Juízo Final: Odisséia dos Deuses
Capítulo 29
Os anjos foram buscar o profeta judeu Elias, humano normal, e Moisés, ressuscitados por obra de Jeovah , que descansavam duzentos metros acima do Tribunal do Juízo Final e cerca de cem metros em direção ao Muro das Lamentações. Estavam em tronos reclináveis, feitos com peles de cordeiros ricamente adornadas com sinos de ouro e couros de cabra cravejados com safiras, opalas e rubis. Vários arcanjos sustentavam os dois proeminentes personagens da história judaica. Pareciam entediados, mas sorriram quando Jesus de Nazaré iniciou o interrogatório:
- Escreveu o evangelista Marcos, resumidamente, em 9,2-13: “Em um alto monte, Pedro, Tiago, João e Jesus de Nazaré receberam a visita de Elias e Moisés; surgiu uma nuvem e dela veio uma voz: Este é o meu filho muito amado; ouvi-o”. Elias, você desceu do céu, nessa ocasião. Lemos em II-Reis 2,11: “Continuando seu caminho, entretidos a conversar, de repente um carro de fogo os separou um do outro, com cavalos de fogo e Elias subiu ao céu num turbilhão”. Vemos que você subiu ao céu vivo, com seu corpo. Isso ocorreu séculos antes do nascimento de Jesus de Nazaré. Juntamente com Moisés, igualmente ressuscitado já então, teria descido e feito uma visita a Jesus de Nazaré, nos anos trinta da Era atual. Seus corpos foram transportados para a Terra e depois de volta para o céu por anjos, estou certo?
- Está escrito na Bíblia Sagrada. Não há porque duvidar, pois.
Jesus de Nazaré:
- Repito: Marcos escreveu, em 9,7: “Formou-se então uma nuvem que os encobriu com sua sombra; e da nuvem veio uma voz: Este é o meu filho muito amado - ouvi-o”.
Jesus de Nazaré olhou para Jeovah:
- Vejo que novamente você - Melech ha-Melachim, o Rei dos Reis do povo de Israel - oculto em nuvens, teria servido de testemunha de que eu seria seu filho. A já conhecida prova plantada. Você teria agido assim também na ocasião em que falou das nuvens quando eu teria me reunido com João Batista. Você também teria falado com Moisés às vezes oculto em nuvens, em várias ocasiões. Pergunto a todos: não estariam os dizimadores querendo convencer aos dizimados que suas narrativas a meu respeito não eram falsas? Oculta o seu corpo?
Ninguém respondeu. E Jesus de Nazaré:
- A impressão que tenho é que os dizimadores evangelistas estavam tentando convencer aos dizimados de que deveriam crer num ser muito poderoso. E tudo para que os adeptos, clientes, fornecessem os dízimos e se submetessem à vontade dos líderes.
Jesus de Nazaré abriu a Bíblia no Velho Testamento e leu em I-Reis, 18,40:
- “Elias disse-lhes: Tomai agora os profetas de Baal; não deixeis escapar um só deles! Tendo-os o povo agarrado, Elias levou-os ao vale de Cison e ali os matou por degolamento”. Eu te pergunto -Elias, tu que és um dos grandes judeus bíblicos: essa ordem e essas mortes foram verdadeiras?
- Sem dúvidas, Jesus de Nazaré – respondeu Elias. Todo e qualquer sacerdote tem o maior interesse de impor seus deuses e suas regras. Quer obter o maior número possível de adeptos. Não lhe interessam concorrentes. Eu cortei suas gargantas pessoalmente, como está escrito: “Elias os levou ao vale do Cison e ali os matou por degolamento”.
- Muito bem - respondeu Jesus de Nazaré. Você matou a seres humanos só porque eles eram sacerdotes concorrentes. Você pecou. Você transgrediu o mandamento de seu próprio deus, Jeovah, que proíbe matar. E não foi julgado nem preso por esses crimes.
Elias:
- Ser sacerdote é muito vantajoso. Ser sacerdote é poder viver à custa dos dizimados, ou, como dizem os romanos, dizimistas. Isso está previsto na Bíblia Sagrada, tanto por Jeovah, no Velho Testamento, como pelos personagens do Novo Testamento. Jeovah, durante milênios, de acordo com o que escreveu Moisés, matou até mesmo a judeus, seu povo, quando o traíam com Baal e outros deuses concorrentes de povos vizinhos. Degolei, sim, tal como agora verificamos que centenas de milhares de mulheres e adolescentes foram mortas pelo fogo cruel dos padres inquisidores.
Jesus de Nazaré:
- Vou ler novamente II-Reis 2,11: “Continuando o seu caminho, entretidos a conversar, eis que de repente um carro de fogo com cavalos de fogo os separou um do outro, e Elias subiu ao céu num turbilhão”. Pergunto: o que escreveram é verdadeiro? Você subiu até Jeovah dessa forma absolutamente fantástica?
- E eu repito. Está escrito na Bíblia. Não há porque duvidar do que está escrito. O que é estranho é o fato narrado em que um carro viaja sem cocheiro. Os cavalos de fogo é que decidem para onde ir e quando estacionar. E o mais estranho é que tais cavalos não sejam consumidos pelo fogo.
- Você vive com Jeovah, assim, séculos antes deste Juízo Final. E você vive lá nas nuvens com seu corpo. Não se diz que os cavalos de fogo levaram outra coisa que não seu corpo. Exatamente como aconteceu comigo, após minha ressurreição. Os cavalos continuaram a produzir fogo após desceres do veículo, nas nuvens? Esse fogo nunca mais foi noticiado. Ele seria avistado da Terra, obviamente, à noite. Por que essa carroça não despencou? Os anjos a seguram, batendo suas asas? Jeovah voa nas costas de seu querubim. Teria esse carro e seus cavalos voltado para a Terra? Afinal, de onde ele surgiu- do solo terrestre ou das nuvens? O fogo não te atingiu, ao voar? O fogo foi desligado por alguém?
Jesus de Nazaré pensava no que haveria de dizer. Parecia ser algo muito grave:
- Elias, você matou os sacerdotes concorrentes a sangue frio. Você levou as suas vítimas para o Vale de Cison e os degolou. Você levou a cabo pecados dos mais vis que podem ser cometidos. É o que dizem as leis que Moisés teria trazido do monte Sinai. Não matarás, ordenou Jeovah. Além de não mereceres a admissão nas nuvens, por tais atos, você para lá foi elevado por um carro de fogo, séculos antes do Juízo Final, sem ter que morrer primeiramente e, após, ressuscitar! Lá no alto estariam também todos os profetas de Jeovah. Os encontraste lá?
Elias parecia preocupado, mas Jeovah interveio:
- Isso eu não posso admitir. Está escrito: o Juízo Final somente veio para julgar os que estão na Terra, sejam os vivos, sejam os que ressuscitaram. Elias já não está lá embaixo. Não há previsão bíblica para que se julguem humanos que já tenham subido ao céu sem morrer e ressuscitar. Como julgar algum humano vivo que já se encontra no céu?
Jesus de Nazaré:
- Elias foi transportado para o céu por um carro puxado por cavalos de fogo sem ter sido julgado. Isso é compreensível, já que a previsão da superveniência do Juízo Final somente foi estabelecida pelos escritores evangelistas séculos depois. Moisés não escreveu que Jeovah jamais houvesse prometido conceder aos humanos a ressurreição nem um Juízo Final. Como se explica esse texto bíblico, Jeovah?
- Moisés e demais narradores bíblicos é que devem explicar sobre esse transporte. Além disso, Elias eliminou sacerdotes que eram concorrentes e isso não é grave.
Jesus de Nazaré:
- Novamente percebo que há permanentes guerras entre sacerdotes. Os que Elias matou degolados usavam do deus Baal para exercerem seus desígnios dizimadores.
Jesus de Nazaré tornou a abrir a Bíblia Sagrada e leu:
- Em II-Reis 18,33, está escrito: “Por acaso os deuses dos povos conseguiram livrar seu respectivo país das mãos do rei da Assíria? Onde estão os deuses de Emad e Arfad, onde estão os deuses de Sefarvaim, Ana e Ava? E onde estão os deuses da Samaria?”. Jeovah, você era um dos muitos deuses. Moisés tinha ordens para que os sacerdotes levitas fossem os únicos dizimadores, sempre usando teu nome.
Jeovah:
- Isso é óbvio. Por que não lê II-Reis 23,4?
E Jesus de Nazaré efetivamente leu:
- “Em seguida o rei deu ordem ao sumo sacerdote Heleias, aos sacerdotes de segunda categoria e aos porteiros, que retirassem do santuário de Jeovah todos os objetos fabricados por Baal e Asserá e para todo o exército do céu. O rei destituiu os sacerdotes que os reis de Judá tinham estabelecido para queimar incenso nos santuários das alturas. Destituiu também os que ofereciam incenso a Baal, ao Sol e à Lua, aos signos do zodíaco e a todo o exército do céu”. Vejo - Jeovah, que teu povo era facilmente seduzido pelos mais variados sacerdotes, com evidentes prejuízos aos eleitos de Moisés, os levitas.
- Vou ler agora o que considero digno de ser aqui trazido à luz: I-Reis, 18 e seguintes: “O Sacrifício do Carmelo. Elias era o único profeta de Jeovah e os adeptos de Baal estavam reunidos com seus quatrocentos e cinquenta profetas e mais os quatrocentos profetas de Asserá. Quem, invocando seu respectivo deus conseguisse acender a fogueira e queimar o boi, teria a melhor divindade. Elias venceu, sua fogueira ardeu graças ao holocausto e fogo de Jeovah. O povo se prostrou e gritava que Jeovah era Deus. Elias ordenou que os quatrocentos e cinquenta profetas do deus Baal fossem degolados no riacho de Quison”.
Jesus de Nazaré fechou a Bíblia, olhou para os evangelistas e para Moisés:
- Foram poupados – por quê? - os quatrocentos profetas da deusa Asserá – praticante de orgias com seus seguidores. Estou muito triste. Percebo que, em toda a Bíblia, há uma permanente luta por dízimos. Para isso são usados deuses vários e seus sacerdotes. E a razão por que Jeovah teve que eliminar a tantos israelenses e por que está sempre se mostrando colérico agora parece muito clara. Os narradores bíblicos são integrantes da grei de sacerdotes e necessitam mostrar que Jeovah é mais poderoso do que Baal, Asserá e outros deuses. E matam nada mais e nada menos do que quatrocentos e cinquenta profetas de Baal concorrentes! E os matam degolados! Horrosco tremens! - diziam os dominadores romanos há dois milênios.
- Tremo, horrorizado! - repetiu em aramaico o Mestre. Elias, explique ao Juízo Final: você foi separado de Eliseu, quando vocês conversavam numa estrada à beira do rio Jordão e você subiu, vivo, ao céu, embarcado num carro de fogo movido por cavalos de fogo. Você subiu levando seu corpo, como deixa claro o relato bíblico. Onde você desembarcou? Quem conduzia o carro de fogo? Os cavalos possuíam asas, como os anjos? Esse veículo ficou estacionado no céu? Desceu e permaneceu emitindo fogo em algum lugar oculto de Israel?
Elias:
- A Bíblia Sagrada jamais comete inverdades. O Papa e pastores o afirmam. Eu embarquei no carro de fogo. Obviamente desembarquei nas nuvens com meu corpo, já que não morri. Não sei quem conduziu o carro de fogo. Os cavalos eram flamejantes e não consta que tivessem asas, como os anjos. Nem cocheiro havia. Desci e não caí para o solo terrestre. Não sei quem ou o que me manteve no alto. Talvez anjos, os únicos portadores de asas. Se eu caísse, morreria com o choque na Terra. E não sei se ressuscitaria, já que Moisés escreveu que somente ressuscitaram e subiram o Patriarca, Jacó, Isaque e ele próprio Moisés.
Jesus de Nazaré:
- Eu também fui arrebatado, segundo escreveram os evangelistas. Chegamos às nuvens, pois, nós dois, com nossos corpos. Não sabemos por que não caímos de lá. Mas eu cheguei ao céu muitos séculos depois da tua subida. E Moisés também teria subido ao céu, mas somente após morrer. Obviamente foi ressuscitado também. Por quem – uma vez que somente muitos séculos depois foi instituido esse fenômeno da ressurreição? Jeovah é que não o fez. Lembremos o que afirma categoricamente a Bíblia, no livro da autoria do filho do profeta Sirac chamado Sirácida, ou Eclesiástico, em 17,30-32: “O ser humano não é imortal, todos são terra e cinzas”.
Jesus de Nazaré voltou a dirigir-se a Mateus:
- Temos várias formas de subir ao céu, Mateus. A que vocês evangelistas descreveram são: a minha subida, com meu corpo, após permanecer durante três dias morto e quarenta dias sendo visto pelos humanos vivos; a subida do crucificado ao meu lado, que teria ascendido no exato momento da sua morte. Não escreveu Lucas que eu teria dito - em 23,43:“Hoje estarás comigo no Paraíso”?; a subida de Elias, que não morreu e subiu num carro de fogo; e a subida de Moisés, que morreu, foi enterrado em um vale, na terra de Moab, defronte de Bet- Fegor, onde foi pranteado durante trinta dias. Moisés subiu, mas quem o elevou?
Moisés não soube responder.
- Temos finalmente - continuou o Mestre após enxugar o suor do rosto - a subida dos ressuscitados e dos vivos neste Juízo Final. São os que forem absolvidos ou escolhidos pelos Anjos Separadores e pelos Anjos Ceifadores. Temos ainda a subida de vários homens e mulheres, que, já mortos, foram declarados santos pelos romanos, embora estes tenham deixado na Terra os seus corpos, como é o caso de Pedro e Paulo.
- Temos o caso de Lázaro que, embora ressuscitado por Jesus de Nazaré, permaneceu na Terra, após a primeira ressurreição. Morreu posteriormente. E agora voltou a ressuscitar, para enfrentar o julgamento no Juízo Final. Também há que se lembrar que ressuscitaram muitos judeus de túmulos, em Israel, por ocasião da crucifixão de Jesus de Nazaré, sendo vistos pelos vivos de então. Voltaram a morrer e a ressuscitar agora.
- Mateus - continuou - poderias explicar ao Juízo Final porque nem todos tiveram que aguardar a chegada do presente Juízo Final para subirem? E por que subiram sem antes terem sido julgados? Podem ter subido humanos que, se julgados no Juízo Final, seriam condenados a descer ao Inferno ou às fornalhas da Geena, situados esses fornos nos limites de Jerusalém? Elias que matou a centenas de sacerdotes adversários, não deveria ter sido levado pelo carro de fogo para o Inferno, já que matar está proibido pelo mandamento que Moisés teria recebido de Jeovah?
Mateus:
- Caro Mestre: já está claro que cada sacerdote, profeta, evangelista ou narrador relata fatos para seus adeptos e dizimistas, ou, dizimados. São todos profissionais que, para merecerem os dízimos, têm a obrigação de fornecer aos ávidos fiéis as mensagens que lhes tragam promessas. A Bíblia não deixa qualquer dúvida sobre isso e lembro, por exemplo, a ordem em Deuteronômio 14,23: “Comerás na presença de Jeovah, no lugar que ele tiver escolhido para ali estabelecer seu nome, o dízimo do trigo, do vinho e do óleo, bem como os primogênitos do gado bovino e ovino, para aprenderes a temer sempre o senhor teu Deus”.
Mateus exibiu o texto bíblico e finalizou:
- Veja - querido Mestre, que o sacerdote é obrigado a receber os dízimos. Se os recusar será castigado por Jeovah. Ou seja, deve ter medo de Jeovah. Também em Nehemias 10,36 consta: “Comprometemo-nos a levar todos cada ano à casa de Jeovah os primeiros frutos de nossa Terra e os primeiros frutos de qualquer árvore, bem como os primogênitos de nossos filhos e de nossos rebanhos, como está escrito na lei”.
- No meu evangelho - continuou Mateus - está escrito que o operário merece o seu sustento, como se lê em 10,10. E Paulo de Tarso disse muitos anos após, em I-Coríntios 16,2: “No primeiro dia da semana, cada um de vós ponha de parte o que houver podido poupar, para que não esperem a minha chegada para fazer as coletas”.
Jesus de Nazaré:
- Vejo que é de vital importância que eu entenda: após minha morte muito foi escrito. Os dízimos foram obtidos dos ouvintes judeus e dos não-judeus. Meu nome e o de Jeovah foram usados para isso. Profetas e sacerdotes do Velho Testamento sejam eles partidários de Melech ha-Melachim, o Rei dos Reis do povo de Israel, de Baal ou dos muitos outros deuses, buscavam obter os dízimos. Entre Jeovah e Baal as lutas por adeptos estão em todo o Velho Testamento. Isso é claro, inegável e dominante nos relatos.
Jeovah parecia contrariado. Mas Jesus de Nazaré continuou:
- Vejo que os romanos, esses que mataram mais de um milhão de meus irmãos durante sua dominação de nosso povo, trocaram seu deus, Invictus, pelo Grujuem, como já destacado várias vezes neste julgamento. Isso teve início com a atuação de Paulo junto aos não-judeus, aos gentios.
Jesus de Nazaré inspirou profundamente e continuou:
- Todos os dizimadores afirmam que recebem espontaneamente as assim chamadas ofertas dos seus adeptos. Mas estou vendo que há clara coação também.
- Impossível! Não! Tudo é espontâneo! - disseram em coro os apóstolos e os evangelistas.
Jesus de Nazaré:
- Pois bem. Vamos ler o que vocês escreveram. O que está relatado não pode ser deturpado. Afinal, a Bíblia é sagrada, como dizem os sacerdotes. Consta de II-Coríntios 8 e 9 o que Paulo escreveu: “As igrejas da Macedônia contribuíram espontaneamente e nos pediam o favor de poder contribuir aos irmãos”; “Dê cada um conforme o impulso do seu coração, sem tristeza nem constrangimento. Deus ama o que dá com alegria”. Pediam-nos o favor de contribuir? Era um favor poder ser um dizimista?
E continuou:
- “A nossa pregação não provém do erro, nem de intenções fraudulentas, nem de engano. Não buscamos glórias humanas. Aqueles judeus que mataram o Senhor Jesus, que nos perseguiram, que não são do agrado de Deus, que são inimigos de todos os homens, visto que nos proíbem de pregar aos gentios para que se salvem. Pecam e a ira do Senhor os atinge”, está escrito por Paulo em I-Tessalonicenses 2.
- Isso é um relato que deturpa a realidade – interveio Jeovah. Porque era de se esperar que eu ordenasse aos meus sacerdotes para que eliminassem quaisquer deuses novos que surgissem! O que Paulo escreveu é um absurdo. Obviamente que ele não poderia nem deveria usar de meu nome para dizimar judeus e gentios. Se Paulo foi perseguido, o foi porque meus sacerdotes eram eficientes e atentos aos que violassem meu mandamento: Não terás outros deuses diante de mim - como já foi dito aqui tantas e tantas vezes.
Jesus de Nazaré teve um acesso de tosse. Expirava, usando um lenço branco no nariz, enquanto uma grande nuvem envolvia todo o Tribunal aéreo. Mas logo continuou:
- Há uma grande disputa por adeptos, como novamente se observa claramente. Paulo acusa gravemente aos meus irmãos judeus e aos meus apóstolos. Pedro busca adeptos judeus, os circuncidados. Paulo se dirigia aos demais povos, como se lê em Gálatas 5: “Não sejais escravos, se vos circuncidardes, de nada vos servirá Cristo, pois tereis que submeter-vos à lei, ficando separados de Cristo. O que vale é a fé em Jesus de Nazaré e a caridade”.
Jesus de Nazaré teve novos acessos de tosse. Seu rosto estava vermelho e parecia estar com febre. Prosseguiu:
- Paulo de Tarso disse em Atos 22,28: “Sou romano de nascimento”. E em 22,20: “Quando se derramou o sangue de Estêvão, testemunha de Jesus, eu estava presente, consentia nisso e guardava os mantos dos que o matavam”. Ele foi coautor confesso, assim, dessa morte. Embora sendo de Tarso, se confessou romano de nascimento e, como tal, coautor da morte de Estêvão.
Jesus de Nazaré:
- Está claríssimo que esse judeu-romano, Paulo, da cidade de Tarso, é sacerdote que busca seus dizimistas, ou, dizimados, entre os goin. Pedro os busca entre os judeus, os circuncidados. Paulo promete a ressurreição para os gentios e, para isso, basta que creiam que Jesus de Nazaré é o salvador, ou seja, o Cristo. Paulo foi coautor. Mas todos podem matar - segundo escreveu. Podem pecar, roubar, assassinar. Basta que se tornem adeptos da sua nova doutrina: serão ressuscitados e arrebatados para as nuvens. Leio Paulo em Atos 24,15: “Tenho esperança em Jeovah, como também eles esperam que haverá a ressurreição dos justos e dos pecadores”.
Jesus de Nazaré, antes de continuar, olhou para todos os lados:
- Novamente escreves - Paulo de Tarso, que tens esperanças. Mas, não deverias ter a mais inabalável certeza? Afinal, você não descreveu que seu amigo subiu ao céu, catorze anos antes de escreveres em Atos? Você não relatou que no céu somente existem espíritos? Se você sabe de tudo isso, como pode ter alguma dúvida?
Prosseguiu o Mestre:
- Aliás, você escreveu em I-Coríntios 15-14 e 15: “Se não há ressurreição dos mortos, nem Cristo ressuscitou. Se Cristo não ressuscitou é vã a nossa pregação, e também é vã a vossa fé. Se os mortos não ressuscitam, também Cristo não ressuscitou. E se Cristo não ressuscitou, é inútil a vossa fé, e ainda estais em vossos pecados. Também estão perdidos os que morreram em Cristo”.
Após refletir por breves instantes:
- Lázaro foi nesse caso uma prova plantada? Afirmas que Jesus de Nazaré falou contigo, no caminho para Damasco, te convocando a ser seu pastor, deixando de perseguir os que eram chamados de cristãos. Ora, se isso fosse verdadeiro, jamais poderias ter manifestado as dúvidas que acabamos de ler. E em II-Coríntios 12,2, disseste que viste subir um seu conhecido. E ainda deste um detalhe: teria subido ao Terceiro Céu! Ora, esse fato te autoriza a ter a mais absoluta certeza de que existe o céu e Jesus de Nazaré nele, ressuscitado. Certamente já possuías um telescópio, único meio de ver talvez algo tão distante e rodeado de nuvens.
Parecia cansado o grande judeu. O mais famoso, corajoso, o primeiro humano a preconizar a igualdade e o respeito às mulheres. Lá embaixo, em todo o globo terrestre, cento e dez bilhões de humanos, agora declarados eternos, se debatiam torturados pela fome e pela sede. Continuou:
- Pedro recebe os dízimos dos judeus, grande parte deles conhecidos por ebionitas, circuncidados, e lhes promete a ressurreição desde que cumpram com os mandamentos de Jeovah. Para Pedro parece que não basta crer. O adepto tem que continuar a respeitar as leis de Jeovah. Para Paulo, o seu seguidor pode pecar, matar, roubar, embora ele recomende que todos os seus dizimistas sejam justos.
Jesus de Nazaré era ouvido pelo planeta com atenção cada vez mais acurada. Ele denunciava:
- O desejo de todos os sacerdotes é o de obter o maior número de adeptos e de dízimos. Leio, e constato: havia rivalidade entre os apóstolos e Paulo. Cada sacerdote tem seus métodos. E cada qual tinha argumentos poderosos, a tal ponto que os adeptos chegaram a suplicar para fornecer suas ofertas. Repito o que está escrito por Paulo: “Não são do agrado de Deus, que são inimigos de todos os homens, visto que nos proíbem de pregar aos gentios para que se salvem. Pecam e a ira do Senhor os atinge”. Eles já disputavam dizimistas desde os primórdios das ekklesias. As disputas eram entre os apóstolos e Paulo de Tarso, como está claramente escrito por ele próprio.
Pedro que a tudo ouvia atentamente:
- Mestre, após tua morte, pregamos e buscamos formar nosso rebanho, como ordenaste. Nos ensinaste claramente que os porcos, cães, os conhecidos por goin, não mereciam que lhes jogássemos pérolas ou migalhas. Vou ler o texto bíblico produzido por Mateus, em 7,6: “Não lanceis aos cães as coisas santas, não atireis aos porcos as vossas pérolas, para que não as calquem com os seus pés, e, voltando-se contra vós, vos despedacem”. E em 15,23-27: “Uma cananéia gritava e implorava por ajuda; Jesus de Nazaré mandou despedi-la por não ser israelense e disse aos apóstolos: Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel e não convém jogar aos cachorrinhos o pão dos filhos”.
Com a Bíblia na mão, prosseguiu Pedro:
- Surgiu então o soldado romano judeu, Paulo de Tarso, da tribo de Benjamin, como consta em Romanos 11,1. Disse que teve uma visão contigo, e se tornou sacerdote dos goin. Mas nem Jeovah nem você jamais permitiram que se fosse salvar, por exemplo, os romanos, esse povo que exterminou um milhão de nossos irmãos judeus, ou os habitantes das Terras das pirâmides, que escravizaram nosso povo todo durante décadas. E, além disso, Paulo de Tarso nos acusou de estarmos desagradando a Jeovah ao lhe proibirmos que ele, Paulo, forme seu próprio rebanho de dizimistas com os povos não-judeus.
- Realmente. Está escrito claramente por Mateus e seus colegas, na primeira parte dos seus Evangelhos, como tantas vezes já se disse neste Juízo Final, que os gentios, os não-judeus, os goin, não devem ser admitidos como nossos adeptos, nossos fiéis. Estamos vendo que neste Juízo Final todos somos judeus. Nossos inimigos, os romanos, esse povo que nos dominou durante tantas décadas, fundaram, com a iniciativa de Paulo, um poderoso rebanho no qual não há sequer um só judeu - salvo os que foram forçados a adotar a nova seita, pena de serem mortos, durante a Santa Inquisição. Padres, abades, bispos, cardeais, freiras, pastores, todos são goin. Não admitem que judeus integrem suas organizações religiosas. A exceção foi Pedro, agora ressuscitado de seu túmulo sob o Baldaquino de Bernini, na Basílica de São Pedro, no Estado do Vaticano, em Roma.
Continuou o Mestre:
- Em sua carta aos Gálatas 6,11, Paulo de Tarso afirmou que travou disputa com os dizimistas liderados por Pedro: "Os que vos obrigam à circuncisão, para se gloriarem, são homens que se querem impor e nem eles observam a lei".
- Em Israel nosso povo também não admite que rabinos sejam de origem goin. Não se misturam -continuou o Mestre judeu. Mas eu compreendo agora perfeitamente porque isso acontece. Tanto os israelenses como os romanos possuíram e possuem milhares de sacerdotes. Os seguidores de Paulo formaram um gigantesco rebanho. Os judeus seguidores de Pedro o abandonaram logo que perceberam que a vinda do Reino de Jeovah e de Jesus de Nazaré não aconteceu no primeiro século após minha morte. Depois o nome de Pedro e dos apóstolos passaram a ser usados por empréstimo pelos sacerdotes romanos, liderados pelo imperador Constantino, adorador de Invictus, o deus Sol, para fins de dominação política do povo romano.
- A ninguém se pode repreender – disse o Mestre. O dízimo é obrigatoriamente fornecido para todos os sacerdotes, tanto judeus como romanos, protestantes ou evangélicos, segundo a Bíblia Sagrada. Aparentemente ninguém é obrigado a doar. Vou, no entanto, examinar essa questão. Quem é ameaçado com o fogo do Inferno, com as fornalhas, com a danação eterna num local de crueldade e de dor, na Geena de Jerusalém, está livre de coação? Quem deve temer também a Jeovah, pena de ser vítima de hemorroidas, chagas, tísica, úlceras, granizo, golpes de espada, esterco no rosto, tumores - está oferecendo seus dízimos livre e espontaneamente? Os ignaros, os analfabetos, os Am ha-Arez?
Jesus de Nazaré voltou aos diálogos com Elias, que estivera aguardando:
- Mateus escreveu em 17,10-12: “Por que dizem os escribas que Elias deve voltar primeiro? Jesus de Nazaré respondeu-lhes: de fato, Elias deve voltar e restabelecer todas as coisas. Mas eu vos digo que Elias já veio, mas não o conheceram; antes, fizeram com ele quanto quiseram. Do mesmo modo farão sofrer o Filho do Homem. Os discípulos compreenderam então que ele lhes falava de João Batista”. Mateus também escreveu em 11,12-14: “Disse Jesus de Nazaré: João Batista – é ele o Elias que devia voltar”.
Continuou:
- O relato de Mateus não deixa dúvidas. Você desceu do céu. Voltou. Exatamente como estava previsto no Velho Testamento.
- A Bíblia é sagrada – redarguiu Elias. Não mente, não é verdade? Pois se está escrito, assim ocorreu. Mateus o disse - acabei de ler isso. Mas, por que desceste do céu como João Batista? Por que trocaste de nome? – prosseguiu Jesus de Nazaré.
- Eu evidentemente não desci e me apresentei como tendo o nome de João Batista. Nem poderia fazer isso. Mateus estava delirando quando escreveu que eu seria o João Batista. Leiamos Lucas 1,57-76, onde se descreve o nascimento do filho de Isabel, chamado João, que precederá Jesus de Nazaré, preparando-lhe o caminho. Esse é claramente João Batista, nascido do ventre de Isabel. Não pode ser este Elias que aqui se apresenta.
Mateus interveio:
- Malaquias escreveu em 3,23: “Vou mandar-vos o profeta Elias, antes que venha o grande e temível dia do Senhor”. Baseado nessa profecia é que os narradores sacerdotais escrevem e afirmam quem e onde está esse Elias. Ele subiu no carro de fogo ao céu. E de lá voltaria. Por que João Batista não poderia ser Elias, na realidade? Bem sei que esse profeta decapitado por ordem de Herodes, é filho de Isabel. Mas, o que fazer? Assim está escrito.
O Historiador interveio:
- É um novo buraco narrativo muito interessante.
Jesus de Nazaré convocou novamente Moisés para o trono à sua frente. O milenar ressuscitado parecia muito contrariado. Nunca sonhara ser elevado àquela umidade e frio onde não havia conforto algum e se via obrigado a manter relações sociais com aves humanóides.
- Diga ao Tribunal, Moisés: você realmente falou com Jeovah no Monte Sinai? Não é altamente suspeito que tal encontro se realizasse muitos quilômetros longe do vale em que teus dizimistas se encontravam? Lembro que a subida é dificultada por grandes pedras. Estavas longe dos teus adeptos israelitas. Muitos quilômetros e não podias ser visto por eles.
Moisés:
- Isso não é importante. Sou sacerdote e profeta. Tenho que comandar meu povo. Tenho que criar regras para eles. Havia muitos deuses para serem adotados: Baal, o Deus Sol. Os romanos possuíam muitos séculos após, o seu Deus Invictus – Sol. Havia os deuses Daab, as deusas Asserá, Ana e Ava, estas muito apreciadas pelos judeus. Tínhamos o deus Sol, o deus Lua, Emat, Arfad, Sefar Vaim, Nesroc, a deusa Artemis, o deus Moloch cujos sacerdotes atuavam na Geena e muitos outros.
Jesus de Nazaré:
- Eu nunca entendi por que elegeste justamente um deus com o nome de Jeovah.
- Por que o nosso nome maior, Abraão, que possuíra vários outros deuses, se inclinou pelo nome de Jeovah, estabelecendo religião monoteísta e com deus invisível, facilmente imposto aos dizimistas e dominados.
O nome do grande patriarca Abraão provocou uma grande festa. Anjos tocaram cítaras, címbalos, harpas e pandeiros. Uma saudação de doze mil trombetas executadas pelos anjos ecoava como uma sinfonia.
Noticiavam os jornais: “No Vaticano as multidões aplaudiam a escolha feita por Moisés. A ninguém parecia importar que o seu deus era uma divindade escolhida ao acaso por antigos judeus. Assim como não mais pareciam importar-se com o Papa Emérito, humilde hóspede de Castel Gandolfo e seus imensos jardins desertos”.
Jesus de Nazaré:
- Baal poderia ser o deus de todos? Tivessem seus sacerdotes vencido a disputa - seria ele nosso deus? Baal era o mais adotado deus em Canaã. Seus adoradores pediam ano agrícola fértil e com frutos de boa qualidade. Dependiam da terra. Viviam dela. Ignorantes e rústicos - eram presas fáceis dos sacerdotes, dizimadores. Suas regras obrigavam a ritos de devassidão. Com isso estariam estimulando seu deus Baal a se acasalar com Astorete e assim garantir boas safras. Havia santuários a Baal em toda a Canaã. No lado de fora havia colunas de pedra, postes sagrados representando a deusa Asserá e pedestais incensários. Eram símbolos sexuais que lembram as futuras torres e obeliscos das ekklesias.
- Os sacerdotes criam regras e deuses – continuou Jesus de Nazaré. Criam santos. Criam práticas escravizantes. Os baalistas eram Am ha-Arez e Moisés teve que adotar um deus irado e ameaçador para vencer os concorrentes. Elias matou quatrocentos e cinquenta sacerdotes baalistas. A cobiça está sempre presente.
Novamente as telas de TV da Maschiene exibiram o início de um culto a Jeovah por ocasião do Shabat que se realizava em Tel Aviv. Jeovah observava atentamente pedindo silêncio e ordenando que os helicópteros se afastassem.
- Shavúa tov – saudou o rabino.
Bebeu vinho e apagou uma vela com ele.
- O Shabat se vai, mas a esperança permanece, pois a redenção do mundo se aproxima: Eliahu hanavi, Eliahu hatishbi, Eliahu haguil’adi, Bimehera iavô elênu, Im Mashíach ben David, Elias o profeta, Elias o Tishbita, Elias de Gilead. Logo, em nossos dias, ainda virá. Com o Messias, filho de David. Com o Messias, filho de David.
Jesus de Nazaré:
- Acabamos de ver: Ainda hoje o meu povo aguarda a vinda de Elias. Mas Mateus e demais evangelistas escreveram a dois milênios que Elias teria já então vindo duas vezes. Escreveram que eu teria dito, no batismo por João Batista, que ele já descera e fora maltratado pelo meu povo. E escreveram que eu teria recebido a visita de Elias, junto com Moisés, na presença de Pedro. Eles teriam descido das nuvens. Jeovah também, embora ocultasse seu corpo em uma nuvem que baixou com ele até o solo.