Juízo Final: Odisséia dos Deuses
Capítulo 7
O assunto agora era dízimos. Mateus provara que tomar dinheiro e bens das ovelhas de seus rebanhos era não só ético, como estava amplamente previsto, garantido e incentivado tanto no Velho como no Novo Testamento. Jeovah pareceu lançar um olhar de reconhecimento para Mateus e, agora, por sua vez mais calmo, completou com uma grande surpresa:
- Pois saibam que não só esse romano, Paulo de Tarso, foi um implacável dizimador. Também o foi o apóstolo Pedro.
Jeovah silenciou para ver o efeito das suas palavras. Agora já o mundo não poderia estar mais perplexo com o rumo dos julgamentos que os juízes levavam a cabo perigosamente em seus tronos postados nas nuvens, a vinte e um mil pés, sete quilômetros de altitude – caminhos aéreos de grandes aeronaves. Cofiou sua longa barba branca de mais de treze bilhões de anos e, fulminando Tomé com seu olhar severo, disparou:
- Inicialmente quero informar que, melhor examinando nosso Mestre, observo cicatrizes deixadas em sua testa pelos espinhos da coroa que os romanos lhe impuseram no caminho para o Gólgota, há dois mil anos. Confirma-se o que ele teria dito para mim e demais apóstolos, dentro da casa: “Vejam, tenho carne e ossos, não sou espírito”. Na ocasião eu deveria ter visto as feridas cicatrizando na cabeça, confirmando que as ressurreições são feitas com defeitos por quem seja o encarregado desse trabalho. Como Jesus de Nazaré estava morto na madrugada de Domingo, o ressuscitador somente poderia ter sido o próprio Jeovah – o que julgo improvável, pois contrário à possibilidade de tal fenômeno - ou outra pessoa por ele encarregada para o mais importante ato levado a efeito em todos os tempos. Visivelmente não era perito no importante labor.
- Volto ao tema dos dízimos – prosseguiu o apóstolo juiz Tomé. Pedro foi o judeu que recolheu não somente meros dízimos, ou seja, dez por cento dos ganhos mensais do fiel. Não leram em Atos, 5? Lucas escreveu: “Um certo homem chamado Ananias, de comum acordo com sua mulher Safira, vendeu um campo e, combinando com ela, reteve uma parte da quantia da venda. Levando apenas a outra parte, depositou-a aos pés dos apóstolos. Pedro, porém, disse: “Ananias, porque tomou conta Satanás do teu coração, para que mentisses ao Espírito Santo e enganasses acerca do valor do campo? Não foi aos homens que mentiste, mas a Deus”. Ao ouvir essas palavras, Ananias caiu morto. Apoderou-se grande terror de todos os que o ouviram. Uns moços retiraram-no dali, levaram-no para fora e o enterraram”.
Jeovah levantou-se e pediu que lhe servissem algo para beber. Um serafim lhe alcançou um copo com água da chuva que caíra há pouco e continuou:
- Esses sacerdotes israelitas recebiam dinheiro de seus atemorizados dizimistas. E para amedrontar aos demais futuros adeptos ou aos que já constavam em sua relação de dizimados, Lucas, o médico grego e aluno de Paulo de Tarso, escreveu esse texto. Termina dizendo que sobreveio grande pavor a toda a comunidade e a todos que ouviram falar desse acontecimento.
Pedro ouvia tudo em silêncio. Afinal era ele um dos treze apóstolos que ali estavam para julgar as Doze Tribos de Israel, exatamente como estava escrito na Bíblia. E Jeovah prosseguiu:
- Mas o que aconteceu à mulher de Ananias, recém-morto e já enterrado sem mesmo a presença de seus familiares? Pois Pedro, aqui presente, o apóstolo de Jesus de Nazaré, recebeu em seguida a visita da mulher de Ananias como ele relata: “Depois de umas três horas, entrou também sua mulher, nada sabendo do ocorrido”. E o que fez Pedro? Deu a triste notícia para Safira? Consolou-a?
Jeovah com seu olhar sempre severo não esperou a resposta:
- Pois Pedro, esse apóstolo de Jesus de Nazaré, nada disso fez. Foi logo perguntando pelo dinheiro: “Dize-me, mulher, foi por tanto que vendeste o campo? - tendo ela respondido: Sim, por esse preço. Por que combinaste pôr à prova o Espírito do Senhor? Estão ali, à porta, os pés daqueles que sepultaram teu marido”.
Jeovah era o que agora parecia entediado:- Pois Pedro continuou a agir assim, sem qualquer manifestação de condolências: “Hão de
levar-te também a ti”. Imediatamente caiu aos seus pés e expirou. Entrando aqueles moços, acharam-na morta. Levaram-na para fora e a enterraram junto do seu marido”. Ou seja, relatou Lucas em Atos 5,1-11, que Pedro possuía poderes para provocar a morte também da mulher, eis que o casal não lhes trouxe todo o dinheiro obtido com a venda de seu campo.
O apóstolo Tadeu:
- Não estive presente nesse episódio e me declaro revoltado. O tratamento aos mortos foi revoltante. E provocar tais mortes foi um fato ilícito hediondo. Quero ler Atos 4,36: “Em todos eles era grande a graça. Nem havia entre eles nenhum necessitado, porque todos os que possuíam terras ou casas vendiam-nas, e traziam o preço do que tinham vendido e depositavam-no aos pés dos apóstolos. Repartia-se então a cada um deles conforme a sua necessidade”.
Yeshua interrompeu:
- Os fiéis serviam para isso? Privar suas famílias, seus filhos, de suas terras e de suas casas? Os apóstolos davam testemunho da ressurreição e se estabelecia um estado de graça entre os adeptos conquistados, como se lê em Atos 4,32-33?
Prosseguiu Tadeu:
- Sim, está escrito. E em Atos 4,36 consta mais: “Assim José (a quem os apóstolos deram o nome de Barnabé, que quer dizer Filho da Consolação), levita, natural de Chipre, possuía um campo. Vendeu-o e trouxe o valor dele e depositou aos pés dos apóstolos”. Este não foi astuto: entregou todo o dinheiro aos apóstolos, mas permaneceu vivo.
Jesus de Nazaré:
- Foi isso o que ensinei a vocês? Tornar pobres as famílias para enriquecer a vocês, apóstolos? E esse apóstolo permitiu que, sem funeral, sem mesmo avisar a viúva, fosse sepultado em cova rasa esse dizimista! Os discípulos não agradeceram pelo dinheiro que lhes trazia o casal. Permitiram que fossem enterrados o doador Ananias e sua mulher Safira, em um buraco qualquer, do lado da casa, sem as grandes homenagens que lhes seriam devidas por suas doações tão generosas. Nem sequer seus corpos foram levados ao cemitério, em um opróbrio vergonhoso. Ou foram essas dádivas obtidas com o uso daquelas ameaças de fogo na Geena para os que não cressem? Houve ilícito penal de extorsão?
Jesus de Nazaré ordenou que lhe trouxessem um exemplar da Bíblia. Leu o texto escrito por Lucas. Balançou a cabeça e foi até o trono de Pedro.
- Como ousaste tomar dinheiro desse casal? Mandaste que vendessem seus bens e depois depositassem o dinheiro obtido aos teus pés? E logo provocaste a morte do casal porque não te entregaram todo o dinheiro? E, mesmo sendo eles teus adeptos, não lhes deste um enterro digno? Foi isto que ensinei a vocês? Nem a um cemitério foram levados os dois dizimados! Nem tumba, nem túmulo lhes foram dados!
Jesus de Nazaré abriu a Bíblia:
- Leio em Carta aos II-Coríntios, 8 e 9, escrita por Paulo de Tarso:
“... contribuíram espontaneamente e ultrapassaram nossas expectativas e Tito leve a termo entre vós esta obra de caridade, como havia começado; em presença das igrejas, demonstrai-lhes vossa caridade; dê cada um conforme o impulso do seu coração”.
Folheou a Bíblia e prosseguiu Jesus de Nazaré:
- Lemos em Filipenses 4, de autoria de Paulo de Tarso: “Não é o donativo o que eu procuro, e sim os lucros que vão aumentando a vosso crédito. Recebi tudo, e em abundância. Estou bem provido, depois que recebi de Epafrodito a vossa oferta foi um suave perfume, um sacrifício que Deus aceita com agrado".
Jesus de Nazaré:
- É verdade que Paulo de Tarso recebia dos adeptos gentios dinheiro em tal profusão, como acabei de ler? Eram pessoas ignaras, certamente. O dinheiro era para ele um suave perfume!
Pedro:
- Todos os pastores recebiam. E recebiam as primícias! Isso nunca foi proibido por você ou por quem quer que seja. Os dizimadores eram judeus, Sumo Sacerdotes, rabinos, apóstolos e quaisquer pessoas que se transformassem em pastores. Essa é uma profissão que não exige diplomas universitários nem licenças governamentais.
Jesus de Nazaré:
- E vocês confessam que recebiam o dinheiro e que Deus, Jeovah, o Senhor dos Exércitos, é que desceria das nuvens para o apanhar? Vocês certamente não enviaram esse dinheiro para Jeovah, através de anjos? Confessam que lucros em abundância se registravam? Era esse dinheiro um suave perfume. Estou aturdido e lembro as palavras dos invasores romanos no solo de minha amada pátria, Israel: horrosco tremens. Horrorizado tremo.
O Mestre Yeshua voltou a dirigir seu olhar para o alto. Mas nuvens cumulus haviam se formado e ele não pôde ver o que havia nos cirrus.
A Máquina alertava: ataques terroristas ao Tribunal do Juízo Final eram iminentes. Os anjos tiveram ordens de examinar os humanos que conseguissem capturar para verificar se não traziam bombas ocultas em suas vestes.
Chovia sem parar a vários dias. Os anjos se revezavam de hora em hora. Os tronos molhados mostravam quão difícil era a vida daqueles seres suspensos no ar. Mas descer ao solo seria catastrófico.
A Máquina informou:
“Julgando um humano por segundo, seriam necessários mais de um milhão de anos, havendo uma jornada de trabalho de oito horas diárias em vinte e cinco dias mensais”.
Jesus de Nazaré passou a fazer cálculos: sessenta sentenças por minuto. Três mil e seiscentas por hora. Vinte e oito mil e oitocentos réus a terem suas vidas examinadas por jornada do Juízo Final de oito horas. Não trabalham os judeus nos sábados. Lucas, o evangelista grego e os cristãos gentios não podem comparecer nos domingos. Além disso, muitos dos réus devem ter suas vidas examinadas por vídeo tape bíblico, com o que para cada caso desses seriam necessários dezenas de anos de pesquisas para que se constatassem pecados, injustiças, riqueza do réu, ausência de arrependimentos, ausência de batismo, ausência de crença, ausência de penitência, ausência de ataques ao bom nome do Espírito Santo, ausência de palavras vãs e existência de cônjuges crentes para os descrentes, sendo que rezar, muito ou pouco, não conduz à absolvição. Não há previsão bíblica para isso. Bilhões de videotapes de vidas inteiras teriam que ter sido realizados. Absurdo.
Tudo isso passava pela cabeça do Mestre, que continuou:
- Quero alertar novamente: não há nenhuma vantagem prevista biblicamente para os que rezam. Os dizimistas são convidados pelos sacerdotes a rezarem. Os pastores criam regras e logo aparecem ovelhas. O que é totalmente inútil para quem permanece balbuciando palavras que não são ouvidas por ninguém integrante do Grujuem e em milhares de idiomas que já morreram há séculos ou milênios. São as rezas mais uma forma de dominação. Mantêm as ovelhas no rebanho. Ou alguém imagina que Jeovah ou outro ser que esteja nas nuvens sobre o Monte Sinai ou Jerusalém, possa ouvir algo dito – uma reza - na Terra do Fogo, o Fim do Mundo, como disse o novo Papa? Bilhões de rezas ao mesmo tempo, em mil idiomas, em todo o planeta, poderiam ser captadas por um Jeovah que precisa dormir à noite, como todos os humanos? E as rezas de mineiros, a vários quilômetros de profundidade? E os tripulantes de submarinos? E os que rezam no meio do tráfego em metrôs? Ou das mais remotas ilhas nos oceanos? Milhões de vozes ao mesmo tempo? Que interesse poderia ter qualquer um em perder seu valioso tempo com os bilhões de desconhecidos balbuciando coisas?
- Quem reza obtém uma bengala emocional – prosseguiu o Mestre. E isso é de grande utilidade para a dominação levada a efeito pelos dizimadores. Mas rezar não garante a absolvição neste Juízo Final. Nem a Bíblia – repito - garante isso. Rezar é um meio de escravizar. Tal como a estranha invenção de confessar pecados, pode trazer alívios a consciências pesadas. E levava à obtenção de informações sobre heresia para os chacais da Inquisição. Hóstias e água benta que observo nas ekklesias são evidentemente úteis para os dizimistas, ainda que estes enganem o sacerdote na hora da sacolinha. Os sinos badalam ameaçadoramente. Ameaças como as de Paulo de Tarso.
- No fundo imaginam que essa artimanha de não pagar não será percebida – prosseguiu. Tal como ocorreu com Ananias e Safira. Alguns Pastores estão comparecendo aos lugares de pagamentos de salários de operários para garantir o recebimento do seu dízimo. Muitos ficam com as senhas da conta-corrente do fiel nos Bancos. Sacam dessa conta das suas ovelhas em nome do deus escolhido por sua ekklesia. Povos em guerra rezam para Jeovah e Jesus de Nazaré. Só um deles poderia ser atendido – justamente o que mata com mais eficiência e não oferece a outra face para também ser agredida, como sempre ensinei. Dizem que propaguei a covardia. Será verdade? Não sei. Quem reza é um dizimista dominado por astutos. E feliz porque julga trocar moedas por um Paraíso.