Juízo Final: Odisséia dos Deuses

Horst Schadeck · Capítulo 95 de 96

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Juízo Final: Odisséia dos Deuses

Capítulo 95

 

Jesus de Nazaré ordenou que lhe trouxessem o Historiador do Juízo Final. Examinou-o longamente, como se estivesse lendo seus pensamentos. Ele vestia um terno inglês, sapatos italianos, uma gravata com tons azulados na qual resplandecia um prendedor de grande brilho, com um diamante de, no mínimo, cinco quilates. Nos punhos da camisa de seda branca ostentava abotoaduras de ouro com outros dois diamantes.

Um trono foi trazido. Depois das saudações simples que trocaram, Jesus de Nazaré iniciou seu interrogatório:

- Me informam que teus registros sobre o Juízo Final estão sendo feitos dentro do rigor necessário. Tuas anotações percorrem o mundo e também me noticiam que tu estás sendo vítima de críticas e até de ataques. Dizem-me que as hostilidades chegam a te rotular de anticristo e gostaria que me relatasse a respeito para que eu possa tomar as providências necessárias.

O Historiador:

- Um historiador verdadeiro não lança ataques. Ele faz registros exatos do que observa. Neste Julgamento do Juízo Final estão sendo desnudados os procedimentos dos sacerdotes de todos os tempos. Existem sacerdotes cujos rebanhos são levados a venerar o deus Baal e várias deusas e deuses bíblicos. Outros adoram Jeovah, o Deus dos Exércitos de Israel. E outros ainda que idolatram o israelita Jesus de Nazaré. Paulo, o soldado romano e que afirma ser cidadão de Israel e haver nascido na cidade de Tarso, integrante da tribo de Davi, e soldado do exército romano que ocupava Israel, está atualmente com um rebanho calculado em mais de um bilhão de seres humanos gentios, ou seja, não judeus. Ele escreveu que haveria pessoas que combateriam seus dizimadores, seus seguidores.

Jesus de Nazaré:

- As pessoas que revelam aos demais a existência dessa dizimação, são rotuladas de anticristos. O que pode informar a esse Juízo Final?

O Historiador:

- Certamente. Eles usam a técnica da desqualificação, também conhecida por envenenamento do poço. Ou seja, quando não há como contestar os fatos, se rotula o emissor da mensagem ou do relato histórico de louco, esquizofrênico, inculto, parvo, maldoso, diabólico, anticristo. São raciocínios falaciosos. O anticristo é o mais comum dos rótulos desqualificadores que se observam nas mensagens de sacerdotes.

Jesus de Nazaré:

- Estás dizendo que os sacerdotes te combatem porque relatas fatos que os desnudam diante dos seus rebanhos, que mostram como eles agem para obterem fiéis?

O Historiador:

- Sim. Mas isso é natural. Já os sacerdotes levitas agiam assim, como se lê no Velho Testamento. Chegaram a matar quatrocentos sacerdotes rivais em uma ocasião. E todos, absolutamente todos, usam da falácia satânica. Relatam até mesmo a existência de sacerdotes salteadores, integrantes de quadrilhas.

Jesus de Nazaré:

- Explique ao Juízo Final de que forma isso acontece.

O Historiador:

- Quando estão em dificuldades junto a suas ovelhas, quando verificam que a dizimação corre riscos, imediatamente afirmam, nas prédicas, nos cultos, nos sermões ou nos programas de televisão, que é o Diabo o que está atacando suas ovelhas. Como este Tribunal já parece haver decidido, esse personagem bíblico é de grande utilidade para os fins de dizimação. O Diabo, embora seja um anjo, passa a atemorizar os fiéis, as ovelhas, o rebanho. E os dízimos crescem. Quando Jeovah se reunia com seus filhos na Terra, ele recebia a visita desse Anjo Rebelde, rotulado de Diabo, agora, no solo terrestre, um ser sociável e amistoso. Mas os sacerdotes se valem dele para impor o medo, embora haja o relato de uma só morte a ele atribuída, ao contrário do que ocorre com milhões de mortes atribuídas a Jeovah.

Jesus de Nazaré:

- Historiador: os teus relatos não me hostilizam, não me injuriam, não me caluniam nem me difamam. Pelo contrário, verificamos que somente me atribuis sentimentos e mensagens de grande fraternidade. Já os escritores do Novo Testamento, evangelistas Mateus, Marcos, Lucas, João e o centurião romano judaico Saulo de Tarso, afirmam, sem jamais terem convivido comigo, meio século após minha morte na cruz, que eu iria mandar queimar em fornalhas os meus irmãos. Queimar pessoas que jamais vi.

O Historiador:

- E incorrem numa grande contradição. Primeiro te descrevem como o arauto do amor entre todos os humanos. Depois escrevem coisas que terias dito, tais como serpentes, víboras, assassinos, sejam queimados.

Jesus de Nazaré:

- Eu rotulei pessoas de assassinos?

O Historiador:

- Permita que leia Mateus 23,35: “(...) para que caia sobre vós todo o sangue inocente derramado sobre a Terra, desde o sangue de Abel, o justo, até o sangue de Zacarias, filho de Baraquias, a quem matastes entre o templo e o altar. Todos esses crimes pesam sobre esta raça”.

- Tens razão – respondeu o Mestre. Eu teria feito essas graves acusações contra fariseus e escribas. E os teria acusado efetivamente de assassinatos dentro de sinagogas. E os teria tratado pejorativamente de raça inferior. Obviamente que eu não tinha esse caráter. Eu não dizia que devemos amar a nossos inimigos? Mas o que mais uma vez mostram os escritos dos sacerdotes evangelistas é a permanente luta que travam entre eles.

Jesus de Nazaré continua:

- Estou convicto que os evangelistas devem ser minuciosamente analisados. Quem são? Onde viviam? Como eram descritos pelos seus conterrâneos? Como bem lembras a este Juízo Final, eles são os que me descrevem pejorativamente. São eles os que, sem a menor dúvida, me detratam. São eles que colocam nos seus textos que eu teria feito todas aquelas ameaças tão brutais contra homens, mulheres, mulheres grávidas e até contra cidades inteiras, onde vivem crianças e idosos. São eles que escrevem que eu teria injuriado pessoas chamando-as de serpentes. Leiamos em Mateus 23,33: “Serpentes! Raça de víboras! Como escapareis ao castigo do Inferno?”.

Prosseguiu o Mestre:

- E as ameaças contra as mulheres grávidas que me atribuem? Vamos ler Mateus 24,19 e 30: “Ai das mulheres que estiverem grávidas ou amamentarem naqueles dias! Todas as tribos da Terra baterão no peito e verão o Filho do Homem vir sobre as nuvens do céu cercado de glória e de majestade”.

Relâmpagos voltaram a abalar o Tribunal das alturas celestiais. Ventos rugiam e a chuva açoitava os milhões de anjos que não paravam de bater suas asas. Os helicópteros tiveram que se afastar para não serem arremessados contra os tronos. Mas, assim como veio, o temporal se foi. Continuou novamente o Mestre:

- Aqui esse Mateus diz que Jesus de Nazaré desceria das nuvens mais altas e estaria sobre aquelas visíveis, revestido de glórias e de majestades! Eu, o arauto da humildade? E eu voltaria para a Terra para desgraçar mulheres grávidas? E escreveu que todos os seres tribais do mundo veriam esse fenômeno tão triste? Como poderiam sequer ver o território de Israel, por exemplo, os habitantes da Mesopotâmia, da Babilônia, do Egito, de Roma, da Índia, do continente americano ou da Austrália?

Jesus Celestial, diante de Mateus:

- Como ousas me atribuir uma vinda ao Juízo Final com ameaças contra as mulheres? E contra as mulheres que amamentam? Eu, Mateus, eu que sempre mandei amar e proteger as crianças?

- Mestre – respondeu Mateus – concordo que esses textos visam atemorizar os dizimistas. Jamais poderias, com a tua infinita bondade, ter dito palavras que acabamos de ouvir. Mas eu escrevi o que me transmitiram os sacerdotes mais antigos. Foram eles que criaram esses temores.

Jesus de Nazaré se virou para o Historiador. Este respondeu:

- Não me cabe concluir absolutamente nada a respeito disso. O Historiador se limita a transcrever os atos e fatos do julgamento.

Jesus de Nazaré:

- Pois observe - Historiador. A humanidade permaneceu dois mil anos sem perceber a gravidade das frases que teriam sido escritas por uma pessoa de nome Mateus, décadas após minha morte. Ele termina redigindo: “Como escapareis ao castigo do Inferno?” Ora, isso é um pré-julgamento absolutamente inaceitável.

O Historiador:

- Estou registrando tudo, Mestre. Continue, por favor.

O Mestre de Nazaré:

- Repito: nessa frase eu estaria cometendo o maior dos ilícitos. Eu estaria pré-julgando. Eu estaria condenando seres humanos sem julgamento, sem aguardar o competente e estabelecido Juízo Final. Eu estaria condenando cidadãos do Estado de Israel sem lhes dar o direito de defesa. Eu estaria discriminando os fariseus e os escribas. Eu estaria condenando os sacerdotes de Jeovah! Condenando justamente aqueles que têm como mandamento principal o de não adotarem outros deuses além de Jeovah!

Alguém parecia desejar falar. Era uma voz que vinha de um dos helicópteros. Disse:

- Mestre, perdoe se interrompo. Mas os fariseus eram judeus cujos sacerdotes diziam aos seus fiéis que existe ressurreição e anjos, coisa que a seita adversária, dos saduceus, não admite.

- Obrigado pela lembrança – continuou o Mestre. Pois esse Mateus escreve que Jesus de Nazaré é cruel, enviando os que supostamente não lhe agradam para um lugar indefinido chamado Inferno, no qual haveria labaredas e fornalhas eternas a supliciar seres humanos e alados, como os anjos rotulados de rebeldes.

Jesus de Nazaré para o Historiador do Juízo Final:

- Anote nas atas do presente julgamento que Mateus atribui a Jesus de Nazaré a seguinte frase, em 23,13: “Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Vós fechais aos homens o Reino dos céus. Vós mesmos não entrais e nem deixais que entrem os que querem entrar”. Quero dizer que isso não condiz com o Jesus de Nazaré que todos conhecem. Com que direito o cidadão judeu, filho de Maria, defensor da justiça, das mulheres, das crianças, dos pobres, dos desvalidos, haveria de ofender as duas classes de cidadãos de Israel? Dizer que são todos hipócritas? Generalizando? Todos? Onde o espírito da compreensão, da generosidade, do perdão? A liberdade religiosa?

O Mestre caminhava para todos os lados, enquanto parecia refletir. Finalmente voltou para junto do Historiador:

- Pois se percebe que Mateus age como os sacerdotes. Ele me atribui fatos ilícitos, já que rotular a alguém de hipócrita, de raça de víboras, de serpentes, tipifica o delito penal conhecido por injúria, com punições previstas na lei de Israel e de todos os países do mundo.

Mateus interveio, para surpresa geral:

- Mestre: estavas, junto com os apóstolos, em confronto político e religioso com os saduceus, fariseus, príncipes das sinagogas e contra o sumo sacerdote judeu. O excesso de linguagem, nesse caso, é permitido.

- Ah! Teria Jesus de Nazaré cometido excessos de linguagem – respondeu o Mestre. O mais bondoso, terno, amoroso e amável de todos os seres humanos teria se excedido! Pois sabes quantas vezes escreveste que teria Jesus de Nazaré utilizado a palavra hipócrita nos teus textos? Pois foram mais de seis vezes. Não foram palavras impensadas. Foram palavras duras, palavras de quem deseja ferir, deseja humilhar. Eu jamais as pronunciaria. Mais me parecem arengas entre sacerdotes concorrentes.

- O que revelas, Mateus – continuou o Mestre - é a clara disputa entre sacerdotes, quando escreves: “Nem deixais que entrem os que querem entrar no Reino dos céus”. E em 23,37: “Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas aqueles que te são enviados! Quantas vezes eu quis reunir teus filhos, como a galinha reúne seus pintinhos debaixo de suas asas... E tu não quiseste!”. O sacerdote sempre deseja reunir seus pintinhos, ou, ainda suas ovelhas com seus dízimos. Não sou diferente - sou rabino - como está escrito! Sou de família humilde que viveu em um dos quinze casebres pobres e miseráveis do lugarejo praticamente desconhecido e que se chama Nazaré.

Prosseguiu o personagem que, surpreendentemente, jamais escreveu nenhuma mensagem:

- Historiador - constato que ages corretamente. Jamais poderá alguém dizer que serias um anticristo, por mais vaga e ambígua que essa expressão possa ser. És um verdadeiro Pró-Cristo, Pró-Jesus de Nazaré. És aquele que conseguiu desvendar o que havia atrás dos textos bíblicos e resgatar a minha imagem e igualar as mulheres aos homens.

O Historiador:

- Se me permites – Mestre - temos que fazer uma ressalva. Existem os pastores a quem não interessam os dízimos. São os sacerdotes da glória.

- Explique melhor, Historiador.

- São aqueles que procuram a fama, a admiração, a bajulação, as homenagens como seres supostamente poderosos. Observe quão magníficos parecem os rabinos, os pajés indígenas, os sacerdotes incas, astecas e maias, os Bispos, cardeais, o Papa. São pessoas que trocaram, em muitos casos, o amaino da terra como camponeses, pelo brilho de se tornarem criaturas vistosas e admiradas. Muitos exibem humildade, como uma virtude. Outros chegam a se transformar em mártires. Outros se deixam imolar em atentados suicidas com explosivos ou ardem em chamas como monges a protestarem contra o que julgam contrário aos seus ideais. E, se me permite - Mestre, outros provocam sua morte na cruz.

Jesus de Nazaré:

- Disso não se pode ter dúvida nenhuma. Os príncipes e Sumo Sacerdotes, em meus tempos de vida terrena, eram invejados, embora todas as iniquidades que eventualmente produziam. A morte de Jesus de Nazaré na cruz ocorreu porque ele julgava ter à sua disposição a certeza de sua ressurreição. Essa certeza também se instalou nas convicções dos vários seguidores de Jesus de Nazaré. Não aceito e repudio o que dizem alguns livros americanos recentemente publicados de que Jesus de Nazaré agiria assim devido à esquizofrenia que o acometeria. Mas defendo o direito que têm esses escritores de externar seus pensamentos e que, como verifiquei, não têm o objetivo de injuriar.

Jesus de Nazaré parecia muito satisfeito com os comentários do Historiador. Apanhou a Bíblia:

- Vou ler o que escreveu Paulo de Tarso em sua segunda carta aos Tessalonicenses em 1,6 e seguintes: “... quando aparecer o Senhor Jesus, descendo do céu, com os anjos do seu poder, em chamas de fogo, para fazer justiça àqueles que não conhecem a Deus e não obedecem ao evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo. Estes serão punidos com a perdição eterna, longe da face do Senhor”.

Pousou o Mestre a Bíblia Sagrada sobre o trono:

- Veja - Historiador. Novamente esse romano, ou judeu, ou ambos, me descreve como usuário de chamas em fogo. Quem o autorizou a usar o meu nome para aterrorizar, novamente, por carta, ao rebanho de Tessalônica? Em 2,9, escreveu: “A vinda do ímpio será acompanhada, graças ao poder de Satanás, de toda sorte de milagres, de sinais e de prodígios enganadores”. Vi que esse comportamento foi identificado como esquizofrenia por alguns especialistas. Estou inclinado a examinar essa possibilidade. Prossiga por favor.

O Historiador:

- Esse texto, antes referido e que seria da autoria de Paulo de Tarso - como noticiam os jornais -está sendo utilizado para desqualificar o Juízo Final. Esse uso do personagem de nome Satanás, ou Diabo, é bem característico. Tanto que em seguida se lê: “Por isso é que Deus lhes mandará uma potência enganadora, de modo que hão de acreditar na mentira, para serem condenados todos aqueles que não houverem acreditado na verdade, mas tiveram sentido prazer na iniquidade”.

Jesus de Nazaré foi caminhando lentamente. Parou em frente ao trono de Paulo de Tarso:

- Quem lhe disse que tudo isso iria acontecer? E por que Jeovah haveria de ser tão desprezível a ponto de enviar uma coisa que chamas de potência enganadora para, assim, ser essa pessoa condenada, provavelmente a queimar em fornalhas? Como você poderia prever tais coisas?

Paulo de Tarso nada respondia. E Jesus de Nazaré:

- Pois aqui tudo está claro. Há desde já uma desqualificação para qualquer ser humano que venha a denunciar a sua astúcia. Você se previne. Sabe que nem todos os humanos daqueles tempos eram pessoas ignaras, rudes e facilmente transformadas em ovelhas.

Jesus de Nazaré voltou para inquirir o Historiador e disse:

- Continue seu trabalho, Historiador. Quem tanto me faz justiça, quem me retrata como o arauto do amor, da igualdade, da fraternidade, da igualdade entre mulheres e homens, jamais poderá ser rotulado de anticristo. Você é o Prócristo. Anticristos são todos os que me descrevem como um homem cruel, ameaçador, vingativo, orgulhoso e que teria trazido a espada e o abandono de pais, mulheres e filhos.

Antes de partir o Historiador, lembrou o Mestre de Nazaré:

- Registre em suas atas, Historiador: “Os que amam a paz, a fraternidade, o perdão, a igualdade entre todos, homens e mulheres; os que combatem todas as formas de escravidão e de torturas; os que abominam qualquer espécie de discriminação ou preconceitos; os que lutam pelo bem-estar das crianças; os que defendem a democracia e se contrapõem às tiranias; os que dão aos seus maiores inimigos o sagrado direito de defesa, seja nos tribunais, seja nos embates do dia-a-dia; os pobres e ricos que se respeitam e se ajudam mutuamente - todos são dizimistas gratuitos em favor de Jesus de Nazaré e todos receberão um simples prêmio: uma vida terrena sábia, serena e de amor, com todas as crianças nas escolas”.

O Historiador foi conduzido para um dos helicópteros. Transmitiu suas impressões para os seus bilhões de telespectadores.

Já se calculava a população de humanos nascidos de mulheres ressuscitadas em mais de dois bilhões. Muitas morreram no parto e por isso ainda não se tinha certeza se eram imortais ou não e se essas crianças iriam ressuscitar também. Bilhões iriam congelar e passar fome no céu. Outros tantos no solo terrestre, aguardando sua vez para o fogo da Geena. Não haveria anjos suficientes pra manter os escolhidos nas nuvens com suas pequenas asas. Nem para alimentar as fornalhas ou manter os condenados no castigo eterno. Seriam necessários mais seiscentos bilhões de anjos, segundo cálculos estampados na Máquina.

Nesse interim a Organização das Nações Unidas enviara convite para que Jesus de Nazaré, os quatro evangelistas e Paulo de Tarso participassem da reunião de emergência que se designara. Respondeu o Mestre que era no Tribunal que receberia os dirigentes da ONU e ordenou que viessem com urgência.

Reunidos no Tribunal aéreo no dia seguinte, após as formalidades de praxe:

- Digno senhor Jesus de Nazaré. Pesquisas mostram que tanto os ressuscitados como os humanos ainda vivos não concordam em subir e residir nas nuvens. Afirmam que o frio, a chuva, o sol, o risco de serem tragados por turbinas de aviões, permanentemente perigo de queda, tudo isso é muito assustador. Estima-se que subiriam de cinquenta a oitenta bilhões de corpos. O planeta se tornaria inabitável.

Jesus de Nazaré:

- Concordo que subir não é nada agradável. A vida já é difícil no solo, quanto mais no clima rigoroso do alto. Eu absolverei a todos, pois essa é minha índole de bondade.

- Mateus, Marcos, João, Lucas e Paulo de Tarso: Ordeno que retirem de seus textos conhecidos por evangelhos e epístolas, os escritos com condutas que levem à ressurreição de seres humanos após as suas mortes e que todos voltem ao estado anterior a esse evento bíblico.

Negaram-se terminantemente a cumprir tal ordem.

- Não aceitamos. Não vamos voltar ao estado de mortos.

Sara Moshê noticiou: “Os mais de cem bilhões de seres humanos se negavam a comparecer ao Julgamento. A vida desse descomunal número de pessoas nas nuvens era impossível e não mais desejado por ninguém”.

De nada adiantaram os pedidos da ONU. Jesus de Nazaré prometeu buscar uma solução. Da Terra vinham ameaças aos evangelistas e a Paulo de Tarso. Tel Aviv alertou que mísseis poderiam ser lançados contra o Tribunal.