Juízo Final: Odisséia dos Deuses
Capítulo 87
Surgiu carregada por um séquito de mais de mil serafins e outros tantos querubins, aquela que dera à luz os filhos que desceram para casar e ter filhos com as mulheres que julgaram belas, na Terra. Seu trono era de ouro e estava todo cravejado com diamantes, esmeraldas, safiras, topázios, opalas e rubis. Assemelhava-se ao éfod usado pelos sacerdotes judeus. Nas laterais sinos de ouro anunciavam a aproximação da mãe dos filhos de Jeovah.
- Mas isso é impossível – bradou imediatamente Paulo de Tarso. Nunca a Bíblia Sagrada mencionou a existência de uma mulher deusa!
Jeovah levantou-se e foi oferecer a mão à deusa que chegara. Ela estendeu sua própria mão direita para que Jeovah a beijasse:
- Sejam todos bem-vindos a este Terceiro Céu. Bem sei que somente Paulo de Tarso suspeitou da sua existência e somente ele deu notícias deste andar superior do céu, onde está o Paraíso. E logo já perceberam porque eu nunca fui mencionada expressamente em mais textos da Bíblia Sagrada.
- Salve - grande Deusa Oculta de Israel! - saudaram os apóstolos. Isaac, o Patriarca e Jacó sorriram e inclinaram suas cabeças levemente. Afinal as mulheres, naqueles tempos bíblicos de barbárie, somente podiam assistir às reuniões dos homens, nas sinagogas, espiando, sob escadas externas - pelas estreitas janelas ao alto das salas.
Ela fez um gesto com a mão esquerda:
- Eu sempre fui mencionada indiretamente pelos narradores bíblicos. Podem me chamar de a Deusa Desconhecida, ou a Deusa Oculta. Ao dizerem que, já antes do Big Bang, existia um dos Jesuses, obviamente teria ele que possuir, além do pai, Jeovah, a mim, sua mãe. Não somos todos iguais? Adão é igual a Jeovah? Eva procria? Não são meus netos os filhos dos filhos de Jeovah que desceram para casar com as mulheres que julgaram belas, na Terra? Minha existência é logicamente indispensável. Quem iria gestar todos esses filhos de Jeovah?
Todos os filhos de Jeovah que haviam descido para casar e ter filhos com as mulheres belas da Terra, imediatamente foram abraçar àquela que os gerou.
Assim como o Papa a tudo assistia, vários canais de televisão haviam transmitido essas tocantes cenas para os mais de cem bilhões de ressuscitados e vivos.
- Meus filhos - temos que convir com a Bíblia: o pai de vocês é pai desse jovem, Jesus de Nazaré, o Cristo, o Salvador do povo judeu, o Messias. Não me importa que seja ele filho adulterino. Não há qualquer desconforto em saber que Jeovah o produziu unindo-se à amada Maria. E não me interessa que ele tenha usado da sombra de um anjo para que fosse fecundado – como evidentemente indispensável – o óvulo em que Jesus de Nazaré começou a viver. Quero que todos vocês o amem como meio irmão legítimo e não autorizo a ninguém falar maledicências contra Jeovah. Afinal, José também suportou como eu, essa união adulterina.
Não é necessário dizer do estupor que tomou conta dos cento e tantos bilhões de humanos. Todos apanharam suas bíblias quando a mãe de Jesus Celestial leu, em João 8,38: “Eu falo o que vi junto de meu Pai, Jeovah; e vós fazeis o que aprendestes de vosso pai”. Em João 6,38, consta: “Pois desci do céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou”.
Realmente, Mateus e os demais sacerdotes bíblicos haviam descrito um duplo adultério. Diziam que Jesus de Nazaré tinha sido fruto de uma união de Maria com Jeovah. Eram pessoas de origem humilde e bastante ignorantes.
- Isso é uma blasfêmia! Isso é um disparate! - protestava Paulo de Tarso.
Novamente um gesto da deusa fez com que Paulo silenciasse:
- Ser pai é transmitir genes. Ser pai é fecundar. Se não houver a união de um espermatozoide de Jeovah com um óvulo fértil de Maria, não haverá paternidade. Essa é a mais perfeita obra da natureza terráquea. Tudo que se move, tudo que vive, tudo que tem um ciclo de vida animal, tudo, mas tudo necessita de fecundação para procriar. Até mesmo os hermafroditas têm que fecundar seus próprios óvulos.
- Quero parabenizar a você, Jesus de Nazaré, filho de Jeovah - segundo Mateus, Marcos, Lucas e João. Os humanos se tornaram melhores com as tuas mensagens de amor. Os humanos foram mortos no Dilúvio, por Jeovah, porque eram maus, segundo o narrador bíblico. Mas você não matou. Você os educou e ordenou que amassem seus agressores – o que não deixa de ser contrário à lógica que impera em todo o reino animal. Você preferiu morrer na cruz por amor aos seres descendentes do peixe Picaya Gracilens – ou de Adão, na versão bíblica que teria fecundado óvulos de Eva.
A Deusa Desconhecida, ou a Deusa Oculta de Israel, foi até Jesus de Nazaré, curvou-se graciosamente e lhe beijou as duas mãos. Abraçou-o com ternura e beijou-lhe as duas faces.
- Eu te beijo em nome de milhares de mulheres que tu libertaste do jugo cruel das leis masculinas. Eu te beijo nas duas faces em nome de milhões de mulheres que obtiveram, pela primeira vez na história humana, a libertação da escravidão física e pessoal a que estavam submetidas. Eu te saúdo porque, pela primeira vez, as mulheres deixaram de ser meros objetos produtores de soldados para os homens.
Ela afagava o rosto do Mestre. Lágrimas brotaram de seus olhos quando ela arrematou:
- Que nobreza - filho de Maria. Que nobreza mostraste quando - entre os brutos, os bárbaros, os estupradores, os escravagistas - impediste que a suposta adúltera fosse apedrejada pelos varões.
- Devemos tudo às mães. São elas que nos acalentam e consolam. Sem elas o que seria do mundo? Já o Picaya Gracilens possuía sua fêmea – respondeu o sábio de Nazaré. Ou o oposto se poderia dizer: ela possuía o macho para dele receber a semente vital e trabalhar em defesa da prole que se produziria.
Ergueu com altivez sua divina cabeça. Os cabelos negros não permitiam dizer que possuísse os quinze bilhões de anos decorridos desde o Big Bang, ou, ainda, os menos de dez mil anos bíblicos decorridos desde que Jeovah teria tudo criado. Continuou:
- Que nobreza quando ajudaste uma goin adoentada. Que nobreza quando amaste tanto Maria Madalena, aquela que os romanos enxovalharam com a pecha de prostituta e depois pediram desculpas.
A Deusa Oculta, em visível esforço, levantou-se, ajoelhou-se e beijou os pés de Jesus de Nazaré. Depois voltou a seu trono:
- Tuas lições de amor, Jesus de Nazaré, grande mestre do povo judeu, são inigualáveis na história da humanidade. A brutalidade, a violência, a hostilidade, a tortura dos fortes sobre os fracos, tudo tu combateste. Mandaste amar os inimigos! Quando jamais se disse algo tão encantador? Quando o instinto animal foi tão bem enfrentado?
O mundo estava embevecido com a Deusa revelada. O povo judeu era obrigado a olhar com atenção àquela aparição do Juízo Final cristão, acontecimento no qual eles não haviam acreditado. Pelos menos os rabinos não o aceitavam.
Os judeus ebionitas, aqueles que haviam vivido logo após a crucificação de Jesus de Nazaré, que acreditaram nas mensagens dos apóstolos, não cabiam em si de felicidade. Afinal o Messias não voltara para salvá-los do jugo romano, como esses apóstolos prometiam, mas voltara dois mil anos após, no Juízo Final, como o grande herói da família divina judaica.
A Deusa Oculta fez sinal para que os anjos a levassem para o Terceiro Céu, no alto. Ao passar por Jeovah, virou-se e, quase inaudivelmente lhe disse:
- Aprenda com seu suposto filho. Não mates mais. Não apliques os cruéis castigos que, segundo os narradores bíblicos, aplicavas aos inimigos e aos próprios judeus. Não use mais matar com hemorroidas, chagas, tumores, tuberculose, vinho envenenado, espadas de anjos, granizo, chuvas com dilúvios e - horror! - esterco no rosto das tuas vítimas.
Jeovah esboçou um sorriso. Mas nada falou.
Já iam alto quando a Deusa Desconhecida, a mãe dos filhos de Jeovah, ordenou que retornassem:
- A propósito, Jesus de Nazaré: escreveram os evangelistas que tu ameaçavas as pessoas com fornos e fornalhas eternas, caso não cressem no que falavas. Todos sabemos que tu nunca cometerias tais atrocidades. Teus apóstolos e Mateus, Marcos, Lucas e João devem ser severamente admoestados por isso. Ameaçar para obter dízimos: que torpeza. Ameaçar é crime punido com prisão. Queimar seres humanos é crime gravíssimo e impensável para alguém como tu.
Ela partiu, deixando o mundo encantado. Uma mulher deusa. Que maravilhosa surpresa. Quanta alegria. Quanto amor para todos. Jesus de Nazaré:
- Vemos que os homens narradores do Velho Testamento nunca se dignaram em mencionar essa grande deusa. Nem mesmo Esther, no Velho Testamento, a ela se refere, em seu livro. Era um mundo de homens. Que lástima para todos os judeus e todas as mulheres. Após essa intervenção, declaro encerrados os trabalhos desta 1ª Comissão do Juízo Final, com a minha mais calorosa homenagem àquela que gerou os filhos de Jeovah.
Jesus de Nazaré viu a Deusa Desconhecida desaparecer em uma nuvem cumulus nimbus. Nela usualmente existem fortes ventos ascendentes e descendentes que se elevam até trinta mil pés de altura. Há fortes trovoadas, raios e formação de granizo.
Jesus de Nazaré parecia falar consigo mesmo:
- Mas o Terceiro Céu talvez fosse assim, diferente e emocionante para seus habitantes. Paulo de Tarso mencionou e criou esse Terceiro Céu, em sua primeira carta aos Coríntios 12,2-4: “Conheço um homem em Cristo que há catorze anos foi arrebatado até o Terceiro Céu, ao Paraíso, e lá ouviu palavras inefáveis que não é permitido a um homem repetir”. Esse homem em Cristo de Paulo de Tarso tinha um privilégio inexplicável: poder conviver com a Deusa Oculta de Israel. E sem ter que aguardar, por dois milênios, o Juízo Final. E esse amigo de Paulo de Tarso sequer teve que ser morto e ressuscitado: subiu de forma muito mais espetacular do que ocorreu com Jesus de Nazaré – este obrigado a passar primeiramente pelo suplício na cruz.
- Paulo de Tarso! - interpelou Jesus de Nazaré: agora chegaste próximo ao Terceiro Céu! E voltaste a ver: um novo trono, de ouro e pedras preciosas, ocupado por uma deusa, certamente. Aquela que está descrita de forma indireta, oblíqua, pelos teus colegas narradores bíblicos. Uma deusa, uma figura feminina, tão pouco valorizada pelos varões dos tempos bíblicos, que desmereceu qualquer menção direta tanto no Velho como no Novo Testamento.
- E vale lembrar o que escreveu I-Pedro 3,22: “Esse Jesus Cristo, tendo subido ao céu, está assentado à direita de Jeovah, depois de ter recebido a submissão dos anjos, dos principados e das potestades”.
- Os tronos pesam, caem, envelhecem e têm que ser sustentados para não despencarem como aconteceu com os Anjos Caídos – continuou. Os filhos de Jeovah procriam na Terra. Fornecem netos a Jeovah, obviamente fecundando óvulos de mulheres terráqueas com espermatozoides. Todos são de carne e ossos. Espíritos – repito - não têm o que assentar, nem espermatozoides para fecundar as mulheres da Terra. De onde obtêm alimentos, vinho, vestimentas e os tronos - os narradores bíblicos não informam.
Paulo de Tarso silenciava. Mas não parava de olhar para o alto.
- E escreveste que lá, nesse Terceiro Céu, existe um paraíso. Não queres que eu ordene aos anjos para que te levem até lá? Poderás constatar de que se trata. Haverá lá grandes e belos jardins, pomares, florestas, tâmaras, vinhedos, vinhos? Esse Paraíso que tu claramente descreveste em tua primeira carta aos habitantes de Corinto - quando ainda eras um ser humano vivo, sem ter morrido, sem haver ressuscitado - como o podias descrever, sem nunca ter sido arrebatado para as nuvens ainda?
Paulo de Tarso não respondeu. Ergueu-se e nove anjos, um de cada ordem, o agarraram e alçaram voo atrás da Deusa Desconhecida. Todos os helicópteros imediatamente os seguiram. Três quilômetros de subidas e desapareceram todos em meio a relâmpagos, trovoadas, granizos e fortes ventos ascendentes e descendentes.
Enquanto isso os integrantes da Comissão desceram todos. Felizes estavam e felizes estavam também os dizimistas do planeta.
Sara Moshê publicou: “Extasiadas estavam as mulheres. A liberdade delas tinha agora uma nova aliada: a Deusa Suprema e o Terceiro Céu bíblico. Os dízimos tinham novo destinatário: a mãe da divina casa celestial. Atônitas, perplexas, boquiabertas. Como não perceberam as fiéis que a Deusa era absolutamente necessária para a sobrevivência bíblica? Não viram que, sem ela, a falta de lógica se instala nos relatos sacerdotais? Sendo mães, como não lhes ocorreu que os filhos bíblicos obrigatoriamente são o resultado de fecuncações de óvulos?
Capítulo 88
Em Jerusalém foi instalado um serviço de Disque Juízo Final, logo imitado em todo o planeta. A correspondente do New York Times - Sara Moshê, no celular, ligou para o Mestre:
- Todos desejam saber detalhes mais precisos a respeito da recém-revelada deusa da casa divina judaico-cristã.
Jesus de Nazaré sorriu para a repórter:
- Seja abençoada, irmã, neste sábado sagrado para nosso povo. Mizmorshirleiom hashabat. Adonai malach, gueút lavesh. Aqui, neste Juízo Final, ninguém conspurcará a verdade. Essa palavra é sinônimo de dor, de sofrimento, de alegria e de coragem.
Traduziram os repórteres: “Bom é agradecer a Deus, Jeovah. Rei é o Eterno. Veste-se de majestade”.
Após essa tocante homenagem judaica a seu deus, prosseguiu Yeshua, da cidade de Nazaré:
- Respondo à pergunta que se fazem judeus e não judeus: as Escrituras Sagradas contêm relatos claros da existência de uma deusa, de uma esposa de Jeovah?
Estendeu o Mestre os dois braços para o alto, em direção ao Terceiro Céu. Closes das câmaras de televisão exibiam os furos cicatrizados dos pregos que haviam fixado aquele corpo à cruz, no Gólgota:
- Verdade, verdade, verdade! Que palavra! Vamos buscá-la com tanto fervor como o que me deu coragem para enfrentar Pôncio Pilatos e os pregos que perfuraram minhas mãos e pés.
A repórter foi convidada a assentar-se em um dos tronos. Por um caminho de serafins ela veio com microfone e uma câmara portátil de televisão.
- Minha querida irmã. Durante milhares de anos as mulheres foram tratadas com desprezo. Vejo que elas não foram até hoje admitidas como frades, bispos, cardeais ou papas. Os homens são brutais. No tempo em que eu vivia na Terra, se apedrejavam as próprias filhas em caso de elas não haverem gritado, quando estupradas. O apedrejamento era realizado dentro da lei, em frente à casa da menina, muitas vezes com a participação do estuprador. Para se divorciar, bastava que o marido dissesse: eu te divorcio. Essa heroína passava a vagar pelas ruas, como mendiga. Ninguém mais lhe dava qualquer valor ou atenção. Obviamente que a mulher não detinha o poder de divorciar seu marido, de enviá-lo para a miséria das ruas.
A repórter Sara Moshê, considerada a mais brilhante jornalista dos Estados Unidos:
- Sim, Mestre. E tu foste o nosso primeiro defensor. Tu és o orgulho da espécie humana.
Jesus de Nazaré:
- Nas sinagogas cantamos: “Baruch ata Adonai Elôhenu melech haolam, sheassáni betsalmo”, lembras? Ou seja: “Bendito sejas, ó Eterno, nosso Deus, Rei do Universo, que me fizeste à Tua semelhança”.
Jesus de Nazaré abriu a Bíblia:
- Vamos reler Gênesis 1,26-27, que teria sido escrito por nosso grande líder israelense Moshê, cujo nome tu carregas, minha jovem repórter: “Jeovah, a seguir, disse: façamos o homem à nossa imagem, à nossa semelhança; Jeovah criou o homem à sua imagem; ele os criou homem e mulher”.
Jesus de Nazaré segurou a mão esquerda da jovem:
- Alguma dúvida? Adão teve filhos com Eva. Adão e Eva tiveram netos e bisnetos quase todos mortos por afogamento por Jeovah, no dilúvio bíblico. Mas, temos que enfrentar agora a palavra mais valiosa deste Juízo Final: a verdade. Estás preparada para isso, querida irmã Sara Moshê?
- Certamente, Mestre – respondeu a jovem.
- Pois bem. Jeovah é um ser semelhante a Adão, com todos os órgãos possuídos pelo recém-criado terráqueo, inclusive os destinados a viabilizar a reprodução. Obviamente que seus órgãos genitais servem para os mesmos fins: fecundar um ou mais óvulos férteis de uma mulher - estamos de acordo?
- Sim – respondeu Sara. Graças a esse sistema ocorreu a evolução de todas as espécies de animais. Sei que esse é um tema a ser enfrentado futuramente, se me permite, querido Mestre.
Jesus de Nazaré:
- Somos todos iguais, portanto. Jeovah, Adão e os filhos homens. Essa é a verdade. A mais pura das verdades, que surge da simples leitura dos escritos bíblicos - concordas?
Sem aguardar a resposta, prosseguiu:
- Está claro que nem Adão nem Jeovah podem gerar filhos em seus corpos. O máximo que podem fazer é fornecer os espermatozoides para a fecundação. E agora vem a verdade mais ocultada pelos narradores bíblicos: Jeovah possui vários filhos, mas não se revela quem e onde está a mãe desses filhos.
Os olhos de Sara brilhavam. Sempre soubera que a lógica iria imperar. Já sabia que esse encantador israelita iria novamente maravilhar o mundo das mulheres, terrenas ou celestiais!
- Prossiga Mestre - falou apertando ainda mais aquelas mãos maravilhosas com seus furos divinos.
- Releio o texto bíblico mais omitido pelos sacerdotes judaicos e pelos goins. Em Gênesis 6,1-4, está claramente descrito que Jeovah possuía filhos, nas nuvens: “Quando os homens começaram a multiplicar-se sobre a Terra, e deles nasceram filhas, os filhos de Deus, vendo que as filhas dos homens eram belas, escolheram entre elas as que bem quiseram para mulheres. Os filhos de Jeovah se uniram às filhas dos homens e delas tiveram filhos”.
Jesus de Nazaré ergueu-se do trono, foi até Jeovah, e continuou:
- Esses filhos - Jeovah, não os gestaste evidentemente - pois não possuis útero e não és hermafrodita. És, portanto, avô dos filhos de teus filhos que desceram para a Terra e lá escolheram mulheres belas com quem se uniram - como consta do livro Gênesis, da Torá, do Velho Testamento e aqui tantas e tantas vezes já se disse.
Jesus de Nazaré colocou sua mão direita no ombro de Jeovah:
- Por que nunca apresentaste aos israelitas a mulher que carregou em seu ventre esses teus filhos celestiais? Por que a ocultaste?
Jeovah olhava para Moisés. Mas ninguém respondeu à pergunta. Continuou Jesus de Nazaré, agora de volta para a repórter:
- Vemos que a mulher sempre foi discriminada. Até mesmo pelo deus judeu. Mas, querem mais evidências os humanos que ligaram para o Disque Juízo Final. Pois vou dá-las e são tantas e tão claras que causa espanto o fato de não terem sido reveladas em dois milênios.
O sábado chegava ao seu fim. Prosseguiu o Nazareno:
- A conclusão é clara como a luz do Sol. A Bíblia Sagrada informa que existe efetivamente uma mãe dos filhos de Jeovah. Sem essa mãe, não poderia haver filhos de Jeovah. Logo, conclui-se: está descrita, de forma indireta e oblíqua, a esposa de Jeovah e comprovada, uma vez mais, que os homens discriminavam as mulheres. Eles não somente as apedrejavam e as declaravam divorciadas com o pronunciar de uma simples frase, como esconderam a existência da deusa que deu à luz os filhos da casa divina celestial. E que foi a grande mãe dos judeus! Dela surgiram netos, bisnetos e demais sucessores! Certamente Noé possuía a carga genética da Deusa Oculta!
Sara Moshê estava encantada. Seus leitores e os canais de televisão por ela comandados, não cansavam de enviar emails para seu notebook. E disparou:
- Querido Mestre! Perdoe, mas as analistas bíblicas do mundo formulam outra pergunta: “Essas breves passagens contidas no Gênesis, não deveriam ser desprezadas, já que podem ser relatos míticos não bem pensados por Moisés?”. Nesse caso não teríamos filhos divinos nem esposa divina, como acabamos de constatar.
Jesus de Nazaré abriu um largo sorriso. Parecia já esperar por aquela nova pergunta. Apanhou a Bíblia Sagrada:
- Vou ler o que consta do Livro de Jó. Ninguém sabe quem é seu autor. Julga-se que tenha sido escrito nos tempos do exílio dos judeus na Babilônia. Mas, está na Bíblia, e, portanto, não se pode alegar sua falsidade. Diz o seu autor em 1,6: “Um dia em que os filhos de Jeovah se apresentaram diante de Jeovah, Satanás veio também entre eles. Jeovah disse-lhe: donde vens tu?”.
Sara Moshê interrompeu:
- Já conheço essa passagem - Mestre Jesus de Nazaré. Um pastor em um canal de minha rede de televisões afirmou que, nesse texto, “filhos de Jeovah” significariam, na realidade, anjos ou mitos. Os filhos de Jeovah não passariam de anjos.
Jesus de Nazaré sorriu:
- Os sacerdotes, sejam rabinos, sejam gentios, sempre têm a obrigação de criar explicações que agradem aos seus rebanhos. A fé e o dízimo são coisas sagradas, não são?
Sara parecia insegura. O Mestre:
- É muito grave o que disseram esses pastores na televisão. Eles acusam a Bíblia de ser falsa. Basta que se releia o livro contido no Pentateuco, escrito por Moisés, em Gênesis 6,4, e que o grande sacerdote judeu Maimônides declarou não se poder nele mudar uma palavra sequer: “Os filhos de Deus, Jeovah, se uniram às filhas dos homens e delas tiveram filhos”. Perguntemo-nos: anjos podem ter filhos? Anjos procriam? Anjos são possuidores de órgãos genitais e produzem espermatozoides e óvulos? Anjos machos, ainda que pudessem fecundar as mulheres terráqueas, produziriam seres humanos com asas? Com seis asas, como as que possuem os serafins? Ou quatro asas e quatro faces diferentes – de águia, leão, boi e homem ou mulher? A face humana seria masculina, com barbas? Ou seria feminina? E a parte águia, teria que pôr e chocar ovos para que surgissem descendentes? Seus DNAs seriam compatíveis? Se os anjos são mitos, todo o Livro é mítico, já que repleto de anjos em todos os momentos importantes? O que autoriza o evangelista a fazer essas afirmativas? Ele já viu um anjo? Examinou suas partes púdicas? As quatro faces teriam que se enamorar das quatro faces contidas na cabeça do sexo oposto? Como surgiu – se não se reproduz? Jeovah os criou? Quando? Por que Moisés não informa quem os criou, considerando que fala como se estivesse presente na dita semana da Criação, ocorrida milênios ou bilhões de anos antes dos tempos de vida de Moisés? Os anjos foram criados antes de Adão e Eva? Eles aprenderam a falar o idioma hebraico nas nuvens, antes mesmo de surgir essa língua em Israel? Quem foram seus pacientes professores, nas nuvens? Realmente só falavam hebraico, que surgiu e se formou após a multiplicaçaos dos judeus? Em que idioma se comunicavam efetivamente nas nuvens com seu proprietário Jeovah? Em que língua Jeovah ordenou que um anjo ficasse de guarda do Paraíso para que Adão e Eva não o invadissem? De que se alimentava esse anjo, obviamente possuidor de um corpo apto a enxotar Adão e Eva? De onde conseguiram os tecidos para fabricarem suas longas vestimentas, se na época sequer existiam teares, fios e pessoas habilitadas a tecer? Não existiam todavia velas, óleos ou quaisquer formas de se produzir luz. Como evitariam o retorno de Adão e Eva, à noite, pela parte de trás do Jardim do Éden? Nos dias de temporais, onde se abrigariam esses extraordinários personagens? Para lavar suas roupas molhadas pela chuva ou pelo suor, teriam que se despir, exibindo sua nudez? Ou a nudez era permitida aos anjos, destinando-se a proibição somente para os pecadores Adão e Eva após haverem comido do fruto? Se antes dessa ingestão de maçãs por parte de Adão e Eva eles viviam nus – também os anjos que não eram pecadores também viviam nus? Ou a nudez somente fora permitda por Jeovah em relação a Adão e Eva? Nesse caso, por que a discriminação? Os anjos ficavam envergonhados por exibirem seus órgãos genitais - ou por não possuírem esses órgãos, como os humanos? Quem fabricava as espadas flamejantes que os anjos portavam? De onde obtiveram o aço e demais ingredientes, se a Idade do Ferro levaria ainda milhares de anos para surgir e se viabilizar a produção dos artefatos de guerra? Como fabricariam - anjos ou Jeovah - tais instrumentos se a Idade do Fogo também não tinha ainda ocorrido? Ou haviam já fornalhas nas nuvens para onde os produtos minerais eram levados para usinação? As aves, para poderem alçar vôo, possuem ossos ocos, com o que seu peso fica adequadamente reduziso. Os anjos possuem ossos ocos?
- Durante quantos anos o anjo encarregado de vigiar o Paraíso ficou posicionado no local para impedir o ingresso dos indesejados? Jeovah permitiu que esse jardim do Éden fosse habitado por algum escolhido? Quando o anjo zelador finalmente partiu, o jardim do Éden foi invadido pela horda ansiosa por frutos proibidos? A Árvore de Vida foi então cortada, já que nunca mais se teve notícias dela? Para onde se mudou o anjo zelador? Ele cansou de seu trabalho ou Jeovah decidiu finalmente que o jardim fosse usado pelos seus descendentes – não devemos esquecer que incontáveis filhos de Jeovah desceram e tiveram filhos com as mulheres belas da Terra? Dizem pastores bíblicos que esse Jardim do Éden estava situado entre o rio Eufrates e o Rio Tibres, atualmente no país conhecido por Iraque. O local está atualmente habitado e não há o menor vestígio desse recanto maravilhoso onde Adão e Eva teriam começado suas vidas. Por quê? Foi ele abandonado pelo anjo zelador por falta de manutenção e, mortas as plantas, não mais se prestava ao seu destino original, ou seja, o falado Paraíso?
- Os relatos angelicais são originados de rudes e ignaros camponeses – dignos produtores de alimentos – os Am ha-Arez?
- Por que os anjos usados pelo deus criado para os judeus, Jeovah - também descrito pelos sacerdotes judeus como Jeovah Hosseus, Jeovah-Jiré, Jeovah Shalon, Jeovah Rafa, Jeovah Eloeka, Jeovah Nissi, Jeovah-Raha, Jeovah-Sama, Jeovah-El, Jeovah Tsdekeneu e Adonai,– passaram a servir também a um deus estranho, no caso Jesus de Nazaré, sabendo-se que Jeovah não admitia outros deuses ou candidatos a deuses? Os anjos usados por outros povos eram parentes dos anjos judaicos? E os anjos judeus, exclusivos desse povo, manteriam relações com os demais anjos relatados no Novo Testamento? Os anjos que Jesus de Nazaré mencionou como passíveis de serem por ele convocados, ainda na Terra, quando vivia com grandes dificuldades e perseguições, obedeceriam suas ordens? Afinal Jeovah e seus fiéis sacerdotes judeus não combatiam o candidato a deus? Não o mataram? Como se poderia esperar que os anjos de Jeovah fossem levar socorro ao rabino judeu que o traía, arvorando-se em um Segundo Deus? A odisséia dos dois deuses se desenvolvia de forma espetacular.
- Há mihões de anos surgiram os dinossauros. Alguns, gigantescos também, tinham asas e voavam, sendo predadores terríveis. Seus ossos estão pelos museus do mundo. Como os anjos escaparam do extermínio? Quem criou os dinossauros, se o livro de Gênesis informa, pela pena de Moisés, que Jeovah tudo criara na Semana da Criação? O dilúvio ocorreu após a extinção dos dinossauros, já que não há qualquer notícia bíblica de que tenha ele embarcado centenas de espécies de animais com mais de trinta toneladas em seu barquinho? Ou o mencionado dilúvio ocorreu há centenas de milhões de anos, antes que surgissem os terríveis predadores e o homo sapiens sequer existia? No dilúvio, onde permaneceram os anjos? Batendo suas asinhas sobre a água? O Anjo Caído, conhecido pela alcunha de Diabo, e seus seguidores também expulsos com ele das nuvens, morreram afogados? Ou eles foram se refugiar no calor de um certo Inferno, onde a água não penetrasse? Ou esses anjos, sempre batendo suas asinhas, voltaram para as nuvens, reencontrando seus antigos colegas não rebelados e não caídos e, ainda, seu antigo proprietário e possível criador? Após baixarem as águas, quarenta dias após, esses Anjos Caídos voltaram espontaneamente para o solo terrestre? Ou tiveram que ser expulsos novamente? Caíram então, como da primeira vez?
- Sei que essas perguntas são muito embaraçosas para os dizimadores e sacerdotes em geral. Os dizimados, os dizimistas, no entanto, não dão grande importância a essas revelações. Os humanos evoluíram, contudo. Raciocinam e fazem perguntas que antes não ousavam fazer por medo das fornalhas eternas, herança dos evangelistas e da Inquisição e suas torturas?
- Forçoso é concluir que Moisés esqueceu-se de incluir no relato da Criação as várias ordens de anjos. Perguta-se: por que tais aves humanóides não permaneceram vivendo no solo terrestre, como os demais? Por que eles - como Jeovah - se ocultam nas nuvens, sem alimentos e sem camas para dormir? E sem produção de vestimentas, quer de tecidos, quer de couros?
- O anjo das quatro faces não teria fêmeas? Como surgiu - se não se reproduz? Jeovah os criou? Quando? Por que Moisés não informa quem os criou? Isso ocorreu antes de Adão e Eva? Eles aprenderam a falar hebraico nas nuvens, antes mesmo de surgir esse idioma em Israel? Com quem? Falavam hebraico - surgido somente após a multiplicação dos judeus? Em que idioma falavam nas nuvens com seu proprietário? Eram caçados pelos dinossauros voadores que viveram há sessenta e cinco milhões de anos? Os relatos angelicais são produto de rudes e ignaros Am ha-Arez? Havia anjos da guarda – para uma população que não ultrapassava alguns milhões? Agora que somos quase dez bilhões, quem está fabricando esses anjos da guarda? A ignorância dos descendentes de primatas bloqueia suas inteligências nesses aspectos?
Sara Moshê não parecia ainda convencida:
- Mestre, voltando ao tema: o relato da existência desses filhos é muito acanhado. Pode ter sido produto de interpolações, ou equívocos, tal como os que ocorreram sabida e comprovadamente no Novo Testamento em mais de duas mil passagens modificadas por pessoas e seitas contratadas para efetuar as cópias?
Jesus de Nazaré voltou a folhear a Bíblia:
- Minha cara repórter. Buscamos a verdade. A verdade e a mais absoluta verdade, neste Juízo Final. Pois vamos intensificar nossas buscas. Vamos garimpar essa verdade. Ela acaba surgindo, desde que não leiamos a Bíblia como dizimistas, como pobres seres humanos desesperados com a morte que espreita desde que nascemos do ventre de uma mulher obrigatoriamente fecundada por uma semente masculina humana.
Abriu o Livro:
- Está escrito em João 8,38: “Eu falo o que vi junto de meu Pai”. E em João 8,49: “Respondeu-lhes Jesus: Eu não estou possesso de demônio, mas honro a meu Pai. Vós, porém, me ultrajais!”. Em João 8,54: “Respondeu Jesus: Se me glorifico a mim mesmo, a minha glória não é nada; meu Pai é quem me glorifica, aquele que vós dizeis ser o vosso Deus”. Em João 10,15: “Como meu Pai me conhece e eu conheço o Pai. Dou a minha vida pelas minhas ovelhas”. Em João 10,18: “Ninguém a tira de mim, mas eu a dou de mim mesmo e tenho o poder de a dar, como tenho o poder de a reassumir. Tal é a ordem que recebi de meu Pai”.
Respirou fundo. Ventava forte e uma neblina surgiu.
- Em João 16,10: “Ele o convencerá a respeito da justiça, porque eu me vou para junto do meu Pai e vós já não me vereis”. Em João 20,17: “Disse-lhe Jesus: Não me retenhas e me toques, porque ainda não subi a meu Pai, mas vai a meus irmãos e dize-lhes: subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus”. Em João 17,24: “Pai, quero que, onde eu estou, estejam comigo aqueles que me deste, para que vejam a minha glória que me concedeste, porque me amaste antes da criação do mundo”.
- Em Mateus 26,29: “Digo-vos: doravante não beberei mais desse fruto da vinha até o dia em que o beberei de novo convosco no reino de meu Pai”. Em Mateus 26,53: “Crês tu que não posso invocar meu Pai e ele não me enviaria imediatamente mais de doze legiões de anjos?” e em Lucas 10,22: “Todas as coisas me foram entregues por meu Pai. Ninguém conhece quem é o Filho senão o Pai, nem quem é o Pai senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar”.
Jesus de Nazaré fechou a Bíblia e, a um aceno, trouxeram três cálices de prata com vinho tinto com mel e condimentos vários. Jeovah, Jesus de Nazaré e a jornalista americana brindaram.
- Perdoe Mestre – mas o vinho e o mel são produzidos aqui nas nuvens ou ele é, digamos, importado do solo de Israel?
Jesus de Nazaré riu da americana:
- Vinhedos nas nuvens? Cordeiros e oliveiras aqui cultivados? Favos de mel e abelhas? Deves estar delirando.
Sara:
- Não estou. Está escrito na Bíblia que aqui existe um paraíso. Não se cultivam frutas e se produz mel nesse paraíso?
Jesus de Nazaré, após uma sonora gargalhada:
- Perdoe, mas você deve crer que os coelhos falam - na bela história de Alice no País das Maravilhas. Ou na cobra que seduz. Ou no rosto de leão unido ao de boi e águia. Ou em aves com seis asas.
Sara manteve-se séria. Visivelmente se sentia uma tola, tendo como testemunha a população inteira da Terra.
- Vamos terminar a nossa entrevista, se me permite - querida Sara Moshê. Concluímos que a Bíblia confessa, obliquamente, que existe uma mulher do deus judaico? Concordamos que um Jesus, pelos relatos dos apóstolos, esteve no céu e lá conviveu com Jeovah e a mãe divina, desde antes da criação de tudo? Ou dois Jesuses – um pré Big Bang e outro gerado posteriormente quando já existentes as galáxias, a Via Láctea, o Sistema Solar, a Terra e o Monte Sinai?
Sara:
- Mas, querido Mestre: Jesus de Nazaré não nasceu do ventre de Maria, esposa de José, após uma gestação de nove meses? Como poderia ele estar junto de Jeovah e sua mãe divina, já antes da criação da luz e tudo o mais?
Jesus de Nazaré:
- És muito perspicaz. As duas coisas estão corretas. Já constatamos isso amplamente. As duas coisas estão relatadas na Bíblia Sagrada.
Sara:
- E como ficamos - Mestre?
Jesus de Nazaré:
- É muito simples - minha querida. Como a Bíblia não comete mentiras, somos forçados a admitir que existia um filho de Jeovah, pelo menos, no momento da criação de tudo - seja no Big Bang, há catorze ou quinze bilhões de anos, seja a menos de dez mil anos, quando da criação bíblica relatada por Moisés no Pentateuco, na Torá, no livro de Gênesis.
Após outro gole bem humano de vinho com mel e especiarias, como era o cstume, continuou serenamente o Mestre Jesus de Nazaré:
- Leiamos novamente o que escreveu o evangelista João, em 17,24: “Pai, quero que, onde eu estou, estejam comigo aqueles que me deste, para que vejam a minha glória que me concedeste, porque me amaste antes da criação do mundo”.
O grande Nazareno segurou as delicadas mãos da repórter:
- Não estamos diante de um fato incontestável: existe um filho de Jeovah já antes da Criação. Isso é inegável! “Me amaste antes da criação do mundo” pode deixar alguma dúvida? Poderia o pai, Jeovah, amar a alguém que sequer existisse? Tudo isso já foi amplamente discutido neste julgamento. Não esqueçamos que eu, Jesus de Nazaré, sou descrito como filho que possui duas mães. A primeira, que me gestou quando eu vivia junto ao Pai. A segunda, produto de uma fecundação causada por uma sombra e que teria me tornado filho de Jeovah e de Maria. Também me descrevem como tendo dois pais: Jeovah nas nuvens e José na Terra.
Sara:
- Isso é inegável e surpreendente. Temos que convir: existia, ainda, segundo a Bíblia Sagrada, um deus, uma mulher desse deus e um filho do casal, antes que surgissem a luz, a Terra, as estrelas, os mares, os animais.
Jesus de Nazaré:
- Vamos ler agora Mateus 1,25: “E sem que ele, José, o marido, a tivesse conhecido, ela deu à luz o seu filho, que recebeu o nome de Jesus”. Esse evangelista não informa quem teria provocado a gravidez, ou seja, quem forneceu o indispensável espermatozoide para um óvulo fértil da amada Maria. Sendo ela virgem - como escreveram - obviamente que a fecundação teria que ser realizada in vitro.
Sara Moshê pegou delicadamente a Bíblia da mão do Mestre:
- Lemos o que escreveu o médico grego Lucas, aluno de Paulo de Tarso. Segundo ele, a fecundação ocorreu por que: “O Espírito descerá sobre ti, Maria, e a força do Altíssimo te envolverá com a sua sombra e o que nascer será chamado o Filho de Jeovah”.
Jesus de Nazaré:
- Aí está! Temos relatada a existência até agora de pelo menos dois Jesuses, como tantas vezes observado neste julgamento! Um deles, que já vivia com seu pai e sua mãe celestiais, antes da criação de tudo. Lá no alto, um Jesus amado e bem instruído sobre as coisas que deveria vir fazer em Israel.
- E aqui – interrompeu a repórter - o outro Jesus, da cidade de Nazaré, da Galiléia! O Jesus Celestial tem a paternidade claramente definida sem que se saiba da mãe celestial. Já o Jesus da Terra, o Nazareno, filho de Maria, não tem indicação certa de quem seria seu pai biológico.
- Certamente – respondeu o Mestre. O pai seria uma sombra de um espírito não conhecido no Velho Testamento, criação surgida no Novo Testamento. Mas atente bem - jovem jornalista. Está escrito que “a força do Altíssimo” envolveu a amada Maria. Seriam esses escritos metáforas que significam que Jeovah enviou suas forças, ou seja, suas sementes, indispensáveis para o início da gestação que culminou com o menino na manjedoura de Belém? Jesus teria duas mães, segundo os relatos!
Durante vários minutos fitaram-se entrevistado e entrevistadora. Finalmente Jesus de Nazaré:
- Nasci, eu, Jesus de Nazaré, como ser humano dos mais pobres e desvalidos, num estábulo, junto com vacas e outros animais. E nasceu Jesus Celestial – se é que já era esse o seu nome! – em algum lugar do Cosmos, na mais completa escuridão e no frio absoluto Kelvin de 271 graus negativos, há catorze bilhões de anos. Temos o mesmo pai?
Antes que ela contestasse, disse o Mestre:
- Mas os sacerdotes descrevem ainda outro irmão - minha cara Sara - como já vimos tantas vezes neste tribunal.
- É singelo o relato – continuou Jesus de Nazaré. Está escrito em Lucas 23,45: “Pai, em tuas mãos entrego meu espírito”. Veja - minha cara repórter, um é Jesus Celestial, outro o Jesus de Nazaré, morto na sexta-feira e ressuscitado no domingo e que teria sido arrebatado quarenta dias após, e, ainda, o terceiro Jesus, o que subiu como um espírito na hora da morte de Jesus de Nazaré na cruz!
Sara Moshê:
- Não importa - querido mestre, defensor de todas as mulheres! Os sacerdotes podem escrever e dizer o que bem entendem. Nós, mulheres de todos os tempos, te amamos e te agradecemos por nos trazeres proteção e libertação. Sugiro que façamos uma visita à mulher de Jeovah. Vamos tirá-la do anonimato desolador que lhe foi imposto.
- Serás convocada oportunamente para um encontro no Terceiro Céu com a Deusa Oculta.
Levantou-se, beijou ternamente as duas faces do grande Nazareno e sussurrou-lhe ao ouvido:
- A verdade, a verdade, a verdade!
Jogou para trás a longa cabeleira negra. Sorriu para as câmaras de televisão e, virando-se graciosamente, disse para Jesus da cidade de Nazaré:
- Ahavat olam bet Yisrael amechá ahávta.
No microfone:
- “Amor eterno dedicaste à casa de Israel, Teu povo”.
Já madrugada, partiu do Juízo Final no seu helicóptero rumo a Tel Aviv onde foi comemorar a mais sensacional entrevista jamais realizada até então por qualquer profissional de imprensa. Lá de baixo enviou a mensagem final, agora para Jeovah:
- Baruch ata Adonai, ohêv amo Yisraele. “Bendito sejas, ó Eterno, que amas Teu povo, Israel”.
Sara, em seu comentário para as TVs americanas:
- “Em entrevista com o Historiador, revelou ele que, passados dois mil anos, finalmente a humanidade pôde compreender e perceber o processo dizimatório sacerdotal. Para chegar a isso, bastou que o analista se retirasse do pantanal e dos rios de tinta gastos dentro dos obscuros relatos que analisam os pergaminhos. Olhando para a imensa montanha de textos críticos sobre a Bíblia Sagrada, de fora, se pôde finalmente perceber a quase total inutilidade dessas pesquisas. O que agora se percebe, claramente como a luz do sol ao meio-dia, é o que o Mestre judeu, Jesus da cidade de Nazaré, está descortinando para a humanidade do bit: o jugo ideológico duro e ao mesmo tempo melífluo exercido pelos sacerdotes junto aos seus rebanhos sedentos de esperanças”.
Rapidamente o artigo foi reproduzido pelos jornais The Times e The Guardian, da Grã-Bretanha; pelo Diário de Notícias de Portugal; pelo Corriere della Sera, Il Messaggero e La Stampa, da Itália; pelo The Washignton Post, pelo Sunday, The New York Times e Los Angeles Times, dos Estados Unidos; pelo The Standard, de Hong Kong; El Pais e El Mundo, da Espanha; pelo Neue Presse, Berliner Morgenpost, Die Tages Zeitung e Lübecker Stadtzeitung, da Alemanha; pelo Le Monde, La Croix, La Marseillaise, Le Figaro e Les Echos, da França; pelo Der Blick e La Liberté, da Suiça.
The Times exibia a manchete: The Bibel in Risk. Der Spiegel estampava: Die Bibel Zittert - A Bíblia Treme. Um jornal de Israel dizia: Os Dois Testamentos Pulverizados.