Juízo Final: Odisséia dos Deuses
Capítulo 57
Paulo de Tarso pareceu não entender.
- Já lhe disse tantas vezes, Mestre: no céu somente podem existir espíritos. Carne e ossos lá não têm como sobreviver. Não há comida nem anjos suficientes para sustentarem com suas asas a cento e dez bilhões de corpos ou a metade desse número.
Jesus de Nazaré:
- Vou voltar a te provar que somente corpos lá existem, Paulo de Tarso. Veja o que escreveu Pedro em II-2,4: "Deus não poupou os anjos que pecaram, mas os precipitou nos abismos tenebrosos do Inferno onde os reserva para o julgamento". Os anjos, para serem precipitados do céu e introduzidos em algum lugar, obviamente que devem possuir carne e ossos. Para serem queimados em fornalhas, devem possuir algo que possa ser objeto de combustão. Ou você discorda novamente do apóstolo Pedro? Teria ele usado dessas palavras para impressionar seu rebanho de judeus? O medo, essa é a técnica que Pedro usa novamente? E os anjos pecam? Jeovah jamais falou em julgamento de humanos ou de anjos. Quando seria esse julgamento, Pedro? Quem te relatou tudo isso? E esses anjos seriam retirados de um lugar chamado Inferno? Por quem? Os sacerdotes de Jeovah, no Velho Testamento, não afirmam taxativamente que não existe vida após a morte, como o diz o judeu Jesus de Sirac, em Eclesiastes 17,27-30? Esses anjos não morreriam queimados? Quem os impediria de sair voando por aí? Um simples anjo, conhecido por Lúcifer, também rebelado e, portanto, aliado dos ditos anjos pecadores, como ele? E os rebelados, os assim precipitados, não possuem espadas chamejantes como os demais, para guerrearem com anjos ditos fiéis a Jeovah? O próprio Jeovah não seria atacado por tais criaturas, desesperadas evidentemente pelo castigo de terem que habitar fornalhas? Se são anjos rebeldes, o que os impediria de usar suas poderosas espadas chamejantes contra Jeovah, que, sabidamente não usa espada?
Paulo de Tarso, tergiversando:
- Moisés escreveu ameaças supostamente feitas por Jeovah. Eu recomendei aos meus prepostos, presbíteros e pastores de gentios, que usassem de ameaças. Mas nós sempre divergimos na busca por fiéis. Pedro insistia em circuncidar os meus clientes. E isso eu não permiti. Também julgo que Jeovah poderia precipitar os anjos, sendo eles espíritos. Por que não?
Jesus de Nazaré:
- Veja minhas mãos e meu lado, Paulo de Tarso. São as marcas dos pregos da cruz e da lança do soldado romano, teu colega de trabalho quando ainda não tinhas proclamado o novo e grande sacerdote dos gentios. Ponha aqui teu dedo, tal como o fez o meu fiel apóstolo Tomé, quando eu ainda permanecia ressuscitado na Terra.
Paulo de Tarso resmungou, olhou para cima e não se moveu. Mas Jesus de Nazaré não se deu por satisfeito. Apanhou a mão direita de Paulo de Tarso e, usando de força, introduziu o dedo indicador do apóstolo gentio nos dois furos das suas mãos, como Tomé.
- Pois vou ler o que escreveste em II-Coríntios 12,2-4: "Conheço um homem em Cristo que há catorze anos foi arrebatado até o terceiro céu. Se foi no corpo, não sei. Se fora do corpo, também não sei; Deus o sabe. E sei que esse homem - se no corpo ou fora do corpo, não sei; Deus o sabe - foi arrebatado ao paraíso e lá ouviu palavras inefáveis, que não é permitido a um homem repetir".
Jesus de Nazaré aproximou-se do sacerdote gentio:
- Quero que expliques a este Tribunal do Juízo Final: você tanto fala que carne e ossos não existem no céu, como podes aqui admitir, nos teus escritos, que tal corpo desse seu amigo poderia ter subido?
Paulo de Tarso apanhou a Bíblia Sagrada e leu o texto da sua segunda carta aos Coríntios.
- Não me lembro de ter escrito esta carta aos meus adeptos da cidade de Corinto - respondeu Paulo de Tarso.
Jesus de Nazaré:
- Você quer dizer que alguém adulterou o conteúdo da tua carta? Você admite que a Bíblia está mentindo?
Paulo de Tarso:
- Não tenho como negar a autenticidade desse texto, efetivamente. Eu era sacerdote e, nesse tempo, pensava que os ressuscitados poderiam subir com seus corpos e tinha que dar explicações aos meus seguidores gentios. Além disso, era voz corrente que Tomé teria posto o dedo na mão marcada com os furos dos cravos da crucifixão de Jesus de Nazaré, após sua ressurreição. Terias ressuscitado defeituosamente.
Jesus de Nazaré:
- E você viu seu homem em Cristo - como escreveu-ser arrebatado. Onde ocorreu isso e mais alguém viu tal homem subir?
Paulo de Tarso:
- Não sei responder a isso.
Jesus de Nazaré:
- Por que esse seu amigo não teve que aguardar o Juízo Final para poder subir até Jeovah e Jesus de Nazaré? Ele foi absolvido? Por quem? Quem o julgou, assim, antes da hora? Como era o nome dessa pessoa? Não está estabelecido que todos devem ser julgados num dia certo, ou seja, aqui, neste Juízo Final?
Paulo de Tarso:
- Não vou tolerar esse interrogatório. Sou sacerdote dos gentios. Mais de um bilhão de fiéis romanos. Os judeus Pedro e seus amigos descreveram várias ressurreições. Lembremo-nos de Lázaro e os que saíram dos túmulos no dia daquele notável Domingo. Por que não posso eu também relatar um fato idêntico?
Jesus de Nazaré:
- Compreendo. Mas quero que me expliques o teu escrito, que vou repetir: "Foi arrebatado até o terceiro céu, foi arrebatado ao paraíso e lá ouviu palavras inefáveis, que não é permitido a um homem repetir". A primeira pergunta: existem o segundo e o terceiro céu?
Paulo de Tarso:
- Se eu o escrevi e está na Bíblia, quem o pode contestar? Havendo, como há um Terceiro Céu, obviamente tem que existir o Segundo Céu.
Jesus de Nazaré:
- É que jamais, em todos os tempos e em todo o texto bíblico houve menção a mais de um céu. Como se limitam esses três céus, já que se trata de nuvens, - não é delas que Jeovah teria falado com Moisés? Como sabias da existência desses três céus? Você os viu? Moisés, Pedro, teu afilhado Timóteo, teu aluno evangelista Lucas, alguém jamais viu tais três céus? Seriam vistos na Ilha de Páscoa? Nas Ilhas Virgens? Na Terra do Fogo? Nas Ilhas Malvinas, ou Falklands, na Groenlândia?
Paulo de Tarso:
- Sou o único escritor bíblico que sabe desse Terceiro Céu. E sei que o meu amigo em Cristo foi até esse Terceiro Céu, como está escrito na minha segunda carta aos Coríntios, em 12,2-4.
Jesus de Nazaré:
- Muito bem. Julgas que podes escrever aos teus adeptos gentios o que for útil para a tua vanglória. Mas, sabes que és um dos raros sacerdotes que descrevem a existência de um paraíso nos céus? Como você poderia ter visto tal paraíso, da Terra, se jamais alguém o viu nos céus? Se lá somente habitam espíritos, como poderia haver objetos, plantas, tronos, mesas? Aliás, a propósito, as mesas existem no céu, nas nuvens ou no tal paraíso! Vou ler o evangelho de Lucas 13,28 e 29: “Haverá choro e ranger de dentes e vocês verão o Patriarca Abraão, Isaac, Jacó e todos os profetas de Jeovah e vocês serão lançados fora e virão do norte, sul, oriente e ocidente e se assentarão à mesa do Reino de Jeovah”. Além de ver, de enxergar essas pessoas ressuscitadas e elevadas para as nuvens, existem lá mesas!
Jesus de Nazaré percebeu que discutiam os evangelistas. Continuou:
- Parece que vocês interpretam o termo mesa como sendo simbólico. Mas vou tirar as dúvidas lendo Lucas 22,30: “Para que comais e bebais à minha mesa no meu reino e vos assenteis sobre tronos, julgando as Doze Tribos de Israel”.
O Mestre ligou pelo celular. Após uma hora desligou, parecendo despedir-se do Papa Emérito e prosseguiu:
- Lucas chega ao delírio de designar os doze apóstolos, pescadores e integrantes da classe mais humilde de Israel, a juízes de todo o povo de Israel, composto por Doze Tribos, na época. Julgariam a reis, generais, ministros, rabinos, sacerdotes de Jeovah, sábios, cientistas, empresários, mulheres, adolescentes, crianças, o rei Davi, o rei Salomão, Elias, Noé, Maria, Maria Madalena, João Batista, José da Arimatéia, Herodes, todos os sacerdotes e Sumo Sacerdotes, fariseus, escribas. Os pobres julgando os ricos. Os menos letrados julgando os sábios.
- Mas o que importa - Paulo de Tarso - neste momento do julgamento, é reafirmar que todos os líderes, os pastores, os dizimadores, em verdadeiros atos falhos, descuidos de linguagem, às vezes afirmam aos seus cordeiros que nas nuvens, no céu, no paraíso, existem objetos materiais, tais como cornetas, mesas, vinho e assim por diante. Desnudam o que pretendem ocultar.
Continuou, após olhar para todos os lados:
- Mesas, tronos, trombetas, espadas, enxofre, barris de vinho, tudo é atraído pela força magnética da Terra. Por que não caem? Também existe esterco, já que Jeovah jogava esses dejetos animais em israelitas que desobedeciam as ordens de seus sacerdotes, como se lê em Malaquias 2,3. E se há esterco nas nuvens, evidentemente existem os animais que o produzem, e, obviamente, pastagens em campos. Logo, existiriam terras onde também seriam produzidos os vinhos e está o tal segundo Paraíso, mencionados na Bíblia em Lucas 23,43. Os aviões já teriam engolido tudo em suas turbinas.
Paulo de Tarso continuava impassível. O Mestre continuou:
- Para ser tratado de paraíso, tal local deve conter coisas materiais, similares ao paraíso do Éden, supostamente localizado entre os rios Eufrates e Tigre. Deve conter macieiras e outras frutas. Não está escrito que Adão e Eva ouviram passos de Jeovah, quando este caminhava no paraíso do Éden, à hora da brisa da tarde, como consta no livro escrito por Moisés, no Velho Testamento, em 3,8? Pergunto: existem áreas de terras com vegetais, lá nas nuvens? Ou tal paraíso é composto de árvores espirituais, com frutos espirituais, contrariando o paraíso terreno? Isso não seria mito, como tudo o mais?
Jesus de Nazaré:
- Você diz que esse seu adepto - homem em Cristo - teria "ouvido palavras inefáveis, que não é permitido a um homem repetir". Diga ao Tribunal do Juízo Final: você, lá de Israel, ouviu tais palavras inefáveis, ditas a quilômetros de altura? E quem as disse? Quem as pronunciou? Você não afirma que lá no céu somente existem espíritos? Espíritos falam com vozes tão potentes que são ouvidos quilômetros abaixo?
Paulo de Tarso:
- Não me recordo desse detalhe.
Jesus de Nazaré:
- Não! Não! Não! Você fornece até mesmo detalhes, sim, das palavras que alguém pronunciou lá no referido paraíso do Terceiro Céu! Eram palavras inefáveis, escreveste! Que palavras eram essas? Se eram inefáveis, você as ouviu? Diga, diga ao Juízo Final, precisamos saber da verdade bíblica!
Paulo de Tarso continuava em silêncio e completamente imperturbável.
- Inefável significa, segundo os dicionários hebraicos e gregos: inebriante, encantador, indizível, inexprimível. Os romanos dizem que inefabilidade para eles é ineffabilitas. O que o seu amigo em Cristo ouviu?
Paulo de Tarso continuava com seu mutismo. Jesus de Nazaré:
- Em toda a Bíblia Sagrada a palavra paraíso aparece cinco vezes no Velho Testamento, referindo-se ao Jardim do Éden, onde Adão e Eva teriam sido criados por Jeovah. E aparece mais duas vezes no Novo Testamento, uma em Lucas 23,43, quando Jesus de Nazaré teria dito ao bandido ao lado que no mesmo dia, sexta-feira, estariam juntos no paraíso. E a outra, na citação de Paulo de Tarso, na sua segunda Carta aos Coríntios, assunto de que tratamos agora. E há uma terceira menção a paraíso no Apocalipse de João, em 2,7.
Paulo de Tarso:
- Bem sei disso. O israelita Pedro e seus colegas circuncidados somente falam aos seus adeptos em céus, nuvens, Reino de Jeovah, Reino de Deus. Mas eu, Paulo de Tarso, menciono paraíso. Escrevo o que bem desejo e o que agrada aos leitores de minhas epístolas e aos futuros dizimistas e ovelhas.
Jesus de Nazaré:
- Paraíso, palavras inefáveis, terceiro céu, arrebatação ao paraíso do seu adepto em Cristo. Nada disso jamais foi mencionado pelos apóstolos Pedro e seus seguidores judeus. E tal arrebatação teria ocorrido catorze anos antes do ato de escreveres a epístola! Um fato de tamanha importância e você leva catorze anos para tornar público tão fenomenal acontecimento - somente também atribuído com grande alarde a Jesus de Nazaré! E você não sabe se subiu corpo ou espírito! Não sabe se o tal amigo usava roupas! Ele não subiria nu e, logicamente, seria visível subindo com o seu corpo. Se fosse um espírito não poderia igualmente ser visto. Você não viu nada.
Paulo de Tarso permaneceu em silêncio. Estava emanando uma serenidade inacreditável para as perguntas que não conseguia responder. Jesus de Nazaré:
- Uma última pergunta, sacerdote dos gentios, dos romanos e dos povos amigos e inimigos de Israel e de Jeovah: o seu amigo em Cristo morreu e ressuscitou para, então, subir? Ocorreu com ele o que aconteceu com Jesus de Nazaré e o bandido ao lado da cruz, que teria subido no mesmo dia de sexta-feira? Ou, ele não precisou morrer, sendo arrebatado ainda vivo? Ele também foi beneficiado pelo suposto paradoxo, só destinado para Jesus de Nazaré, de acordo com o palpite do líder romano? Não foi para a Geena só porque serviu de testemunha para os dizimadores apostólicos e evangelistas? É mais uma testemunha plantada, não há a menor dúvida.
Os aviões, alertados do obstáculo, trafegavam distantes e em altitudes de trinta mil pés. Um recesso foi estabelecido. Taças de vinho tinto foram servidas. De acordo com o costume reinante nos anos de vida terráquea do Mestre, o vinho era misturado com mel, água e especiarias.
Subitamente chegou uma esquadrilha de pequenos helicópteros. Pelo rádio informaram ao Tribunal que estavam em busca da abertura do céu.
Esse era um assunto para Jeovah. Ele estaria morando lá há vários milênios em companhia de seus familiares, de Elias, os outros vinte e dois profetas do Velho Testamento, do Patriarca, Jacó, Isaac, Moisés, anjos estimados em dez milhões por um sacerdote romano, e, mais recentemente, do amigo em Cristo de Paulo de Tarso, dos treze apóstolos, e do paradoxo.
Die Maschiene estampou:
"Está escrito em João 1,51: Vereis o céu aberto e os anjos de Jeovah subindo e descendo sobre o Filho do Homem". Corpos, com carne e ossos. Vereis – no futuro. Por que não se vê agora e sempre?
"Lemos em Lucas 3,21: Quando todo o povo ia sendo batizado, também Jesus o foi. E estando ele a orar, o céu se abriu”.
O líder dos helicópteros levava os demais fazendo ziguezagues ao redor do Tribunal do Juízo Final. Não havia nuvens e nada se podia observar que lembrasse um céu aberto.
Jeovah parecia divertir-se. Esboçava um sorriso, nunca antes visto nem mesmo pelos anjos.
- Transmitam a eles que o céu está fechado. Não o encontrarão. Mas vou ordenar que o abram.
Uma grande nuvem surgiu cinco quilômetros acima do Tribunal. Parecia ter mais de mil côvados de diâmetro e outros quarenta de altura. Lentamente o que poderia ser uma gigantesca porta se abriu. Os helicópteros ingressaram lentamente na enorme abertura. Pareciam águias procurando alimentos para seus filhotes. O Comandante transmitiu relatando que havia escuridão e muito frio.
Jeovah levantou-se do seu trono e ordenou:
- Que se feche a porta e que permaneçam prisioneiros os invasores. Como fiz na fuga do Egito, represando os mares para que meu povo pudesse fugir dos soldados do Faraó, agora estou represando as nuvens para que os gentios sejam destruídos. Serão comidos pelos cães e serão pasto das aves do céu, como ordenei a Jeú, filho de Hanani, no livro de I-Reis 16,1-7, no ano 900 da Era antiga.
A ira de Jeovah estivera represada. A invasão de seu mundo exigia vingança.
Ante tais atos, logo chegou reforço aos invasores. Em torno de trezentos helicópteros chegaram ao alto de lança-chamas e abriram rapidamente o céu fechado. Anjos de Jeovah foram atingidos e feridos gravemente. Em torno de quarenta anjos judaicos estavam no seu interior. Seus nomes foram revelados e a ira de Jeovah foi terrível, como sempre.
Esse pequeno episódio melhorou o humor de Jeovah. Um avião com mais de trezentos passageiros atravessou desavisadamente o céu que estivera fechado e apresentava um rombo nas nuvens.
Jesus de Nazaré:
- Esse abrir e fechar o céu se afigura como um grande buraco narrativo. Os evangelistas certamente desejaram criar mais uma prova plantada. Tal relato é obtuso e tem fins claramente dizimatórios. Fiéis romanos residentes no Rio de Janeiro, Nova York, São Paulo, Buenos Aires, Austrália, Tokio, Moscou, África do Sul, Los Angeles, Indonésia, Ilha de Páscoa, Haiti, tribos nunca contatadas no Amazonas teriam que possuir seus próprios céus. Com portas que se desvaneceriam junto com o céu fechado logo que as nuvens desaparecessem e surgisse o sol. E o que haveria então? Milhões de anjos e pessoas deveriam estar em cada céu visível? Alguém jamais viu tal céu desnudado, aberto?