Juízo Final: Odisséia dos Deuses
Capítulo 28
Eyeh-Asher-Ehyeh, ou seja - Eu sou o que sou - nome usado pelos israelitas para seu deus, que, impaciente, falou:
- Lembro que temos que julgar cem bilhões de ressuscitados e mais seis ou dez bilhões de vivos. Existem cálculos que acabam de me entregar que, mesmo julgando um réu por segundo, levaremos mais de um milhão de anos para acabar com essa tarefa na qual me incluíram indevidamente. Isso sem contar que irão nascer muitos bilhões de outros humanos. Apresse-se, pois, Jesus de Nazaré.
Jesus de Nazaré:
- No entanto não podemos nos apurar demasiadamente, pena de produzirmos injustiças e enviarmos às fornalhas da Geena pessoas inocentes.
Essa declaração caiu como bomba. Havia muitos milhões de mulheres grávidas esperando o nascimento de seus filhos.
Mateus:
- Está escrito pelo evangelista Mateus, em 22,30: “Na ressurreição, os homens não terão mulheres nem as mulheres, maridos; mas serão como os anjos de Deus no céu”. Não consta da Bíblia que as nove ordens de anjos vivam como maridos e esposas. Logo que ressuscitaram, pois, os cem bilhões de humanos, neste Juízo Final, perderam os homens e as mulheres sua capacidade de procriar. Está escrito no Livro. Isso pode ter fundamento?
Entraram em pânico os operadores dos helicópteros, os cinegrafistas e os demais profissionais dos milhares de canais de televisão que rodeavam o Juízo Final. Olharam os homens discretamente para seus órgãos incircuncisos, mas nada de diferente observaram.
No solo, a imprensa logo entrevistava os ressuscitados. Foi ouvido um jovem de vinte anos:
- Notou diferenças em seu corpo, após a sua ressurreição?
- Sim - respondeu. Estou no mesmo estado dos anjos, que agora posso ver, e também observo nas fotos e quadros existentes nas igrejas. Perdi a capacidade de conhecer mulher – imagino. Mas vou consultar um médico especialista.
Entrevistaram uma bela mulher ressuscitada. Informou ela:
- Não notei diferença alguma. Vi quadros de anjos com belos bustos, nas igrejas de Veneza. Os meus continuam iguais. Vejo que o julgamento deverá durar bilhões de anos e eu agora sou eterna. Só me resta procurar marido que não tenha ressuscitado e, portanto, não seja impotente como os ressuscitados. Mateus escreveu que os ressuscitados é que serão como os anjos de Deus no céu. Os demais continuam normais, pelo que se lê. Mas, creio que é cedo para saber o que vai acontecer.
Jesus de Nazaré:
- De fato, há que se meditar melhor sobre esse tema. Mas, finalizemos o julgamento desse sacerdote asteca. Já estamos a várias horas trabalhando e a sentença dele não foi exarada. Houve empate. Jeovah o condenou e não acolheu seu recurso. Eu o condenei, mas admiti o seu recurso. Os apóstolos se deram por incompetentes para julgar o gentio, alegando que Mateus assim determinou em seus escritos, ou seja, eles somente desceram para julgar as Doze Tribos de Israel. Pois eu tenho a solução que não contraria a Bíblia Sagrada.
Uma grande expectativa se instalou. Enquanto isso os ressuscitados varões estavam revoltados.
As televisões mostravam grandes manifestações em Paris onde os homens pediam por mudanças no texto que os igualava aos anjos. Jesus de Nazaré:
- Não tenho como modificar o texto bíblico. Não informam - Moisés ou Mateus, como os anjos se reproduzem. Mas me mostraram quadros e esculturas de pequenos anjos, anjos-bebês, existentes nas igrejas de Veneza, entre muitas outras. São evidentemente anjos que nasceram de algum ser e estão ainda na fase infantil. Quem os gestou? Jeovah, Moisés, vocês poderiam nos esclarecer sobre isso? E por que as anjas adultas possuem seios, se não podem amamentar filhos que não podem ter? E os bebês por que nos quadros das igrejas romanas, possuem os mesmos órgãos dos filhos dos humanos?
Moisés:
- Nunca escrevi sobre isso. Mas o que escrevi não explica a origem dos anjos. Certamente que não são filhos de Jeovah, pois não possuem a imagem de Adão, ou seja, a mesma imagem do deus judaico. Os filhos varões dele desceram do céu para esposar a mulheres belas, descendentes de Adão e Eva. Caso esses filhos houvessem coabitado com as anjas, teríamos um grande número de netos do Senhor dos Exércitos com asas. Além disso, não teriam as duas espécies a compatibilidade genética para produzir uma gestação. Nasceria o quê? Anjos divinos? Nesse caso, anjos divinos parentes dos filhos dos humanos com as belas mulheres com quem se casaram? Com asas?
- Voltando, pois, ao julgamento do sacerdote asteca - disse Jesus de Nazaré após beber água em um copo que um serafim lhe alcançara e, sem aguardar qualquer resposta de Jeovah e de Moisés -Mateus escreveu que os anjos juntarão meus escolhidos, dos quatro ventos! Repito: os meus escolhidos! Os anjos nada mais deveriam fazer do que separar e juntar os humanos que eu escolho! Devem ser combinados os escritos em Mateus 13,49, onde consta que os anjos viriam retirar os maus do meio dos justos, com o que, ao contrário, diz em 24,31, que simplesmente juntariam os escolhidos por Jesus de Nazaré. Primeiramente Mateus afirma que os anjos vêm separar os maus para os conduzir às fornalhas infernais. Depois, diz que os anjos viriam simplesmente juntar os humanos escolhidos por Jesus de Nazaré para serem admitidos no Reino de Jeovah. Os moradores da Austrália, dos Polos Sul e Norte, também?
- Há uma diferença entre separar os maus e juntar os escolhidos por outrem. No primeiro caso são os anjos os que decidem sobre o futuro dos humanos. Na segunda hipótese, não são os anjos que escolhem os que devem ir ao céu ou ao Inferno, ou para as fornalhas da Geena. Dessa maneira, eles se limitam a obedecer às ordens de Jesus de Nazaré, ou seja, aquele que escolhe quem deve ser condenado ou absolvido.
Jesus de Nazaré apertou a mão de Jesus Celestial, que acabara de descer do Terceiro Céu, sorriu e arrematou com o voto que finalizava o julgamento:
- Declaro e decreto: os anjos não escolherão mais. Eu e somente eu escolho. E elegi a esse sacerdote asteca! Eu o perdoei. Eu sou o mensageiro da paz, da fraternidade, da igualdade. Eu posso escolher! Sacerdote asteca! Estás por mim escolhido, e, como me cabe, absolvido, e não mais irás para as fornalhas. Irás para o céu! Os anjos te arrebatarão para lá, exatamente como aconteceu comigo quarenta dias após minha ressurreição, como o diz o evangelista Marcos, em 16,19. Fui elevado ao céu, diz esse dizimador. Ou como diz o evangelista Lucas, em 24,51: Jesus de Nazaré foi arrebatado para o alto. Por quem? Certamente pelos anjos, pois são os únicos habitantes do céu que possuem asas. Não existiam balões, aeronaves e a carroça de fogo usada por Elias, que estava em lugar incerto e não sabido.
O sacerdote, no entanto, não parecia muito satisfeito com a decisão:
- Perdoe, senhor - mas não viverei feliz no meio estranho a que me queres enviar. Gostaria de voltar para meu povo e meus deuses.
Jesus de Nazaré é que agora estava surpreso. Mas logo entendeu porque esse homem se recusava a ingressar no Reino de Jeovah:
- Compreendo - sacerdote. Mas lamento informar-te que não há como reformar a sentença. Ou vais para o Reino de Jeovah, ou vais para a Geena. Tens a opção de queimar nas fornalhas do Inferno. Em um dos três lugares terás que viver eternamente.
O sacerdote asteca:
- Não posso viver longe das minhas sacerdotisas e de meu povo. Muito menos viver como eunuco, ou, como diz esse seu Mateus, como os anjos de Jeovah, deixando de coabitar com minhas esposas.
- Vejo que serás um grande problema no Reino de Jeovah. Não me parece prudente enviar-te para lá contra tua vontade. Só me resta uma solução: declarar a nulidade do presente julgamento e ordenar que te levem de volta a teu jazigo, lá nas longínquas terras de além-mar.
Jesus de Nazaré acenou para um arcanjo e deu a ordem. Mas o sacerdote reagiu:
- Lamento, mas isso é impossível. Li muito bem o livro que os padres me deram há cinco séculos. Após o Juízo Final, os ressuscitados são eternos. Nada os pode fazer voltar às suas tumbas.
Após consultar a todos os demais julgadores, decretou o Mestre de Nazaré:
- Nada há nos escritos de Mateus que forcem os escolhidos a morar no Reino de Deus. Quem não desejar subir, pode permanecer na Terra! Não há obrigatoriedade. E nada impede que os salvos, os absolvidos, os escolhidos, os separados pelos Anjos Separadores, desçam para a Terra. Quem os impedirá? Ou caíssem e, imortais, continuam a viver no solo. Ou descem levados por anjos ou carros de fogo. Os filhos de Jeovah que casaram com as mulheres da Terra e com elas tiveram filhos, também desceram possivelmente dessa forma.
Sara Moshê publicou uma nota no Times:
“O Julgamento do Juízo Final parecia estar fadado a ser um grande fracasso. Além de atrasada sua realização por dois milênios - só estava conseguindo julgar alguns poucos ressuscitados enfermos e caçados pelos anjos. Era opinião unânime: se na Terra não havia comida nem água potável para todos, infinitamente pior seria elevar todo esse descomunal número de pessoas até a altura de dois ou três quilômetros. O que fazer lá? Sem energia elétrica, sem luz, sem acomodações, sem alimentos e água não havia como fazer subir mais de cem bilhões de humanos. Além de tudo não teriam como se sustentar no ar. Nem interesse nisso, já que no solo terrestre teriam alguma chance de sobreviver, embora a repentina e brutal nova população de mais de cem bilhões de seres humanos. Não teriam que suportar o frio e a umidade reinante no alto. E quem os sustentaria lá, já que os anjos eram de pequeno número?”.
No Berliner Post a jornalista estampou:
“Ninguém quer ser salvo, perdoado ou elevado para junto dos deuses judeus.A maioria sofre do medo das alturas”.
Nos jornais italianos se noticiava:
“Ressuscitar: um péssimo caminho imposto pelos sacerdotes”.
“Os humanos ricos, no entanto, tinham uma solução: voavam com seus aviões para ilhas desertas nos oceanos. Mas em breve milhões tiveram a mesma ideia e passaram a se engalfinhar pela água de coco”.
“Suicídios eram tentados em vão para os ressuscitados: eles eram agora declarados eternos pelos sacerdotes e não mais podiam morrer”.
“Os judeus instalados nas nuvens estavam cogitando em cancelar o julgamento”.