Juízo Final: Odisséia dos Deuses
Capítulo 1
A Secretária de Estado desembarcou do jato particular sem ser notada pela imprensa. Viera diretamente de uma conferência de Londres. Um helicóptero a conduziu até a Praça de São Pedro. O Papa a introduziu na Capela Sistina juntamente com o general de Israel, que já aguardava. Uma mulher no grande mundo dos homens.
- Todos os estudiosos estão de acordo: os computadores informam que o Dia do Juízo Final Bíblico pode ocorrer a qualquer momento - relatou a representante do governo americano.
- O serviço de informações do Vaticano confirma. É iminente o Julgamento Bíblico do Juízo Final- respondeu o líder romano. Mas não sabemos se os deuses descerão aqui em Roma ou em Jerusalém.
Estavam visivelmente preocupados. O Papa serviu vinho, um grand cru de quatro mil euros, em taças de cristal da Boêmia trabalhadas em ouro. Pinturas dos grandes mestres testemunhavam o medo estampado no rosto dos terráqueos ainda não ressuscitados.
Repentinamente, o esperado fenômeno ocorreu. Do céu nublado surgiram os tronos junto com milhares de anjos tocando estridentes trombetas. Caíam estrelas e escureceu. Mais e mais anjos chegavam. O som dos primitivos instrumentos musicais era ensurdecedor. Havia glória bíblica em toda parte. Inicialmente apareceu o trono com Jesus de Nazaré.
Sem esperar, correram até o túmulo de Pedro, no baldaquino da Basílica Moderna, da autoria de Gian Lorenzo Bernini em 1634, também criador da Fontana di Trevi. O líder dos sacerdotes romanos tropeçou, mas foi socorrido pelo general israelense.
Era tarde. O túmulo estava rompido e os ossos do apóstolo tinham desaparecido. A prometida ressurreição se realizava. Os demais jazigos também mostravam suas centenárias entranhas vazias. O Julgamento Bíblico, o Dia do Juízo, era finalmente uma realidade. Vultos eram vistos esgueirando-se e procurando portas de saída.
Lá fora milhões ressuscitavam. A grande maioria estava sem vestimentas, apodrecidas nos lugares onde seus corpos se decompuseram. De quarenta a cem bilhões deveriam sair do estado de mortos para a condição de vivos em todo o planeta. Pelo menos era esse o cálculo que faziam os especialistas do Vaticano e de Tel Aviv. Alguns historiadores excluíam períodos em que, na evolução das espécies, se registrou a transição de símios para humanos.
- Atentem para o texto sagrado - disse o Papa, dirigindo-se ao general do Estado de Israel. Escreveu o evangelista Mateus em 24,29-30, no Novo Testamento da Bíblia Sagrada, no final do primeiro século da Era atual, o que teria dito o israelita, Jesus de Nazaré, crucificado por nossos soldados romanos, em Jerusalém, por volta do ano trinta e três.
Prendeu cuidadosamente seus óculos nas santíssimas orelhas e leu com voz trêmula, em latim:
- "O Sol escurecerá, a lua não terá claridade, cairão dos céus as estrelas e as potências dos céus serão abaladas. Então aparecerá no céu o sinal do Filho do Homem. Todas as tribos da Terra baterão no peito e verão o Filho do Homem vir sobre as nuvens do céu cercado de glória e de majestade”.
Pela janela viram – incrível! - que continuavam caindo estrelas em meio à escuridão que se estabelecera. Nem Sol nem Lua eram visíveis. As tribos batiam no peito. No céu as potências pareciam abaladas. Ordenou o Papa pelo seu telefone celular e em poucos minutos todos os sinos da Itália ressoavam.
Também pelo telefone a agente americana recebeu a confirmação: na Terra reinava a esperada escuridão, embora os raios solares continuassem a chegar até a parte exposta do sistema planetário local.
- Eles são de carne e ossos! Não são espíritos! - exclamou no telefone a secretária de Estado, certamente para o presidente dos Estados Unidos.
- São visíveis, inclusive os tronos, as vestimentas e as trombetas dos anjos!
No seu trono, Jesus de Nazaré, por entre as nuvens, percebeu que não estavam chegando a Jerusalém, a amada terra de seu povo. Os anjos e suas cornetas surgiam em número cada vez maior.
Ordenou em hebraico que um dos querubins voasse até o solo para saber por que o Tribunal do Juízo Final tinha se instalado naquela cidade e não em Jerusalém, local previsto pelos evangelistas. Logo voltou o anjo, pousou com suas asas de dez metros de envergadura e quatro rostos e informou:
- Mestre - é que Pedro, teu discípulo, estava sepultado aqui, em um templo romano.
- Pois tragam-no para cima. Será julgado no local adequado, como todos.
Esse anjo foi descrito no Velho Testamento pelo profeta judaico Ezequiel em seu livro no capítulo 1,6 como possuindo faces de leão, de águia, de boi e de humano.
- Mestre – falou a face humana - parece que Pedro, há poucos minutos saído do seu túmulo na ekklesia que leva o nome dele, ainda não se recobrou da morte, ocorrida no ano 67 da atual Era. Crucificado de cabeça para baixo foi o primeiro bispo da igreja romana, e, ainda, o primeiro Papa.
Jesus de Nazaré parecia aturdido com aquelas notícias.
- Meu fiel discípulo de Betsaida, grande pescador de Cafarnaum, meu Kepha que me viu subir até as nuvens em Betânia - um líder romano?
Logo Pedro foi arrebatado por um grupo de querubins até o trono. Beijou os pés do Mestre, visivelmente emocionado. Centenas de helicópteros já cercavam o Tribunal celestial e os canais de televisão transmitiam freneticamente o grande evento.
- Vamos partir imediatamente para Jerusalém - ordenou Jesus de Nazaré. Pedro - atente para o que teria escrito Mateus, em 16,18: "Pedro, tu serás a pedra sobre a qual edificarei minha igreja". Nunca ouvi falar em igrejas. Sinagogas são as casas de meu povo. E agora vejo que te tornaste aliado dos romanos, esses invasores de Israel que destruíram o templo de Jeovah e mataram mais de um milhão de nossos irmãos.
Pedro, o judeu que também era conhecido pelo nome de Simão, filho de João, assentiu com a cabeça. Sua silenciosa resposta denotava que ele não estava muito seguro do que escrevera o evangelista Mateus, anos após sua morte. Os trilhões de neurônios cerebrais ressuscitados ainda não estavam funcionando harmonicamente. Dois mil anos tinham se passado. Qualquer erro na reconstrução desse complexo cerebral teria sido fatal.
Jesus de Nazaré estava fascinado pela grandiosidade daquela cidade que lhe disseram ser Roma, a capital dos dominadores e destruidores de sua amada Jerusalém. Nunca saíra do solo, em vida, nem do céu bíblico existente sobre essa milenar Jerusalém, depois de ter sido arrebatado para o alto, em Betânia, após sua ressurreição dos mortos, no túmulo emprestado de outro israelita.
- Vamos examinar que espécie de sinagogas são essas ekklesias logo que chegarmos a Israel – observou o Mestre. Mas desde já tenho que declarar ao Tribunal do Juízo Final: meus templos eram as sinagogas. E na Torá não há qualquer referência a tal ekklesia e o povo de Jeovah nunca as adotou.
Enquanto o séquito com mais de dez milhões de anjos se deslocava rumo ao mar Mediterrâneo, via Jesus de Nazaré a deslumbrante e para ele desconhecida basílica e as inúmeras edificações com torres e seus estranhos sinos badalando em toda a cidade. Roma, a capital do poderoso exército que destruíra o orgulho do seu povo durante décadas. Roma, a cidade de onde viera Pôncio Pilatos para pisotear seus irmãos judeus. Roma, de onde vieram os centuriões e soldados que golpearam o martelo que cravou os pregos em seus pés e mãos na cruz do Gólgota.
Atravessaram o mar, impulsionados pelas asas das nove ordens de anjos. Divididos em legiões, voavam formando uma corrente sinuosa de vários quilômetros e brilhavam como cardumes de peixes prateados em noite de lua cheia. Os ventos eram favoráveis e não havia nuvens. Próximo a Tel Aviv -dezenas de aviões-caça israelenses voavam em círculos sobre os tronos. O ruído era ensurdecedor. Helicópteros se aproximaram e, com o uso de megafones, determinaram que o cortejo se identificasse. Jesus de Nazaré assim o fez e confirmou que eram cidadãos judeus e que iriam permanecer em Jerusalém, entre o Gólgota e a Geena, onde se realizaria o julgamento do Juízo Final. Os radares registravam a presença das trombetas, dos tronos de madeira e metais preciosos, de vinho em barris e de cálices, além de milhões de espadas portadas pelos anjos. Todas as linhas aéreas tiveram seus percursos alterados.
Avistaram a costa de Israel. Sobrevoaram Gaza e Beth Govrin. Passaram ao largo de Herodium, a leste e Huldah à esquerda e, mais ao Norte, Sha’albim. Lembrou o Mestre: todos esses lugares possuíam sinagogas, em seus tempos de vida, há dois milênios.
O cortejo estava finalmente em Jerusalém. Observou Jesus de Nazaré o declive repentino do Vale de Kedron e a elevação onde o rei Davi construíra sua cidade. Ao norte se via a área maciça do templo. Lá estava a Cúpula da Rocha e, próximo dela a Via Dolorosa que cortava a cidade de leste a oeste. O Nazareno parecia relembrar com orgulho seu bravo martírio por aquelas ruas da sua Jerusalém. Emocionado lembrou-se da amada mãe Maria, da outra Maria, sua tia, e da sua fiel Maria Madalena, originária de Magdala. Lembrou-se de José, o carpinteiro e de suas irmãs que não compareceram ao ato de sua crucifixão, permanecendo longe, o que o deixara muito triste. Dois mil anos não foram suficientes para destruir os registros dessa epopeia em seus recuperados bilhões de neurônios bem humanos, após três dias de sua morte.
Nuvens baixas se dissiparam e pôde observar o local em que estava a Torre de Hananeel, próxima à Porta das Ovelhas e a Porta dos Peixes. Mais ao Sul a Porta de Efraim, a Torre dos Fornos e a Porta do Vale. Lá estava o Templo, com sua Porta dos Cavalos, Porta d’Água e a prisão, no vale próximo a Ofel, Gion, Cedron e a Porta do Lixo. Rodovias asfaltadas e prédios com vários andares estavam em toda parte, inclusive em torno da Geena.
Ao longe, na direção nordeste, viu uma grande cidade. Lá deve ser Jericó, pensou. Imaginou ter visto o Rio Jordão, onde foi batizado por seu conterrâneo, o sacerdote independente João Batista. Ao leste deveria estar o Mar Morto e Tiberíades muito além, ao norte, próximo à sua cidade pesqueira, Cafarnaum, para onde se mudara saindo de Nazaré e que era dominada por edificações romanas.
Ali está o lago de Kinneret, ou Mar da Galiléia, onde Pedro tinha sua casa. Ao sul, perto de Jericó, estava Herodium , com sua sinagoga e a montanha construída pelo rei Herodes para seu túmulo, em pleno deserto da Judéia, ao sul de Belém. Ainda mais ao sul, Massada, onde combates cruentos contra os invasores romanos fizeram milhares de vítimas de seus irmãos judeus.
Reconheceu o Vale de Tropeon, próximo ao Gólgota. Do alto a Geena não estava visível. O Mestre relembrava que, nos tempos bíblicos, a Geena era um lugar assustador, onde sacerdotes sacrificavam crianças ao som de pandeiros em louvor ao deus Moloch. Havia cadáveres de criminosos ali jogados, fornalhas queimando lixo permanentemente e um odor insuportável. Nem o Inferno inspirava mais medos à gentalha, aos ignaros, à plebe, ao populacho, aos Am ha-Arez e até aos judeus abastados. Moloch era adorado pelos amorreus, em torno do ano dez da Era pré-cristã. Na adoração se praticariam atos sexuais e sacrifícios de crianças. Elas eram jogadas em uma cavidade no ventre da escultura de Moloch onde eram consumidas pelo fogo. Tinha a aparência de um corpo humano, com a cabeça de boi ou leão. Muitos povos o adoravam, mas após proibições de sacerdotes concorrentes, como Moisés e profetas de outros reinos, Moloch foi abandonado. Os habitantes de Cartago conheciam esse deus cananeu pelo nome de Cronos. Sabia o Mestre que boi, águia e leão na cabeça dos querubins podiam ter origem em relatos de sacerdotes da maioria dos povos de então.
Ameaçar com o sacrifício eterno nas fornalhas da Geena era profundamente aterrador, portanto – falava para si mesmo Jesus de Nazaré. Ele já lera os relatos dos quatro evangelistas, livros esses que foram anexados à Torá e outros livros de seu povo. Bíblia era agora seu nome - diziam.
Muito mais apavorante do que, certamente, produzir essas ameaças com o Inferno. Era fácil perceber que os rebanhos de então viam, sentiam e se atemorizavam com as chamas gigantescas nos fornos desse grande depósito de lixo e local de sacrifícios humanos, situado próximo a Jerusalém. Não era um lugar abstrato, um Inferno imaginário. Era o fogo vivo e visível conhecido por toda a população de Israel. Lembrou que a fumaça escura era impregnada com cheiro de combustível humano real. Era essa terrível Geena, claramente descrita de oito a doze vezes na Bíblia Sagrada, dependendo de quem a traduzisse. Em algumas versões a Geena foi suprimida por tradutores e substituída por interpolações. Era o fogo sem o enxofre que Jeovah retirara dos depósitos celestiais para queimar Sodoma e Gomorra e arredores. O enxofre era terrestre e indispensável o fogo dele resultante.
O premier de Israel ordenou que a força aérea retornasse às suas bases militares. Mas não paravam de chegar mais helicópteros com bandeiras de todo o mundo.
Os anjos conhecidos por Virtudes não pareciam cansados. Sustentavam os tronos batendo suas asinhas revezando-se de hora em hora com os querubins e suas quatro enormes alas, auxiliados pelos serafins e suas seis asas. Milhões de ressuscitados, surpresos e ao mesmo tempo radiantes, já aguardavam no solo da cidade santa dos israelenses. Outros humanos, em menor número, que ainda não haviam morrido, pareciam aterrorizados com a escuridão e a queda das estrelas.
Como descrito e previsto por Mateus em 24,31, sopravam os anjos as ruidosas trombetas trazidas das nuvens mais altas. “Ele enviará seus anjos com estridentes trombetas e juntarão seus escolhidos dos quatro ventos, duma extremidade do céu à outra.”
Desceram do alto, agora, mais doze tronos, já ocupados pelos apóstolos. Filipe levantou-se de um deles e, apoiado nas costas de um dos serafins, leu solenemente:
- Está escrito no Evangelho de Mateus, em 19,28: "Respondeu Jesus de Nazaré: no dia da renovação do mundo, quando o Filho do Homem estiver sentado no trono da glória, vós, que me haveis seguido, estareis sentados em doze tronos para julgar as Doze Tribos de Israel".
- Em estrita obediência ao texto bíblico, sou obrigado a declarar que os Doze Apóstolos são agora juízes das Doze Tribos de Israel – disse Jesus de Nazaré. Desde já, contudo, observo que os escritores cometem engano conspícuo. Em vez de serem julgados, os apóstolos já estão no nas nuvens e passam a julgadores.
Em seguida chegaram os Anjos Separadores, cento e oito, doze de cada uma das nove ordens.
Jesus de Nazaré - Yeshua - ordenou, fazendo um sinal com a mão direita, que as cornetas silenciassem por alguns segundos e decretou:
- Declaro empossados neste ato os Anjos Separadores, também em obediência ao texto bíblico que se lê em Mateus 13,49: "Assim será no fim do mundo - disse Jesus de Nazaré. Os anjos virão separar os maus do meio dos justos e os arrojarão na fornalha onde haverá choro e ranger de dentes".
Os repórteres noticiavam para o mundo desde os helicópteros: Mateus escrevera que haveria o fim do mundo e pessoas queimando em fornalhas. Ameaças aos dizimistas, às ovelhas. E noticiavam: não havia tronos suficientes. Não eram espíritos, pois, em caso contrário, sequer necessitariam de tronos. Assentar o que? Foram trazidas do alto do céu mais nove imponentes cadeiras reais faustosamente ornadas com diamantes, rubis, safiras, opalas e sinos de ouro. A Bíblia Sagrada em trecho algum explica por que os tronos não caem. Por dedução lógica, assim, se firmou a convicção de que sustentar os tronos, as cornetas, as espadas, o enxofre, os barris com vinho, as mesas, os cálices a carroça de fogo de Elias e os humanos, é a grande função dos milhões de anjos.
Logo chegaram os Anjos Ceifadores. O seu líder, empunhando a Bíblia Sagrada, assim se dirigiu a Jesus de Nazaré:
- Mestre - Mateus escreveu em 13,39 e seguintes: "Disse Jesus de Nazaré: a colheita é o fim do mundo. Os ceifadores são os anjos. O Filho do Homem, Jesus de Nazaré, enviará seus anjos, que retirarão do seu Reino todos os escândalos e todos os que fazem o mal e os lançarão na fornalha ardente, onde haverá choro e ranger de dentes. Então, no Reino de seu Pai, os justos resplandecerão como o Sol". Viemos, portanto, cumprir nossas funções.
- Fim do mundo – anuncias, novamente, Mateus? Eu teria ordenado assassinatos em fornalhas? Não dizia eu em meus sermões que devemos perdoar? Vamos examinar esses escritos logo mais.
Eram incontáveis os Anjos Ceifadores. Decidiu-se que mais nove tronos seriam trazidos da parte superior do céu e ocupados pelas nove ordens de anjos, sempre ao som de estridentes trombetas. Eram assopradas pelas mais conhecidas aves humanóides: Anjos, Serafins, Arcanjos, Querubins, Potestades, Principados, Domínios, Tronos e Poderes. Os serafins possuíam seis asas, como o atesta no Velho Testamento bíblico o sacerdote israelita Isaías em 6,2.
Jesus de Nazaré parecia inquieto: ainda não chegara Jeovah, com seu trono. Temia-se que ele não compareceria, já que nunca concordara que houvesse ressurreições após a morte de israelitas.
- Leio em Mateus 18,10: "Os anjos no céu contemplam sem cessar a face de meu pai que está nos céus". E leio em 8,11, do mesmo Mateus: "Eu vos declaro - disse Jesus de Nazaré - que multidões virão do Oriente e do Ocidente e se assentarão no Reino dos céus com o Patriarca, Isaac e Jacó, enquanto os filhos do Reino serão lançados nas trevas exteriores, onde haverá choro e ranger de dentes".
- Leio que as multidões devem assentar-se – continuou o Mestre. Em tronos, certamente. Ou em meras cadeiras? Mateus escreveu isso. Quem ou o que sustenta esses tronos e milhões de cadeiras? Quem os fabrica? E a liberdade religiosa, o que é feito dela? Outros povos devem conviver nas nuvens com os judeus - o Patriarca, Isaac, Jacó e Mateus? Povos inimigos de Israel?
- Estamos em pleno Juízo Final. Nos livros judaicos não se escreveu que o Patriarca, Isaac, Jacó e Moisés - prosseguiu o mestre nazareno –, teriam ressuscitado e que integrariam os habitantes do céu? Escreveram que Elias subiu, vivo, em um carro de fogo. Nem Jesus de Nazaré pôde subir sem antes ter morrido. Também teriam subido os profetas de Jeovah, sem informações se foram elevados com corpos que não haviam morrido ou se foram carregados para o alto depois de ressuscitados por entidade ou forças não informadas.
Com grande surpresa para todos, descem do alto e se apresentam os profetas do Velho Testamento. Eram eles: Aarão, referido no livro do Êxodo 7,1; Samuel em I-Samuel 3,20; Gado, dos tempos do rei Davi, em I-Samuel 22,5; Natã em I-Samuel 12,1; Aias de Silo, em I-Reis 11,29; o Velho Profeta, em I-Reis 13,25; Gel em I-Reis 16,12; Elias em I-Reis 18,36; Eliseu em II-Reis 3,11; Isaías, filho de Amós, em II-Reis 19,2; Jeremias; Semanas em II-Crônicas 12,5; Ado em II-Crônicas 13,22; Ode em II-Crônicas 28,9; Ageu, em Esdras 5,1; Moradias em Neemias 6,14; Amós em Tobias 2,6; Ananias em Jeremias 28,1; Habacuc em Daniel 14,32; Jonas em Jonas 4,8; Zacarias em 1,1 e Joel, este do Novo Testamento, em Atos 2,16. Eram vinte e dois os principais profetas.
Vinte e dois são os integrantes também do Grujuem – Grupo de Judeus Emprestados aos gentios para que possam criar quantas seitas o desejarem – pensava com seus botões o Mestre.
- Todos falam o idioma hebraico – observou sem aguardar resposta. Eu pergunto: como chegaram até o céu? Foi Jeovah quem o determinou? Também subiram com seus corpos, como Elias, no carro de fogo? Ou ressuscitaram e depois subiram?
Os profetas se entreolharam e Eliseu, filho de Sadat, se animou a falar:
- Não sabemos. Jeovah jamais nos disse que nos ressuscitaria.
Jesus de Nazaré ordenou, assim, em hebraico, que um dos querubins subisse até as nuvens mais altas para convidar os quatro grandes líderes judeus para que viessem tomar parte do julgamento como colaboradores. As determinações bíblicas tinham que ser cumpridas. Outros quatro tronos foram trazidos do alto, sempre sustentados pelos anjos e ao som de trombetas, em rigorosa observância aos escritos bíblicos. Também desceu Elias, com um trono. Ele havia subido em um carro de fogo tracionado por cavalos em chamas e sem cocheiro quando estava vivo - confirmou o grande personagem da história israelense contida no Velho Testamento. Ordenou que viessem tronos também para os demais vinte e um profetas.
Finalmente chegou o grande deus do povo judeu, criado pelas narrativas de Moisés. Ele tocava a trombeta como o grande maestro daquela gigantesca orquestra filarmônica celestial. Todos os mais de dez milhões de anjos executavam os antigos instrumentos bíblicos em um concerto incrivelmente perfeito. Cítaras, címbalos, harpas e pandeiros acompanhavam o grande Elohin. Jerusalém tremia.
O deus israelita, Jeovah, Elohin, O Senhor dos Exércitos de Israel, vestia um deslumbrante éfod, exatamente como aquele usado pelos sacerdotes levitas do Velho Testamento. Diamantes, rubis, esmeraldas e safiras resplandeciam, ofuscando com seu brilho os olhares dos integrantes do grande julgamento. O seu trono era feito de ouro e marfim trabalhados ricamente sobre cedro do Líbano.
Yeshua - Jesus de Nazaré, em hebraico:
- Vejo que se cumpre o que está escrito neste livro. É Paulo de Tarso, a quem não conheci em vida, o pastor dos que não eram judeus. Diz na carta ao seu rebanho de gentios, como se lê em I-Tessalonicenses, 4,15-17:
"Na vinda do Senhor Jeovah, quando for dado o sinal, à voz do arcanjo e ao som da trombeta de Deus, Adonai, Jeovah, o próprio Senhor Jeovah descerá do céu e os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro. Depois nós, os vivos, que estamos ainda na Terra, seremos arrebatados juntamente com eles para as nuvens, ao encontro do Senhor nos ares. Assim estaremos sempre com o Senhor".
- Não sei qual a fonte informativa de Paulo de Tarso para essas declarações e logo iremos inquiri-lo sobre isso - completou o grande Mestre Israelita, o Messias, o Salvador. Parece que esse Paulo quer afirmar que somente ressuscitarão os que morreram em Cristo. Em seguida os vivos que ainda estão na Terra serão arrebatados e todos juntos subirão para os ares. Para subir, devem primeiramente ser mortos? Ou sobem vivos? Quem os levantará? Quem os arrebatará? Cem bilhões não poderão ser levantados e sustentados por apenas dez milhões de anjos.
Jesus de Nazaré passou as duas mãos - em que se viam os furos dos pregos da cruz – nos longos cabelos e continuou:
- Informam que atualmente os vivos somam sete bilhões ou mais. Quem arrebatará esse descomunal número de pessoas vivas? Ou eles devem ser assassinados todos, já que Paulo afirmou que no céu somente existem espíritos? Os mortos teriam arrebatados seus espíritos? Quem os conduziria para o alto, já que são invisíveis? Paulo escreveu como já vimos: “Depois nós, os vivos, que estamos ainda na Terra, seremos arrebatados juntamente com eles para as nuvens, ao encontro do Senhor nos ares. Assim estaremos sempre com o Senhor". Aqui Paulo produz um buraco narrativo e não explica quem e como seriam arrebatados os corpos, quem os elevaria e quem os sustentaria nos ares. Ou o que seria feito de seus corpos.
Jeovah - Boreh – o Criador - parecia não concordar. Visivelmente a menção ao nome do centurião Paulo de Tarso - que, sendo também judeu se integrou às forças invasoras - não lhe agradara. Entre dentes disse para si mesmo: esses soldados romanos mataram mais de um milhão de judeus na ocupação do território israelita – o que foi ouvido pelos anjos que sustentavam seu trono para não cair.
Jesus de Nazaré leu, no Novo Testamento, o texto bíblico escrito por Lucas - médico grego e aluno de Paulo - em 21,25 e seguintes:
- “Haverá sinais no Sol, na Lua e nas estrelas. Na Terra a aflição e a angústia apoderar-se-ão das nações pelo bramido do mar e das ondas. Os homens definharão de medo, na expectativa dos males que devem sobrevir a toda a Terra. As próprias forças do céu serão abaladas. Então verão o Filho do Homem vir sobre uma nuvem com grande glória e majestade”.
O trono inclinou-se perigosamente com o vento forte que vinha do Sul. Mas logo serenou e Jesus de Nazaré prosseguiu:
- Desde já devo declarar: Lucas, o médico grego e companheiro do soldado romano Paulo de Tarso, quer impor o terror aos seus leitores e adeptos. E atribui a mim tal comportamento. Eu, que ensino a amar os inimigos, eu que ensino a perdoar até o mais cruel desses inimigos, eu que recomendo a humildade e o amor, seria capaz de provocar pavor e males aos meus irmãos?
- Como ousa esse grego – continuou - que nunca me conheceu pessoalmente, me descrever como um malfeitor, um ser desprovido de sentimentos de bondade e que traria angústia a homens e mulheres? Medo, aflição e grandes males - como ousa afirmar que minha vinda traria tudo isso? Logo deveremos esclarecer isso.
- E escreveu que Jesus de Nazaré será visto sobre a nuvem – prosseguiu. Como poderá ser visto? Seu mestre, Paulo de Tarso, não escreveu que só existem espíritos, nos céus? E os homens definharão de medo? É o medo que se quer impor aos dizimistas?
Uma ordem bíblica não fora ainda realizada. Pedro havia escrito e agora estava muito preocupado. Olhava para todos os lados e em seu rosto se estampava o pavor e o medo.
Levantou-se o principal apóstolo do Grujuem e foi até o Mestre. Grujuem – Grupo de Judeus Emprestados – é integrado por Jeovah, Jesus de Nazaré, os Doze Apóstolos, Maria e José, o Apóstolo Paulo de Tarso, os Quatro Evangelistas e o Anjo Caído, mais conhecido como Diabo.
Abriu a Bíblia Sagrada e leu, com a voz trêmula e o suor correndo por todo seu corpo, na sua Carta II-Pedro 3,10-12:
-“Virá o dia do Senhor como ladrão. Os céus passarão com ruído, os elementos abrasados se dissolverão, e será consumida a Terra com todas as obras que ela contém; nesse dia de Deus, de Jeovah, se hão de dissolver os céus inflamados e se hão de fundir os elementos abrasados!”.
Yeshua - Jesus de Nazaré:
- A implantação do terror! O Dia do Senhor está em pleno andamento, Pedro. O que escreveste é realmente o prenúncio de uma tragédia. A Bíblia Sagrada diz claramente que a Terra e os céus serão queimados, serão consumidos. E está também escrito em tua carta bíblica, em II-Pedro 1,21, que: “Jamais uma profecia foi proferida por efeito de uma vontade humana. Homens inspirados pelo Espírito Santo falaram da parte de Deus”.
O pânico tomou conta do Juízo Final – noticiavam os jornais. O francês Les Ecos comentava: O próprio Jeovah teria inspirado a Pedro, o sacerdote profeta. Portanto não se trataria de uma inverdade.
A Bíblia não mente, ela é sagrada, dizem todos os sacerdotes – noticiou o jornal italiano La Stampa. Os astros do céu poderiam se dissolver a qualquer momento. Na Terra o fogo atingiria mais de cem bilhões de ressuscitados e mais os vivos. Seria o fim do céu e do planeta Terra. Seria o fim dos anjos, de Jeovah e de todos os habitantes do céu. Para sempre. Não haveria mais a necessidade de se aguardar que o Sol se tornasse uma Supernova para atrair os planetas e os consumir, como está previsto pelos cientistas para dentro de poucos milhões de anos.
A Bíblia teria sido um grande equívoco? - indagava na primeira página o Le Courier, da Suíça. Nem Moisés nem os apóstolos sabiam que a Terra é redonda. Seu mundo era plano e as suas fronteiras eram o Mar Mediterrâneo e o mundo grego – comentava o jornal. E indagava: o deus Jeovah não sabia que a Terra é redonda? Não foi ele que a fez? Anjos são de carne e ossos, e falam hebraico!
Já o Il Messaggero estampava: Anjos, Onde Estavam Até Agora? E comentava: Esses seres nunca capturados deixaram de aparecer no fim do período bíblico, ocorrido há dois mil anos – por quê? Retornaram! Estão de volta e agora aos milhões!
O jornal espanhol El Mundo exibia a manchete: Anjos – Eles Voltaram!
O Sunday dizia: Anjos: Os Verdadeiros Astros.