Juízo Final: Odisséia dos Deuses
Capítulo 91
Sara Moshê retornara sem dar qualquer notícia sobre a reconstrução da Geena, supostamente para servir de fornalha bíblica e que usaria material radioativo. Mas descobriu que várias reuniões haviam sido realizadas entre os ocupantes de tronos do Juízo Final.
As decisões não tardaram a surtir seus efeitos. Helicópteros israelenses subiram com um tablado de madeira que media setecentos côvados em cada lado. Era suspenso por quarenta cabos de aço suportados por helicópteros. Na parte central havia um círculo cujo diâmetro media quarenta metros. Nesse círculo estava a estrela de Davi, em material transparente que permitia olhar para Jerusalém e arredores. Embaixo da madeira havia uma placa de material à prova de balas.
Os tronos foram colocados sobre o tablado. As duas divindades judaicas ocuparam o centro da estrela de Davi e podiam ver comodamente o que se passava abaixo deles, no solo de seu país. Um trono mais foi colocado ao lado dos outros dois, formando um semicírculo. Era todo de ouro maciço. Os leões esculpidos ao lado tinham cada qual, um diamante encravado no local dos olhos. Eram de rara beleza e brilho. Especulavam jornalistas israelenses que essas pedras tinham sido encontradas nas minas do Rei Salomão e teriam sido descobertas no seu sepulcro. Na parte superior do trono havia uma placa de ouro cravejada com mais diamantes e estavam os nomes das Doze Tribos de Israel.
Todo o Tribunal do Juízo Final estava instalado agora confortavelmente. Até o vento amainara e o Sol brilhava.
Um novo helicóptero chegou. Desembarcaram o Primeiro Ministro de Israel e a recém-eleita presidenta da Organização das Nações Unidas. Saudaram a todos. Do alto surgia, acompanhada de centenas de serafins, querubins, arcanjos, principados, poderes, virtudes, tronos, denominações - a Deusa Oculta. Foi conduzida para o magnífico trono, sentou-se, sorriu para todos e disse:
- Senhores, sentem-se e sugiro que iniciemos nossa conferência. Antes, porém, quero agradecer o convite que me fizeram e enfatizar: a igualdade das mulheres deve ser declarada em todo o planeta. E quero reafirmar que eu lutarei, com todas as minhas forças para isso. Meu nome foi omitido, durante milênios. Mas agora quero dizer aos incrédulos: é bíblica a minha existência. Os filhos de Jeovah nasceram de meu ventre. Não podem ser gerados filhos sem que haja o ventre de uma mãe. É lamentável que os varões de Israel não tenham jamais feito menção à minha existência celestial. Repito: sou a mãe dos filhos de Jeovah que desceram e tiveram filhos, por sua vez, no solo terrestre.
Todos os olhares se dirigiram a Moisés, o grande sacerdote que escrevera os cinco livros do Velho Testamento, o Pentateuco. Jesus de Nazaré disse:
- Senhor Primeiro Ministro do Estado de Israel e senhora Presidente da ONU que nos honram com sua visita. Necessitamos de sua ajuda. Deveríamos estar julgando milhares de pessoas por minuto e, mesmo assim, levaríamos milhões de anos para finalizar nossos trabalhos. Até agora foram julgados somente algumas dezenas de réus.
Todos ouviam atentos enquanto as televisões do mundo retransmitiam o encontro inusitado e não previsto na Bíblia Sagrada. Continuou o Mestre de Nazaré:
- Além de faltar comida e água, chegam notícias de que parentes dos ressuscitados continuam ou em seus túmulos, ou simplesmente não têm qualquer notícia deles. Constatamos que muitos milhões de mortos não ressuscitaram simplesmente porque não puderam ser identificados ou não foram encontrados seus corpos. O caso mais grave é o de Hiroshima e Nagasaki, em que os corpos foram desintegrados pelas bombas atômicas lá jogadas. Os ossuários de milhões de cemitérios também não viabilizam uma identificação. Milhões de humanos pereceram afogados nos mares e seus ossos foram triturados por peixes. Outros foram cremados. O que sugerem?
O Primeiro Ministro:
- O problema dos alimentos é o maior. Os milagres das multiplicações devem continuar. Já sobre as falhas em ressurreições, sugiro que o responsável por esses fenômenos seja ouvido.
Jesus de Nazaré:
- Eu repito: sou o arauto da fraternidade, do amor, do perdão e da caridade. Mas não posso continuar indefinidamente a produzir peixes, pão e vinho. O pão depende de grandes quantidades de trigo. O vinho de parreirais e, o que é pior, de muitos meses e anos para a produção de bilhões de litros que são requisitados. Os peixes também necessitam de tempo e, por sua vez, grandes quantidades de alimentos.
O tablado balançava ao menor vento. Tinha uma área enorme e funcionava como uma vela de um navio. Continuou:
- Já as ressurreições foram preditas biblicamente por Mateus, Marcos, Lucas, João, Paulo de Tarso, Pedro e outros. Cabe a eles fazer cumprir os escritos sagrados.
Paulo de Tarso:
- Escrevi que nem ossos nem carne nem anjos existem no céu. Não necessitam, assim, que as ressurreições os revistam de tecidos e órgãos. Basta que sejam ressuscitados como espíritos.
Subitamente uma grande explosão fez com que vários helicópteros rodopiassem, soltando os cabos que sustentavam o tablado. Imediatamente dezenas de serafins entraram em ação, agarrando e segurando os cabos.
- São os costumeiros atentados que se fazem contra Israel – informou o primeiro ministro. Meus soldados logo controlarão a situação.
Jesus de Nazaré:
- Perdoa os agressores, Primeiro Ministro. Se te baterem na face, oferece-lhes a outra. Ama os teus inimigos. Se eles tomarem tua túnica, dá-lhes também a capa.
Várias explosões atingiram os helicópteros, os serafins e o próprio tablado. A situação seria desesperadora não fosse a ação rápida de uma legião inteira de anjos Potestades. Seguravam todos os cabos e o farfalhar das asas lembrava o cântico de uma gigantesca cascata. Lá embaixo tanques do exército bombardeavam os redutos inimigos. Mas os mísseis não paravam de explodir contra o tablado e as Potestades. As brancas asas se tingiam do sangue rubro das aves humanas.
A Deusa Oculta perdera a paciência. Olhava para Jeovah reprovadoramente e pelo seu telefone celular emitiu uma ordem. Instantaneamente quarenta anjos Destruidores esvoaçavam diante da divindade feminina.
Ela estendeu a mão direita, indicando o local de onde surgiam os mísseis.
- Agora! Destruição total! Que não sobre nenhum agressor!
Os anjos Destruidores desembainharam suas espadas de fogo e desceram em quatro grupos de dez anjos. Um rastro de chamas lembrava um grande cometa caindo.
Jeovah parecia acabrunhado. Tardara em dar aquela ordem. Os Anjos Destruidores já tinham agido biblicamente quando somente um deles matou, numa noite, cento e oitenta e cinco mil assírios, como está no relato II-Reis 19,35, do Velho Testamento.
Os ataques pararam e os Anjos Destruidores estavam de volta. O seu líder informou que haviam sido mortos em torno de setecentos e setenta goin. Os anjos voltaram a seus postos, sempre prontos a agir. Eram chamados pelos repórteres americanos de The Destroyers Angels.
A Deusa Oculta:
- Perdoem senhores - mas devo interferir nesta conferência. Os sacerdotes escreveram e criaram esse tumulto. Prometeram esta ressurreição geral. E para quê? Para deixar bilhões de humanos no céu, passando fome, sede, frio e temendo cair a qualquer momento? Ou para permanecerem eternamente sendo assados em fornalhas? Ou engolidos por turbinas de aviões? Ou alvejados por nossos inimigos?
A voz da Deusa Oculta lembrava o suave murmúrio das harpas. Mas, ao mesmo tempo, deixava entrever que poderia explodir em erupções vulcânicas implacáveis. Tinha força e exalava ternura, numa mescla que a todos fascinava. Já não riam da revelação de sua existência. Os jornais da Terra reconheciam: não poderiam existir filhos do deus judaico sem uma mãe que os gerasse. A Deusa Oculta fora discriminada, efetivamente, pelos sacerdotes narradores.
- Muitos ainda não me admitem e eu compreendo isso. Não me aceitam porque são os homens os que me ocultaram. E agora aqui estamos nessa estrada sem saída nem retorno. O que dizem os grandes varões dizimadores? O que farão agora? Deixarão suas vítimas congelando nas nuvens ou queimando em fornos?
Todos ouviam atentamente. Os que assistiam as transmissões pelos meios de comunicação, no solo da Terra, jamais imaginaram que novas surpresas espetaculares pudessem ocorrer no Julgamento do Juízo Final. Prosseguiu a Deusa:
- Mas, queridos dizimados: temos algo ainda pior a ameaçar a todos. Nunca lhes ocorreu, sacerdotes, pastores, presbíteros: quem e o que poderá obrigar aos admitidos no céu permanecer nas nuvens, nas alturas? Quem os impedirá de descer novamente para a Terra? E quem obrigará os infelizes condenados a continuar queimando, seja onde for? Bilhões de condenados.
Os quatro evangelistas, Paulo de Tarso e os treze apóstolos ressuscitados olhavam para baixo. Muitos escondiam o rosto com as mãos, como se estivessem pensando profundamente em algo.
- E quem administrará – continuou a Deusa Oculta - outros céus e Infernos, ou Geenas, situados necessariamente em outros países ou continentes? Haverá comunicação entre o céu da Terra do Fogo, da Ilha de Páscoa, do Alasca, do Caribe, do Kenia, de Moscou, Los Angeles, Paris, Ilhas dos Açores, do Tibet, de Pequim, de milhares de ilhas do Havaí, Indonésia, Taiti, Japão, Nova Zelândia, dos imensos desertos como o do Saara, da Mata Amazônica onde tribos jamais foram constatadas por civilizados? Ou esses ressuscitados e vivos serão transportados todos para o espaço aéreo de Israel? Quem os obrigaria a se deslocar de suas casas e seus lugares de origem quando vivos? E quem amamentaria os milhões de crianças ressuscitadas ou vivas, no frio do céu ou no calor das fornalhas?
A Deusa Oculta estava muito indignada. Seus lábios tremiam.
- Sacerdotes varões. Embolsaram dízimos. Outros viveram sendo admirados em altos postos. Os dizimados beijavam seus anéis. Pois agora chegou a sua vez. Ou encontram uma solução para o caos da fome que flagela o solo terrestre, ou a minha ira será muito mais terrível do que a ação dos meus Anjos Destruidores.
- Quero advertir – continuou - a todos os humanos que vivem da grande indústria sacerdotal – completou. Os estudos que fazem sobre detalhes históricos; escavações para tentar localizar restos mortais e vestígios de personagens e fatos bíblicos, tudo isso é inútil. Rios de tinta de astúcia. Indústria dos dizimistas. Visitas a Jerusalém, essa velha cidade repleta de sombras de mortos, ao Rio Jordão, a Belém e Nazaré, somente servem para enriquecer as companhias de viagem e os que vivem ao seu redor, produzindo impostos aos governantes. Voltem para suas casas e empreguem seu dinheiro em melhoramentos de escolas e da ciência para seus filhos. Velem para que não se repita o opróbrio do incêndio da biblioteca da Alexandria perpetrado pelos agentes romanos. Usem o seu dinheiro para criar segurança às mulheres, combater a ignorância e os beócios vendedores de delírios. Logo os humanos chegarão a Marte e prolongarão a vida dos seus filhos por muitos anos graças ao conhecimento. Busquem esse conhecimento e fujam do obscurantismo dos que se negam a trabalhar e vivem de ameaças.
A jornalista Sara Moshê noticiou imediatamente: “Na Terra a classe pastoral protestava. Essa Deusa Oculta não estava registrada na Bíblia Sagrada. Não existia, realmente. Como poderia surgir -do nada - essa audaciosa divindade?”. O Diário de Notícias: “Quem Possui Pai, Possui Mãe”.