Juízo Final: Odisséia dos Deuses
Capítulo 31
Relativo silêncio se instalou no Juízo Final. Ouvia-se somente o vento e o ronco dos motores e das pás das hélices dos helicópteros, de onde se filmava tudo sem cessar.
Jesus de Nazaré ordenou que trouxessem o Papa que ainda não morrera nem ressuscitara. Seria julgado desde logo e poderia contribuir com sua imensa cultura para o esclarecimento de várias questões necessárias para julgamentos justos. Um exército de anjos compostos de querubins, arcanjos, serafins e potestades partiu. Voavam em grupos de doze aves e pousaram suavemente na Praça de São Pedro. Seguiram caminhando até encontrarem o trono do chefe dos sacerdotes romanos. Ele parecia abatido, mas logo foi transportado. Nada disseram, embora ele falasse hebraico, além do latim, italiano e aramaico.
- Todos serão julgados, Sumo Sacerdote romano. Não há na Bíblia Sagrada qualquer exceção – iniciou Jesus de Nazaré. Embora não tenhas nascido em Roma, és sacerdote do grande império que escravizou sem piedade o meu povo durante décadas e matou um milhão de meus irmãos.
O Papa estava de pé. Nenhum trono lhe fora cedido. Seria julgado dessa forma indelicada? Jesus de Nazaré:
- Embora os romanos nos tenham dizimado enquanto eu não havia ainda ressuscitado, minha índole, como todos sabem, não é a de confronto contigo e teus sacerdotes. Ama a teus inimigos, escreveram os evangelistas a meu respeito.
Ordenou então que um trono fosse suspenso pelos anjos mais corpulentos. Era o trono ocupado pelo apóstolo Pedro que teve que permanecer de pé sobre os ombros de serafins.
- Não sei falar latim nem o italiano existia no meu tempo de vida terrena. Falemos, pois, hebraico – a língua do nosso deus comum. Conheces perfeitamente os Evangelhos. Pergunto-te: desejas ser admitido no céu e viver aqui em companhia dos israelitas Jeovah e seus familiares, de Jacó, Isaac, o Patriarca, Moisés, Elias, do amigo em Cristo de Paulo de Tarso que subiu sem ser julgado – vivo ou ressuscitado, sendo espírito ou não - dos profetas, de mim e demais judeus aqui presentes como julgadores neste Juízo Final?
O Papa respondeu:
- Certamente - embora nenhum dos sacerdotes romanos jamais fosse judeu, salvo Pedro.
Jesus de Nazaré:
- Por que não havia judeus como sacerdotes romanos?
O Papa:
- Porque assim ocorre desde que o Imperador romano Constantino fundou, no ano 325 da atual Era, a igreja romana, substituindo o deus Invictus por Jeovah e por você.
- O seu deus principal chamava-se Invictus, o deus Sol. A sua organização religiosa repeliu esse deus romano e adotou os judeus como novos deuses. Por que nenhum sacerdote judeu - repito a pergunta -foi admitido por vocês?
O Papa:
- A resposta parece evidente. O povo judeu possui e possuía seus sacerdotes e não iria renegar uma tradição milenar e se mesclar com gentios. Permitimos que Pedro, teu discípulo, fosse nosso primeiro Papa. Foi o único judeu a exercer cargo de sacerdote na igreja romana.
- Mas constato que sua igreja possui mais de um bilhão de adeptos vivos. Colocaram torres e sinos nas nossas sinagogas. Jeovah, deus somente dos judeus desde Adão e Eva, jamais poderia ser adotado por outros sacerdotes. Não lhe parece?
- Por que não?
Jesus de Nazaré:
- Porque, tendo os romanos destruído no ano 70 da atual Era o templo judaico de Jerusalém, orgulho de seu povo, e eliminado um milhão de judeus - o povo de Jeovah - jamais haveria ele de consentir em unir-se aos seus terríveis inimigos e algozes.
Jesus de Nazaré prosseguiu:
- Além disso, vejo que seus sacerdotes usam o que chamo de Grujuem, Grupo de Judeus Emprestados - meu nome e o de mais duas dezenas de judeus para assim poderem obter seus adeptos e formar seus rebanhos de fornecedores de dízimos.
O Papa:
- E o que importa isso? Todos trocam parte do que ganham trabalhando pelo conforto de vir a possuir a vida eterna. Isso está claramente previsto na Bíblia Sagrada. Jeovah, segundo Moisés, estabeleceu que os descendentes de Levi seriam os sacerdotes de todo Israel. E os apóstolos judeus, juntamente com os outros sacerdotes descritos nas Epístolas, todos deixaram claro e escrito no Livro que ninguém deve trabalhar sem receber salários.
Jesus de Nazaré:
- O Grupo de Judeus Emprestados, que rotulamos de Grujuem, é usado por qualquer sacerdote, já o constatei. Mas, agora vamos, neste Juízo final, ao seu julgamento, em estrito cumprimento do que ordena a Bíblia Sagrada. Repito minha pergunta: deseja realmente ser admitido no céu, para viver junto aos judeus, a esse grupo que chamo de Grujuem, ou seja, o Grupo de Judeus Emprestados, como já disse?
- Sim. Não gostaria de viver no Inferno, nem arder eternamente na Geena, em Jerusalém -respondeu.
Jesus de Nazaré:
- Pois bem. Vamos aos vários pressupostos bíblicos para que possas ser admitido no céu. Primeiro: foste batizado, te arrependeste dos teus pecados, foste justo, creste em Jesus de Nazaré, jamais blasfemaste contra o Espírito Santo, nunca falaste palavras vãs, não és rico?
O Papa:
- Fui batizado, me arrependi dos meus pecados, acreditei em Jesus de Nazaré, jamais falei nada contra o Espírito Santo. Mas falei palavras vãs na infância, vivo como um rico em palácios e nem sempre fui justo.
Jesus de Nazaré:
- Desde a mais tenra idade todos falamos coisas vãs e somos injustos. Mas vejo que vives com fausto, rodeado de riquezas. Vejo que tuas roupagens são vistosas. Vejo que as taças de vinho que usas são de ouro. Mateus escreveu que os ricos dificilmente ingressariam no Reino Celestial. Não me parece que, assim, em primeira análise, possas ser absolvido.
O Papa:
- Eu e minha organização romana conseguimos um bilhão de fiéis para você! Você não disse em Marcos 16,15-16: “Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura. Quem crer e for batizado, será salvo, mas quem não crer será condenado”? Nosso Banco tem um capital de cinco bilhões de euros e o valor de nossas propriedades na Europa e no mundo é incalculável, como ninguém ignora.
Jesus de Nazaré:
- Alguma das pedras dos seus castelos foi adquirida com trabalho, amaino da terra ou atividades pesqueiras praticadas por seus sacerdotes?
O Papa nada respondeu.
Jesus de Nazaré:
- Eu teria dito que o Reino de Jeovah viria logo, enquanto ainda vivessem muitos dos meus seguidores, há dois mil anos. E eu disse - como podem ver na Bíblia Sagrada, que os apóstolos não deveriam obter adeptos que não fossem judeus, os goin.
O Papa:
- Mas, no final dos Evangelhos, não há lá uma mudança de orientação?
Jesus de Nazaré:
- Sim. Isso ocorreu. Mas não o escreveu Marcos. Houve uma mudança no texto, feita por copistas, como o mostram claramente as pesquisas. Sua organização promoveu a inclusão de não-judeus. Houve uma adição, uma interpolação induvidosamente constatada ao texto original de Marcos e dos demais escritores bíblicos. Aliás, como examinaremos adiante, foram incontáveis as alterações nos escritos dos Evangelhos. Mais de duas mil, segundo peritos no assunto.
O Papa:
- Sim, mas, se está escrito e, sendo a Bíblia infalível, devem todos os não-judeus ser admitidos no Reino de Deus.
Jesus de Nazaré:
- Vejo que te vales do texto não original. Vejo que o teu povo aniquilou a um milhão de meus irmãos, há dois mil anos. Vejo que os Evangelhos foram adulterados. Vejo que esses adulteradores se esqueceram de mudar a parte inicial do texto em que somente podem os judeus ingressar no Reino de Jeovah. E vejo que o deus Jeovah, deus exclusivo dos judeus, é usado por gentios, ou seja, não-judeus. E eu declaro: o texto válido é o primeiro - somente devem ser admitidos no céu os israelitas.
O Papa:
- Tudo isso é verdadeiro. Está escrito e não o posso contestar. Mas está também escrito: quem crer em Jesus de Nazaré será salvo, quem não crer será condenado. Pois eu, embora não seja judeu, acreditei e, assim, devo ser salvo.
Jesus de Nazaré:
- Como posso ter certeza de que você realmente creu em mim? Sua organização religiosa possuía, antes, o deus Invictus, o deus Sol, entre outros. O imperador romano Constantino sabidamente admitiu o cristianismo, como o rotulam, em troca do deus Invictus, porque o Grujuem era mais eficiente para se conseguir adeptos e formar grandes rebanhos. Ele próprio, em segredo, nunca abandonou o deus romano Invictus. Ele usou do cristianismo para facilitar a dizimação e o domínio das ovelhas.
O Papa:
- Bem sabemos que, durante dois mil anos, os judeus foram perseguidos e mortos em fogueiras por nossos sacerdotes. Bem sei que os bens dos judeus foram tomados por nossos Inquisidores. Mas, tudo isso não afasta o pressuposto mais importante, segundo penso. Está escrito na Bíblia Sagrada que não vieste para salvar os justos, mas, sim, os ímpios e pecadores.
Jesus de Nazaré:
- Realmente. Todos são pecadores. Assim, meu voto é no sentido de te admitir no Reino de Jeovah.
Os vinte e seis apóstolos se disseram impedidos de julgar, já que eles somente poderiam sentenciar os integrantes das Doze Tribos de Israel. Jeovah passou a proferir seu julgamento:
- Meu primeiro mandamento é: não terás outros deuses além de mim. Lamentavelmente não posso absolver.
Diante do empate, foram os anjos convocados a decidir. Miguel foi o primeiro a votar:
- Os anjos são israelitas. Jeovah se declara Deus unicamente desse povo. Meu voto é no sentido de que o Papa deva ser admitido no Reino de Deus. Ele vivia como rico. É o Sumo Sacerdote dos gentios. Possuía outros deuses que não Jeovah. Mas ele obedeceu ao que está escrito na Bíblia: ide por todo mundo e pregai o Evangelho. Se isso foi produto de modificação por parte dos que copiaram e traduziram a Bíblia, não cabe avaliar. Está escrito. Logo deve ser cumprido. Ou não?
Os demais anjos passaram a confabular. Mas passaram várias horas sem que chegassem a um consenso. Havia anjos que constavam do Novo Testamento e que assessoravam a Jesus de Nazaré. E havia anjos que somente tinham agido no Velho Testamento, em favor de Jeovah e dos judeus fiéis a ele. Exércitos de humanos, inimigo dos judeus, foram eliminados pelos anjos, no Velho Testamento.
- Diga-me, Papa – falou Jesus de Nazaré: o deus romano, o deus dos seus dizimistas, o deus quefoi adotado em lugar de Invictus, é ele o mesmo deus surgido pelos relatos bíblicos de Moisés e demais narradores do Velho Testamento? É o seu deus este que aqui está ao meu lado, Jeovah, também descrito no Velho Testamento como Deus, o Altíssimo, Javé, Senhor dos Exércitos, Adonai? É ele o mesmo que é descrito como o homem, ou seja, por ser o pai de Jesus de Nazaré, que se dizia Filho do Homem?
O Papa:
- Nosso Deus é o nosso Deus. Ele é onipotente, onipresente e onisciente, misericordioso, piedoso, como consta de alguns textos.
Jesus de Nazaré:
- Responda a pergunta feita por este Tribunal. O deus de seus sacerdotes é o mesmo deus dos judeus?
O Papa não parecia muito à vontade, mas respondeu:
- Sim. O nosso deus é o pai do judeu Jesus de Nazaré, exatamente como está escrito no Novo Testamento bíblico.
Jesus de Nazaré:
- Não, Papa. Queremos que responda claramente: o seu deus, o deus que substituiu em Roma o deus Invictus, o deus Sol, é o deus dos judeus aqui presente?
O Papa:
- Se esse Jeovah é descrito na Bíblia como o pai de Jesus de Nazaré, ele é o mesmo deus adotado pelos romanos por empréstimo. O anterior deus principal dos romanos era Invictus, o deus Sol, não há como negar. Pedro e Paulo são os que introduziram em Roma seus dois deuses. Pedro é considerado o primeiro Papa porque ele abandonou sua religião, o judaísmo, e se investiu de líder da nova religião. Não se tem notícia de sua mulher e filho, com quem morava em Cafarnaum. Não parece que fomos nós os romanos, os que teríamos nos apropriado do deus israelita. Fui justamente o mais proeminente dos sacerdotes rebeldes de Israel que invadiu a capital do império romano para nos seduzir com suas poderosas mensagens ovelheiras – ditas evangelizadoras. Contou com a ajuda de Paulo de Tarso, esse sim o grande sedutor dos gentios.
Jesus de Nazaré:
- Percebo que a religião romana e suas derivadas, as assim conhecidas religiões protestantes e evangélicas, adotaram o deus judaico. Mas este Jeovah, esse deus emprestado por seus sacerdotes, não é deus exclusivo dos judeus? Não está escrito no Velho Testamento, em milhares de passagens, que ele, Jeovah é o deus protetor do povo judeu? Não está escrito que Jeovah matou a centenas de milhares de vizinhos, povos inimigos de Israel? Como poderia esse mesmo Jeovah ser adotado por sacerdotes de outras nações?
O Papa:
- Porque ele e Jesus de Nazaré foram os personagens em que se basearam os líderes romanos Constantino e sucessores para estabelecer o estado de dízimos em troca de vida eterna. Exatamente como o fizeram os judeus com Moisés. E ensinou Pedro em sua execução de Ananias e Safira. E Paulo em suas epístolas às comunidades dizimistas.
Jesus de Nazaré:
- Confirmas então que os dízimos são o objetivo buscado por teus sacerdotes?
O Papa:
- Certamente. Mas sempre zelamos em transmitir aos fornecedores de dízimos a contrapartida, ou seja, a promessa firme e formal de ressurreição após a morte e mensagens apregoando o amor, a fraternidade, o perdão. Essas técnicas sempre deram bons resultados e nossos missionários formaram rebanhos com mais de um bilhão de humanos.
Jesus de Nazaré:
- Mateus escreveu que eu sempre combatia os ricos, os mercadores do templo, os fariseus, os recolhedores de impostos, os poderosos. Como ousam usar do meu nome e de todo o Grujuem para criar fortunas?
O Papa:
- Porque esse sempre foi e sempre será o grande desejo dos dizimistas. Trocam seu dinheiro por promessas de vida eterna. Desejam bengalas, arrimos, sustentáculos, apoios que os ajudem a suportar suas vidas até serem enterrados ou cremados. E a Bíblia ordena que os sacerdotes recebam por seus serviços. Nas Epístolas está escrito que os operários devem receber em dobro. O apóstolo Pedro recebeu de Ananias o produto da venda da sua terra. Descreveu que este e sua mulher morreram no ato em que o enganavam - não lhe entregando todo o dinheiro. No Velho Testamento os sacerdotes judeus recebiam terras dos pecadores, em troca de perdão. Recebiam pelo resgate do filho primogênito e pelos dízimos trienais. Esses fiéis eram conhecidos também como clientes dos sacerdotes. Então, onde está o ilícito que se insinua?
Jesus de Nazaré:
- Papa: mas isso lhe parece justo?
O Papa:
- Não. Mas está escrito na Bíblia e as Constituições Federais dos países garantem liberdade religiosa e isenção de impostos. Uma recente seita evangélica acabou de instruir a mais de dez mil ditos missionários, espalhados pelo mundo. Eles recolhem bilhões de dólares anualmente. Por que haveremos de criticar seu comportamento? Eles não estão imitando a grande milenar igreja romana? Não estão eles tomando, com grande habilidade os dizimistas dos romanos? Não se trata de uma troca justa? Milhões de humanos felizes porque alguém lhes fornece a promessa de uma vida eterna, saúde, prosperidade? Por acaso a Bíblia estabelece limites para os recolhimentos de dízimos?
Jesus de Nazaré estava visivelmente perplexo com o que lhe dizia um dos mais proeminentes seguidores de Paulo de Tarso. Era o chefe de um bilhão de adeptos espalhados pelo mundo.
- Papa: o Grujuem é usado por qualquer pessoa que pretenda fundar uma nova seita. Por que os demais judeus não usam desse grupo de personagens judaicos para obterem dízimos?
- Porque eles sempre foram dizimistas usando somente o seu deus. Essa prática começou há mais de quatro milênios. Os sacerdotes judeus até hoje somente se valem do nome de Jeovah. Os demais personagens do Grujuem não lhes interessam nem deles necessitam.
Jesus de Nazaré olhou para Jeovah e para os anjos. Perguntou ao Papa:
- E os anjos - Papa? Os sacerdotes judeus usam o anjo Gabriel e o Anjo Caído em suas mensagens. Também os sacerdotes dos romanos e das seitas derivadas utilizam desse ser alado. Usam-no em sermões e nos programas televisivos. Como explica isso?
- A atividade de dizimador – respondeu o Papa - requer o uso de personagens bíblicos. Os sacerdotes judeus somente usam Jeovah e os anjos, inclusive do anjo conhecido por Lúcifer, para estabelecer o temor entre os fiéis dizimistas. Já os sacerdotes que se estabeleceram após a morte de Jesus de Nazaré, utilizam o Grujuem completo, ou seja, Jeovah, os treze apóstolos, os quatro evangelistas, Jesus de Nazaré, José e Maria, Paulo de Tarso e o Anjo Caído, o Diabo. Todos esses judeus podem ser encontrados em nossas igrejas. Obviamente que nas sinagogas os sacerdotes israelitas não podem usá-los. Seus sacerdotes proíbem o uso de desenhos, estatuetas ou esculturas nas sinagogas.
Jesus de Nazaré virou-se para Jeovah:
- Por que os romanos, inimigos de nosso povo, esses mesmos romanos que mataram mais de um milhão de judeus quando ocuparam Israel há dois mil anos, podem se valer do Grujuem e os sacerdotes judaicos não o podem fazer?
Jeovah, visivelmente aborrecido:
- Porque sou deus dos israelenses e só deles. Todos já não leram as milhares de passagens bíblicas em que isso está claramente escrito? Como eu poderia admitir que os sacerdotes judeus adotassem ou concordassem com qualquer outro deus? Como eu e meus sacerdotes poderíamos admitir essas novas pregações de Paulo e de vários outros? Dizem esses filhos de Israel que todos podem pecar à vontade e que depois basta que creiam em um humano nascido do ventre de Maria, chamado Jesus, da cidade de Nazaré.
Jeovah olhou para o Papa e continuou:
- Minhas regras, entregues a Moisés, proíbem sejam elas desrespeitadas. Como poderiam meus sacerdotes, todos israelitas, passar a concordar com essas ideias de Paulo e seus colegas Pedro e demais dizimadores? A Bíblia, no Velho Testamento, promete castigos os mais terríveis aos que me desobedecerem e adotarem outros deuses, como ninguém ignora.
O Papa prosseguiu:
- Nós respeitamos isso atualmente, grande e misericordioso Deus. Sou sacerdote que, efetivamente, de certa forma, adotou o Grujuem, não há dúvidas. E isto nos basta, a mim e aos demais dizimadores, meus colegas. Nosso líder é Paulo de Tarso. Não fora ele e o imperador Constantino, sequer haveria religiões romana e derivadas, já que os israelitas abandonaram completamente as ideias cristãs. Nós adotamos, sim, o Grujuem, principalmente a nossa amada Santa Maria e seu filho Deus, Jesus. Nada nos impede a isso.
A perplexidade estava estampada no rosto de milhões de dizimistas. Estas afirmativas de seu líder eram realmente inesperadas.
Jesus de Nazaré:
- Paulo de Tarso é o seu grande líder. Merece que leiamos o que ele escreveu na Carta aos Hebreus 10,26-31, se me permite: “Depois de termos recebido e conhecido a verdade, se a abandonarmos voluntariamente, já nem haverá sacrifício para expiar esse pecado. Só teremos que esperar um juízo tremendo e o fogo ardente que há de devorar os rebeldes. Se alguém transgredir as leis de Moisés, - e isto provado com duas ou três testemunhas deverá ser morto sem misericórdia. Quanto pior castigo julgais que merece quem calcar aos pés o Filho de Deus, profanar o sangue da aliança, em que foi santificado, e ultrajar o Espírito Santo, autor da graça! Pois bem sabemos quem é que disse: Minha é a vingança; eu a exercerei (Deuteronômio 32,35). É horrendo cair nas mãos de Deus vivo”.
Die Maschiene: “Afirmam historiadores que essa Carta aos Hebreus não teria sido escrita por Paulo, mas, sim, por agentes da igreja romana e incluída na Bíblia. Os analistas dizem que essa Carta serve para atemorizar os que podem vir a se transformar em hereges, os que deixam de ser dizimistas, os que fogem das ordens dos padres. Carl Sagan refere que as crueldades, os assassinatos, os estupros eram necessários para que os padres não perdessem seus empregos. E que, a partir daí, tivessem que trabalhar para obter seu sustento”.
Jesus de Nazaré respirou fundo. Estava com frio e enrolou-se com uma grande manta. Parecia nauseado. Prosseguiu com grandes dificuldades:
- Paulo de Tarso acena com a morte no fogo, com torturas no fogo, com vinganças iguais às de Jeovah para quem for declarado rebelde, para quem pensar em abandonar os pastores! O fogo que também queimou tantas centenas de milhares de mulheres nas fogueiras dos Inquisidores de Roma, nos dois milênios que passaram. É o terror e o medo implantados. É o que ele chama de apostasia e que impõe os castigos pelo fogo.
A Máquina exibiu a capa do livro Jesus de Nazaré, de autoria do sumo-sacerdote dos romanos, Joseph Ratzinger, agora Papa Emérito. Surgiu o texto contido na página 220: “Jesus não voltou a uma vida humana normal deste mundo, como sucedera com Lázaro e os outros ressuscitados por ele. Saiu para uma vida diversa, nova: saiu para a vastidão de Deus e é a partir dela que Se manifesta aos Seus”.
Jesus de Nazaré:
- Primeiramente este Juízo Final lhe pergunta: Deus, mencionado no seu livro, é Jeovah, ou é algum outro deus?
O Papa:
- Certamente que se trata do mesmo Deus, aquele descrito pelo israelita Moisés no Pentateuco.
Jesus de Nazaré:
- Sua organização religiosa informa aos seus dizimistas que o seu deus é o mesmo Jeovah. Por que mudam o nome para Deus? Por que não o chamam de Jeovah, Javé, Senhor dos Exércitos, Altíssimo, como o fazem os israelitas? Seria por que desejam ocultar a existência do verdadeiro deus, Jeovah, o deus dos judeus?
O Papa:
- Nós não gostamos de falar em dízimos. Nós somos pastores de um grande rebanho. E esse rebanho necessita de nossa religião. Se o nosso deus é emprestado dos judeus, isso não importa a ninguém. O nosso Banco do Vaticano necessita de mais e mais dinheiro de nossos fiéis e eles necessitam de certezas da vida eterna.
Jesus de Nazaré:
- Escreveram que eu ressuscitei de uma forma diferente. Lázaro voltou a ser humano, normal, morrendo novamente mais tarde. Mas Jesus de Nazaré teria morrido na sexta-feira e, após três dias de decomposição de seus tecidos, teria ressuscitado. Teria sumido do túmulo de José da Arimatéia, caminhando, após falar com Maria.
O Mestre levantou-se, foi até o Papa, tocou no seu ombro esquerdo e disse:
- Papa, em todo seu livro você não discute nem pergunta quem eram esses evangelistas. Simplesmente eles, embora ninguém saiba de onde realmente vieram, teriam dito a mais pura das verdades. Por que acreditar nisso? Por que você não diz aos seus leitores que esses Evangelhos foram adulterados, interpolados, em milhares de pontos?
Silêncio. Continua o Mestre de Nazaré:
- Você tem que satisfazer seus fiéis, seus adeptos, seus dizimistas, bem o sabemos. Você tem que tentar explicar onde ficou o corpo de Jesus de Nazaré. E o que você faz? Simplesmente diz que esse corpo saiu para a vastidão de Deus! Saiu, Papa? Saiu como e para onde? E o que é a vastidão de Deus, ou seja, de Jeovah, o deus judaico emprestado por Roma e seitas derivadas?
O Papa:
- A vastidão de Deus significa que o corpo saiu do túmulo, caminhou, falou com Maria Madalena e permaneceu quarenta dias aparecendo e desaparecendo. Esses aparecimentos de corpo são paradoxos.
Yeshua:
- Paradoxos? O corpo do ressuscitado aparece e logo após fica invisível? Quem te disse isso, Papa? Como você pode afirmar isso, dois mil anos após esses fatos? As suas vestimentas e sandálias também desaparecem?
O Papa:
- Eu digo e nada mais temos a conversar. Moisés disse. Mateus, Marcos, Lucas, João e Paulo de Tarso disseram. E escreveram. Por que eu, o sumo sacerdote romano não posso também dizer, escrever algo? Quem irá me tirar a autoridade para isso?
- Certamente. Os rebanhos não necessitam de deuses lógicos. Eles necessitam de religiões, de bengalas, de apoios, de consolos e de esperanças em vida eterna após suas mortes. Você tenta explicar o inexplicável: o buraco narrativo não tem remédio, não tem explicação, não tem solução. Você diz que Jesus de Nazaré ressuscitou e saiu do túmulo. Saiu para um lugar que chamas de vastidão de Deus.
- Eu assim escrevi.
Jesus de Nazaré:
- Este Tribunal do Juízo Final não aceita vaguezas ou ambiguidades. Nós exigimos certezas. Nós não aceitamos falácias, explicações capciosas. Repito minha pergunta: o que é vastidão de Deus?
- Não sei o que isso significa. Mas isso basta para nosso rebanho.
- Lamento, mas a colcha de retalhos que são os Evangelhos se une para uma explicação vaga e ambígua feita dois mil anos após. E seu livro surge justamente em um momento em que os seres humanos estão a exigir explicações convincentes, embora todos já saibam que isso é impossível. O dízimo é o grande objetivo de todos os sacerdotes. A propósito, qual é mesmo o capital atual do Banco que pertence aos sacerdotes romanos?
- Cinco bilhões de euros - se não me engano.
- Qual o valor estimado das propriedades da sua organização ovelheira?
- É incalculável. Fala-se que um terço da Itália pertence à Igreja.
- Por que abdicaste do papado?
- Porque estou cansado, os dízimos minguaram e temos que evangelizar mais pessoas para não perdermos poder. Temos uma grande máquina administrativa que reclama salários e milhares de contas bancárias a emagrecer os balanços de nosso Banco.
- Mas os demais papas, em dois mil anos, por eventuais doenças, não abdicaram.
O Papa parecia muito contrariado com aquele interrogatório. Respondeu, com ar embaraçado:
- Quando uma grande empresa muda os controladores acionários, muda o seu presidente. Quando cai em desgraça o chefe siciliano, um novo detentor do poder surge. Isso não parece óbvio? Alguém pode criticar a organização religiosa por sua opulência? Não está escrito na Bíblia Sagrada que o boi não trabalha sem o devido alimento? Não está escrito que Paulo de Tarso viajava para recolher pessoalmente os dízimos arrecadados das ovelhas, se valesse a pena?
- Já entenderam os dizimistas como tudo funciona. E lamentam, choram e ficam condoídos com sua atual situação.
- Pois tenho que reconhecer: não combati os pedófilos que se instalaram nas ekklesias. Não concordei com as liberalidades e possibilidade de casamento que se pretendem com relação aos homossexuais, seguindo os ensinamentos de São Paulo. Não penso que o uso da camisinha deva ser liberado e que o aborto seja permitido. Fugiram as nossas ovelhas e se abrigaram nos templos dirigidos por pastores evangélicos. E nesses templos crescem e se multiplicam os pastores. Seus automóveis velhos são trocados por novos. Em suas casas há fartura, tal qual acontecia com os sacerdotes levitas. Não concordei com mudanças. Nossas ekklesias se esvaziaram e os dízimos minguaram - como já disse. Um novo dirigente que mude tudo isso. Não o fiz e não o recomendarei.
- Paul Johnson escreve que era e é difícil ainda – penso eu – distinguir entre os verdadeiramente inspirados, os auto-iludidos e os meros criminosos. Logicamente o mundo te classifica com grande louvor entre os verdadeiramente inspirados. Gostaria que falasses algo sobre isso.
- Com muito prazer o farei, sim. Não saberia dizer o que significa o termo verdadeiramente inspirado. Nem sei o que é auto-iludido. Eu arriscaria dizer que já encontrei auto-iludidos, sacerdotes que se martirizam e se flagelam, hipnotizados por si mesmos, se é que se poderia assim invadir conhecimentos de psicólogos. Julgo que existem até os meramente criminosos. Por exemplo, pedófilos. A pedofilia é considerada crime grave na maioria dos países do mundo e eu não consigo aceitar que clérigos os cometam. Noticiam que certas organizações levam a termo extorsões com seus dizimistas. Elas devem ser levadas a julgamento por tribunais. O que significa inspirados? Penso que esse termo é uma casa com muitos hóspedes.
Die Maschiene estampou imediatamente: Segundo o dicionário Babylon, inspiração é sugestão de origem transcendente ou psíquica, ou de qualquer objeto que tem virtude genética sobre o artista para excitá-lo à produção e lhe orientar.
- Se me permite vou adicionar mais duas classes de clérigos à lista de Johnson – observou o Mestre. São os sacerdotes profissionais, os que fazem da dizimação um meio de vida e de ócio. E temos ainda os atores, os que buscam notoriedade, roupagens vistosas em púlpitos e cerimônias públicas, admiração e bajulação por parte do seu e de outros rebanhos. Dividir em cinco classes parece mais adequado e completo.
O notável clérigo assentiu com a cabeça e, majestosamente como chegara, assim partiu. De seu julgamento não foi cogitado por ora, como o de tantos outros, iniciados e não finalizados. O Papa renunciou de seu cargo. Já estava embarcado quando se lembrou de algo. Acenou para Jesus de Nazaré:
- A propósito! Volto a lembrar: não é verdade que judeus não ingressem em nossa ekklesia. Pedro, Petrus para nós, foi o primeiro Bispo e primeiro Papa!
No seu comentário diário, Sara Moshê publicou: “Partiu sorridente. Abdicara definitivamente ao trono da grande ekklesia, para tristeza de seus cordeiros espalhados pelo mundo – informaram os jornais. Sempre foi um grande dizimista. Viajara pelo mundo durante oito anos. Criara vários santos e, com isso, mais dízimos para o Banco do Vaticano. A milenar troca dízimo por promessa de vida eterna, no entanto, estava rendendo menos aos cofres do Banco do Vaticano e mais para as seitas evangélicas. Estas nem sempre erigem torres ou obeliscos. Alugam ou constroem grandes depósitos com muitas cadeiras e espaços gigantescos para abrigar as numerosas ovelhas. O novo Papa teria que aprender com os sacerdotes evangélicos – dizia Sara Moshê para seus telespectadores. A velha estratégia de vender cadeiras no céu não encontrava mais clientes. Melhor era doar sopas a alguns pobres”.
Vários anjos estranhos surgiram. Die Maschiene informou: Traziam uma senhora israelita que vivera cento e dezessete anos e fora morta em um ataque das tropas nazistas a uma aldeia russa conhecida por Alexandrufka. Ressuscitara e voltara ao estado exato em que se encontrava antes da sua morte. Estivera muito enferma e o câncer a havia deixado sem chances de sobreviver. Seus filhos, netos, bisnetos e demais descendentes a trouxeram fretando um avião que os deixou no Aeroporto Internacional Ben Gurion, em Tel Aviv. De lá vieram em um ônibus no qual havia enfermaria com modernos equipamentos médicos.
Jeovah saudou os anjos judaicos, seus velhos conhecidos. Ali estavam Alef, de nome Adriel; o anjo Hei, de nome Dromiel; o anjo Het, de nome Hudna; o anjo Yud, de nome Iaboc; o anjo Caf, de nome Biala; o anjo Mem, de nome Mocal e o anjo Ain, de nome Akaiel.
- Vejo que a família desta idosa ré creu em Jeovah – disse o Mestre. Mas, como fiéis seguidores de seu deus Jeovah – como lhes competia - não puderam crer em outro deus, Jesus de Nazaré. Declaro-me incompetente para julgá-la e passo a palavra a Jeovah a fim de que profira seu voto.
- Nunca prometi ressurreições, como já afirmamos centenas de vezes neste Tribunal. Estou aqui por força de um texto bíblico estranho à Torá. Dou-me por incompetente para julgar essa idosa senhora e determino que seja levada de volta a Alexandrufka.
Os anjos judaicos se preparavam para reconduzir a ré. O Mestre ordenou:
- Não reconheço a ingerência desses anjos neste julgamento. Determino que sete querubins assumam o encargo de transportar a ré até o solo.
As aves com suas estranhas faces aproximaram-se da ressuscitada. Entrou ela em pânico quando rostos de leões roçaram seu alquebrado corpo. Passou a gesticular tanto que acabou desfalecendo. O anjo judaico Biala a medicou e sedou, sendo então transportada pelos anjos bíblicos. O séquito desceu de volta ao seu ônibus, rumo a Tel Aviv. A desolação e a indignação eram visíveis. Não podiam compreender que seu amado Jeovah os havia abandonado.
Confabulavam os evangelistas. Indagados, pediram para que Jeovah e Jesus de Nazaré os ouvissem em local reservado. Mateus:
- Uma rebelião está sendo programada. Anjos expulsos do céu estão infiltrados e incitando seus colegas a entrar em greve.
Jeovah:
- Isso seria muito grave. Cairíamos todos sobre Jerusalém. Os tronos não resistiriam à queda. Os humanos, sem asas, seriam presas fáceis de humanos criminosos, ressuscitados ou vivos. Nunca fiquei sem o meu fiel querubim. O que agora me ocorre é a utilização do carro de fogo que conduziu Elias para as nuvens.
Jesus de Nazaré:
- Penso que, numa emergência como essa, devemos embarcar em helicópteros.
Os repórteres ouviram tudo e logo surgiu o convite por parte do exército de Israel. Dois grandes helicópteros surgiram e ficaram à disposição dos habitantes humanos das nuvens. Poderiam também se valer de grandes balões. Logo os anjos rebeldes – os anjos caídos - foram localizados e novamente expulsos, caindo como da primeira vez.