Juízo Final: Odisséia dos Deuses
Capítulo 15
Pedro se preparava para exarar seu voto, quando mais de mil trombetas soaram, manejadas pelos querubins - exímios executores desse instrumento, apesar das faces de leão, boi e águia que acompanhavam o rosto humanóide. Os helicópteros se afastaram e uma legião de serafins se aproximou lentamente conduzindo doze ressuscitados trazidos de Veneza e de Tel Aviv.
Jesus de Nazaré olhou para Jeovah interrogativamente. Fitou Mateus e Pedro. Ainda não se recobrara do assombro quando doze novos tronos chegaram pelas mãos dos anjos Potestades. Foram colocados em frente aos demais, formando um círculo com todos os julgadores.
Jesus de Nazaré foi até o mais próximo dos recém-chegados. Estava a dois palmos do rosto do seu discípulo mais apreciado, Pedro - o agora ressuscitado vindo do solo – não aquele que descera num trono para julgar as doze tribos de Israel. Abraçaram-se e foram até o outro assento bíblico, em frente, onde o outro Pedro calmamente assistia a tudo.
- Quem é esse que se parece tanto comigo? - perguntou o recém-chegado.
- Esse é o Pedro que a Bíblia diz que viria do alto do céu no Dia do Juízo Final. Obviamente que o Livro relata tanto a ressurreição de todos os mortos, como a descida do céu dos doze apóstolos. Eles chegaram do alto do céu no exato momento da deflagração do Juízo Final. E, como consequência lógica, ressuscitaram todos os mortos terrenos para serem julgados junto com os vivos terráqueos. São dois Pedros, dois Mateus, dois Judas - enfim, dois apóstolos idênticos de cada um dos treze. Eram treze porque, com o enforcamento de Judas Iscariotes, os apóstolos sortearam um substituto, tendo sido Matias o vencedor.
Mateus não podia acreditar no que via. Um sósia. Era igualzinho a ele:
- Isso é impossível. Eu jamais disse que haveria dois exemplares de cada um dos apóstolos. Isso não pode ser aceito como verdadeiro.
Jesus de Nazaré:
- Mateus, você e seus aliados bíblicos escreveram, sim, que haveria dois de cada. Podes ler - a Bíblia Sagrada não mente e não se engana: no Dia do Juízo Final descerão os doze apóstolos para julgar as Doze Tribos de Israel. Confere com o que acabaste de ler no Livro? Vou ler: Mateus 19,28: “Vós, que me haveis seguido, estareis sentados em doze tronos para julgar as Doze Tribos de Israel” .
Sem aguardar resposta, Jesus de Nazaré:
- Consta do Livro Sagrado: no dia do Juízo Final os mortos ressuscitarão. Do alto das nuvens mais elevadas, descerão doze apóstolos em doze tronos. Chegarão na companhia de Jesus de Nazaré, de Jeovah, dos Anjos Separadores, dos Anjos Ceifadores, dos vinte e dois profetas do Velho Testamento, além de Moisés, o Patriarca, Isaac, Jacó, Moisés, Elias.
- Um dos apóstolos desce das nuvens – prosseguiu - com seu trono, para julgar as Doze Tribos de Israel, e o outro, ao mesmo tempo, seu sósia, sai da tumba terrena e sobe para ser julgado! A Bíblia não diz falsidades, não mente.
Mateus, Pedro e os demais se entreolharam. Disse Judas Iscariotes:
- Quem está falando aqui é o Judas que desceu do céu, ou seja, o Judas juiz das Doze Tribos de Israel. Na minha frente está Judas recém-ressuscitado, lá no solo de Israel. Sei que se trata de um absurdo, mas não há como fugir do texto bíblico. Somos dois – disse e abraçou o Judas que havia se enforcado e que acabara de ressuscitar na Terra e subira para ser julgado.
Jesus de Nazaré:
- Bem, não há o que fazer. A Bíblia diz que todos devem ser julgados. Vamos prosseguir, agora com mais treze juízes, já que também Matias acabou de ressuscitar. Matias é o décimo terceiro apóstolo, escolhido por sorteio após a morte de Judas Iscariotes.
Em seguida teve prosseguimento o Juízo Final. Trouxeram os arcanjos um soldado romano ressuscitado. Ele teve que ser cercado e, após uma refrega, foi capturado.
- Como se chama e de onde vens? - perguntou Jesus de Nazaré ao recém-chegado para julgamento.
- Sou o soldado romano que decepou a cabeça de Tiago. Quero lançar meu protesto. Como soldado romano, não posso admitir que eu seja preso sem uma ordem expressa de César.
Os dois Tiagos ergueram-se de seus tronos. O ressuscitado apontou com o dedo indicador e falou para seu sósia:
- Sim, é ele! É o romano que me matou.
- Silêncio! - ordenou Jeovah, visivelmente contrariado com todo aquele alvoroço. Tragam-no a mim, quero ser o primeiro a julgá-lo.
- O que tens a dizer em tua defesa, romano?
- Cumpri ordens dos oficiais superiores.
Jeovah, falando hebraico, língua que usara com Adão e Eva e seus filhos que haviam descido para desposar as mulheres belas da Terra e ao escrever nas pedras os dez mandamentos entregues a Moisés:
- Muito bem. Vejo que foste inimigo do meu povo. Você e os seus aliados mataram um milhão de judeus, nos tempos de Pôncio Pilatos. Não és judeu. Minha ira se abata sobre você. Lepra, tísica e hemorroidas te acompanharão eternamente.
Jesus de Nazaré:
- A respeito dos pressupostos bíblicos de admissibilidade eu te pergunto - soldado: foste justo, te arrependeste de teus pecados, foste pobre, creste em mim, não blasfemaste contra o Espírito Santo e foste batizado?
O militar romano soltou uma sonora gargalhada:
- Meu Deus chama-se Invictus. É o Deus que nós romanos tínhamos há dois mil anos em Roma e nos territórios ocupados por nossos exércitos. Respondo não a todas suas perguntas. Eu, batizado por um civil vencido, eu, o dominador de toda a Palestina e da maior parte do mundo?
Jesus de Nazaré:
- Você sabe que os romanos trocaram de deus. Invictus foi abandonado e foi adotado o deus judaico, Jeovah, aqui presente, também denominado Senhor dos Exércitos de Israel.
O romano riu estrondosamente e foi até os dois Tiagos:
- Então meu grande e glorioso povo romano adotou o deus judaico! Quem poderia crer nisso! E se igualam a ele, neste Juízo Final, estes outros vinte e seis judeus. Possuem votos, como juízes, que parecem ter o mesmo peso do seu deus Jeovah e deste outro deus, natural de Nazaré. E não há nenhum juiz romano! Mal posso crer no que vejo.
Os dois Tiagos aproximaram-se do soldado romano e cuspiram no seu rosto. Com uma Bíblia lhe golpearam a fronte e o empurraram para que caísse nuvens abaixo. Mas ele conseguiu agarrar-se a uma das seis asas de um serafim e à perna de uma anja. Logo os demais anjos o prenderam e trouxeram de volta para o centro do círculo formado pelo Juízo Final.
O Mestre ordenou que os dois Tiagos fossem levados ao cárcere do Juízo Final. Tinham injuriado e cometido atos discriminatórios inaceitáveis em qualquer conglomerado humano ou celestial.
Sara Moshê comentou em sua coluna matinal: “Na Terra essa insólita duplicação de
apóstolos foi objeto de grandes críticas. Isso não podia ser aceito. No entanto todos tinham que se render à lógica. Os narradores bíblicos cometiam mais um grande equívoco que poderia desacreditar o grande Livro. Outros sacerdotes diziam que se tratava de um insignificante cochilo dos evangelistas. Mas isso equivalia a dizer que esse livro não merecia credibilidade. O que era muito prejudicial para a dizimação. Se os Doze – ou Treze – não desceram para julgar, houve uma flagrante inverdade por parte de quem – evangelista, tradutor ou copista - redigiu esse texto”.