Juízo Final: Odisséia dos Deuses

Horst Schadeck · Capítulo 63 de 96

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Juízo Final: Odisséia dos Deuses

Capítulo 62

 

Tiago chegou carregado por um séquito de noventa anjos, dez de cada ordem. Foram enviados com um trono onde se assentou logo que ressuscitou. Era irmão de Jesus de Nazaré e merecia todas as honras celestiais.

Tiago cumprimentou a todos, menos a Paulo de Tarso. Abraçou ternamente a Jesus de Nazaré e sua amada mãe Maria que passara a ocupar o mais suntuoso trono do Juízo Final. Ao lado de Paulo de Tarso estava Tiago, o personagem romano. Fora declarado santo e, como tal, de alguma forma ainda não esclarecida pelos romanos, estava nas nuvens já antes da instauração do Juízo Final.

Havia uma grande expectativa em torno do discurso de defesa que faria o ressuscitado Tiago. Vestia uma capa e uma túnica de grande beleza que os anjos lhe deram.

- O que tens a dizer em tua defesa? – indagou Jesus de Nazaré.

- Serei breve. Sabemos todos que os romanos humilharam Israel. Mataram os nossos irmãos em cruzes, forcas e pela espada. Torturaram, cegaram, vilipendiaram homens, mulheres e crianças. Escravizaram nossas esposas, estupraram nossas filhas. E quando chegou o Messias - meu amado irmão Jesus de Nazaré - o crucificaram ao lado de centenas de israelitas que bravamente combateram os opressores.

- Você já percebeu que existem duas correntes de sacerdotes: os que afirmam, em seus relatos, que somente corpos humanos e humanos-aves – anjos – existem no céu, nas nuvens. E existem sacerdotes, seguidores de Paulo de Tarso, que dizem que somente espíritos existem no céu, nas nuvens. Para esse Paulo tudo mudou e a verdade passa a ser outra: vida espiritual, versão adotada de forma pueril pelos romanos.

- Certamente – respondeu o irmão de Jesus de Nazaré. Desde já quero dizer que os sacerdotes dizem o que bem desejam como se demonstrou neste julgamento. As vítimas desejam ser iludidas. Elas não querem pesquisar em busca de buracos narrativos. Mas existem os que defendem as duas coisas. Lucas disse que Jesus de Nazaré subiu em forma de espírito em 23,43-46: “Jesus respondeu ao malfeitor na cruz ao lado: hoje estarás comigo no paraíso; Pai, nas tuas mãos entrego meu espírito”. Mas, ao mesmo tempo, adiante, em 24,39-51, dá nova versão e escreve Lucas: “Apalpai e vede minhas mãos: um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que tenho; ele comeu peixe à vista deles; levou os apóstolos a Betânia, os abençoou e foi arrebatado ao céu”.

- O que concluis disso, meu querido irmão Tiago, filho de minha adorada mãe Maria e de meu pai José?

- Espíritos, se é que existem, não comem! Espíritos, se é que existem, não podem ser vistos! Espíritos, se é que existem, não sentam em tronos nem tomam vinho ou falam!

Jesus de Nazaré:

- Tudo isso já vimos. Estamos em uma vereda sem saída, meu irmão. Os relatos bíblicos são de corpos no céu. Jeovah possui filhos no céu e netos na Terra, de carne e ossos. Logo, não pode ser um espírito. Onde fica o mundo espiritual de que falam os sacerdotes?

- Meu querido irmão Jesus de Nazaré: Elias, o grande profeta israelita do Velho Testamento, teria subido com carne e ossos, conduzido pelo carro de fogo, como claramente consta do Velho Testamento. Jesus de Nazaré teria subido com seu corpo. A grande maioria dos sacerdotes prometem que alguém ou algo não informado se empenhará em ressuscitar os corpos dos mortos para serem arrebatados para as nuvens. Mas surgiu um sacerdote romano que afirma não ser isso verdadeiro. Diz que no céu somente podem existir espíritos. Nada de vinho, trombetas, espadas, capas, túnicas, mantos, sandálias, mesas, tronos, vestimentas, enxofre.

Tiago olhou para Paulo de Tarso e prosseguiu:

- Esse sacerdote, Saulo, depois Paulo, da cidade de Tarso, escreveu e confessou que é o mais fervoroso inimigo do povo de Jeovah e partidário dos opressores romanos. Diz ele em Romanos 13: “Cada qual seja submisso às autoridades constituídas, porque não há autoridade constituída que não venha de Deus; quem a ela resiste, opõem-se à ordem estabelecida – que é instrumento de Deus - atrai para si a condenação. Pagai os impostos por dever, temor e respeito” . Os impostos eram insuportáveis e sufocavam nosso povo.

Tiago jogou sobre os ombros a sua capa e elevou o nível de sua voz:

- Esse Paulo de Tarso foi e é inimigo do povo subjugado. E por que age assim esse soldado romano que jamais conheceu sequer pessoalmente ao meu grande irmão Jesus de Nazaré? Porque ele traiu seu povo! Porque ele criou um Deus emprestado a quem não mais chamava de Jeovah, mas de Deus, simplesmente! E que foi coautor confesso da morte do judeu Estêvão, não tendo sido sequer julgado pelo homicídio! E porque mandou o povo judeu submeter-se pacificamente aos seus opressores, àqueles mesmos romanos que destruíram Jerusalém e se apossavam do trigo, cordeiros, olivas, dos melhores novilhos produzidos pelo trabalho do povo de Israel!

Tiago ofegava. Seu rosto resplandecia e seus olhos pareciam soltar fagulhas. Enfurecido prosseguiu:

- Como ousou esse cidadão de Tarso dizer que os judeus tinham a obrigação de pagar os impostos aos opressores romanos? Vejam que palavras ultrajantes escreveu nessa mesma carta aos Romanos, em 13,5-6: “É necessário submeter-se por temor ao castigo e por dever de consciência: pagai os impostos e os tributos a quem deveis os impostos e os tributos”.