Juízo Final: Odisséia dos Deuses
Capítulo 92
Voltou o Mestre a abrir a Bíblia Sagrada. Caminhou até o trono em que o evangelista Lucas dormia. Acordou-o, estalando os dedos:
- Escreveste em Atos 1,21-26, abreviadamente: “Convém, pois, que destes homens que têm estado em nossa companhia todo o tempo em que o Senhor Jesus viveu entre nós, a começar do batismo de João, até o dia em que de nosso meio foi arrebatado, um deles se torne conosco testemunha da sua Ressurreição. José e Matias – deitaram sorte e Matias foi o incorporado aos outros onze apóstolos”. Explique ao Juízo Final: tu obviamente não viste o arrebatamento. É natural que se relatem sobre testemunhas desse fato tão inesperado pelos seres humanos, décadas após.
Lucas, um pouco assustado, mas já desperto:
- Mestre: sem testemunhas, como os candidatos a fiéis, as ovelhas do futuro rebanho, poderiam crer em histórias que um pescador ou um andarilho sem ocupação produtiva lhes contava? Como poderiam os israelitas trair Jeovah, sem que provas lhes fossem apresentadas para aderirem a outro deus e sujeitar-se aos terríveis costumeiros castigos? Deveriam ter fé. Por quê? Ter fé somente é obrigatório quando não se sabe de que se trata a mensagem.
- Por que trair - Lucas?
- Porque Moisés escreveu, em Deuteronômio 5,7 e seguintes, resumidamente: “Moisés convocou todo o Israel e disse-lhe: Escutai, Israel, as leis e os preceitos que hoje te faço ouvir. O Senhor Jeovah falou-nos sobre a montanha, face a face, no meio do fogo: Eu sou o Senhor teu Deus. Não terás nenhum outro deus além de mim. Não farás para ti nenhum ídolo que reproduza a imagem de quem quer que seja. Só eu sou teu Deus”.
Lucas respirou profundamente e continuou:
- Obviamente que os sacerdotes de Jeovah tinham a obrigação de extirpar de seu meio qualquer pessoa que se arvorasse em ser outro deus. Os novos rebanhos necessitavam de testemunhas. Afinal, como haveriam de desobedecer ao mandamento de seu deus? Como haveriam de cometer tão grave falta, se não fossem convencidos que o novo deus de fato subiu ao céu, ressuscitado? E os castigos prometidos por Jeovah eram terríveis. Moisés escreveu em Deuteronômio 6,1-15, abreviadamente: “Temereis o Senhor vosso Deus, cumprindo todas as suas leis, vós, os vossos filhos e netos; só a ele adorarás e servirás; teme que a sua cólera se inflame contra ti e te extermine da face da Terra”. São dizimistas tementes a Deus. Tementes, tal como se ouve nos púlpitos e nas televisões.
Todos pareciam surpresos com essas observações de Lucas. Mas ele prosseguiu:
- Percebi que todos me relatavam com essa preocupação. Testemunhas. Nota-se claramente isso. Há o desejo de se estabelecer testemunhas da ressurreição de Jesus de Nazaré. E Matias serve para tal, como se leu.
O Mestre:
- Está claro. Repete-se a estratégia de apresentar testemunhas da ressurreição de Jesus de Nazaré- não posso negar. Lucas, tu dizes, logo adiante, em 1,11: “Enquanto o acompanharam com seus olhares, vendo-o afastar-se, para o céu, eis que lhes apareceram dois homens vestidos de branco, que lhes disseram: Homens da Galiléia, por que ficais aí a olhar para o céu? Esse Jesus que acaba de vos ser arrebatado para o céu voltará do mesmo modo que o vistes subir para o céu”.
Jesus de Nazaré sentou-se no trono ao lado, que estava temporariamente desocupado. Bateu nas costas de Lucas, sorriu e disse:
- Lucas, duas novas testemunhas estão inseridas nos Atos. Quem são e de onde vieram esses homens de branco? Como poderiam saber que Jesus de Nazaré iria voltar do céu? Eram videntes? Aliás, homens de branco e resplandecentes são ótimas testemunhas e são usadas incontáveis vezes em toda a Bíblia. Testemunhas plantadas. São trazidos ao cenário no texto de Lucas, em 24,4: “Não sabiam elas o que pensar, quando apareceram em frente dois personagens com vestes resplandecentes que disseram: Por que buscais entre os mortos aquele que está vivo? Não está aqui, mas ressuscitou. Lembrai-vos de como ele vos disse, quando ainda estava na Galileia: O Filho do Homem deve ser entregue nas mãos dos pecadores e crucificado, mas ressuscitará ao terceiro dia”.
Jesus de Nazaré olhava para o texto que acabara de ler. Meditou, parecendo cansado. Continuou:
- E esses homens de branco resplandecentes, que surgiram – apareceram - não se sabe de onde, têm o poder de predizer o futuro! Teriam dito: “Esse Jesus que acaba de vos ser arrebatado para o céu voltará do mesmo modo que o vistes subir para o céu”. E afirmam que ele voltará! Como sabem disso? E dizem que, ao voltar será o mesmo que subiu – com corpo e vestimentas! E ninguém informa quem ou que o arrebatou!
- Duas novas testemunhas, como de hábito, brilhantes. Quem eram e de onde vieram? Mas tais pessoas foram chamadas pelo médico Lucas de personagens. Foi um evidente ato falho. Personagens são criados - produtos da imaginação. E como tais pessoas ou tais personagens poderiam saber que Jesus de Nazaré havia ressuscitado? Eles viram o grande ato? E como poderia um deles formular a pergunta que fez: “Lembrai-vos de como ele vos disse, quando ainda estava na Galiléia”. Esses dois luminosos personagens não poderiam saber o que teria dito Jesus de Nazaré em outro lugar e outra data, evidentemente.
- Também temos os escritos testemunhais em Lucas 24,13-34 – continuou o Mestre: “Dois discípulos iam para Emaús, sessenta estádios de Jerusalém. Cleofas, um deles, não reconheceu Jesus de Nazaré que se uniu a eles. Já na aldeia - entraram numa casa e lá, à mesa todos, Jesus partiu e abençoou o pão. Só então o reconheceram, mas ele desapareceu”. Aqui se observa o buraco narrativo do aparecimento e desaparecimento, ocorrente nos relatos evangélicos e no Velho Testamento. O paradoxo. Único jamais existido e só aplicável a Jesus de Nazaré - segundo o Papa Emérito em seu livro.
Lucas:
- É claro que eu percebi esse lapso narrativo. Mas era o que me diziam pessoas que teriam ouvido de outras tudo que está no Evangelho. Jesus de Nazaré morreu na cruz, foi sepultado na mesma sexta-feira, e, no Domingo pela manhã teria ressuscitado e desaparecido da tumba de José da Arimatéia. O corpo sumiu. Logo, ele saiu dali caminhando. Quem caminha é um humano, de carne e ossos. Ele não pode simplesmente desaparecer e reaparecer, caso contrário não seria um corpo humano. Também não é um espírito, pois nesse caso deveria ter permanecido no sepulcro, como é lógico. A correção pretendida pelo Papa Emérito não me parece ter sido uma boa ideia sacerdotal. Pelo contrário, ela chama a atenção dos dizimistas. E não são eles atualmente meros ignaros Am ha-Arez de dois mil anos atrás.
Lucas, visivelmente gloriado - levantou-se estultamente e continuou:
- Sou sacerdote, sou grego, mas não sou parvo. Quando os fatos são indesmentíveis o juiz não pode esgrimir contra eles. A grande pedra que penetrou no sapato sacerdotal é, com a mais absoluta certeza, o maior obstáculo para a evangelização – a dizimação. Mesmo que se queira aceitar a nova tese do Papa Emérito, não se consegue explicar onde ficou o corpo. Jesus de Nazaré subiu, foi visto pelos Doze Apóstolos, estaria no estado paradoxal de corpo devidamente vestido e bem observado. Ingressou então nas nuvens. E agora?
Lucas jamais sonhara em ter a suprema glória de ser ouvido por muitos bilhões de seres humanos.
Sorriu por entre as barbas e prosseguiu:
- Nas nuvens tinha o Mestre duas alternativas. Ou sentaria no trono para ele destinado e congelaria, salvo se conseguisse vestimentas apropriadas. Logo o corpo, sem alimentos, desfaleceria. Ou o paradoxo faria desaparecer o corpo, como várias vezes teria acontecido nos quarenta dias após a ressuscitação na Terra. Haveria então um espírito, invisível, sem voz, sentado talvez no trono referido. E a pergunta final: onde permaneceria o corpo de Jesus de Nazaré? Onde ficariam suas vestimentas? Afinal é óbvio que esse corpo deveria estar disponível para o caso de ser provocado novo paradoxo, tal como ocorrera junto a Tomé, no caminho para Emaús e no almoço de peixes junto ao lago. E, obviamente que as roupas deveriam estar guardadas nos braços de algum anjo, para não caírem. Resumindo, digo sem a menor dúvida: o paradoxo é uma novidade sacerdotal que não se sustenta sob hipótese alguma. O buraco narrativo, tantas vezes referido neste Tribunal não foi, não é nem poderá ser tapado com quaisquer esforços dialéticos.
Lucas jogou a capa sobre os ombros e sentou-se triunfante. Jesus de Nazaré:
- Bravos! Tua grande inteligência se confirma. Não sei como, mas os bilhões de neurônios devorados por microorganismos voltaram a se instalar na tua caixa craniana após dois milênios. Temos, no entanto, que observar o escrito testemunhal bastante interessante em Lucas 24,36-53: “Enquanto ainda falavam dessas coisas, Jesus apareceu-lhes no meio deles e os discípulos, perturbados e espantados, pensavam estar vendo um espírito. Jesus lhes disse: Um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que eu tenho. Mostrou-lhes as mãos e os pés. Comeu um pedaço de peixe assado. Disse-lhes que era necessário que se cumprisse tudo o que de mim está escrito na Lei de Moisés, nos profetas e nos Salmos. Vós sois testemunhas de tudo isso”. Aqui os escritos de Lucas criam testemunhas buscadas no Velho Testamento.
Jesus de Nazaré:
- Em teu Evangelho, Lucas, dizes em 23,26: “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito. Vendo o centurião o que aconteceu, deu glória a Deus e disse: Na verdade, esse homem era um justo”. Aqui a testemunha plantada por copistas é um soldado romano, invasor e carrasco do povo judeu e cujo deus principal, em Roma e nas províncias conquistadas, chamava-se Invictus. Um centurião lhes pareceu uma forte testemunha. Mas, o que viu, afinal, esse opressor romano? Viu ele um espírito sendo entregue ou subindo? Uma subida de corpo e espírito não teria ocorrido somente quarenta e três dias após, em Betânia?
- Um pouco antes escreveste – continuou o Mestre - em 23,42: “Jesus, lembra-te de mim, quando tiveres entrado no teu Reino. Respondeu-lhe: hoje estarás comigo no paraíso”. Aqui a testemunha é um bandido. Como poderiam ambos subir? Jesus de Nazaré não poderia subir, teria que esperar que ocorresse a prometida ressurreição. E o bandido - não teria que aguardar para ser julgado no futuro Tribunal do Juízo Final?
Lucas:
- Quero lembrar que Pedro – o pescador, apóstolo e futuro Papa - provocou a morte de Ananias e Safira. Ele mesmo o confessa. Difundiu a carta dirigida aos adeptos para provocar medo nesses dizimistas. Devo perguntar, a bem da verdade neste Tribunal: mais um testemunho plantado? Em Atos 4,33, escrevi sobre isso: “Com grande poder os apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus”.
Lucas prosseguiu:
- Escrevi em Atos 1,3: “Se apresentou vivo (aos apóstolos) com muitas provas incontestáveis, aparecendo-lhes durante quarenta dias”.
Jesus de Nazaré:
- Não há dúvidas. Jesus de Nazaré somente teria aparecido aos apóstolos. Mas isso trouxe debilidades aos relatos sobre a ressurreição. Não é convincente. O ato falho cometido pelo evangelista escritor é por demais evidente: teria apresesentado provas convincentes. Obviamente que um fenômeno dessa envergadura não necessitaria de provas. Bastaria que o ressuscitado percorresse as ruas de Jerusalem e fosse visitar os milhares de israelitas que teriam assistido à crucifação. Iria, com glória bíblica, até a sinagoga, até Pôncio Pilatos, até o Sumo Sacerdote. Uma grande festa ocorreria junto a Maria, José, a outra Maria, José de Arimatéia e, principalmente, aos enfermos curados e a Lázaro. Multiplicaria novamente vinho e peixes para os milhares que já haviam sido alimentados pelos milagres que teriam ocorrido quando da primeira vida. Iria até Herodes. Voltaria a visitar sua Nazaré e a Cafarnaum, onde vivera. Maria Madalena sequer teria merecido uma visita do seu amado! A Maria que convivia com Jesus de Nazaré, ignorada nesse momento tão espetacular?
Lucas:
- Realmente. Eu confesso que o grande acontecimento mereceria ser exibido ao mundo de então. Hoje percebo que os meus escritos são reveladores de incoerências muito graves. O grande novo deus se escondia – percebo agora. Ele se ocultava e desaparecia dos olhares dos apóstolos. Inclusive suas roupas desapareciam, portanto! Não é crível que continuasse nu, já que assim estava no momento em que teria saído do túmulo! Sim, porque o manto sagrado, ensanguentado, não serve de vestimenta para quem caminha. E as vestimentas de Jesus de Nazaré foram apropriadas por sorteio pelos soldados romanos, ao pé da cruz.
João interrompeu:
- Confesso que também não percebi essas incoerências. Não importa agora se as provas foram plantadas pelos que me relataram a vida de Jesus de Nazaré. Não importa se os relatos espalhados pelo mundo visam obtenção de dízimos. O que agora importa é a constatação da existência de objetivos ocultos. O que importa é que toda a narrativa está eivada de suspeitas.
- O manto sagrado existente em Nápoles, não é aceito pelos romanos atuais. Por que? Porque nele estão vestígios de plantas curativas existentes em torno de Jerusalem e toda a Palestina. Um cadáver não necessita de tais medicamentos. Então?
Jesus de Nazaré:
- Paulo de Tarso percebeu tudo isso. A prova da ressurreição era por demais débil. Afinal as testemunhas, os apóstolos - eram suspeitos já que tinham o maior interesse em praticar a dizimação, expressamente instituída por Jeovah e Moisés aos seus eleitos da tribo de Levi. Não tendo jamais convivido com Jesus de Nazaré, Paulo de Tarso escreveu, anos após a morte do Nazareno, em sua carta aos Coríntios 15,6: “Foi visto por mais de quinhentos irmãos de uma só vez, dos quais a maioria sobrevive até agora”. Essa suposta e espetacular aparição passou desapercebida aos demais apóstolos? Por que eles nada disseram sobre essa prova nova e tão robusta que repentinamente surge décadas após, na boca do soldado romano Paulo de Tarso?
Marcos:
- Pois eu não omitiria tal informação em meus escritos. Jamais ninguém me informou sobre esse grande número de testemunhas. De onde obteve Paulo a notícia desse novo fato?
João decidiu participar. Com a voz rouca de quem estava resfriado:
- Pois eu escrevi o que me relataram em 21,9: “Ao saltarem em terra, viram umas brasas preparadas e um peixe em cima delas, e pão. Disse-lhes Jesus: Trazei aqui alguns dos peixes que agora apanhastes. Disse-lhes Jesus: vinde, comei”. Isso teria ocorrido após a ressurreição do Mestre. Era seu corpo ressuscitado e faminto. Foi arrebatado ao céu e subiu, pois, com o seu corpo.
Mateus:
- Em Mateus 3,13 e seguintes: “Depois que Jesus foi batizado por João Batista, saiu fogo da água. Os céus se abriram e viu descer sobre ele, em forma de pomba, o espírito de Jeovah e do céu baixou uma voz: Eis o meu filho muito amado em quem ponho minha afeição”.
Jeovah decidiu intervir:
- Moisés foi claro, em Deuteronômio 6,13: “É o Senhor teu Deus que adorarás, é a ele só que servirás”. Os apóstolos, os evangelistas e Paulo de Tarso descumpriram com as minhas ordens.
Jesus de Nazaré:
- O relato de Mateus pretende que a prova teria sido uma pomba e uma voz, vinda de uma nuvem. Jeovah não aparecia no Novo Testamento. Face a face ele somente falou milhares de vezes, com Moisés e outros sacerdotes israelitas. Mas o fogo está presente! Sempre essa paixão pelo fogo! Fogo como testemunha, fogo como forma de torturar e matar.
O Mestre:
- Escreveste - Mateus, em 1,20: “Eis que um anjo de Jeovah apareceu-lhe em sonhos e lhe disse: Não temas receber Maria por esposa, pois o que nela foi concebido vem do Espírito Santo, e tudo isso ocorreu para que se cumprisse o que Jeovah falou para o profeta: Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho, que se chamará Emmanuel (Isaías 7,14) que significa: Jeovah conosco”. Aqui se usam profecias como testemunhos.
Mateus:
- Outro relato que me fizeram eu transcrevi em 20,12 e seguintes, resumidamente: “Maria Madalena viu dois anjos vestidos de branco, sentados onde estivera o corpo de Jesus. Voltou-se e Jesus, de pé: Não me retenhas porque ainda não subi ao meu Pai, e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus”. Por que a pressa? Não quer ver a mãe, pelo menos? Aqui voltam a aparecer, diante de Maria Madalena, dois personagens vestidos de branco. E convenientemente sentados onde antes estivera Jesus de Nazaré. As testemunhas vestidas com roupas dessa cor são uma constante reveladora. Quem são esses seres vestidos de branco? Os anjos vestem alguma roupa? Sua amada, aquela Maria Madalena, aquela doce mulher que o acompanhara por tantos anos, somente merecia uma rejeição tão invulgar e até grotesca? Hoje tenho que rever meus escritos. A narrativa é minha, mas as histórias me foram fornecidas por outros.
Jesus de Nazaré:
- Te felicito, Mateus, por tua honestidade. E concordo que o reencontro com Maria Madalena - da forma como relatado – é produto de pessoas sem o mínimo de respeito para com as mulheres. O casal -seja de marido e mulher como querem alguns escritores - seja de dois amigos, se abraçaria com ternura e alegria. Fariam uma grande festa, o melhor carneiro viria à mesa acompanhado dos melhores vinhos! Ora, não me toques porque ainda não subi ao pai - teria dito o ressuscitado. Quanta insensibilidade, Mateus. E mais, Mateus. A frase denota claramente que os toques pretendidos somente se dariam após a subida de Jesus de Nazaré às nuvens! Como isso se daria? Maria Madalena subiria em breve também, ou ela teria que aguardar pelo julgamento destinado a todos, ou seja, o Juízo Final? Ou o amado retornaria em breve? E os abraços na mãe, Maria? E nos irmãos? E em José? E nos primos? Nos avós maternos e paternos?
- Percebe-se que o cenário é o de um Jesus de Nazaré ressuscitado que foge da publicidade – completou o Mestre. Ele se oculta, desaparece, é como se estivesse como medo. Afinal, já era o Segundo Deus! Jesus de Nazaré já se igualava a Jeovah! Ele já adquirira o status dos que moram nas nuvens! Por que teria medo? Por que se esconde? Por que age furtivamente?
No alto algumas trombetas soaram. Aplausos vinham dos helicópteros. Prosseguiu o Mestre:
- O grande Deus, o Salvador, o ocupante de um trono nas nuvens, o filho de Jeovah, seria agora um débil e fraco personagem que não se digna nem a honrar sua família terrena nem a se comportar como um deus? Tinha medo de ser morto novamente pelos soldados inimigos e pelos sacerdotes de Jeovah? Que deus seria esse? Ou ele somente assumiria seu papel de Segundo Deus quando estivesse ao lado do pai, nas nuvens? Como se poderia admitir que esse agora deus todo poderoso tivesse que adotar o paradoxo equivocadamente agora pretendido pelo dispensado Papa Emérito?
- Um deus filho de Jeovah a se valer de paradoxos para se ocultar: que disparate! - prosseguiu o Nazareno.
- Filho de Jeovah, agora poderoso como o pai, dispunha obviamente dos serviços de anjos cintilantes como aquele que matou à noite cento e oitenta e cinco mil assírios. Se não os usou por algum motivo não explicado quando ainda era meramente filho de Maria na Terra para eliminar os algozes romanos, porque não os usa agora que é um Segundo Deus? Jeovah não os emprestaria ao seu suposto filho?
- Temos que procurar a verdade – prosseguiu. Nós estamos buscando justiça. Jesus de Nazaré, após a ressurreição não deveria ser considerado um mero mortal, um humano comum! Por que não se comporta como um soberano, um poderoso, um Jeovah? Continua a ser fraco. Continua a ser aquele dócil humano que se humilhou diante dos inimigos de seu povo e que vivia em fuga?
João:
- Escrevi em 20,20 e seguintes: “Os discípulos, trancados dentro de casa, viram dentro dela Jesus que lhes disse: a paz esteja convosco e, em seguida mostrou as mãos e o lado, não estando lá Tomé, chamado Dídimo. Oito dias após, trancados na casa, agora com Tomé, apareceu Jesus que ordenou que ele introduzisse seu dedo nos furos das mãos e no seu lado. Com isso, Tomé acreditou, tendo Jesus dito: Felizes aqueles que creem sem terem visto”.
Jesus de Nazaré:
- Novamente as testemunhas apostólicas. Trancadas, encerradas dentro de casa. Temerosos como todos os personagens. Tomé introduziu o dedo nos furos das mãos de Jesus de Nazaré. Um corpo de carne e ossos, obviamente, meu caro Tomé!
Jesus de Nazaré manuseou a Bíblia Sagrada:
- Mateus escreveu em 27,51: “O véu do templo se rasgou em duas partes de alto a baixo, a Terra tremeu, fenderam-se as rochas e os sepulcros se abriram e os corpos de muitos justos ressuscitaram e, saindo de suas sepulturas, entraram na Cidade Santa, depois da ressurreição de Jesus e apareceram a muitas pessoas”. Aqui o evangelista cria testemunhas ressuscitando inesperadamente pessoas desconhecidas. É como se desejasse convencer aos dizimistas que tais fatos demonstrariam que ressuscitar é algo corriqueiro e normal. Também os terremotos, tempestades e destruição de prédios são sempre utilizados para impressionar os destinatários dos escritos.
Mateus:
- Escrevi em 27,54: “O centurião e seus homens que montavam guarda a Jesus, diante do estremecimento da terra e de tudo que se passava, disseram entre si, possuídos de grande temor: Verdadeiramente, este homem era Filho de Deus! Havia também mulheres que de longe olhavam”.
Jesus de Nazaré:
- Aqui tu crias temor entre os duros soldados romanos. Crias os terremotos e eles produzem o testemunho inesperado. Sempre que vocês querem impressionar seus leitores plantam terremotos para provar que houve a ressurreição!
Jesus de Nazaré prossegue:
- Dizes em Mateus 28,1 e seguintes resumidamente: “Maria Madalena e a outra Maria foram ver o túmulo no Domingo cedo. Houve um grande tremor de terra e um anjo de Jeovah, resplandecente como o relâmpago e com vestes brancas como a neve desceu do céu, rolou a pedra e sentou-se sobre ela, dizendo: Jesus ressuscitou dos mortos e – dizei aos apóstolos – ele vos precede na Galiléia, onde o haveis de rever. Jesus lhes apareceu. Os guardas anunciaram os acontecimentos aos príncipes dos sacerdotes e deles receberam dinheiro para dizer que os discípulos teriam retirado o corpo de Jesus durante a noite, enquanto estariam dormindo, sendo essa versão ainda hoje espalhada entre os judeus”. A outra Maria era a irmã da mãe de Jesus de Nazaré. A pedra, no entanto, estava no lugar. O anjo é que a teria removido. Como saiu o Mestre? E como o anjo sabia estar o túmulo vazio, antes de estar removida a pedra?
Jesus de Nazaré fechou o Livro, franziu a testa e sorriu para João:
- Escreveste em 19,35: “O que foi testemunha desse fato o atesta o seu testemunho (e o seu testemunho é digno de fé e ele sabe que ele diz a verdade, a fim de que vós creiais. Assim se cumpriu a Escritura: nenhum dos seus ossos será quebrado - Êxodo 12,46)”. Vejo que te relataram um testemunho advindo do Velho Testamento. Em Êxodo, escrito muitos séculos antes, não se cogita de surgir um novo deus. Mas a frase dos ossos quebrados é usada para convencer aos destinatários dos escritos. Usas a palavra testemunho por três vezes.
Marcos interveio agora, após um longo silêncio:
- Quero lembrar que escrevi em 15,27: “Crucificaram com ele dois bandidos, um à sua direita, outro à sua esquerda. Cumpriu-se assim a passagem da Escritura que diz: Ele foi contado entre os malfeitores (Isaías 53,12)”.
Jesus de Nazaré:
- O desespero para dar credibilidade chega a esse ponto. Um texto escrito há séculos pretende ser uma prova e uma profecia. No livro do Papa Emérito se observa a mesma técnica, na página 44 do seu livro A Infância de Jesus: “Tudo isso aconteceu para que se cumprisse o que o Senhor havia dito pelo profeta: Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho, Emanuel – Mateus 1,22-23”. Diz o grande sacerdote romano em 7,14, que o profeta Isaias teria dito isso no ano 733 antes desta Era, o que seria um prova da veracidade do parto virginal. Mas basta lermos os capítulos 7, 8 e 9 de Isaías para que se veja quão forçado é esse testemunho. O que é importante e revelador é a técnica de que se valem os sacerdotes, antigos e modernos. E se constata que têm a necessidade de tentar convencer os dizimistas de que fatos irracionais teriam de fato acontecido. Usa-se a falácia da autoridade, ou seja, indica-se um nome que tenha uma suposta notoriedade e automaticamente o fato adquire ares de veracidade. É grave esse proceder falacioso? Certamente. Ao mesmo tempo, no entanto, é irrelevante, já que as ovelhas ficam mais seguras sobre suas desejadas vidas eternas. Dizer que Jesus de Nazaré caminha sobre águas. Isso depõe contra os narradores bíblicos. É uma impossibilidade e, ao mesmo tempo, a revelação de uma narrativa suspeita. Os ignaros acreditavam. Mas os homens se tornaram mais inteligentes. Atualmente alguém poderá crer que a cobra falava? Ou que existe alguma ave com quatro rostos e que fala hebraico?
- O Papa Emérito – prosseguiu o Nazareno - na página 52 do seu livro, cita o nome de Karl Barth e afirma: “Há dois pontos nos quais o agir de Deus intervém diretamente no mundo material: o seu nascimento da Virgem e a ressurreição do sepulcro”. Jeovah passa a ser Deus. Pois todo o conjunto retórico nada mais fez do que reforçar o escândalo para o espírito moderno - como ele próprio confessa na mesma página 52. Realmente são escandalosos esses testemunhos. Perdoem-me, mas estamos em um Tribunal e a verdade deve prevalecer, custe o que custar.
Um jato passou voando pela segunda vez muito perto do Tribunal do Juízo Final. Protestos foram feitos junto a Tel Aviv. Os tronos jogavam junto com os anjos, movidos pelo vento produzido. Prosseguiu o Mestre:
- Os dízimos estão minguando. Nas cidades se instalam dezenas de novas ekklesias evangélicas. E nenhuma ou raras igrejas romanas. O Banco do Vaticano exige muito mais dízimos. Milhares de pessoas trabalham para o pequeno país encravado na cidade de Roma. Os salários devem ser pagos e os bons vinhos estão cada vez mais caros. Está tudo nos jornais.
Jesus de Nazaré:
- Mateus - escreveste em 14,24-33, resumidamente: “Os discípulos navegavam em mar agitado -muito atemorizados, quando perceberam Jesus caminhando sobre as águas. Os que estavam na barca disseram: Tu és verdadeiramente o filho de Jeovah”. Ninguém caminha sobre as águas. Mas o fato relatado serve de testemunho. Como na cruz, com o bandido.
- Evangelistas – ouçam. Os testemunhos que descrevestes se chocam com o relato de Paulo de Tarso. Ele diz – sem explicar de onde obteve a informação - que mais de quinhentas pessoas teriam visto Jesus de Nazaré ressuscitado. Já vocês dão a impressão de temerem criar testemunhos tão numerosos. Divagam em frases pinçadas do Velho Testamento e encontros secretos com o ressuscitado. Mas vocês possuem uma riqueza argumentativa ao descreverem fenômenos naturais como ventos, terremotos, mares agitados, templos que rasgam seus véus, pombas que pousam em cabeças, vozes vindas de nuvens, túmulos que se rompem espontaneamente, seres humanos que caminham sobre as águas, vestes resplandecentes, anjos, pessoas que surgem vestidas de branco ou como reis. E todos fazem predições.
Após consultar a Bíblia, prosseguiu o Mestre:
- E não podemos esquecer a grande prova plantada, que eu não podia identificar, pois estava recém-nascido: os três reis magos. Temos nesse relato um grande buraco narrativo, como dizem os jornalistas. Criaram os evangelistas três testemunhas que teriam visto uma estrela e a teriam seguido. Ora, a Terra gira. E a estrela durante a noite muda de posição, desaparecendo no horizonte. Os evangelistas ignoravam que a Terra é redonda e que ela gira sobre seu eixo, dando uma volta a cada vinte e quatro horas. Como poderiam saber onde estaria a manjedoura? E esses gentios - não judeus, reis pobres e de origem obscura, caminhariam ou andariam em camelos durante meses para adorar um bebê? Como saberiam que tal bebê seria um rei? E que utilidade teria para eles visitar tal futura celebridade, trinta e três anos antes de sua morte na cruz? Já sabiam que esse bebê ressuscitaria, coisa na qual sequer os apóstolos acreditavam?
Ninguém comentou sobre essas revelações. Bartolomeu, o apóstolo:
- Dízimo.
Jesus de Nazaré:
- O que dizes - Bartolomeu?
- Digo que estamos perdendo tempo. Os fiéis, as ovelhas, elas necessitam de esperanças. E os rabinos e pastores necessitam de clientes. E estes querem evidências razoáveis. Querem religiões. Querem a vida eterna que está sendo prometida há dois mil anos em Israel.
Houve agora um grande mal estar. Mas esse apóstolo dissera claramente o que se percebia como oculto nos textos bíblicos. Jesus de Nazaré se preparava para encerrar os trabalhos diários, quando Sara Moshê interveio:
- Perdoe - Mestre. Quero lembrar as palavras de Napoleão Bonaparte, esse grande general francês que certamente será julgado por este Tribunal: "O povo não precisa de Deus, mas precisa de religião", o que quer dizer que a massa necessita de uma doutrina que lhe discipline e lhe estabeleça um rumo, sendo que Deus é um detalhe meramente secundário. As religiões e mitos são derivados do medo. Medo da morte, medo das doenças, medo das calamidades, medo dos predadores, medo do desconhecido. Com o passar do tempo, essas religiões foram subjugadas sob a tutela das autoridades dominantes, as quais se transformaram em governantes divinos ou enviados pelos deuses. Dessa forma, a religião é simplesmente um meio para se dominar a massa. E é por isso que existiram e existem milhares de deuses espalhados em todo o planeta. As deusas são muito populares para bilhões de humanos asiáticos. Os faraós eram deuses.
Em seguida o celular de Jesus de Nazaré - no vivavoz:
- Jovem conterrâneo, grande filho da tribo de Davi. Saúda-te Sigmund, ressuscitado. Quero lembrar que os conceitos de Deus são projeções de um pai.
Jesus de Nazaré agradeceu e atendeu nova chamada:
- Sou um filósofo. Quero explicar que os testemunhos são necessários. Os dizimistas necessitam deles. É inaceitável a teoria de Deus sendo algo criado pelas elites, sacerdotes, pastores e rabinos, que busca justificar a sociedade autoritária. A ideia de um Deus ou de uma Deusa serve como um instrumento de dominação cujo objetivo é fazer os dominados aceitar sua exploração como se fosse um fato perfeitamente natural.
Moisés, os apóstolos, os evangelistas e Paulo de Tarso resmungaram. Mas todos estavam visivelmente entediados.
Em seguida surgiu outra mensagem na Máquina:
“Estudei longamente a vida dos primeiros sacerdotes surgidos após a tua morte na cruz. Marcos, por volta do ano 72 desta Era, compôs o primeiro evangelho através de um conjunto de tradições e costumes sendo que cada evangelista criou sua obra de acordo com diferentes pontos de vista teológicos e ideológicos. Mas vejo agora que tudo isso é inútil. O que se constata neste Juízo Final é a constante prática da dizimação e ofertas de prêmios futuros para os rebanhos desesperados ante doenças físicas e mentais junto com o pavor ante a morte”.
A mensagem não estava assinada. Sara Moshê a reproduziu em sua cadeia de jornais.
Mas uma nova surpresa estava por vir. Jesus de Nazaré:
- Mateus quer de todas as formas produzir provas. Diz em 21,1-7, resumidamente: “Perto de Jerusalém, ordenou Jesus que lhe trouxessem a jumenta e o jumentinho que foram cobertos com mantos e nos quais fizeram montar Jesus, com isso se cumprindo a profecia constante do livro de Zacarias em 9,9”.
Jesus de Nazaré:
- A propósito de provas bíblicas: os sacerdotes descrevem quase sempre a existência de terremotos nos momentos em que necessitam convencer os leitores e dizimistas.
Freud, que chegara e aguardava há bastante tempo, interveio:
- Permita-me aduzir, caríssimo irmão israelita. Lembro-me das seguintes passagens assim criadas: Mateus 27,50-56, resumidamente: “Jesus deu de novo um forte grito e expirou; a cortina do Santuário rasgou-se de alto a baixo em duas partes, a terra tremeu e fenderam-se as rochas; os túmulos se abriram e muitos corpos de justos ressuscitaram; os soldados ao verem o terremoto disseram: verdadeiramente este era o Filho de Deus”.
Sigmund ressuscitara mantendo sua provecta idade dos tempos em que estivera vivo. Tremia de frio. Continuou:
- Os sacerdotes tinham que escrever coisas fantásticas. A massa ignara acreditava em anjos e demônios. Tudo tinha que ser sobrenatural. Mas não só na sexta-feira descrevem terremotos. No Domingo ocorreu o mesmo fenômeno! Escreveu Mateus em 28,1-6: “No Domingo, presentes Maria Madalena e a outra Maria junto ao sepulcro, houve um grande terremoto, pois um anjo do Senhor, branco como o relâmpago e a neve, desceu do céu, aproximou-se, rolou a pedra do sepulcro e sentou-se nela”.
Jesus de Nazaré:
- Sempre descrevem um humano ou uma ave humana de branco. São boas testemunhas. E possuem corpos, músculos, pois rolam pedras e sobre elas se assentam – completou olhando para Paulo de Tarso. Em Salmos 17,8 lê-se: “A Terra vacilou e tremeu, os fundamentos das montanhas fremiram, abalaram-se porque Deus se abrasou em cólera” . É praxe sacerdotal bíblica: tremores, terremotos, abalos de montanhas – tudo isso impressiona os dizimistas.
- Em Atos dos Apóstolos 4,31 se repetem os terremotos testemunhais, continuou Freud: “Mal acabavam de rezar, tremeu o lugar onde estavam reunidos. E todos ficaram cheios do Espírito Santo e anunciaram com intrepidez a palavra de Deus”. Sempre se mencionam abalos sísmicos para impressionar os leitores. É como se desejassem fazer crer que um poder sobrenatural estava sempre pronto a fazer tremer a Terra nos exatos momentos de fatos supostamente ocorridos.
Jesus de Nazaré:
- A propósito de rezar, meu caro Freud: vê-se que no texto bíblico não se salvam os que rezam. Mesmo que os dizimistas rezem dia e noite sem parar, isso não os faz, só por isso, serem admitidos no céu! A Bíblia Sagrada não garante salvação aos rezadores. Se não tiverem sido justos, de nada adianta rezar. Se não crerem em Jesus de Nazaré, de nada adianta rezar para Jeovah – é o caso dos milhões de israelitas! Como ouvirá Jeovah ou Jesus de Nazaré em Jerusalém, uma oração feita em Belém ou ao humano astucioso que dela obtém dízimos na Tessalônica, Éfesos ou num barco em alto-mar? Ou no Egito? Ou nas profundezas de uma mina na Rússia? E se for em voz baixa nem o sacerdote ao seu lado a ouvirá. Será um ato inútil. Será útil, sim, no entanto, para a manutenção da ovelha, para que ela se torne anestesiada, submissa ao seu pastor. Sem que o dizimista suspeite, ele é levado a balbuciar pedidos candentes, muitas vezes vertendo lágrimas. Os sacerdotes olham supresos para suas vítimas e seus semblantes ingênuos, muitas vezes até penalizados com as rezas de mães que perderam filhos. E surpresos, renovadamente surpresos, pela extrema facilidade com que formam imensos rebanhos de dóceis ovelhas. E ainda mais surpresos ficam os dizimadores pelo fato de ninguém se importar com o ócio deles. Ninguém se pergunta: o que faz o pastor de almas, após dirigir uma missa, ou um culto religioso. Ninguém se importa pelo fato de que eles podem dormir o dia todo, enquanto os Am ha-Arez, os miseráveis, os crédulos, os crentes, os fiéis, são obrigados a mourejar oito ou mais horas por dia. Um dorme - o outro trabalha e produz as batatas para o mosteiro, como no filme O Nome da Rosa que acabei de assistir ontem à noite.
Freud:
- Todos os sacerdotes necessitam de dizimistas rezadores. Juntam cantos gregorianos ou de música gospel. Juntam pias com água benta, incenso, penumbras, vitrais coloridos com integrantes do Grujuem. Vestem-se com grande pompa e impressionam sobremaneira os dizimistas. Essa organização não existia nas sinagogas. Estas exibem outras formas de hipnose - cantorias, rituais, Torás e candelabros. Os rabinos, contudo, exibiam os éfods, riquíssimas vestimentas ornadas com pedras preciosas e ouro. Para obterem ajuda de seus deus Jeovah, se exibem em estranhas lamentações junto a um muro de pedra.
Freud olhou para Jeovah:
- Escreveram que tu terias ressuscitado esse jovem - Jesus de Nazaré. Bem sei que os israelitas não concordam com isso e dizem que os sacerdotes apóstolos e os evangelistas criaram essa suposta ressurreição. O que tens a dizer?
- Não tenho que dar satisfações a ninguém. Mas, como és um israelita cuja sabedoria é notória, vou responder com perguntas. Um cérebro humano - me dizem agora – possui cem bilhões de neurônios, compostos estes de outros trilhões de átomos. Os átomos, por sua vez, possuem incontáveis quarks e outros elementos. Como poderia eu reconstruir um só cérebro de um ser humano que morreu e desapareceu consumido por microrganismos há milhares de anos nos mais longínquos lugares do planeta?
Die Maschiene estampou dados sobre o corpo humano e Jesus de Nazaré se valeu deles:
- E reconstruir um corpo com seiscentos e quarenta músculos! E três milhões de fibras nervosas! E noventa e seis milhões de veias! E trinta trilhões de células vermelhas!
Jeovah surpreendentemente mantinha a calma com seu súdito judeu. Levantou-se do seu magnífico trono e aproximou-se de Sigmund. Com a voz grave de cordas vocais de quinze bilhões de anos, quase sussurrando, completou:
- Nunca prometi ressurreição. Isso é coisa de sacerdotes em busca de adeptos novos. Vamos multiplicar dois trilhões de neurônios por cem bilhões de humanos ressuscitados neste Juízo Final. Dois trilhões é a quantidade de neurônios informada por alguns sábios.
- O resultado é descomunal: 2.000.000.000.000 x 100.000.000.000= 200.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000 ou mais. Se multiplicarmos esse colossal número incluindo os átomos desses corpos, o número resultante não caberia num livro, certamente. O responsável pela ressurreição certamente teria que se desincumbir de um trabalho incrível.
Jeovah parecia orgulhoso dos seus conhecimentos recém-adquiridos durante o Juízo Final. Freud estava admirado. O Deus de Moisés não vivia agora somente de sacrifícios de bois, carneiros, cabritos e pombas rolas.
- Permitam que eu termine o tema das testemunhas plantadas – continuou o pensador judeu que vivera na Áustria. Está escrito em Atos dos Apóstolos 16,26: “Subitamente, sentiu-se um terremoto tão grande que se abalaram os fundamentos do cárcere. Abriram-se todas as portas e soltaram-se as algemas de todos”. Novamente um terremoto testemunhal. Feitiçaria das algemas.
Jesus de Nazaré:
- Isso me faz lembrar, do Velho Testamento - como já se mencionou neste Juízo - o sacerdote Isaías em 66,15-17: “Julgamento dos idólatras. Com efeito, o Senhor vem no fogo, e seus carros avançam como furacão, para dar vazão ao furor de sua ira e cumprir as ameaças com labaredas de fogo. Sim, é com fogo e com sua espada que o Senhor julga todos os mortais, e numerosas são as vítimas; os que comem carne de porco, animais impuros e ratinhos, perecerão todos juntos – oráculo do Senhor”.
Freud:
- Os romanos não obedecem a Jeovah. Possuem ídolos de madeira e de metais. E comem carne de porco. E não respeitam o sábado como dia sagrado de descanso.
Jeovah:
- Devem ter o destino bíblico.
Freud:
- Milhões de israelitas e de outros povos morreram queimados pelos sacerdotes Inquisidores. Já Isaias fazia a apologia do fogo. A Bíblia Sagrada está repleta de fogo. Sempre o fogo. Fogo e enxofre. Fogo e espadas flamejantes. Paulo de Tarso escreveu: fogo para os apóstatas. Fogo e enxofre para os homossexuais de Sodoma e Gomorra.
- Não posso me cansar de dizer: queremos a verdade – falou o Nazareno. Só a verdade. Doa a quem doer. Perdoe-me o grande sábio Sigmund Freud se volto ao tema. Disse Lucas, em 1,11: “Esse Jesus que acaba de vos ser arrebatado para o céu voltará do mesmo modo que o vistes subir para o céu”. Primeiro temos que perguntar: como poderia saber da volta o personagem que surgiu? Segundo: subiu, portanto vestido, com as mesmas condições apresentadas a Tomé, com carne e ossos. E confirma o discípulo Lucas de Paulo de Tarso que esse mesmo corpo voltará. Evidente testemunha plantada.
- Aí está a mais irrefutável confissão de todos os evangelistas – prosseguiu. Afirmam que no céu são corpos os que lá vivem. Paulo e Lucas dizem aos seus dizimistas, ao mesmo tempo, que não há lugar para carne e ossos no céu. Não devemos esquecer a sugestão do Papa: esse fenômeno de aparecer e desaparecer é resultante de um paradoxo. Mas não explicam - nenhum desses sacerdotes, onde ficou depositado o corpo de Jesus de Nazaré, no frio do céu, enquanto aguardaria a data da volta para a Terra, o que já dura por dois mil anos.
Jeovah levantou-se do seu trono e reptou, irado:
- Repito a este Tribunal do Juízo Final a pergunta: Onde ficou o corpo, nas nuvens, já que teria sido visto subindo? E se ele tivesse sido observado ascendendo em forma de espírito, onde teria tal corpo sido oculto na Terra? Por quem e por quê?
Uma chuva fria passou a açoitar o Juízo Final. Freud se despediu e voltou para a Terra em um dos helicópteros.
Mas Jesus de Nazaré não se deu por satisfeito. Já haviam chegado os dois soldados que - na noite da sexta-feira montaram guarda ao jazigo que José da Arimatéia havia cedido para a adorada mãe do Nazareno. Jesus era de Nazaré das quinze casas, talvez vinte – mas a mãe e a sua amada Maria Madalena não desejaram transportar o corpo para sua cidadezinha, próxima à capital da época, Tiberíades e a vizinha Séforis. Sua extrema pobreza não lhes dava meios para isso. Os seguidores de Jeovah os viam a todos como miseráveis familiares do homem condenado pela ação das autoridades religiosas do seu deus. Todas as feitiçarias produzidas por Jesus de Nazaré haviam sido esquecidas. O Nazareno pensava e comentava reservadamente com seu querubim predileto sobre tudo isso. Os rugidos e guinchos eram os que mais o incomodavam e dificultavam a conversação. De que forma o estômago do humanóide conseguia processar a mistura de alimentos – carne, capim, lebres e comida humana? Tal coisa não podia ser um espírito evidentemente. E o seu cérebro deveria ser uma brutal mistura de neurônios em constante conflito.