazaré, gestado pela amada Maria, tendo nascido normalmente como qualquer ser humano, após nove meses decorridos da fecundação de um óvulo fértil; e o terceiro Jesus, aquele que, deixando seu corpo no Gólgota, subiu como espírito ou como alma, já na sexta-feira, no exato momento da morte na cruz. Esse terceiro Jesus, ao contrário do outro, o do corpo, não foi obrigado a permanecer na Terra durante quarenta dias, como o fez o Jesus de Nazaré de carne e ossos.

- Resumindo, juízes: não há a menor dúvida que os acontecimentos bíblicos revelam o império dos sacerdotes. Eles lutam por ovelhas, por rebanhos, por tementes a Deus, por dízimos. E para obter seus desígnios criam suas versões sobre Jeovah, Jesus de Nazaré e demais personagens. No Velho Testamento inexiste ressurreição. No Novo Testamento há essa inovação criada pelos novos sacerdotes. Os sacerdotes fariseus também usam prometer vida eterna aos seus adeptos. Já os sacerdotes saduceus e Sumo Sacerdotes judeus combatem essas promessas, afirmando que são uma violação aos mandamentos criados pelos judeus e atribuídos a Jeovah.

- Escreveram os evangelistas que serias o pai de Jesus de Nazaré. E os escritores do Velho Testamento dizem que tu eras cruel e sanguinário. Disseram que provocavas a morte de judeus traidores com hemorroidas, chagas, úlceras, tísica, lepra, estrume no rosto, granizo. Disseram que mataste milhões de pessoas por afogamento. O que tens a dizer?

- Sou o produto de escritos de sacerdotes – respondeu Jeovah sem titubear. Parece que não se pode duvidar: as crueldades e atrocidades narradas serviam para que esses sacerdotes impusessem o temor aos seus dizimados e para que estes não fossem dar tais dízimos a deuses estranhos, principalmente o deus Baal, muito popular naqueles tempos.

- Parece ser lógico. A minha existência nunca foi mencionada pelos sacerdotes judaicos dos tempos bíblicos do Velho Testamento. Isso revela que foram os sacerdotes do Novo Testamento os criadores de Jesus de Nazaré, através de seus escritos, produzidos estes após a morte de Jesus de Nazaré, lá pelo ano 33 da atual Era. Ou alguém tem a menor dúvida de que, caso existisse efetivamente um filho com o nome de Jesus, no Velho Testamento, tal fato seria amplamente conhecido e propalado?

- Os únicos filhos de Deus, Jeovah, o Senhor dos Exércitos, Javé, o deus criado pelos escritos de Moisés, foram os que teriam descido para casar com as mulheres belas da Terra, como se lê em Gênesis 6,1-2. Jeovah teria se reunido com esses filhos, na companhia do anjo conhecido por Diabo. Os narradores sacerdotais bíblicos poderiam ter escrito que Jesus teria descido normalmente, como o fizeram os filhos mencionados por Moisés. É absurda a narrativa de que o filho divino desceria, com seu corpo, para nascer nove meses após.