Juízo Final: Odisséia dos Deuses
Capítulo 66
Um comboio composto de mais de trinta helicópteros se aproximou. As portas do líder dessas aeronaves se abriram e um índio apache foi trazido até Jesus de Nazaré pelos serafins presentes. Usava altaneiramente um imenso cocar de penas de águia. Suas roupas resplandeciam. Em seu peito havia três flechas cravadas. Sangrava, mas isso não impediu que falasse:
- Grande mestre branco. Sou o chefe dos ressuscitados que morreram devido a flechadas recebidas. Necessitamos de assistência médica para a retirada desses dolorosos instrumentos de morte.
Jesus de Nazaré:
- Vejo que são centenas de milhões de índios e de brancos que morreram dessa forma cruel. Sugiro que sejam tratados pelo evangelista Lucas, que é médico grego conhecido pelo nome de Lucarno.
Lucas ergueu-se de seu trono:
- Não vejo necessidade de que haja retirada das flechas. Os ressuscitados passaram a ser eternos, seja no céu, junto com Jeovah, seja na Geena, onde fornalhas os queimarão para sempre. Além disso, não disponho de aparelhos médicos, que ficaram no solo de Israel.
Lucas olhou para Paulo de Tarso, seu mestre:
- As flechas podem ficar cravadas em espíritos?
Paulo de Tarso:
- Certamente que não. Esses índios deveriam ter deixado seus corpos em seus cemitérios e vindo até aqui em forma de espíritos, desacompanhados de flechas.
- Mas isso sequer aconteceu comigo, Paulo de Tarso! Meu corpo permaneceu de sexta-feira até o Domingo se decompondo no túmulo talhado na pedra, de propriedade de José, morador da Arimatéia. No Domingo meu corpo se refez e eu saí caminhando! Como queres que esses índios deixem de ressuscitar seus corpos também?
Paulo de Tarso nada respondeu. Jesus de Nazaré ordenou, através do celular, dirigindo-se ao médico chefe do principal hospital de Tel Aviv:
- Ordeno que esses índios ressuscitados sejam imediatamente submetidos a cuidados médicos modernos. A Bíblia não prevê esse tipo de castigo. Que as flechas lhes sejam retiradas. Isso vale também para todos os demais ressuscitados, sejam brancos, negros, vermelhos, amarelos ou mestiços. Após, que venham todos para serem julgados.
- Mais uma coisa, Paulo de Tarso. Eu não teria ressuscitado Lázaro, de acordo com os escritos de teu aluno Lucas e os demais dizimadores? E Lázaro não saiu caminhando, normalmente? Por que haveriam de existir dois tipos de ressurreições? Uma das formas faria com que o morto voltasse a ter seu corpo. E a outra, não usaria desse corpo, mas, faria surgir uma coisa chamada espírito, sem matéria.
- No episódio da crucifixão, não se abriram os túmulos? Os ossos e carnes de muitos justos não recuperaram a sua forma primitiva? Adão e Eva não ouviram os passos de Jeovah, andando no jardim do Éden? Espíritos caminham? Produzem ruídos de pés se deslocando? Jeovah pergunta à Eva, em Gênesis 3: “Por que fizeste isso? Ela respondeu: a serpente enganou-me e eu comi o fruto proibido; Jeovah disse à serpente: serás maldita. Disse à mulher: sofrerás em tua gravidez”.
- Anjos assustam jumentos. Logo, possuem corpos - com asas para voar. Espíritos necessitam de asas para se locomover? Ou o jumento é uma nova prova plantada, para dar credibilidade à existência das aves humanóides? Ou o livro de Gênesis não passa de um grande mito? A Bíblia é falsa? Esse episódio está em Números 22,23: "A jumenta, vendo o anjo do Senhor postado no caminho, com uma espada desembainhada na mão, desviou-se e seguiu pelo campo; o adivinho a fustigava para fazê-a voltar ao caminho".
- Alguém já viu um espírito? – indagou. Quando eu teria saído da casa fechada onde Tomé colocou o dedo em minhas feridas, eu fui visto saindo?
O Papa Emérito assistia o julgamento há vários dias.
- E quando eu teria subido para as nuvens e todos me viram, não estava eu com meu corpo, com minhas vestimentas e minhas sandálias? Acaso eu subi nu? Mas o Papa, diante do buraco narrativo, tenta salvar os Evangelhos dizendo, em seu livro, que a ressurreição produziu um paradoxo e logo após confessa que, em Betânia, todos viram a subida.
- Se viram - não se tratava de um corpo? Obviamente que sim – continuou o Mestre. Não há paradoxo. Há um buraco narrativo sem solução. Além disso, quem ou o que o erguia? Anjos, com suas asas? Por que os evangelistas não explicam? Esqueceram que um leitor mais atento, em algum dia distante, haveria de detectar mais esse buraco narrativo? Elias, o grande herói do Velho Testamento, não teve que subir através de um transportador, ou seja, o carro de fogo? E os demais profetas de Jeovah e seus narradores bíblicos do Velho Testamento – quem os elevou?
O Mestre dirigiu-se ao romano nascido na Germânia:
- Prezado Papa Emérito. No sábado li o seu livro A Infância de Jesus. Constatei que utiliza anjos como seres reais. Na página 40 li: “O anjo entra na casa de Maria (Lucas 1,28), ao passo que a José aparece só em sonho”; “Não temas: isso dissera o anjo da Anunciação também à Maria”. Tais criaturas aladas existem?
- Temos que convir que sem os anjos a Bíblia não se sustenta. Eu fui forçado a me valer deles para poder, em meu livro, dizer que Maria não foi fecundada por um homem comum. Os anjos existem como personagens em todos os povos e em todos os tempos. Não são exclusividade de Deus.
- Um momento, por favor – interrompeu o Mestre. A que deus se refere? Bem sabe que existem muitos deuses em todos os países e em todos os tempos. Parece evidente, contudo, que você se refere ao deus adotado por Moisés e outros judeus - de nome Jeovah, contido no Grujuem, adotado pelos romanos.
- Tenho que confessar que assim é. Mas nós romanos decidimos tratá-lo simplesmente por Deus. E sei que bilhões de seres humanos possuem deuses e deusas que geralmente são identificados por seus nomes.
- Continue a sua lição sobre anjos - por favor. Gostaria que explicasse: seus sacerdotes realmente acreditam na existência dessas criaturas que possuem quatro faces – leão, águia, boi e homem, conhecidos por querubins? Ou de duas faces – uma de leão e outra de humano? E que falam um idioma – hebraico - antes mesmo de terem sido criados Adão e Eva? Crê que tais criaturas realmente conviveram com os narradores bíblicos?
- Sim. Não me resta alternativa. Negar sua existência seria decretar o fim da dizimação. Seria o fim da ferramenta do pastor – a Bíblia.
- Muito bem – continuou o Nazareno. Vamos examinar como os rabinos se valem das aves humanóides. São aves, não são? Possuem asas? Para voar, certamente. Para poderem se deslocar e permanecer no ar com seus corpos. Os rabinos propalam aos seus adeptos que haveria dez ordens de anjos e em torno de seiscentos anjos com nomes próprios. Os demais povos antigos também os adotavam e, ainda, criavam várias outras espécies. Percebe que isso é bastante grave? Sei que sim. Mas devemos entender que se trata de prática dizimatória e como tal usada há milênios. Os rabinos afirmam que existem mais de seiscentos anjos judeus, devidamente identificados por seus nomes.
- O que dizes no livro – prosseguiu o Mestre - é que outro personagem, não um anjo, mas um espírito teria dado causa ao início da gravidez de minha amada mãe Maria. Reconhecem todos que houve a gravidez. Houve um instante em que esta teve início e depois de nove meses, um parto. E escreves, na página 52: “Há dois pontos nos quais o agir de Deus intervém diretamente no mundo material: o seu nascimento da Virgem e a ressurreição do sepulcro, donde Jesus saiu e não sofreu corrupção. Esses dois pontos são um escândalo para o espírito moderno”.
Anoitecia em Jerusalém e já se viam luzes nas cidades próximas. O Mestre:
- A ressurreição, como a de Jesus de Nazaré, se revelou fato corriqueiro nas narrativas bíblicas do Novo Testamento. Pessoas desconhecidas saem de túmulos, no Domingo da Ressurreição. Profetas já estão novamente vivos e doze apóstolos já estão no céu quando o Tribunal do Juízo Final desce e se instala. O crucificado ao lado de Jesus de Nazaré e que subiu seu espírito na sexta-feira convive com os demais habitantes das nuvens, o frio, as chuvas e os temporais. Dizes - prezado Papa - que esses dois pontos são um escândalo para o espírito moderno. Pois são e não são, se me permites. Obviamente que também aceitar que uma gravidez humana tenha início sem um espermatozoide não é somente escandaloso. É um verdadeiro acinte à inteligência atual. Para os ignaros do ano trinta desta Era, isso era uma feitiçaria aceitável. Afirmar o que afirmas agora, Papa - perdoe por ter que dizê-lo - somente mostra o desespero do dizimador ante os dizimistas que abandonam as igrejas romanas.
O Papa não parecia nada preocupado com aquelas admoestações do seu maior ícone religioso. Além de fadiga, denotava-se certo enfado.
- Espírito Santo, Deus, Anjo: ninguém possui carga genética apta a fecundar um óvulo humano. De nada adianta afirmar que se trataria de milagre ou vontade de um Jeovah que teria poderes não definidos racionalmente. O suposto milagre – ou feitiçaria - não tem onde buscar os trilhões de elementos existentes obrigatoriamente no espermatozoide. O Espírito Santo possui espermatozoides? Certamente que não possui matéria alguma. E, ainda que se aceitasse que esse espírito possua espermatozoides, cabe uma pergunta capital: de quem ele os herdou? O Espírito Santo é filho de outro Espírito? Nesse caso Jesus de Nazaré seria filho de Maria e de um ser estranho, não sendo filho, assim, nem de Jeovah, nem de José. Seria neto de um pai do Espírito Santo. E de uma avó Espírito Santo.
O Papa não parecia à vontade. Disse a um serafim:
- Os fiéis sempre crêm.