Juízo Final: Odisséia dos Deuses

Horst Schadeck · Capítulo 81 de 96

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Juízo Final: Odisséia dos Deuses

Capítulo 80

 

Jesus de Nazaré atendeu aos insistentes pedidos das emissoras de televisão. Convocou para depor, como testemunha, Jesus Celestial. Seus tronos foram postados frente a frente. Os holofotes os iluminavam intensamente enquanto a chuva torrencial fazia tremer de frio os anjos que mantinham no ar os pesados móveis de marfim e ouro.

Jesus de Nazaré ao seu sorridente meio irmão:

- Está escrito no Velho Testamento bíblico que você já existia no ato da criação do universo por Jeovah. Em Gênesis 1,1-3 lemos: "No princípio Jeovah criou os céus e a Terra e disse: Faça-se a luz!”. Você e seu pai Jeovah viviam na escuridão mais completa, já que, como está escrito em Gênesis 1,14 "Jeovah disse: façam-se luzeiros no firmamento dos céus para separar o dia da noite, ou seja, as estrelas".

Jesus de Nazaré aproximou-se de Jesus Celestial:

- Pai e filho viviam na mais absoluta escuridão - estou certo? Vocês nunca viram o rosto de cada um, está correto? Fazia muito tempo que assim conviviam? Séculos, milênios, bilhões de anos terrestres? Pai e filho. Sim. E onde estava sua mãe?

Jesus Celestial não pareceu surpreso com a pergunta. Afinal, para ser filho, uma mãe seria necessária. E replicou:

- Meu caro meio-irmão. Antes de tudo, é necessário que proves a este Tribunal do Juízo Final que eu, Jesus Celestial, efetivamente existo.

- Sim! Prove! - pediam alguns repórteres dos grandes helicópteros do Vaticano de uma seita evangélica americana.

Um dos apresentadores da TV inglesa:

- O julgamento tomou rumos inesperados. O próprio Jesus de Nazaré está sendo hostilizado.

Mas Jesus de Nazaré permanecia tranquilo e sereno. Apanhou a Bíblia:

- Vou ler o que escreveu João em 15,15: "Vos dei a conhecer tudo quanto ouvi de meu Pai". E leio em 6,38: "Desci do céu não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou". E em 6,46: "Disse Jesus de Nazaré: só aquele que vem de Jeovah, esse é que viu o Pai".

Aproximou-se ainda mais de Jesus Celestial:

- Está claro que, pela lógica do relato bíblico, antes da Era atual, no dia zero do primeiro ano, havia um Jesus vivendo no céu com Jeovah. Os evangelistas o escreveram. Dizem claramente que um ser chamado Jesus viu o pai, Jeovah, habitante do céu, das nuvens. Logo ele existia e obviamente é eterno, como todos os personagens celestiais. Eles, os escritores, afirmam induvidosamente que esse Jesus, no céu, ouviu coisas que lhe dizia Jeovah. E eles afirmam que esse Jesus foi enviado por Jeovah do céu para a Terra.

Jesus Celestial:

- Muito bem. Tenho que convir que eu realmente existia. E não pode haver a menor dúvida que eu fui enviado para a Terra. Pelo menos é isso que está escrito.

Interveio o evangelista João:

- E jamais Jesus de Nazaré subiu para as nuvens durante toda sua vida terrena, desde que nasceu na manjedoura de Belém até ser arrebatado, quarenta dias após sua morte e sua ressurreição.

Jesus de Nazaré:

- Efetivamente, João. O Mestre - há que se deixar bem claro - nasceu do ventre da amada Maria e viveu na Terra até morrer. Subiu e lá encontrou Jesus Celestial.

Ouviam-se, pelas televisões, os gritos de milhares de líderes religiosos reunidos nas igrejas evangélicas dos Estados Unidos:

- Isso é um ultraje! Isso é uma heresia! Não podem existir dois Jesuses ao mesmo tempo!

Do Vaticano se ouviam os bispos e cardeais, reunidos com grande parte dos papas ressuscitados:

- Heresia! Iniquidade!

Sara Moshê, a mais renomada jornalista e apresentadora de televisão dos Estados Unidos fazia publicar: “Jesus de Nazaré foi acusado de heresia. O maior dos líderes bíblicos contrariava os interesses dos clérigos não judaicos”.

Mas Jesus de Nazaré tinha a obrigação de julgar os mais de cento e dez bilhões de humanos, os vivos e os ressuscitados. Tinha a obrigação bíblica de cumprir sua missão, doesse a quem doesse. Mas a verdade tinha que prevalecer acima de tudo.

João voltou a interferir:

- Jesus Celestial, aquele que já vivia com Jeovah muito antes de ter surgido até mesmo o povo de Israel, está bem descrito em meu Evangelho. Vou ler o que disse Jesus de Nazaré em João 17,24-25: "Pai, quero que, onde eu estou, estejam comigo aqueles que me deste, para que vejam a minha glória que me conheceste, porque me amaste antes da criação do mundo. Pai justo, o mundo não te conheceu, mas eu te conheci, e estes sabem que tu me enviaste". Está claramente escrito que um dos Jesuses já era amado antes da criação do mundo. Eu o escrevi - pelo que me lembro. Digo isso porque as interpolações nos textos bíblicos foram de grande vulto.

Jesus Celestial:

- "Me amaste antes da criação do mundo". Isso diz a Bíblia Sagrada, sim. Sou eu! Jesus Celestial! Obviamente que Jeovah só poderia me amar se eu já existisse. Como ele me amava antes da criação do mundo, logicamente eu estava já com ele, embora a escuridão total e o frio Kelvin - de duzentos e setenta graus centígrados negativos. Nesse meio tempo nada existia, além de Jeovah, eu e, certamente minha mãe. Jeovah, sendo do sexo masculino, não poderia engravidar para me gerar, sempre lembrando que somos semelhantes a Adão e Eva, como está escrito em Gênesis 1,27, no Velho Testamento bíblico dos judeus. Não há notícias que Jeovah e seus filhos sejam hermafroditas. O que devemos ressaltar é que nós já possuíamos um idioma, e era o hebraico. E eu já tinha um nome judaico, Jesus, Salvador.

Jesus de Nazaré:

- Vejo que és muito letrado. Hermafrodita. Sim, sem um ventre de mulher, Jeovah não poderia ter filhos. Mas existe um terceiro Jesus relatado na Bíblia Sagrada. Uma correção: eu falava também o aramaico.

Esperou o Mestre para ver a reação dos dizimadores e dos dizimados. Urravam as vítimas do Grujuem. Os judeus ouviam tudo em silêncio respeitoso. Seu conterrâneo, embora um rabino rebelde e revolucionário parecesse comportar-se com dignidade e amor à verdade. Finalmente os escritos dos evangelistas eram devidamente analisadas e desnudadas todas as atividades sacerdotais bíblicas.

Jesus de Nazaré esperou que voltasse a reinar o silêncio e continuou placidamente:

- Lucas, chamado Lucarno, esse discípulo grego de Paulo de Tarso, médico, líder religioso, sacerdote, pastor, escreveu em 23,39-45: "Malfeitor – ou és revolucionário? - hoje estarás comigo no Paraíso. O véu do templo rasgou-se pelo meio, houve trevas e Jesus de Nazaré bradou: Pai - em tuas mãos entrego o meu espírito".

Jesus de Nazaré sentou-se majestosamente em seu trono de marfim e ouro. Repousou suas mãos nos leões talhados no trono.

As câmeras das televisões focavam as marcas dos furos feitos pelos pregos na cruz, evidenciando que o trabalho de ressurreição ou foi feito com imperícia, ou que ressuscita no exato estado de seu corpo na hora dessa morte – comentou Sara para seus telespectadores. Nesse caso a cicatrização das mãos, dos pés, do corte no seu lado, dos espinhos em sua testa e no couro cabeludo, dos sangramentos causados pelas chicotadas, dos ferimentos na sola dos pés, tudo ocorreu após sua ressurreição. Morreu e ressuscitou obviamente com esses ferimentos. Tomé o constatou pessoalmente. Colocou seu dedo no furo das mãos – finalizou a repórter.

E continuou Jesus de Nazaré:

- Não há o que discutir - julgadores deste Tribunal do Juízo Final. A Bíblia sagrada descreve a existência de Jesus Celestial, aquele que vivia com Jeovah no céu desde antes da Criação Divina ou da Criação Científica. Descreve o segundo Jesus, o nascido em Belém, conhecido como Jesus de Nazaré, que viveu durante trinta e três anos no solo de Israel e redondezas. E descreve o terceiro Jesus, aquele que, no exato momento mesmo da morte por crucifixão na cruz, teria subido até as nuvens, juntamente com o malfeitor crucificado ao seu lado. Seria ele um espírito subindo, sem corpo?

Prosseguiu o Nazareno:

- E Lucas informa um pormenor novo e importante: ambos subiram a um local chamado Paraíso. E, por dedução lógica, subiu um espírito também do malfeitor. Esse terceiro Jesus teria subido, então, e, logo que houvesse morrido o suposto bandido, se encontrariam junto a Jeovah nesse local celestial rotulado de Paraíso. O malfeitor ficaria isentado de aguardar pelo Juízo Final, tal como teria acontecido com Elias, personagem do Velho Testamento. Mas este Elias teria subido em um carro de fogo - com seu corpo - já que estava vivo quando foi embarcado nesse veículo. O que elevou o malfeitor? Permaneceu esse seu corpo no solo? Certamente não subiu, já que não há notícias nesse sentido.

Respirou parecendo cansado o grande Mestre, e arrematou:

- O terceiro Jesus, assim, e o malfeitor, subiram já na sexta-feira. O corpo do malfeitor provavelmente foi levado à Geena, onde eram jogados os miseráveis e os judeus terroristas. Era um revolucionário. Não merecia enterro. E o corpo de Jesus de Nazaré, surpreendentemente, foi levado ao túmulo de José da Arimatéia de onde, três dias após, no Domingo, desapareceu, tendo sido esse corpo elevado para as nuvens quarenta dias depois, em Betânia, na presença somente dos doze apóstolos.

As Bíblias eram freneticamente compulsadas em todo o planeta. Nas televisões a pergunta mais frequente dirigida aos líderes religiosos era: por que os sacerdotes romanos e os pertencentes às seitas derivadas, chamadas protestantes ou evangélicas, nunca haviam informado aos seus rebanhos da existência bíblica de três Jesuses? Percebiam que os narradores bíblicos criaram cada qual sua versão dizimatória e tinham que ocultar esses fatos?

Jesus Celestial:

- Sou forçado a concordar plenamente. O Novo Testamento, de autoria de quatro evangelistas e do judeu romano Paulo, da cidade de Tarso, informa que três Jesuses seríamos! Eu, que vivia com Jeovah e que deveria descer talvez ao solo terrestre; você, Jesus de Nazaré, que viveu trinta e três anos no solo e o Jesus Espírito, que surgiu e subiu por ocasião da dolorosa morte do teu corpo na cruz, que te infligiram os romanos.

Jesus de Nazaré:

- Não há a menor dúvida: uma coisa que os evangelistas intitularam de espírito de Jesus de Nazaré, subiu, já na sexta-feira, logo após a morte do humano Jesus, filho de Maria. Ninguém deve duvidar da Bíblia, dizem os pastores e os dizimadores em geral. Você estava no céu, meu caro meio irmão. Eu, Jesus de Nazaré, permaneci durante quarenta dias, aparecendo para várias pessoas, na Terra. E o terceiro Jesus, aquele que subiu para o céu, mais especificamente para um local que Lucas rotulou de Paraíso.

Jesus Celestial:

- Posso sugerir uma medida probatória para este Tribunal do Juízo Final? Por que não convoca esse nosso irmão espiritual para vir depor?

Jesus de Nazaré ordenou que os anjos o trouxessem imediatamente. Olhou para Paulo de Tarso e para seu discípulo Lucas, sorriu e acenou para eles.

Paulo de Tarso parecia confiante. Finalmente suas mensagens sacerdotais terrenas certamente se confirmariam, ou seja, no céu não podem existir senão espíritos. Falou baixinho para um dos querubins, em hebraico:

- Vou finalmente provar que, como escreveu meu discípulo Lucas, Jesus de Nazaré subiu seu espírito no exato momento da sua morte na cruz. Ficará provado que o cadáver que depositaram no sepulcro de José, da Arimatéia, não tinha nenhuma necessidade de ser ressuscitado. Por quê? Porque Jesus de Nazaré já havia subido ao céu no exato momento da sua morte na cruz, valendo-se de seu espírito. Para que o corpo? Ressuscitar setenta quilos de carne, ossos e sangue, decompostos, com os trilhões de neurônios cerebrais inutilizados, três dias depois - para quê? Para voltar a ser caçado pelos romanos e o Sumo Sacerdote de Jeovah?

Lucas tinha ouvido tudo e foi até Paulo de Tarso:

- Não te podes conformar - Paulo de Tarso! Jesus de Nazaré ressuscitou com seu corpo físico e subiu com ele! Vou ler em meu Evangelho 24,39-51: "Vede, apóstolos, minhas mãos e meus pés, sou eu mesmo; apalpai e vede: um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que tenho. Ofereceram-lhe um pedaço de peixe assado que Jesus de Nazaré comeu à vista deles. Levou-os para Betânia e foi arrebatado ao céu". Um espírito come peixes? E onde encontraria tal espírito, esses peixes nas nuvens, no céu, ou onde estiver? Por que a Betânia, em lugar ermo? Por que não ao centro da cidade de Jerusalém, onde milhares de pessoas seriam testemunhas do grande evento?

Paulo de Tarso:

- Bem sabemos que és meu discípulo, Lucas. Mas por que me contrarias? Não te falei tantas vezes que nem carne nem ossos podem sobreviver nas nuvens, no frio, na umidade, na permanente necessidade de anjos ou helicópteros serem utilizados para não cair, na total ausência de alimentos? E a novidade que o Papa traz dizendo que existiria um paradoxo? Ou seja, Jesus de Nazaré, logo que chega às nuvens mais altas exerce seu novo poder de paradoxar e se transforma em espírito, como teria feito na visita a Tomé. Para beber o vinho com os apóstolos ele inverte o processo e recupera seu corpo humano! E antes de congelar no frio torna a inverter o processo e se transforma em espírito! Onde fica o corpo enquanto isso? É esse o incrível relato do Papa em seu livro.

Moisés interveio:

- Eu desci junto com Elias e Pedro, agora o Papa Pedro, a quem saúdo em nome de todos os sacerdotes. Eu desci com meu corpo que já havia morrido há muitos séculos. Como subi, não sei. Um fato, no entanto, é certo: fui ressuscitado antes de Jesus de Nazaré sequer ter nascido. Logo, quem me ressuscitou somente pode ter sido a minha criação bíblica, o Altíssimo Melech ha-Melachim.

- Isso e impossível! - exclamou Jesus de Nazaré. Os sacerdotes, Sumo Sacerdotes e os príncipes das sinagogas não ordenaram minha crucifixão justamente por que eu dizia que haveria de ressuscitar a mim e aos que cressem em minhas mensagens?

Moisés:

- Isso agora não parece relevante, - me perdoem. O que ocorreu, segundo Mateus, foi que eu desci com meu corpo e ressuscitado, portanto. Já meu acompanhante, Elias, que jamais teria morrido, desceu comigo com seu corpo tradicional. E o mais contundente, pelo que penso: Elias não poderia se valer do paradoxo! Ele jamais morrera, ao contrário do que ocorreu com Jesus de Nazaré! O paradoxo somente pode socorrer a quem ressuscitou alguma vez. E somente em favor de Jesus de Nazaré, como claramente diz o Papa! E, ainda que se queira atribuir-me também a honra de ser agraciado com o paradoxo, este teria que acontecer ao contrário, ou, seja, viveria eu no céu como espírito e desceria com um corpo de carne e ossos, como bem me viu e relatou o agora Papa Pedro. Eu falei ao contrário porque certamente teria morrido de fome e frio - permanecendo tantos séculos envolto em um corpo que nunca morrera.

Le Figaro estampou esse comentário de Moisés imediatamente na primeira página: Por que os seres humanos nunca haviam se dado conta desses incontestáveis raciocínios? O Times perguntava: O Papa não conseguia explicar onde ficara o corpo de Jesus de Nazaré.

Retornaram em poucos minutos os serafins:

- Lamentamos informar, mas, entre as nuvens locais não encontramos nenhum paraíso, terras com plantações de árvores, macieiras, oliveiras. Também ninguém sabe informar sobre o espírito de Jesus de Nazaré ou quaisquer outras pessoas, tanto os habituais moradores nas nuvens, como quaisquer humanos que pudessem ter sido elevados por arrebatamentos ou por carros de fogo, como Elias.

Lucas:

- Mas isso é impossível! Está escrito na Bíblia! A Bíblia não mente. Há que se procurar melhor!

Jesus de Nazaré:

- Não se pode negar a produção de nenhuma prova requerida. Ordeno que dez legiões de anjos partam imediatamente para localizar o Paraíso e o meu espírito, mencionados por Lucas em 23,46. Ordeno que mais dez legiões de querubins vasculhem o Terceiro Céu, mencionado por Paulo de Tarso em sua carta aos I-Coríntios 12,2.

Houve uma revoada espetacular. As legiões se dividiram para a Ásia, Europa, África e para os mares. Muitas aves não retornariam, congeladas nas alturas, nos Polos Norte e Sul, nas Américas. Mal sabiam que o Terceiro Céu estava bem próximo, acima das nuvens cirrus, sobre Jerusalém, a mais de trinta mil pés de altura.

Os serafins, cada qual com suas seis asas prateadas, eram um espetáculo ímpar. Os querubins, mesmo com quatro asas somente, voavam com muito mais velocidade. É que os serafins se valiam somente de duas asas, as do meio. As duas de cima tinham a função de cobrir seus rostos e as duas inferiores cobriam seus pés. Além disso, possuíam mãos, braços, pernas e pés humanos, tudo como o atesta o sacerdote Ezequiel, no Velho Testamento, em 10,2-20. Havia ainda os querubins de somente duas asas, mais raramente observados pelos crédulos.