Juízo Final: Odisséia dos Deuses

Horst Schadeck · Capítulo 42 de 96

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Juízo Final: Odisséia dos Deuses

Capítulo 41

 

Chegaram os profetas. Uma multidão de judeus com grandes barbas trazidos pelos anjos reverenciaram Jeovah, ignorando completamente Jesus de Nazaré.

- Saúdo-te, grande Senhor dos Exércitos de Israel.

O grande patriarca vestia imponentes roupagens. Rubis, safiras, opalas, diamantes, ametistas e correntes de ouro com sinos adornavam seu éfod.

- Como judeu, sinto-me muito honrado com sua presença. Perdoe se perturbei sua vida. Diga-me: está chegando do alto ou acabou de ser ressuscitado?

- Está escrito pelo evangelista João que eu, Isaac, Elias e demais profetas de Jeovah estaríamos aqui quando os ressuscitados subissem. Vejo que nossos Sumo Sacerdotes, responsáveis por tua morte, estavam equivocados - Jesus de Nazaré.

Jesus de Nazaré:

- É cedo para concluirmos isso. Estamos investigando os textos escritos pelos dizimadores. Como está a sua vida no céu?

- Desculpem - interrompeu Mateus. Está escrito no meu evangelho, em 8,11: "Multidões virão do Oriente e do Ocidente e se assentarão no Reino dos Céus com o Patriarca, Isaac e Jacó, enquanto os filhos do Reino serão lançados nas trevas exteriores, onde haverá choro e ranger de dentes".

- Sim, aí está a confirmação por Mateus, de que nós fomos aquinhoados com a ressurreição muitos séculos antes da instituição desse fenômeno pelos evangelistas. Nosso grande herói, Elias, subiu vivo, com um carro de fogo. O que nos incomoda muito – disse agora o Patriarca - é o fato de que teremos que conviver, aqui nas nuvens, nos céus, com nossos inimigos, os goin, os gentios, os romanos que mataram um milhão de judeus e escravizaram nosso povo com sua ocupação, nos tempos em que tu vivias na Terra, jovem judeu descendente do nosso glorioso rei Davi.

Jesus de Nazaré:

- Mateus - escreveste algo surpreendente. Os condenados não serão queimados em fornalhas? Os que não creem no que dizias não seriam jogados nas fornalhas da Geena de Jerusalém para arderem como palha? Me atribuíste apologias a tais torturas e agora dizes que os descrentes não mais terão esses destinos, mas sim, serão jogados em trevas exteriores? Onde fica isso? É outra forma de atemorizar? Afinal, o brutal castigo que prometes aos que não te trazem dízimos agora são a escuridão e as trevas, justamente o contrário do que antes disseste? Afinal, trevas ou fornalhas? Interior da Terra, no que chamas de Inferno, ou espaço exterior, em locais de trevas, nos fornos da Geena?

Jesus de Nazaré voltou-se para Paulo de Tarso novamente:

- Paulo de Tarso prometeu a salvação também a esses nossos inimigos, os gentios romanos, muitos deles, agora ressuscitados, responsáveis pela morte de nossos irmãos judeus, quando ocuparam e humilharam Israel.

Jeovah interferiu, quebrando seu mutismo:

- Ousam dizer que eu teria ressuscitado a todos os profetas judeus. Esses adeptos de Jesus de Nazaré inovam! Como haveriam de ressuscitar esses meus profetas se jamais meus sacerdotes prometeram tais coisas? E por que haveria eu de ressuscitar pessoas que se dizem profetas? E o restante de meu povo? Como poderia saber quem é um profeta verdadeiro? E mais, pode alguém prever o futuro? Por que esse jovem Jesus de Nazaré não previu que o seu Reino não viria no primeiro século, como tantas vezes profetizado por ele?

Jeovah mandou trazer a Torá e os demais livros escritos pelos rabinos. Deles extraiu a leitura:

- Aqui estão os sete mandamentos que meus rabinos tornam públicos para os gentios, os não-judeus: "1 - Não se rebelar contra Deus; 2 - Não praticar idolatria nem servir de intermediários entre o homem e Deus; 3 - Não cometer assassinatos e tudo o que pode levar a isto; 4 - Não cometer adultério, perversões sexuais e tudo o que pode levar a isto; 5 - Não roubar e tudo o que pode levar a isto, inclusive roubo de ideias e sequestros; 6 - Não comer parte de animais enquanto vivos e tudo que se estende a isso; 7 - Estabelecer tribunais íntegros, legislar leis honestas e praticar a justiça, o que inclui a caridade".

Jeovah foi até o apóstolo Paulo de Tarso:

- Você observou, quando vivo na Terra, que os gentios, com raras exceções, não faziam parte dos rebanhos de meus sacerdotes. Você tomou ciência de que nem gentios nem judeus poderiam ter intermediários entre mim e os seres humanos?

Paulo de Tarso:

- Eu fui soldado romano. Desse povo recebia meu soldo. Ordenaram-me que prendesse e matasse os seguidores de Jesus de Nazaré. Tive uma visão e me transformei em líder religioso de grande notoriedade, como ninguém ignora. Adotei, sim, um intermediário entre os gentios e você, Jeovah. Ele possuía o nome de Jesus de Nazaré e se intitulava teu filho e o paráclito, ou seja, o advogado dos humanos junto a Jeovah. Sinto muito se tive que transgredir os dois primeiros mandamentos destinados aos goin, escritos por teus rabinos.

Jeovah - Dados Yisrael:

- Bem claro está - Paulo de Tarso, que eu sou o deus dos judeus, portanto. Bem claro está que eu fui anunciado por Moisés e falo hebraico, língua praticada nas nuvens. Bem claro está também, Paulo de Tarso, que transgrediste os meus mandamentos destinados aos não-judeus, ou seja, não se rebelar contra mim nem se valer de intermediários. E transgrediste também o mandamento que passei ao meu povo, nas tábuas entregues por mim a Moisés: não terás outros deuses além de mim.

- Mas - perdoe por ter que dizê-lo - eu não me rebelei contra você, Jeovah! Eu simplesmente obedeci às orientações dos apóstolos do judeu Jesus de Nazaré, teu filho! Por acaso eu cometi algum delito, ao ter fé nesse homem virtuoso, que se dizia teu filho? E mais, se eu não tivesse fé nele, eu teria o castigo das fornalhas infernais eternas da Geena.

Jeovah:

- Concordo que estavas em um grande dilema. Ou obedecias ao milenar Jeovah, ou acatavas as histórias que te constaram os judeus amigos de Jesus de Nazaré. Vou ler o que escreveste em tua Carta aos Coríntios 16,23: "Se alguém não amar ao Senhor, seja maldito!". Senhor, segundo os demais escritos a ti atribuídos, era Jesus de Nazaré. Jeovah era agora simplesmente denominado Deus, tal como Invictus, o Deus-Sol, uma das divindades criadas pelos sacerdotes romanos e com o qual obtinham, inicialmente, as suas fortunas, os dízimos e o controle dos plebeus. Para os gentios eu não mais era apresentado como Jeovah, Javé, o Senhor dos Exércitos de Israel.

Houve um grande movimento por parte dos repórteres de toda a Terra. Paulo havia amaldiçoado aos que adotassem outros pensamentos.

- Amaldiçoas os que professam outras religiões! Amaldiçoas os romanos que, na época, adoravam seu deus Invictus e vários outros!

Paulo de Tarso não se lembrava de ter escrito esse texto. Teriam os copistas adicionado essa maldição?

- Ou os destinatários da tua carta concordam com o que dizes, ou eles se transformam em malditos. Os candidatos a ovelhas de teu rebanho de gentios, de não-judeus, não possuem escolha. Há imposição de temor. Ou fazem o que um estranho judeu lhes diz, ou a maldição, as fornalhas infernais eternas.

- Pouco antes escreveste, em 16 1,4, que as igrejas devem seguir as tuas diretrizes: juntar semanalmente as ofertas para que sejam recolhidas pelos que as levarão a Jerusalém e irias pessoalmente se valesse a pena. Ou seja, será maldito o gentio que não amar o judeu já morto - que chamas de Senhor -e não contribuir com o dízimo para ti.

Paulo de Tarso nada respondeu. Jeovah prosseguiu:

- Escreveste coisas espantosas, Paulo de Tarso. Disseste que a lei de Moisés, a lei que eu criei, aquela que entreguei ao meu povo no monte Sinai, escrita em hebraico, não mais era obrigatória, pois seria impossível viver sem descumpri-la. Escreveste ao teu rebanho de gentios que bastaria crer que Jesus de Nazaré seria filho de Jeovah para que essas pessoas viessem a ser ressuscitadas e admitidas no meu Reino Celestial! Além de desrespeitar meus mandamentos, passaste a afirmar que seriam admitidos -nas nuvens onde estou - esses integrantes de outros povos, inclusive os milenares inimigos do meu povo, Israel!

Paulo de Tarso não pareceu abalado:

- Pois vou ler novamente o que está escrito na minha Carta aos I-Tessalonicenses 3,13-18: "Nossa ressurreição - irmãos, não queremos que ignoreis coisa alguma a respeito dos mortos, para que não vos entristeçais, como os outros homens que não têm esperanças. Se cremos que Jesus morreu e ressuscitou, cremos também que Deus levará com Jesus os que nele morreram. Eis o que vos declaramos, conforme a palavra do Senhor: por ocasião da vinda do Senhor, nós que ficamos ainda vivos, não precedemos os mortos. Quando for dado o sinal, à voz do arcanjo e ao som da trombeta de Deus, o mesmo Senhor descerá do céu e os que morreram em Cristo ressurgirão primeiro. Depois nós, os vivos, os que estamos ainda na Terra, seremos arrebatados juntamente com eles sobre nuvens ao encontro do Senhor nos ares, e assim estaremos para sempre com o Senhor. Portanto consolai-vos uns aos outros com essas palavras".

Paulo sorriu vitoriosamente. Mas Jeovah foi implacável na resposta:

- Você descumpriu meu primeiro mandamento, Paulo de Tarso: não terás outros deuses diante de mim. Você descumpriu o primeiro dos sete mandamentos do meu povo para com os gentios: não te rebelarás contra Jeovah, o Senhor dos Exércitos, o Deus do povo de Israel.

Um motor de um dos helicópteros parecia estar falhando novamente e, em seguida, fumaça saía de sua carenagem. Desceu rodopiando, mas conseguiu aterrissar com relativa segurança. Jeovah continuou:

- Esse jovem judeu, Jesus de Nazaré, foi morto por iniciativa de meus sacerdotes de Jerusalém, na quarta década da era atual. Ninguém estava autorizado a prometer ressurreições em Israel. Dizes que meu povo vivia triste, por não ter esperanças.

Jeovah cofiou sua longa barba branca:

- E te tornas um dizimador de grande sucesso ao proporcionar aos gentios essa esperança. E usas o termo "se cremos que Jesus de Nazaré ressuscitou, cremos que nós também ressuscitaremos". E, além de desobedecer ao primeiro mandamento que Moisés trouxe do monte, séculos antes, você diz ao seu rebanho de gentios que minha trombeta irá desencadear um som musical e Jesus de Nazaré descerá do céu.

- Assim escrevi e assim formei o maior rebanho de que se têm notícias no Ocidente. Até mesmo os romanos aderiram à minha mensagem.

Jeovah:

- Você afirma, Paulo de Tarso, que ressurgirão, ressuscitarão primeiramente os seres humanos que acreditaram na mensagem desse jovem judeu. Como podemos ver, efetivamente acabam de ressuscitar cem bilhões de gentios. Não se tratam de espíritos ou almas. Saíram de túmulos, mares, buracos. Possuem carne e ossos - exatamente como Jesus de Nazaré. E como saíram dos seus túmulos - que se abriram - os ditos justos, no dia em que Jesus de Nazaré teria ressuscitado?

- Obviamente que um túmulo não necessita ser rompido se de dentro dele vai sair um espírito. Lembras que a pesada pedra que obstruía o túmulo de Jesus de Nazaré, de propriedade do rico judeu José, da cidade de Arimatéia, teve que ser removida para que o corpo de Jesus de Nazaré pudesse sair (embora o corpo lá não mais estivesse)? Lembras que teria sido um anjo o que promovera esse deslocamento, usando sua força muscular? Lembras que Mateus e seus colegas sacerdotes escreveram que o anjo estava sentado sobre a pedra, já tendo saído o corpo ressuscitado de Jesus de Nazaré?

- E, Paulo de Tarso - continuou - meu povo, Israel, não acreditou nesses judeus que escreveram os Evangelhos. Meu povo é constituído de várias dezenas de milhões de mortos e outros tantos vivos, espalhados pelo mundo. Muitos milhões de judeus foram mortos pelos gentios, aqueles a quem te aliaste.

Paulo de Tarso:

- Eles serão ressuscitados e julgados! Assim está narrado no Novo Testamento! São exatamente os doze apóstolos os que julgarão as Doze Tribos de Israel, como está escrito!

Jeovah para Paulo de Tarso:

- O meu povo, os Israelitas de todos os cantos da Terra, não se submete às tuas regras, Paulo de Tarso! Quem és tu para me contrariar? Como ousas dizer que eu, Jeovah, me uniria com sedizentes profetas que dão pérolas aos goin? Quem te autorizou a propalar que existe outro deus além de mim? Quem te deu licença para dizer o que eu devo fazer, eu, o Senhor dos Exércitos, o criador do universo?

Jesus de Nazaré interveio:

- Peço que leiam no Velho Testamento que existe menção, tímida é verdade, da possibilidade de serem ressuscitados judeus justos. Somente os justos. Os injustos não ressuscitam e não devem ser castigados. Leio em 2-Macabeus, 7,14: “É desejável passar para a outra vida pelas mãos dos homens, conservando em Jeovah, nosso Deus, a esperança de um dia ser ressuscitado por ele. Para ti, porém não haverá ressurreição para a vida”. Assim, o Velho Testamento não promete. Mesmo porque esse livro somente consta da Bíblia romana. Um dos dizimistas escreve timidamente que poderia haver uma ressurreição, mas só de um justo. Macabeu é o apelido do mais ilustre filho de Matatias, Judas, chamado o Macabeu, ou seja, Martelo. Esse livro não consta da Bíblia hebraica e não é aceito pelos protestantes. Fica afastada a ressurreição para os judeus, já que Moisés, Elias, Jacó, Isaac e os outros proeminentes jamais admitiram ressurreições.

Paulo de Tarso:

- Bem sei Jeovah, que tu, Moisés, teus sacerdotes, da Tribo de Levi, teus profetas e teus reis, castigavam os pecadores, os que transgrediam teus mandamentos. Bem sei que os judeus não recebem o consolo e as certezas de vida eterna que eu dei aos outros povos.

Respirou fundo. Agora era Paulo de Tarso quem se levantava do trono:

- Infelizmente, não consegui convencer Israel, que me ignorou e me desprezou. Mas, Jeovah, tua ira já não importa a ninguém. Todos os que me seguiram, os que creram em Jesus de Nazaré, ingressarão no céu e te farão companhia. Isso está escrito nos Evangelhos bíblicos, no Novo Testamento.

Os olhos de Paulo de Tarso faiscavam e os punhos estavam cerrados:

- E, se está escrito, tem idêntico valor ao que está escrito no Velho Testamento. Lá tua ira impera e o povo judeu tinha que se contentar em não pecar. Não transgredir teus mandamentos lhes proporcionava tranquilidade. Mas só isso. Esperanças após a morte não lhes prometem teus sacerdotes até hoje.

Jeovah tremia. A ira que tomou conta dele parecia ser aquela que é relatada no Velho Testamento:

- Eu sou o Senhor dos Exércitos! Eu sou o criador de tudo! Eu é que dou as ordens!

- Acalme-se - grande deus dos judeus. Eu possuo o maior rebanho. Eu consegui o que tu não conseguiste - perdoe se o digo. Mais de um bilhão de adeptos temos nós, romanos, em todo o globo terrestre, atualmente. Um número talvez igual de ovelhas possuam os evangélicos. Assim, não temos concorrência. Nós não somos partidários do deus Baal, cujos dizimados tu aniquilaste várias vezes. Nós somos o maior Poder religioso. Nossos sacerdotes são mais numerosos do que os habitantes de Israel. Nós o chamamos de Deus, e não Jeovah.

Jeovah parecia não acreditar no que ouvia. Estava sendo desafiado pelo ex-soldado romano e que chefiava a seita dos gentios usando seu divino nome.

Antes de poder responder, Paulo de Tarso continuou:

- Nós, romanos e evangélicos, respeitamos os judeus. Afinal, Jesus de Nazaré é um judeu, como é sua mãe Maria, seu pai José e Pedro, o pescador judeu e primeiro papa dos romanos. Estamos em pleno Juízo Final e, como está escrito, tu também compareces, em um trono. Não podes te furtar a cumprir com o que está escrito na Bíblia Sagrada. Não fazemos como Martin Luther, que usa o Grujuem, os judeus emprestados e, ao mesmo tempo, escreve nos jornais que os judeus devem ser eliminados.

Jeovah - Dados Yisrael:

- Mencionas, como outros, meu nome nesse Novo Testamento. Dizem que eu fui o responsável pela gestação de Maria, e, assim, pai de Jesus de Nazaré. Evidentemente que isso me torna culpado de causar adultério, o que não podem aceitar qualquer judeu e seus sacerdotes.

Paulo de Tarso:

- Gostaria de encerrar essa discussão, prezado Jeovah. Basta as que tive com os apóstolos judeus, Pedro e seus companheiros, como está claramente relatado em minhas epístolas ou cartas e pelo próprio Pedro. E termino dizendo, com a autoridade sacerdotal e santa que tenho: o Novo Testamento não tem por que curvar-se ao antigo e Velho Testamento, superado e ultrapassado. Alias Moisés e seus compatriotas mais antigos te escolheram como seu deus por acaso. O deus dos judeus e dos romanos poderia ter sido Baal ou até uma deusa, Asserá. Abraão foi adepto de vários outros deuses.

Jeovah ergueu-se encolerizado. Rangia os dentes e esbravejou:

- Quem inicia e termina discussões sou eu, O Senhor dos Exércitos! Sente-se! Não terminei contigo!

Paulo de Tarso não esperava essa reação. Sentou-se e o deus de Israel continuou:

- Você confessou em Atos dos Apóstolos 22,20: “E quando se derramou o sangue de Estêvão, tua testemunha, eu estava presente, consentia nisso e guardava os mantos dos que o matavam”. Você foi coautor confesso da morte de um de meus súditos israelenses. Não foi submetido a julgamento nem pagou por esse ato gravemente delituoso. Por quê?

Paulo de Tarso passou a ficar preocupado com o rumo que tomava o julgamento. Respondeu:

- Esqueces, estimado Deus, que Estêvão era um dos que pregavam contra teus sacerdotes. Era um seguidor de Jesus de Nazaré.

- Não matarás – transgrediste a este mandamento. A confissão é escrita e não negas sua validade. Nada mais temos a provar. Meu veredicto é: queimar nas fornalhas da Geena de Jerusalém.

Uma sonora gargalhada de Paulo de Tarso se ouviu por todo o planeta através das telas das televisões. Jogou seu manto sobre o ombro esquerdo e retirou-se do Juízo Final montado em um querubim com suas quatro asas e os quatro rostos sempre mal humorados rugindo, guinchando e mugindo. O julgamento foi interrompido porque Jeovah não parecia sentir-se bem. Rangia os dentes. Ele era a imagem de Adão e não estava isento dos males humanos, assim como os seus demais filhos, aqueles que desceram para coabitar com as mulheres belas, além das colônias de filhos que desceram – comentavam os repórteres.

Jeovah estava novamente muito irado com o soldado romano:

- Quero alertar a todos. Esse judeu nascido fora de Israel e naturalizado romano por haver residido em suas terras, confessou que seus desejos são os dízimos. Ele atemoriza com mensagens conflitantes. Na sua Segunda Carta aos Tessalonicenses, nos capítulos primeiro e segundo diz resumidamente: “Ele descerá do céu com seus anjos poderosos, em chamas de fogo para fazer justiça com perdição eterna e naquele dia será glorificado em seus santos e admirado em todos os que creram. Aparecerá o ímpio com o poder de Satanás com milagres, sinais e prodígios mentirosos. Jesus matará o ímpio com o sopro de sua boca”.

- Bem observado, Altíssimo deus dos israelenses. Atribui-me novamente uma grande iniquidade: eu mataria em vez de perdoar o ímpio. E usa do argumento do temor: a presença de Satanás, tal como os fazem os pastores modernos. E confessa que eu não seria espírito - teria pulmões para assoprar.