Juízo Final: Odisséia dos Deuses

Horst Schadeck · Capítulo 6 de 96

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Juízo Final: Odisséia dos Deuses

Capítulo 5

 

O Sol brilhava intensamente e da Terra, a sete quilômetros de altitude, se viam com grandes dificuldade os tronos, os anjos com suas espadas flamejantes, roupas, trombetas, e os helicópteros. Os treze apóstolos, confortavelmente sentados em seus magníficos assentos, ordenaram que se trouxesse então Lázaro. Bebiam vinho em taças de prata. Lázaro chegou radiante com o reencontro com Jesus de Nazaré. Beijou-lhe os pés, apoiado nas costas de dois serafins, que, com suas seis asas, faziam o papel de assoalho e de tapete.

- Jesus de Nazaré: quero voltar a agradecer por teres me ressuscitado pela primeira vez, lá em Israel. Agora volto e peço que tornes a me ajudar.

Yeshua - Jesus de Nazaré:

- Preciso que me esclareças - Lázaro. As duas ressurreições foram iguais?

Lázaro:

- Sim. Depois que me ressuscitaste, vivi por mais uns sete anos, pelo que me lembro. Voltei a morrer e agora, dois milênios após, tornei a ressuscitar esse meu corpo tão sofrido.

Yeshua:

- Percebeste que Paulo de Tarso afirma que os ressuscitados são espíritos, caso contrário não poderiam subir para o céu e as nuvens. Mas vejo que tua primeira ressurreição te fez sair caminhando, recuperando tua carne, ossos, sangue e com as características dos demais humanos vivos.

O Mestre olhou para Paulo de Tarso que a tudo observava atento e prosseguiu, dirigindo-se a Lázaro:

- Está provado por força da palavra bíblica: o ressuscitado volta a possuir seu corpo. Não é um mero espírito o que surge com a ressurreição. Já na segunda vez, ocorrida agora neste Juízo Final, voltas com o mesmo corpo de carne e ossos, exatamente como eu, que fui arrebatado quarenta dias após sair do túmulo de José da Arimatéia. Antes da primeira ressurreição Lázaro, ainda possuías carne e sangue. Agora, neste Dia do Juízo Final, estavas somente com os ossos, ao voltar a ressuscitar. Na primeira vez, não eras eterno. Agora o és, como estabelecem as regras bíblicas.

Jesus de Nazaré, após uma breve pausa:

- Preciso que me esclareças mais uma coisa, Lázaro. Está escrito pelos evangelistas bíblicos que, no dia da minha morte na cruz, muitos túmulos se abriram e ressuscitaram muitas pessoas. Pergunto: chegaste a manter algum diálogo com seus colegas ressuscitados?

Lázaro:

- Não. Nunca me foi relatado que houvessem outros ressuscitados.

Jesus de Nazaré:

- Tens razão. O texto de Mateus e dos outros somente foi escrito várias décadas após a tua e a minha ressurreições. Mas, como não se pode contestar a Bíblia Sagrada, tenho que convocar os demais ressuscitados. Mas, antes, temos que te julgar. Pergunto: tiveste fé em mim - primeiro pressuposto?

- Evidentemente, Mestre.

- Foste justo, te arrependeste dos teus pecados, não falaste mal do Espírito Santo?

- Não. Fui um grande pecador. Mas, terás que me absolver, pois está escrito que não vieste para salvar os justos, mas os ímpios e pecadores.

Jesus de Nazaré, em sua infinita bondade:

- Estás absolvido. Vejo que prestaste um grande favor para estes julgadores. Constatamos que as ressurreições sempre ocorrem com corpos revivendo. Não se pode cogitar de espíritos ressuscitando. Eu mesmo subi com meu corpo, devidamente vestido com capa, manto, túnica e sandálias. Jeovah fala oculto em nuvens e traz os mandamentos gravados em pedras lá do alto das nuvens. E o encontro de Moisés com Jeovah acontece face a face, como está escrito em Deuteronômio 5,4-8 e 5,22: “Jeovah vos falou face a face na montanha, do meio do fogo; não terás outros deuses além de mim; não farás para ti ídolos nem figura alguma”. Os anjos possuem asas para poderem se mover pelos ares e braços para manejarem espadas; empunhar as trombetas; pernas para mover-se e travar combates. Uma das nove ordens possui boca, dentes, nariz, olhos de leão, além de rosto de boi e rosto de águia e outro de humano terráqueo, aptos, pois, a rugir, mugir, guinchar e falar. São os querubins, montaria de Jeovah e seus familiares. Vamos examinar isso exaustivamente durante o julgamento. Assim, dito isso, minha sentença: teu maltratado corpo terá que subir ao céu, ao Reino de Jeovah.

Lázaro:

- Perdoe Mestre – prefiro permanecer na Terra. Não gostaria de congelar lá no alto.

Jesus de Nazaré:

- Tens razão. Mas não posso abrir exceções. Está escrito que todos os absolvidos devem obrigatoriamente ingressar no céu, nas nuvens. Levem-no! - ordenou o Mestre.

Os querubins de plantão o levaram. Minutos após voltaram, caindo, congelados as asas e o pobre Lázaro.

Jeovah:

- Eu bem que avisei. Nunca autorizei os meus sacerdotes a acenar com ressurreições aos seus clientes. Essas promessas feitas pelos judeus apóstolos estão em desacordo com minhas ordens. Buscar rebanhos e dízimos dessa forma não pode ser por mim aceito. Qualquer judeu que pecar, sofrerá as consequências no solo terrestre. Repito: no solo, na Terra.

Jesus de Nazaré:

- Tínhamos cinquenta e seis sinagogas em Israel, enquanto eu vivia como terráqueo. Certamente lembras as de Chorazim, Kafar Kana, Veradim, Meiron, Sasa, Gush, Hamath Gader, Umm el-Kanadir, Zumimra, Kokhav Há-Yarden, Ascalon, Susina.

A Máquina foi acionada. Jesus indagava:

- O Juízo Final necessita de mais informações. Os Evangelhos foram escritos como estão hoje nas Bíblias?

Entre as respostas, chegou um texto de autoria do notável escritor Bart D. Ehrman em seu livro O Que Jesus Disse? O Que Jesus Não Disse? Quem Mudou a Bíblia e Por Quê? Após analisar o livro, o Mestre leu para o Tribunal do Juízo Final:

- “... milhares de lugares nos quais os manuscritos do Novo Testamento foram mudados por copistas”.

- Os copistas foram os romanos – disse. Novamente os romanos. O Novo Testamento me descreve como um ser cruel. Ou crê, ou morre no fogo. José não seria mais meu pai. A gravidez da amada mãe não teria iniciado com a fecundação de uma semente masculina, como ocorria há milhões de anos. Engravidar normalmente faria a mulher maculada? Meus irmãos e irmãs, todos macularam minha amada mãe?

Os anjos Príncipes tinham conseguido trazer uma Shiksa, jovem gentia.

- Sente-se no meu trono, por favor! – convidou o Mestre.

Ela relutava, mas acabou ocupando o principal assento dos narradores bíblicos.

- Na minha língua és uma Shiksa. Eu te agradeço por estares aqui e te peço para que me auxilies neste julgamento em que dois Testamentos Bíblicos se chocam brutalmente. O primeiro, de Jeovah, não admite ressurreições. Mas o Segundo escreve que no Dia do Juízo Final já estarão junto a esse mesmo Jeovah os seus profetas, todos do Velho Testamento. O que sentes a respeito?

- Sou uma gentia, sim. Vivi no século quinze e minha religião tem como sacerdote o grande Buda. Penso que as duas correntes bíblicas, pelo que observei, são resultantes de apascentamentos, como confessam todos. Impressionante é, no entanto, que os cordeiros cristãos sequer sabem se irão para as nuvens com ou sem corpo, após suas mortes. Esses senhores que aqui estão, profetas de Jeovah chamados Habacuc, Aías de Silos, Oded, Gad, Isaías, Jeremias, Eliseu, Amós, Ageu, Joel, Natã, já estavam ressuscitados e residindo no céu com Jeovah. Quem está longe da verdade? Afinal, eles subiram com o mesmo veículo do profeta Elias, a carroça de fogo? Subiram como ele, vivos, sem ter que morrer? Ou Jeovah os ressuscitou secretamente? Ou a estada deles no céu foi uma inverdade cometida pelo sacerdote que escreveu no Novo Testamento? Teria esse sacerdote cometido um engano ao tentar impressionar seus rebanhos?

- Prezada Shiksa. Vejo que és muito culta. Buda – que nasceu no ano 563 a. C. - trouxe-te grandes conhecimentos. No assunto que enfrentamos, vale transcrever o que redigiu o evangelista grego Lucas em 13,28-29: “Haverá choro e ranger de dentes quando virdes Abraão, Isaac e Jacó e todos os profetas no reino de Deus”.

Ordenou que se aproximassem o profeta Habacuc e o apóstolo Bartolomeu. Foram assentados face a face, tal como Moisés e Jeovah no Monte Sinai, há muitos séculos.

- Que todos falem.

- Nunca me disseram – falou Habacuc – que alguém pudesse ressuscitar dos mortos. Nem por Jeovah nem por Moisés.

- Mas estás aqui há séculos – respondeu o apóstolo Bartolmeu, aquele Bartolomeu que descera do alto das nuvens junto com o ressuscitado Jesus de Nazaré para julgar as Doze Tribos de Israel, no Tribunal instalado pouco mais abaixo. Vejo que nós estamos na mesma situação. Ambos não sabemos como viemos até o céu. É possível que tivéssemos subido vivos através do mesmo processo que elevou Jesus de Nazaré. Morremos, ressuscitamos e imediatamente ascendemos - ao contrário do profeta Elias, que foi movido para cima sem morrer primeiramente. Nunca a morte o visitou. Séculos após, desceu das nuvens acompanhado de Moisés para ver Jesus de Nazaré, Pedro e outros dois. Depois voltou a subir.

Habacuc:

- E o que ou quem me ressuscitou?

Bartolomeu:

- Jeovah certamente que não o foi. Ele sempre negou a ressurreição. Já eu posso ter sido ressuscitado por Jesus de Nazaré. Mas cabe a pergunta: quem ressuscitou o próprio Jesus de Nazaré, que permaneceu morto durante três dias?

- Não importa – respondeu. Os sacerdotes escrevem o que bem desejam. A lógica nos obriga a analisar: o que ocorreu com nossos corpos?

- Essa é a questão mais simples. No Juízo Final todos ressuscitam. E nossos corpos obviamente que teriam que ressuscitar também - assim como ocorreu com os Doze Apóstolos!

Jesus de Nazaré pediu-lhes que relatassem ao Tribunal onde haviam sido ressuscitados.

- Meu túmulo estava em Israel. Pelo menos é o que imagino, pois o podem ter removido de outro país - respondeu Bartolomeu.

- O meu túmulo também estava em Israel. Não sei em que cemitério – respondeu Habacuc.

Jeovah interrompeu. Sua voz mais parecia uma trovoada:

- Turba. Turba de ignorantes. Não leram Sirácida - livro do Velho Testamento escrito por outro Jesus, o filho de Sirac – em 17,27-30: “Quem louvará o Altíssimo na morada dos mortos, em lugar dos vivos que podem render-lhe graças? Do morto, que é como inexistente, cessa o louvor. O ser humano não é imortal”.

Habacuc e Bartolomeu foram dispensados. Não informaram nada que esclarecesse sobre o importante tema. A adolescente da Idade Média levantou-se, pediu licença para voltar a descer para junto de seus pais. Rejeitou o querubim com seus quatro assustadores rostos e voou com um serafim até o solo.