Juízo Final: Odisséia dos Deuses

Horst Schadeck · Capítulo 89 de 96

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Juízo Final: Odisséia dos Deuses

Capítulo 89

 

No Terceiro Céu já se encontravam reunidos os filhos de Jeovah descritos em Gênesis 6,1-4 e Jó 1,6 e outros textos. Também já haviam chegado Jesus Celestial, Jesus de Nazaré, a jornalista americana Sara Moshê, Maria, mãe de Jesus de Nazaré, seu marido José, o carpinteiro e Moisés. Não foram convidados os apóstolos nem os quatro evangelistas.

Os tronos eram mais leves e menos suntuosos. Foram postados sobre um tablado feito de carvalho trazido do Líbano. Cento e sessenta anjos conhecidos por Príncipes sustentavam essa pesada estrutura que media quatro polegadas hebraicas, ou seja, oito centímetros, ou uma mão, ou, ainda, sete e meio centímetros de espessura. Cada lado tinha a extensão de oitenta côvados. As aves se postavam nas quatro bordas, segurando-as com as mãos e, com as pernas estendidas para trás, batiam suas asinhas de forma bastante prática.

Não tardou para que chegasse a Deusa Oculta. Desceu do alto carregada por nove anjos, um de cada ordem. Cerca de dois milhões e meio de anjos anunciaram sua chegada com harmoniosas melodias executadas em trombetas. Informaram que em Damasco se ouvia o conserto. Emails de Roma atestavam ter ouvido o som militar dos trezentos mil pandeiros. Do Egito vinham mensagens informando que o som das cítaras – trezentas mil delas – eram captadas no alto da pirâmide de Keops. Nunca se viu espetáculo mais alucinante. Em Tel Aviv as pessoas passaram a brindar para a Deusa Oculta, desejando saúde e vitória sobre os varões que fossem ainda preconceituosos. Nas tortuosas ruas de Jerusalém onde Jesus de Nazaré cumprira seu doloroso destino há dois mil anos, as trombetas faziam tremer as grossas paredes do templo. No muro das lamentações os judeus ortodoxos jogavam seus negros chapéus para o alto exclamando: Jeovah é grande, é nosso deus, é único e protege seu povo para sempre – אוה, ל ודג האווא' ג ם עפ יאל ולש םישנאה לע ןגמו ידוחיי, ו נלש םיהולאה.

Todos se levantaram, mas ela acenou para que sentassem.

- Sejam bem-vindos. Aqui a temperatura é de vinte graus Celsius negativos. Peço que vistam os casacões de lã originários de Israel que estão no espaldar de cada assento. Assim poderemos trabalhar com mais conforto.

Feitas as saudações costumeiras, o filho celestial do casal divino foi convidado a falar:

- Shemá Yisrael, Adonai Elôhenu, Adonai Echad. Escuta, ó Israel, o Eterno é o nosso Deus, o Eterno é Único. Quero apresentar-lhes minha mãe, esposa do deus judaico. E quero me apresentar: sou filho de Jeovah e dessa encantadora senhora que aqui vos fiz conhecer. Ao meu lado estão meus irmãos. Estes vocês já conhecem, estão relatados no livro escrito por Moisés, Gênesis, em 6,1-4 e no livro de Jó em 1,6.

- Obrigada, meu filho – interrompeu a Deusa Oculta. Todos os terráqueos estão curiosos sobre mim, como observei nos noticiários das televisões. E todos se perguntam: será verdadeira a existência da Deusa Oculta de Israel? Por que jamais foi ela mencionada por Moisés e os demais escritores bíblicos?

Um anjo de pequena estatura serviu chávenas com chá, produzido às margens do lago de Tiberíades. Continuou a Deusa Oculta:

- Primeiro é necessário que se deixe bem aclarado: esse jovem que vos saudou é bíblico - ele já existia antes que Jeovah houvesse criado qualquer coisa. Nem luz havia e já vivíamos na imensidão do espaço vazio de então. E já ele era amado por Jeovah e por mim. O grande notório autor de evangelho, João, escreveu em 17,20-26: “Pai, que o mundo creia e reconheça que me enviaste, porque me amaste antes da criação do mundo”.

Todos olharam para o Mestre Jesus de Nazaré que, imperturbável, interveio:

- Os evangelistas me atribuem essas palavras. E se conclui, sem qualquer dúvida, que é descrita a existência de um filho de Jeovah já antes de sequer ter sido criado o planeta Terra. A Bíblia é infalível. Logo não podemos contrariar o que dizem os evangelistas. Isso equivaleria a reconhecer a falsidade desse livro sagrado, o que parece inaceitável.

A Deusa Oculta:

- Estamos todos de acordo, portanto. Devemos lembrar que o grande defensor das mulheres, esse amado Jesus nascido em Belém, do ventre da amada Maria, nunca se ausentou da crosta terrestre até ser arrebatado para o céu, após sua morte e ressurreição. Nasceu na manjedoura de Belém e morreu no Gólgota.

Jesus de Nazaré:

- Escreveram os evangelistas que teria sido eu, filho de Maria, o que teria habitado o céu antes de ocorrer meu nascimento na manjedoura de Belém. Mas isso é obviamente um enorme equívoco narrativo. Vou usar as palavras da jornalista Sara, aqui hoje nos honrando com sua presença: cometeram os evangelistas um buraco narrativo.

A Deusa Oculta sorriu como somente sorriem as divindades e emendou:

- Meu caro Jesus de Nazaré. Temos que buscar a verdade, não é esse o objetivo desse Juízo Final? Todos já estão convictos que os sacerdotes são os autores e criadores dos textos. Apóstolos e evangelistas queriam que uma divindade descesse. Precisavam dessa divindade para fazer face aos sumo sacerdotes, príncipes, escribas, fariseus e saduceus. E cometeram o buraco narrativo, de que falas.

Jesus de Nazaré:

- Mas isso não nos obriga a rotular de falsos os relatos bíblicos? Poderíamos chegar a tal temeridade?

Novamente sorriu a Deusa Oculta:

- Não! Nós simplesmente temos que aceitar a existência de três ou até quatro Jesuses bíblicos! Que mal há nisso? Se não aceitarmos o que está escrito, com ou sem buracos narrativos, teremos o caos. Nem sequer esta reunião celestial seria logicamente possível.

Jesus de Nazaré levantou-se. O tablado tremia com o forte vento gelado.

- Minha querida Deusa Oculta - disse. Permita-me que por ora assim me dirija a essa divindade. Temos que enfrentar um problema de grandes dimensões.

- Esteja tranquilo, jovem israelense. Sei o que preocupa a muitos: a tua paternidade. Mas antes temos que provar que eu existo!

Todos riram. A gravidade da reunião agora se transformou em uma serena confraternização. Continuou a Deusa Oculta:

- Dizem que não há provas da minha existência. Mas isso não corresponde à verdade. Minha existência é evidenciada por provas conhecidas como provas indiciárias. Todos os advogados, juízes e promotores públicos conhecem isso há séculos. Indícios são conclusões a que se chega quando se parte de um fato comprovado do qual obrigatoriamente resulta outro fato. Ou seja, se Jeovah possui um filho, obrigatoriamente possui uma mulher para que tal filiação se faça possível. Alguma dúvida?

As delicadas mãos da deusa apontaram para Jesus Celestial e seus demais filhos, aqueles que haviam descido e esposado mulheres da Terra, tendo filhos com elas.

- Poderia Jeovah, um deus masculino, semelhante, idêntico a Adão, gestar um filho? Certamente que não. E desse fato certo e provado, se deduz o outro fato, ou seja, a prova indireta, a prova indiciária: Jeovah teve os filhos conhecendo, ou como se diz atualmente, mantendo as relações sexuais usadas por todos os machos com suas fêmeas.

Jesus de Nazaré, olhando para Moisés:

- Por que Moisés nada falou desse jovem, Jesus Celestial, que já existia antes da criação de tudo por Jeovah?

Moisés:

- Mas eu falei! Eu o descrevi claramente no livro de Gênesis, em 6,1 e o mesmo fez o autor do livro de Jó, ambos do Velho Testamento! Não descrevi que esses filhos de Jeovah lhe deram netos? Naturalmente não posso afirmar que Jesus Celestial também desceu.

A Deusa Oculta aplaudiu:

- Muito bem, senhor Moisés! Vejo que simplesmente não mencionaste a existência dessa mãe dos filhos de Jeovah porque era de nenhuma importância fazer qualquer comentário tendo em foco as mulheres. Isso é típico do machismo imperante entre todos os varões, mais ainda naqueles tempos de seres humanos ignaros. Aliás – devo repetir - nas reuniões de homens nas sinagogas, as mulheres somente eram admitidas a observar reuniões dos homens, do lado de fora, em escadas, através de pequenas janelas que se abriam rente ao teto.

Ela sorriu novamente. Era uma mulher simpática. Prosseguiu:

- Essas janelas podem ser observadas na sinagoga da praça judaica em Veneza. Ela foi edificada no século XVI em um prédio, por autorização especial dos religiosos romanos com suas mais de cinquenta imponentes e faustosas igrejas. A permissão para que essa sinagoga fosse instalada se prendia ao fato de que os comerciantes venezianos tinham a necessidade de possuir contatos com os comerciantes judeus de todo o mundo.

Moisés não ousou responder. A deusa resplandecia. Ninguém poderia dizer que ela contava com milhares, milhões ou bilhões de anos de idade. Foi até Maria, sentada ao lado de seu filho, Jesus de Nazaré:

- Vamos enfrentar o tema mais tormentoso de nossa reunião? Sei que tu, Maria, terias gerado teu amado filho estando ainda virgem. Vamos ler a Bíblia Sagrada. Consta em Lucas 1,26-35: “O anjo Gabriel disse a Maria: Conceberás e darás à luz um filho e lhe porás o nome de Jesus. Ele será grande e chamar-se-á Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai Davi, e reinará eternamente na casa de Jacó, e o seu reino não terá fim. Maria perguntou ao anjo: Como se dará isso, pois não conheço homem? Respondeu-lhe o anjo: O Espírito Santo descerá sobre ti, e a força do Altíssimo te envolverá com a sua sombra. Por isso o ente santo que nascer de ti será chamado de Filho de Deus”.

Fechou a Bíblia justamente quando um querubim pousou ao lado. A envergadura das asas era de vinte côvados, ou seja, de dez a doze metros. Sustentava-se sobre seus pés, exatamente como relata o livro de II-Crônicas 3,13. Estava praticamente congelada aquela bela ave humanóide. O frio de mais de vinte graus Celsius negativos poderia deixar sem ação os serafins que sustentavam o pesado tablado de madeira de lei.

- Constatamos que Lucas e seus tradutores são sacerdotes que deixam claro que tanto Jeovah como Jesus de Nazaré são deuses de judeus, da casa de Davi e de Jacó. O anjo não anuncia um salvador do mundo, mas, sim, de Israel. Um ser que ocupará um trono terrestre, o trono de Davi. Portanto seria o Messias, o que expulsaria os dominadores romanos do território de Israel.

Jesus de Nazaré:

- Certamente, grande Deusa Oculta de Israel. Mas Lucas, aluno de Paulo de Tarso, introduz um novo personagem na história do Novo Testamento: o Espírito Santo, inexistente em toda a história judaica do Velho Testamento.

- Exatamente, Mestre! – respondeu a Deusa Oculta. E escreveu esse grego Lucas que esse novo personagem, Espírito Santo, seria o responsável pela gravidez de nossa querida Maria.

Olharam todos para Maria, penalizados.

- Escreveram que meu querido esposo Jeovah seria o pai de Jesus de Nazaré. Obviamente que isso é impossível. Não podemos esquecer que a nossa família, Jeovah, nosso filho Jesus Celestial e eu, não possuímos a carga genética dos seres humanos. Nós já existíamos antes mesmo da criação da luz e todas as demais coisas. E a carga genética de Maria se construiu pela evolução das espécies, que teve início há somente seiscentos milhões de anos.

Sara Moshê interferiu:

- Perdoem se interrompo. Também esse ser que o evangelista ou os copistas rotulam de Espírito Santo não poderia fornecer o espermatozoide necessário para que houvesse o início da gestação. Nesse caso, não teria lógica a afirmativa de que Jeovah seria o pai de Jesus de Nazaré.

Os filhos de Jeovah, aqueles que desceram para ter filhos com as mulheres belas da Terra escutavam impassíveis. O mais idoso:

- Nós somos filhos legítimos e indiscutíveis de Jeovah e da Deusa aqui chamada Oculta. Se não podemos ter a carga genética capaz de fecundar uma mulher humana e terráquea, como se explica que Moisés nos descreve tendo filhos com uma mulher humana habitante da Terra?

Moisés, imperturbável:

- Quem escreve, sendo sacerdote como eu - pode redigir e narrar tudo que lhe agrade.

A Deusa Oculta:

- Exatamente! Esse é o ponto. Lucas escreveu. Mateus, Marcos e João, escreveram. Os copistas, tradutores e interpoladores dos Evangelhos escreveram. Descreveram a esse jovem judeu, Jesus de Nazaré, como um ser irascível, vingativo e cruel, capaz de ordenar um castigo eterno em fogos que não se extinguem. Tudo para criar ameaças, medos, terror. E sabemos que Jesus de Nazaré é um defensor do perdão, da fraternidade, da igualdade entre mulheres e homens, como tantas vezes se repetiu no Juízo Final.

Abriu a Bíblia:

- Não está, pois comprovada a paternidade de Jeovah, meu esposo, com relação a ser Jesus de Nazaré seu filho. Mesmo porque ela é impossível, como já vimos. Nem mesmo milagre pode ser admitido. Se Jeovah não possui carga genética similar a dos humanos, impossível é até mesmo o tal milagre.

A Deusa Oculta sorriu para Maria:

- Não sou unida a um homem adúltero. Atentem para isso, narradores bíblicos, sacerdotes evangelistas. E Maria é uma digna cidadã de Israel, da casa do grande Rei Davi. Nenhuma mancha teve em sua vida. Mas temos que aclarar: por que escreveram, Mateus e seus colegas, que esse jovem Jesus de Nazaré teria dito que era filho de meu esposo Jeovah e que teria por ele sido enviado para salvar Israel?

Um grande silêncio fez com que somente se percebesse o suave bater das asas dos anjos.

Continuou a Deusa Oculta de Israel:

- Pois pergunto: como poderia Jesus de Nazaré ter estado no ventre de nossa amada Maria e, ao mesmo tempo, estar habitando as nuvens? Dir-se-á que foi o Jesus Celestial, o companheiro de Jeovah que já o amava desde antes da Criação, como afirma João - o que teria sido enviado. Pelo menos é essa a história que relatam os sacerdotes dos gentios no grande Livro. Mas, segundo esse raciocínio, o Jesus Celestial teria descido e, após ser compactado e reduzido a um espermatozoide, teria fecundado um óvulo fértil de Maria - não se sabe como. Lembro que naqueles tempos não havia fertilização in vitro.

- Queridos amigos – finalizou: mais uma vez se percebem as incontornáveis contradições cometidas pelos sacerdotes narradores bíblicos do Novo Testamento. Brindemos - amada Maria. Somos mulheres, somos maltratadas, somos esquecidas, somos humilhadas, somos estupradas e apedrejadas. Mas esse jovem judeu, Jesus de Nazaré, começou a nos redimir.

Anjos Príncipes serviram taças de vinho para todos. Depois de brindarem, serafins elevaram a Deusa Oculta e ela desapareceu entre as geladas nuvens Cirrus.Voltaria – disse para Sara Moshê, antes de partir.