Juízo Final: Odisséia dos Deuses
Capítulo 35
Jesus de Nazaré:
- Paulo, para os teus adeptos falaste que no céu existem somente espíritos. Mas em tua carta aos Hebreus 13, afirmas que Jeovah é a imagem de Jesus de Nazaré e que este se assentou num trono à direita do deus judeu, nas nuvens: “O Filho Jesus, esplendor da glória de Deus e imagem do seu ser”. Hás de convir que, se Jeovah possui uma imagem, ele pode ser visto, exibindo assim, evidentemente, carne e ossos! E se ambos, Jeovah e Jesus de Nazaré estão sentados em tronos, no céu, obviamente possuem carne e ossos para assim se assentarem.
Paulo sorriu:
- Vejo que leste atentamente minhas cartas. Espíritos, é verdade, não podem ser vistos nem possuem carne e ossos para sentarem em qualquer lugar. Parece uma contradição? Certamente. Mas todas as histórias bíblicas são produzidas por seres humanos, embora digam certos sacerdotes que Jeovah seria seu autor inspirador. E todos se equivocam. Temos que interpretar, compreender, buscar explicações. Nossos rebanhos podem nos abandonar, caso não lhes apresentemos essa interpretação.
Jesus de Nazaré:
- A Bíblia Sagrada está mentindo?
Paulo de Tarso:
- Não me compete concluir isso.
Jesus de Nazaré:
- Você escreveu que Jesus de Nazaré é o filho primogênito de Jeovah. De onde obtiveste tal informação?
Paulo de Tarso:
- Não sei. Mas parece que não se pode mais duvidar: Jeovah já possuía muitos filhos, aqueles que desceram para coabitar com as mulheres belas, como narrado em Gênesis 6,1, por Moisés e outros escritores judeus no Velho Testamento. Pretender que eram mitos e confessar que a Bíblia produz inverdades jamais poderá ser aceito por qualquer dizimador. Vejam o que o sacerdote judeu Maimônides disse, após uma vida inteira de estudos sobre a Torá: Não há nada nos livros da Torá que não seja verdadeiro.
Jesus de Nazaré:
- Sim, e João, em 17,24, afirma que Jeovah já possuía um filho, amado, antes mesmo da criação da luz, das estrelas, do Sol, da Terra e de todas as demais coisas.
O Mestre estalou os dedos:
- Aliás, João, como soubeste e quem ou que fontes te informaram que Jeovah já vivia com um filho chamado Jesus, antes do Big Bang, ou da criação bíblica relatada por Moisés?
- Alto lá! - bradou Moisés. Eu nada inventei. Tudo que escrevi tive conhecimento direto de Jeovah, com quem eu dialogava, face a face, como está fartamente relatado no Pentateuco.
João:
- Pois nem para Moisés Jeovah relatou que possuía um filho chamado Jesus. Eu o escrevi, sim, pois é meu direito escrever o que bem me aprouver. Meus rebanhos assim o permitem.
Moisés:
- Todos esqueceram que Jeovah possuía muitos filhos que viviam com ele nos céus? Esqueceram o que está escrito em Gênesis 6,1? Eu e meus colegas judeus o escrevemos, no Velho Testamento. Logo, há que se concluir: havia, sim, esse filho de Jeovah, mencionado por João. E havia vários outros filhos do Altíssimo, antes de surgir a luz e tudo o mais que o deus de Israel criou.
Paulo de Tarso:
- Mas os evangelistas disseram muitas vezes que esse mesmo filho foi enviado por Jeovah para salvar os judeus, seu povo amado.
Jesus de Nazaré:
- Estamos falando de dois Jesuses, evidentemente. Eu, por exemplo, fui gerado somente quinze bilhões de anos após o Big- Bang, ou seja, da criação de tudo, sendo minha mãe a amada Maria. Nasci de uma gestação normal de nove meses. Não posso ser a mesma pessoa do Jesus Pré-Criação, evidentemente.
Um grande silêncio se seguiu. Paulo havia mentido. Não se tratava de primogênito de Jeovah, mesmo porque, além de Jesus Celestial, aquele que já existia antes da criação de tudo, Jeovah possuía muitos outros filhos, como narrado por Moisés. E a inverdade era revelada pela própria Bíblia.
Jesus de Nazaré:
- Paulo - lamento informar, mas escreveste inverdades. O próprio Jesus de Nazaré subiu levando carne e ossos. Até os romanos confirmam isso. Foi para isso que ressuscitou seu corpo, com marcas de pregos nas mãos e corte no seu lado. Caso contrário, inútil seria essa ressurreição. Ressuscitar para quê? Para morrer novamente, como aconteceu com Lázaro? O paradoxo não se sustenta, infelizmente para o livro escrito pelo Papa.
Paulo de Tarso:
- Visto assim, tenho que concordar. Não posso duvidar dos evangelistas: Jesus de Nazaré subiu com seu corpo humano e assim pode sentar-se, seja num trono, seja onde houver uma cadeira.
Jesus de Nazaré:
- Está por você escrito que, após perseguires os judeus ebionitas, ou seja, aqueles que seguiam a Jesus de Nazaré e acreditavam que o Reino de Jeovah logo viria - tu te transformaste em dizimador. Nunca viste Jesus de Nazaré. Escreveste que Jeovah é o pai dos espíritos, na tua Carta aos Hebreus, 12,9.
- Constatamos tantas vezes – continuou - neste Juízo Final, que Jeovah não é um espírito nem pode ser pai de tais entidades. Jeovah senta em trono, fala do interior de nuvens para não ser visto, observa o povo judeu e lhe manda castigos como chagas, úlceras, hemorroidas, tumores, esterco no rosto, tísica, lepra e tem a mesma imagem de Adão e de Jesus de Nazaré na Terra. Além disso, desceu várias vezes, envolto em nuvens para não ser visto, como sabemos. Sem essas nuvens a ocultá-lo, obviamente que seria visto seu corpo tão longevo. Desceu junto com Moisés e Elias; no batismo de Jesus; na entrega das placas com os mandamentos para Moisés; na tenda de reunião, montado em seu querubim; na reunião com seus filhos além de Jó e o Diabo; nas incontáveis oportunidades em que falava com seus súditos judeus, relatadas no Velho Testamento.
- Diga ao Tribunal: por que escreveste que Jeovah é o pai dos espíritos, apesar de tudo isso que se lê na Bíblia? Como explicas que os filhos de Jeovah, aqueles que desceram para casar com as mulheres belas - tiveram filhos? São netos de Jeovah, possuem sua carga genética – isso não seria a lógica evidente?
Paulo de Tarso:
- Não sei responder a isso.
Jesus de Nazaré:
- Pois eu respondo: todos os dizimadores narram suas próprias histórias. Pedro, por exemplo, disse na sua Carta II-Pedro, 2,25: "Porque éreis como ovelhas desgarradas, mas agora retornastes ao Pastor e guarda das vossas almas". Pedro diz que os judeus que seguiam seus sacerdotes - como vinha ocorrendo há milênios, desde Moisés e outros, não estavam com os dizimadores certos. Agora, passando a seguir e cultuar novos líderes religiosos - obtiveram um guardião das suas almas. Aliás, almas ou espíritos?
Jesus de Nazaré parecia cansado. Trouxeram-lhe uma jarra de vinho de parreirais israelenses e uma belíssima taça. Continuou:
- Veja - Paulo de Tarso: Pedro também passou a dizer que no céu existiriam outros seres que não os humanos como Jesus de Nazaré e Jeovah. Para esse dizimador, no céu existem, além de espíritos, coisas chamadas almas. Isso lembra o que escreveram os evangelistas, entre eles Lucas 23,46: "Pai, nas tuas mãos entrego meu espírito", ao morrer na cruz o filho da amada Maria e de Jeovah, ausentes José, irmãos e irmãs do Nazareno.
Jeovah ergueu-se do seu trono e, impaciente como sempre:
- Peço a este Tribunal que encerre esse tipo de discussão. Não há dúvidas que todos os envolvidos nos relatos bíblicos são favoráveis à obtenção dos dízimos e que os beneficiados procuram histórias que lhes tragam esses dízimos. Está tudo muito claro. Desde Moisés a tribo de Levi tem o privilégio de indicar os sacerdotes, como está escrito. Eu sou Jeovah, o Senhor dos Exércitos de Israel. Tenho olhos para ver e por isso tenho castigado os judeus que desobedecem aos meus sacerdotes. Eu mando matar os sacerdotes de Baal. Eu mando pragas, chagas, hemorroidas, úlceras, tísica, granizo, secas e os meus anjos para matar inimigos de Israel. Ordeno que se dê andamento a este julgamento.
Jesus de Nazaré:
- Um momento, Jeovah. Este julgamento foi criado por iniciativa dos personagens do Novo Testamento. E nós temos que definir: quem será salvo ou condenado? Corpos humanos, espíritos ou almas?
Espanto generalizado. O próprio Jesus de Nazaré se rebelava contra o poderoso deus judaico Jeovah.
Continuou o grande Nazareno:
- Mateus, Lucas, Marcos e João: como explicam que eu, o crucificado, desloquei do meu corpo uma alma, na sexta-feira? E isso no exato momento da minha morte? Por que essa alma não ficou com meu corpo, lá no túmulo de José da Arimatéia? E o espírito? Que fim teve?
Jesus de Nazaré respirou fundo e, quase inaudivelmente:
- E o mais estranho, evangelistas! O bandido que estava crucificado ao meu lado iria subir no mesmo dia e junto comigo, naquela mesma sexta-feira? E o julgamento do bandido? Ele, embora um malfeitorestava dispensado de aguardar pela vinda do Reino de Jeovah, ou, como dizem também, pela vinda dos julgadores, do céu, no Juízo Final?
Olhando fixamente para Mateus:
- Jesus de Nazaré teve que deixar apodrecer seu corpo por três dias. E o bandido - foi arrebatado também, levando seu corpo, pelos anjos ou outros seres com asas? O bandido não teve que aguardar o Juízo Final! Por que ele teve tamanha regalia? Por ser bandido, malfeitor, não deveria ser jogado nas fornalhas da Geena, no Inferno, ele, sua alma, seu espírito e os seus ossos e carne, após o julgamento e condenação no Juízo Final?
Ante o silêncio que se fez somente se poderiam esperar novas perguntas por parte de Jesus de Nazaré. E ele seguiu:
- Paulo de Tarso diz aos seus adeptos gentios, ou, ainda, não-judeus, ou mais, pagãos, ou, também, goin, na sua carta aos Tessalonicenses 4,16-18: "Quando for dado o sinal, à voz do arcanjo e ao som da trombeta de Deus, o mesmo Senhor descerá do céu e os que morreram em Cristo ressurgirão primeiro. Depois nós, os vivos, os que estamos ainda na Terra, seremos arrebatados juntamente com eles sobre nuvens ao encontro do Senhor nos ares". Paulo de Tarso desmente o que escrito foi por vocês, evangelistas.
- De onde obteve Paulo de Tarso essas informações? – continuou. E quem vai dar um sinal? O arcanjo agora já tem voz? Jeovah descerá? Quem fará ressurgir e quem saberá quais os túmulos que contêm ossos ou cadáveres de pessoas que morreram em Cristo? Existem milhões de túmulos de israelitas e bilhões de jazigos de gentios. Nos cemitérios existem ossuários onde se misturam milhões de ossos. Quem poderá fazer ressurgir os que morreram em Cristo?
- E os milhões de mortos que sequer souberam quem era Cristo? E o que significa a expressão usada, morrer em Cristo? Significaria que essa pessoa teria sido membro de alguma seita cristã? Teria que ser dizimista? Os que morreram nos mares? Os desintegrados por bombas atômicas? Os devorados?
- E por que escreveu ele que no Dia do Juízo ressurgirão as pessoas? – perguntou o Mestre. Por que não usou da mesma expressão usada pelos judeus apóstolos, ou seja, ressuscitarão? Se os corpos ressuscitam, eles devem ser arrebatados para as nuvens? Nesse caso sobem corpos, e não espíritos? Nesse caso a tese de Paulo de Tarso cai por terra, ou seja, no céu vivem corpos, e não espíritos?
Um temporal se aproximava. Relâmpagos vinham do sul e, enquanto o vento fazia trepidar os tronos e sibilar as penas das asas dos anjos, Jesus de Nazaré prosseguiu:
- Vejam que este narrador bíblico não admite subidas de humanos ao céu, antes que Jeovah assopre em uma trombeta e desça. Só então de alguma forma não explicada ressurgirão os mortos que morreram acreditando em Jesus de Nazaré. O que ou quem fará a ressurreição do descomunal número de cem bilhões de mortos? Depois de identificados todos os que creram enquanto ainda eram vivos, é que os demais - ainda vivos - serão então levados por uma arrebatação não explicada, para as nuvens. E diz que lá encontrarão Jeovah.
Jesus de Nazaré apertou as duas mãos de Paulo de Tarso:
- O que queres dizer com a palavra ressurgirão? O que irá ressurgir? O corpo ou um espírito, ou uma alma? De onde virão tais coisas? O corpo não pode ressurgir, já que não está oculto. Ele está ali, no cemitério. Lázaro, por exemplo, eu não o fiz ressurgir. Ele estava lá, no túmulo, envolto em panos, visível para todos. Eu o fiz ressuscitar, o que é bem diferente. Assim como escreveram que eu ressuscitei, no Domingo de Páscoa e saí a caminhar por quarenta dias, até que alguma coisa me arrebatou e me elevou para as nuvens onde Jeovah costumava estar e falar com Moisés, Elias, o Patriarca, os Doze Apóstolos, o Jesus Celestial, o Jesus Espírito, os demais filhos de Jeovah descritos por Moisés no livro de Gênesis, os profetas, o malfeitor crucificado, o amigo em Cristo de Paulo de Tarso e os exércitos com suas legiões de anjos portando espadas, trombetas e enxofre.
Paulo de Tarso:
- Tens razão, Mestre. Eu deveria ter escrito ressuscitarão. E tenho que confessar, a bem da verdade: nesse caso os corpos, ressuscitados, obrigatoriamente são os que têm que subir para o céu, para junto de Jeovah e Jesus de Nazaré.
- Estamos de acordo. Eu subi com meu corpo ressuscitado e fui arrebatado para que isso fosse possível. Tanto é que o corpo de Jesus de Nazaré jamais foi encontrado, na Terra. E isso traz a todos a convicção de que esse corpo não foi ocultado pelos apóstolos, como se faz menção nos Evangelhos, em Mateus 28,11-15.
- No entanto, quero registrar que, estando escrito na Bíblia, devo continuar a afirmar que no céu somente existem espíritos e que corpos lá não têm como sobreviver. Não há comida nem água, nem medicamentos. O vinho que dizem lá existir deve ser buscado na Terra. Sou sacerdote e - qual os levitas- cabe-me gerir as vidas dos meus rebanhos.
Jesus de Nazaré, após consultar a Máquina:
- Orígenes, no século III, identificou incoerências e contradições internas no texto bíblico. Que solução teve para isso? Desenvolveu um duplo princípio de interpretação das Escrituras:
“Quando a passagem bíblica tem um sentido óbvio, é nesse sentido simples que reside a verdade. No entanto, quando o sentido manifesto parece falho ou mesmo errado, o texto deve ser interpretado alegoricamente, até que o leitor encontre ali um sentido espiritual que seja aplicável à sua vida”.
Respirou fundo o grande defensor das mulheres:
- Os sacerdotes são argutos. Escancarados buracos narrativos devem ser interpretados pela ovelha. Falam em sentido espiritual, omitindo que o Livro relata a existência somente de corpos, vinho, trombetas, tronos, no mundo imaginado nas nuvens. Mas, voltando ao tema anterior, é evidente que, segundo escreves, terás que levar ao fogo sete ou mais bilhões de humanos vivos. Afinal, como iriam subir? Sequer existem tantos bilhões de anjos para se desincumbir dessa subida. Serão mortos pelo fogo, como dizes? Ressuscitarão e então serão julgados aqui neste Juízo Final? Os condenados, de que maneira irão queimar eternamente na Geena, se eles sequer possuiriam, então, carne e ossos? Queimar coisas imaginárias? Logo que queimados, não deixariam de existir – desaparecendo a possibilidade de queimar eternamente?
Voltou-se o Mestre para Paulo de Tarso:
- Subi com meu corpo, vestido com meu manto, capa, túnica sandálias e até algumas moedas na minha bolsa, como todos os humanos. Os ferimentos dos espinhos da coroa na minha cabeça exigiam lenço. Os habitantes celestiais, como os anjos, possuem corpos e asas para poderem voar. Mas esse Orígenes volta a falar em sentido espiritual, como você o faz, Paulo de Tarso. Vejamos novamente o que diz a Máquina sobre David Friedrich Strauss, no seu livro A Vida de Jesus, de 1835: “A Bíblia não é considerada digna de confiança. Ela deve ser vista como portadora de erros e contradições”.
Após um breve intervalo - a Máquina exibia pergunta enviada por uma mulher não identificada:
“Cada sacerdote diz o que interessa aos seus fiéis. A Bíblia é portadora de erros e contradições - afirma Strauss. Os protestantes conservadores dizem que a vida neste mundo estava em processo de deterioração e assim continuaria até que Jesus de Nazaré voltasse para reinar na Terra durante mil anos. O objetivo dos demais cristãos seria o de evangelizar e converter o restante da humanidade antes que fosse tarde demais. Aí está: o rebanho de qualquer sacerdote deve aumentar os dízimos e a glória pastoral obviamente também. São inspirados, auto-iludidos ou meros criminosos, como referido? De que forma se podem identificar os sacerdotes criminosos? O notável profeta judeu Elias degolou quatrocentos e cinquenta sacerdotes do deus Baal. Eram criminosos? Elias foi julgado por tais homicídios? Liberdade religiosa, ou morte aos concorrentes dos sacerdotes?”.
Ninguém respondeu. Die Maschiene prosseguiu com suas informações históricas e o Nazareno, antes de ler:
- Os pastores conservadores reagiram com um argumento retórico: a Bíblia é a palavra de Deus, de Jeovah e do Senhor dos Exércitos, e, assim, a ela não pode errar.
Em seguida a Máquina estampou, com base no escritor já referido: “Inácio de Antióquia, no começo do século II da atual Era, defendeu vigorosamente a Igreja de então contra as doutrinas enganadoras dos gnósticos e dos docetistas, que diziam que Jesus de Nazaré não poderia ser Deus em forma humana. Em meados do século I, uma reação conservadora de Montano dizia que o Espírito Santo falava por meio dele e que suas profecias eliminavam a necessidade dos livros sagrados. Se considerava sacerdote de uma elite espiritual”.
Jesus de Nazaré:
- Observamos que sempre e sempre existem somente sacerdotes a buscar algo: glória ou dízimos. Ou ambos. Mesmo os auto-iludidos. Ou os meramente criminosos. Ou os atores. Ou os profissionais.
Enquanto isso, o perito terminou seu trabalho e apresentou o laudo. Leu:
- “Examinando minuciosamente o ácido desoxirribonucleico – ADN na língua do Brasil e DNA em inglês), concluímos que Jeovah e seus filhos não possuíam cromossomas compatíveis com Jesus de Nazaré, Noé, Maria e a filha; Jesus de Nazaré possui informações genéticas humanas e é parente efetivamente de sua irmã e, assim, obviamente de Maria, a mãe, e de José; eram todos descendentes de Noé; os filhos de Jeovah, inclusive Jesus Celestial, são constituídos de material genético próprio e sui generis, tendo em conta que, segundo aqui informado, essa família existia já antes da Criação, há treze, catorze ou quinze bilhões de anos, não havendo informações sobre a mãe desses indivíduos nem de avós e demais ancestrais. Informa-se que, tendo em conta que o periciado Jeovah possui as mesmas características corporais dos pretensos filhos celestiais referidos no documento anexo (Livro de Gênesis) e do indicado filho Jesus Celestial (Evangelista João, 17,24) e de Adão, não se afasta a possibilidade de se admitir um sistema de DNA paradoxal, impossível pelos conhecimentos das ciências que se ocupam desses temas”.
- As duas perícias realizadas são conflitantes – decretou Jesus de Nazaré. Fica estabelecido que cada sacerdote se valha do resultado que mais lhe parecer correto. Ou a Bíblia Sagrada não produz inverdades e os filhos de Jeovah casaram com as mulheres terráqueas, ou a versão da ciência está correta. Jeovah - e seus prepostos celestiais - não podem ser pai de qualquer humano. Ele não tem condições de provocar a gravidez de humanas descendentes de Noé ou de Adão, ou, ainda, de símias ou humanas-mulheres - produtos da evolução das espécies que teve início com o peixe Picaya Gracilens, há seiscentos milhões de anos, no período cambriano.
No solo terrestre o caos continuava. Vivos e ressuscitados se digladiavam pelos poucos alimentos que eram encontrados. Fazendas tinham suas plantações ceifadas com mais voracidade do que ataques de gafanhotos.
O Times publicou artigo assinado pela Secretária de Estado americano:
“Temos que nos preparar para uma grande catástrofe. Tudo está a indicar que todos os humanos, tanto os ressuscitados como os vivos, poderão ser absolvidos coletivamente pelo Mestre Jesus de Nazaré e enviados diretamente para as nuvens com seus corpos. Ninguém mais duvida que no alto não irão encontrar alimentos, água nos dias de sol inclemente, acomodações para dormirem e anjos suficientes. Cento e vinte bilhões de humanos cairão já que existem somente em torno de dez milhões de anjos para sustentá-los, ou seja, um anjo para cada dez mil humanos. Alguns poderão permanecer em helicópteros e outras espécies de aeronaves. Terão que descer, no entanto para abastecer com combustíveis e revisões de motores e demais peças. A falta de energia elétrica deixará esses absolvidos pelo Tribunal do Juízo Final às escuras durante o período noturno e sob temperaturas muito abaixo de zero, sem hospitais e aparelhos de calefação. Ninguém irá subir e os dirigentes das nações cristãs terão que se socorrer principalmente da Índia e da China onde o Novo Testamento não possui jurisdição. Sugerem os líderes de países reunidos na sede das Nações Unidas que se faça um apelo ao Tribunal do Juízo Final para que as ressurreições sejam declaradas como não ocorrentes, com mudança do texto do Novo Testamento, adequando-o ao Velho Testamento, que jamais mencionou nem promessas de ressurreição nem a existência de Jesus de Nazaré nas nuvens”. O Senhor dos Exércitos, afinal, era o deus judaico, o mesmo que o Vaticano usava para seu rebanho de crédulos.
Jesus de Nazaré, obviamente preocupado com o terror que reinava entre os vivos e os ressuscitados, respondeu à autora do artigo:
- Senhora Secretária – seu pedido está sendo analisado. Lembro que de nada adianta enviarmos bilhões de pessoas ao suposto Inferno, como mencionam trechos bíblicos. A Geena evidentemente não tem a menor possibilidade de manter queimando bilhões de humanos eternamente. A versão bíblica que fala de Inferno é ainda mais ridícula: quem poderia impedir que condenados simplesmente se evadissem desse local desconhecido? Todos sairiam imediatamente para a vida eterna no solo do planeta. Da mesma forma como entraram, sairiam! Ou um reles anjo – ser meramente imaginário, como ninguém ignora – seria páreo para essa descomunal massa humana revoltada?
- Além disso – prosseguiu - afirmo que eu, Jesus de Nazaré, o arauto do amor, jamais permitiria que meus irmãos judeus e gentios sofressem tão brutais castigos. E nem isso seria biblicamente possível, já que está claramente escrito que Jesus de Nazaré não veio para salvar os justos, mas, sim os ímpios e pecadores. Não sobraria ninguém para ser levado ao tal absurdo Inferno. Os justos serão igualmente salvos e enviados para as nuvens.
- Não é infalível a Bíblia? - indagou o Mestre. O Inferno é a Geena, diz o Livro. Ora, essa Geena é o lugar assustador usado pelos astutos para formar seus rebanhos! Os dizimistas tinham medo, como hoje, de castigos visíveis junto aos muros de Jerusalém. Um escritor romano escreveu famoso livro que descreve o imaginário Inferno. Não se apercebeu que Geenas, Infernos, Demônios, tudo é obra de dizimadores! Não viu algo que é tão claro, tão evidente. Não enxergou a fenomenal dualidade necessária para que os profissionais da religião pudessem se impor: promessas de vida eterna ou castigos horríveis . O escritor se revolveu no lamaçal dialético criado pelos astutos. Com tal equívoco não viu o óbvio - que sou obrigado a descortinar agora, dois mil anos após minha morte.