Juízo Final: Odisséia dos Deuses

Horst Schadeck · Capítulo 24 de 96

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Juízo Final: Odisséia dos Deuses

Capítulo 23

 

Chegou então um dos seres humanos ressuscitados muito estranho. Jesus de Nazaré:

- Vejo que estás vestido com peles de animais. De onde vens?

- Não sei – respondeu a criatura através de rosnados traduzidos pela Maschiene.

Jesus de Nazaré convocou um cientista que assim descreveu o homem após analisá-lo demoradamente:

- Ele viveu há oitocentos mil anos, na Indonésia, na ilha montanhosa de Flores. Seu esqueleto foi lá encontrado, estudado e catalogado. Desapareceu do Museu de Londres logo que eclodiu o Juízo Final.

Jesus de Nazaré:

- O que tem a dizer sobre isso, Jeovah Hosseus – O Senhor Que Nos Criou?

- Deves perguntar a Moisés. Segundo ele escreveu no Pentateuco bíblico – falou Jeovah – eu criei Adão e Eva há menos de seis ou sete mil anos. O que é um absurdo, convenhamos.

Jesus de Nazaré:

- Moisés mentiu? A Bíblia mente? E como Moisés poderia saber dessa criação de Adão e Eva, cinco ou dez milênios após? Mas, pouco importa isso agora. Esse homem aqui presente viveu há oitocentos mil anos, como provou o teste de carbono realizado em Londres. Moisés não merece crédito, portanto?

Tomé levantou-se:

- Pois eu não acredito nessa história de teste de carbono. Exijo que esse teste seja realizado imediatamente e aqui sob nossa supervisão.

- Vejo que continuas desconfiado. Só acreditaste em minha ressurreição depois que puseste teu dedo no furo das minhas mãos, onde os pregos me sustiveram na cruz, numa ressurreição sofrível. Pois que se tragam os equipamentos para o teste.

Os helicópteros não tardaram e logo o teste do carbono estava em andamento. Uma gota de sangue foi obtida após grandes esforços dos soldados e dos anjos. O idoso ressurreto era bastante forte e se debatia desesperadamente. O exame confirmou tudo. Tratava-se efetivamente de um homem ressuscitado que vivera e morrera há oitocentos mil anos.

O julgamento desse réu foi adiado. Casos como o dele talvez devessem ser resolvidos em julgamento coletivo – especulavam principalmente os Anjos Separadores e os Anjos Ceifadores.

Finalmente foi trazido o casal que aguardava atrás dos tronos. Suas vestimentas mostravam que eram ressuscitados. Instados a apresentarem suas alegações, disseram em aramaico:

- Somos naturais de Cafarnaum, a cidade que, segundo os evangelistas escreveram, tu terias condenado ao Inferno antes mesmo de sermos julgados neste Juízo Final. Mas como já observamos neste Juízo Final, tua bondade jamais permitiria tal condenação sem defesa e nem tais palavras tão rudes como lemos em Lucas 10,15: “E tu, Cafarnaum, até ao Inferno serás precipitada”.

- Li esse texto com muita tristeza – respondeu o Mestre. Prossigam com sua defesa.

- Certamente. É que não recebemos teus discípulos. Chegaram vestidos muito pobremente. Pareciam mendigos. E desejavam ser recebidos em nossas casas. Diziam que em cidade próxima havia um israelita que seria um segundo deus de Israel. Obviamente que, como bons e fiéis seguidores de nosso temido deus Jeovah, não podíamos dar atenção ao que nos diziam. E proferiam ameaças. Caso não acreditássemos no que nos diziam, seríamos queimados nos fornos da Geena, a lixeira situada em Jerusalém.

Jesus de Nazaré sorriu. Parecia surpreso com o que ouvia:

- Pois nunca me ocorreu postar-me no lugar dos receptores de nossas mensagens. E tenho que reconhecer: é estranho ser visitado por pessoas até maltrapilhas e delas ouvir coisas que contrariam frontalmente os mandamentos de Jeovah, o grande e único deus de Israel. E mais incrível é que alguém receba em seus lares tais pessoas desconhecidas.

A mulher de Cafarnaum que se mantivera a certa distância, como era de praxe entre os varões de Israel, criou coragem, adiantou-se sob o olhar reprovador do seu esposo e disparou:

- Esses senhores disseram que Jesus de Nazaré iria morrer e ressuscitar. Disseram que, se minha família cresse neles, todos seriam ressuscitados, contrariando os ensinamentos de nossos rabinos. Isso nos pareceu extremamente estranho e eu logo insisti para que meu marido os enxotasse de nossa casa.

- Visto assim, olhado desse ângulo, não posso te recriminar, mulher. Estavas defendendo tua família, teus filhos e teu marido de pessoas suspeitas. Devias ter acreditado, no entanto.

- Por quê? – indagou a mulher. Por que deveria eu acreditar numa história tão absurda e que contrariava os mandamentos de Jeovah, nosso supremo Deus há milênios, nosso Jeovah Rafa – o Senhor Que Nos Ama?

Jesus de Nazaré:

- Pois também eu não sei responder a isso! Por que dar comida e dízimos a pessoas estranhas somente porque elas se dizem pastores ou novos rabinos com novas histórias? Por que acreditar que certo Jesus de Nazaré viria a ressuscitar dos mortos, somente porque os andrajosos assim o afirmam?

Respondeu a mulher:

- Mas o pior para mim e minha família foram ameaças proferidas por essas pessoas. Foram palavras terríveis e eu entrei correndo para dentro de minha casa.

Jesus de Nazaré:

- Compreendo. O que disseram?

- Disseram que seríamos queimados na Geena de Jerusalém se nos negássemos a crer no que diziam e nos recusássemos a fornecer-lhes mensalmente dez por cento do salário de meu marido. E o mais incrível: teríamos que morrer e ressuscitar, sermos submetidos a um julgamento por anjos nas nuvens, por Jesus de Nazaré e pelos próprios visitantes.

Jesus de Nazaré não se conteve. Uma gargalhada divina ecoou pelo Juízo Final, fazendo tremer os tronos e os anjos que os seguravam batendo suas asas. Levantou-se o Mestre de seu trono e foi até o casal e abençoou os dois.

Novamente os atos do Nazareno deixavam perplexa toda humanidade. Ele estava louvando dois descrentes, dois incrédulos, dois seres humanos que confessavam claramente que não aceitam a evangelização?

- Vamos ler juntos, Lucas 10,3 e seguintes, resumidamente: “Disse Jesus: Ide! Envio-vos como cordeiros para o meio dos lobos. Não leveis bolsa, nem alforje, nem sandálias; entrando nas casas que vos receberem, ficai comendo e bebendo do que eles tiverem, pois o trabalho merece o seu salário. Se não vos receberem na cidade, dizei que ao Inferno ela será precipitada”.

Os jornalistas estavam atônitos. O texto de Lucas era claro como o sol ao meio-dia. Ou essas pessoas, sem sandálias, alforjes ou bolsas recebiam sustento sem prestar trabalhos, ou os visitados que se recusavam a essa forçada hospedagem, seriam precipitados no lugar chamado Inferno.

Jesus de Nazaré prosseguiu com o julgamento:

- Devo dizer que estou perplexo. Escrevem que eu teria recomendado que os apóstolos se aproveitassem dos visitados, comendo e bebendo sem pagar! E o pior: escreveram que eu houvesse recomendado que a cidade seria precipitada no Inferno ou na Geena se não acolhessem as pessoas que chegam para comer gratuitamente. Ou seja, uma vingança, uma ameaça contra os visitados. Isso é um opróbrio. É nauseante. E deveriam ser aceitos nas casas, sem sandálias, exalando o cheiro desagradável dos seus pés embarrados? Sem mudas de vestimentas? Conviver com as crianças, acabando com sua privacidade? Sentar nas mesas ou no chão para comer, com os andrajos que vestiam? Ocupar camas limpas nesse estado deplorável? E todos temendo o Inferno anunciado por ordem minha?

- Voltando ao tema anterior – continuou - não acreditaram os réus em minhas mensagens. Isso os condena, segundo os textos escritos pelos apóstolos. Não foram batizados. Isso os condena. Não se arrependeram de seus pecados. Isso os condena. Foram justos, pelo menos?

- Ninguém pode ser justo a vida toda. Temos que ser sinceros.

- Isso é péssimo diante de Jeovah também. Tenho que acatar a Bíblia Sagrada e, infelizmente condená-los, embora reconheça seus argumentos.

Antes que a sentença fosse proferida, voltou a mulher a falar:

- Temos um pressuposto que obriga a este Tribunal proferir nossa absolvição. É que temos uma filha que morava em Jericó e que era adepta fervorosa dos apóstolos. Ela pertencia aos ebionitas.

Jesus de Nazaré, muito contente, sorrindo abriu a Bíblia Sagrada e decretou:

- Está escrito por Paulo de Tarso, em I-Coríntios 7,14: “O marido que não tem a fé é santificado por sua mulher e a mulher que não tem a fé é santificada pelo marido que recebeu a fé. Do contrário os vossos filhos seriam impuros, quando, na realidade, são santos”. Esse é o mais absurdo de todos os buracos narrativos bíblicos. Paulo inovou para seus dizimistas. Um marido assassino, descrente, facínora, terá que ser elevado aos céus após ser forçadamente absolvido no dia do Juízo Final. Basta que sua esposa seja crente em Jesus de Nazaré. Estou feliz por poder absolver mais esta mulher.

Chegou um habitante de origem romana da capital Tiberíades – a cidade com o nome do Imperador romano Tibério. Nela viveram os funcionários do governo romano.

- Nunca fui até sua cidade nem a Séforis – falou Jesus de Nazaré. Isso embora estivesse essa capital distante somente cinco quilômetros do lugarejo Nazaré.

- Ouvi falar de vocês – respondeu. Comentavam que eram um bando de andrajosos que não eram dados ao trabalho e que viviam como pedintes, perambulando em lugares miseráveis e perturbando a ordem imposta por nós, romanos.

- Sim, nós íamos procurar nossos adeptos em lugares pobres. A capital seria muito perigosa para nós. Herodes Antipas era o governador. Havia oito mil habitantes e dez mil em Séforis. Os impostos sufocavam meu povo. Nas cidades moravam os integrantes da máquina administrativa. Os demais eram campônios ignaros, descendentes dos adoradores do deus Baal.