Juízo Final: Odisséia dos Deuses
Capítulo 46
Vários helicópteros partiram. O vento forte preocupava seus pilotos. Continuou Jesus de Nazaré:
- Paulo de Tarso: você confessa, de forma indireta, obliquamente, que no céu existem seres de carne e ossos, já que tocam trombetas. E você confessa igualmente que os vivos serão arrebatados ao céu, ou seja, pessoas de carne e ossos. Arrebatados como eu, em Betânia, vestido com túnica, capa, manto e sandálias, após minha ressurreição. Temos assim: sobem os corpos dos ressuscitados e os corpos dos que ainda estão vivos. Você esqueceu que disse essas coisas aos seus rebanhos
Jesus de Nazaré voltou-se para Pedro:
- Em II-Pedro 2,9 tu escreves aos teus adeptos judeus, que te couberam após acordo feito com Paulo de Tarso: "É porque o Senhor Jeovah sabe livrar das provações os homens piedosos e reservar os ímpios para serem castigados no dia do Juízo". Mateus escreveu que Jesus de Nazaré não veio para salvar os justos, mas os ímpios e pecadores. Você diz exatamente o contrário. Pergunto: quem está sendo incorreto, você ou Mateus?
Pedro, visivelmente contrariado:
- Pouco importa quem errou. O que importa é que eu e Paulo de Tarso possuímos um rebanho de mais de um bilhão de fiéis. São todos gentios, todos goin, todos não-judeus. Infelizmente os judeus abandonaram meu rebanho e voltaram para seus Sumo Sacerdotes, príncipes dos sacerdotes, e rabinos. Muitos voltaram para seus rabinos fariseus ou saduceus.
- Em II-Pedro 3,7, escreveste: "Os céus e a Terra que agora existem são guardados pela mesma palavra divina e reservados para o fogo no dia do Juízo e da perdição dos ímpios". Vejo que também fazes a terrível ameaça de queimar vivas as pessoas que ousarem divergir do que dizias ou o que se diz em teu nome. Por que razão queimar seres humanos? Queres que todo o bravo povo judeu seja queimado, só porque não te agrada o fato de se manterem eles fiéis ao seu deus milenar, Jeovah? E eu não teria vindo justamente para salvar os pecadores? Por que sempre e sempre o fogo e os fornos da Geena são usados para atemorizar os possíveis dizimistas?
- Essas ameaças são absolutamente necessárias para qualquer sacerdote que queira manter um rebanho de fiéis. Se não lhes incutirmos medo, logo deixam de trazer os dízimos para os sacerdotes. E, como consta claramente tanto no Antigo como no Novo Testamento, os sacerdotes devem receber os dízimos, pois ninguém trabalha gratuitamente. Escreveram que os castigos de Jeovah seriam: envio de chagas, úlceras, hemorroidas, tísica, granizo, gafanhotos, secas, esterco no rosto, tumores, espadas de anjos, mãos que secam, leões que comem os pecadores, como já se demonstrou tantas vezes.
- Mas, meu caro Pedro, meu fiel apóstolo: como podias exigir de Ananias e de sua mulher Safira que eles vendessem sua propriedade e te trouxessem todo o dinheiro, produto da venda? Como poderias ser tão cruel a ponto de causar a morte de ambos? Nem funeral receberam os parvos dizimistas? Eu ensinei isso a vocês? Eu não passei o tempo todo ensinando que devemos amar até mesmo nossos inimigos? Matar friamente a um casal que te trouxe uma grande quantidade de dinheiro?
- Não acabamos de ouvir, há pouco, neste Juízo Final, que os sacerdotes de Israel recebiam, além dos dízimos, os pagamentos em forma de terras e outras riquezas? Não eram eles os encarregados de perdoar os delitos dos judeus, que passavam a ser conhecidos como seus clientes? E para isso não lhes eram doadas as terras? Por que eu, um judeu que conhece as leis de seu país, haveria de agir diferentemente? Tu não perdoavas os pecados dos que te procuravam? E, com isso, não provocavas a indignação dos Sumo Sacerdotes, únicos autorizados a proceder assim, já que lhes era devido um pagamento?
- Não, Pedro! Eu ensinei que os ricos não ingressarão nos céus!
- Prezado Jesus de Nazaré: todos os sacerdotes almejam dízimos. Todos. E todos os recebem legitimamente, como está escrito na Bíblia Sagrada. Você nos prometeu que o Reino de Jeovah viria logo, naquela mesma geração. Não veio. Continuamos escravos dos romanos que destruíram nosso templo em Jerusalém, três anos após minha morte em Roma.
- Pedro, meu caro Pedro. Estou perplexo. Vou ler novamente o que escreveste em Pedro 9: "Replicou Pedro para a mulher de Ananias, Safira: por que combinastes para pôr à prova o espírito do Senhor? Sepultaram teu marido. Hão de levar-te também a ti. Imediatamente Safira caiu a seus pés e expirou. Sobreveio grande pavor a toda comunidade e a todos que ouviram falar desse acontecimento". Pergunto-te, novamente: esses fatos ocorreram, ou escreveste isso, em uma de tuas cartas, para causar temor aos candidatos destinados ao teu rebanho de fiéis e à busca de terras de outras vítimas? Não foste hábil como judeu dizimador. Veja que a tua dizimação em Roma, como primeiro Papa, resultou no patrimônio atual de um terço dos bens da Itália!
- E que diferença faz? – indagou Pedro. Desde Moisés, há milênios, todos os sacerdotes judeus escrevem textos intimidadores! E tu, Jesus de Nazaré, quando perdoavas pecados, agias exatamente como os sacerdotes! E dizias que a fé teria salvado ou curado o judeu que atendeste. Mas, ao mesmo tempo, ameaçaste os incrédulos com fogo. Os pobres eram as presas mais fáceis de convencer. Quanto mais pobre, mais ignaro, mais tinha fé em qualquer coisa que lhes proporcionasse supostas vantagens.
- Concordo – respondeu o Mestre. De fato, não davam eles seus filhos para serem queimados na Geena em tributo ao deus Moloch, ídolo de pedra? Observei que nos templos evangélicos modernos é a grande massa que comparece para ser dizimada. Em seus semblantes reinam esperanças e credulidade nas mensagens embasadas no Grujuem que lhes são apresentadas por pastores. Observe bem, Pedro. Nada mudou. Os ovelheiros teus sucessores atacam e estupram sacerdotes colegas! Quais hienas gargalham como os Inquisidores ante as vítimas - as adolescentes feiticeiras a serem purificadas pelo estupro bestial. Como abutres carregam ao Banco, abarrotando-o, os sacos do vil metal sonegado da merenda dos filhos dos ignaros modernos. Atacam crianças nas tendas de reunião, nas ekklesias, mosteiros, abadias, sacristias, basílicas. Quando tais pedófilos agem em grupo de quatro ou mais, deveriam ser processados por formação de quadrilha. Mas, o que fazem os dizimistas? Buscam a Justiça dos humanos? Não. Eles anseiam por bengalas e ficam tão cegos como os fiéis de Moloch – onde deixavam queimar seus filhos na escultura de pedra, naquela mesma Geena bíblica.
Jesus de Nazaré, surpreso:
- Sim, mas eu não cobrava para perdoar delitos. Além disso, nunca ameacei. Isso é obra dos que redigiram esses textos, décadas depois da minha morte. E a promessa de fogo para os que não acreditassem não se pode atribuir senão também aos narradores. São ameaças, puníveis - estas sim - com o cárcere, segundo as leis de todos os povos. E o mais grave: queimar seres humanos se constitui em crime gravíssimo, vedado até pelo mandamento criado por Moisés e atribuído a Jeovah.
Jesus de Nazaré:
- Leio em Paulo a Gálatas 2,7: "A evangelização dos incircuncisos me era confiada, como a dos circuncisos a Pedro. Iríamos, Tiago, Cefas, João e eu aos pagãos, e eles, Pedro e os outros, aos circuncidados". Vejo que vocês dividiram os candidatos a dizimistas. Vocês partilharam os seus clientes. Sim, clientes, termo expressamente usado pela Bíblia para os fiéis dos sacerdotes de Jeovah, no Velho Testamento. Partilharam suas ovelhas.
- Como escreveu Paulo de Tarso. Mas este ficou com a fatia maior de candidatos, ou seja, os gentios. Eu fiquei de evangelizar os judeus, os circuncidados. Mas estes logo se retraíram, pois aguardavam que o Reino de Jeovah viria logo e que Israel seria libertada do jugo romano. Como sabemos todos, os romanos eliminaram a mais de um milhão de judeus durante a ocupação de Israel.
- Me acusam de haver provocado a morte de Ananias e de sua mulher Safira – prosseguiu Pedro. Parece que assim escrevi, na minha epístola. Nada mais fiz do que zelar pelo meu rebanho. Jeovah, Moisés e Paulo de Tarso nos doutrinaram para impor o medo. Milênios de dominação dos sacerdotes levitas mostram, nas narrações do Velho Testamento, a crueldade imposta aos clientes dos rabinos. Em II-Reis 12,7 se lê: “O rei chamou o sacerdote Jojada e os outros sacerdotes, e disse-lhes: Por que não fazeis vós a reparação do templo? Doravante não recebereis mais o dinheiro de vossos clientes, mas o entregareis para os reparos do templo”. Ou seja, os sacerdotes possuem clientes. Recebem terras, dinheiro ou outros bens para concederem remissão de pecados a esses seus clientes. Todo esse relato, contudo, pode ser obra de copistas interpoladores. Serve para assustar, sim, o que sempre era de interesse das ekklesias romanas e protestantes.
Pedro mostrava-se muito confiante:
- Em Números 18,14-23: “Sacerdote levita: tudo que for votado ao interdito em Israel será teu. Será teu todo o primogênito de toda a criatura, homem ou animal, que os israelenses oferecem a Jeovah; ordenarás, não obstante, que se resgate o primogênito do homem, assim como os primogênitos dos animais impuros”.
E continuou Pedro:
- Os sacerdotes recebiam até mesmo os primogênitos humanos! E os pais somente os recobrariam se levassem a cabo o resgate pelo valor de cinco ciclos de prata, logo que completassem um mês de vida!
Jesus de Nazaré:
- Lucas disse em 3,3: “João Batista percorria toda a região do Jordão, pregando o batismo de arrependimento para remissão dos pecados”. Parece que este não recebia dízimos. Ele vivia de gafanhotos e mel, no deserto, alimentação que julgava saudável. O que nós devemos examinar: qual era o seu objetivo, então? Desejava somente a glória, a notoriedade? Remissão dos pecados ele fornecia em troca de quê? Não possuía dizimistas? Seu deus era Jeovah, evidentemente. Mas arrependimentos dos seus clientes não lhe traria vantagem alguma, já que Jeovah e seus rabinos não prometem ressurreição para os arrependidos ou os batizados. O Velho Testamento só promete castigos. Terríveis, cruéis e horríveis castigos. Epidemias, hemorroidas, chagas, lepra, fogo, tumores, esterco no rosto e enxofre são jogados do céu sobre Sodoma e Gomorra e cidades vizinhas.
- Enquanto eu não tinha sido crucificado ainda – prosseguiu – o que usavam os apóstolos nas visitas aos judeus? Promessas de ressurreições? Não! Sequer poderiam saber se algo assim poderia ocorrer futuramente. Mandavam os candidatos a dizimistas ou fiéis se arrependerem de pecados e praticarem uma espécie de autoflagelação ou penitência.
A Máquina apresentou texto novo:
- Paul Johnson, em História do Cristianismo, Imago, p. 64: “Na segunda metade do século II, atraía charlatães. Era sempre difícil distinguir entre os verdadeiramente inspirados, os auto-iludidos e os meros criminosos; o cristianismo, por evangelistas errantes, atraía charlatães; aos cristãos, crédulos, qualquer fraude profissional pode impor-se-lhes e ganhar muito dinheiro com grande rapidez”. Como atualmente.
Jesus de Nazaré:
- Observem as TVs e as ekklesias que são frequentadas por pastores profissionais: se valem das usuais ameaças aconselhadas por Paulo de Tarso. Acenam com o Diabo. Fortunas são amealhadas. Estão obrigados a cumprir metas de arrecadação mensal e vale a pena observar seus semblantes. Bengalas por dízimos, o velho binômio, perfeitamente legal e bíblico.
Choveu torrencialmente ao entardecer. Passariam uma noite péssima. Tentaram subir com todo o Tribunal para trinta mil pés de altitude, mas o frio era uma opção muito pior. Desceram e se conformaram com a chuva, embora os resfriados fossem crônicos.