Juízo Final: Odisséia dos Deuses
Capítulo 65
Um casal chegou espontaneamente para ser julgado.
- Nós acabamos de nos casar. Apaixonamo-nos à primeira vista. Eu sou ressuscitada e vivi há cinco séculos na Austrália. Meu marido ainda não morreu nem ressuscitou.
- Você creu em Jesus de Nazaré?
- Não, somente agora me informaram da tua existência.
- E você obedeceu às regras dos sacerdotes de Jeovah? Os mandamentos?
- Não, pois na Austrália não havia judeus e seus rabinos.
- Concluo que foram pecadores, seja como for. Eu os absolvo pelo fundamento das regras bíblicas que dizem que eu não vim para Israel para salvar os justos, mas, sim, os ímpios e pecadores. Levem-na - ordenou, dirigindo-se aos arcanjos de plantão.
- Um momento, Jesus de Nazaré – falou a mulher australiana. Meu marido vai subir como está, ou seja, mantendo seu sistema de reprodução? Não está escrito que os ressuscitados viverão como os anjos, lá no céu? Eu e ele vamos ter filhos?
- Mateus - explique isso. O que vocês escreveram a respeito?
- Parece que ela não poderá se macular. E ele, como não foi nem há previsão para ser castrado, terá ereções.
Jesus de Nazaré:
- O que significa macular? Ao a conhecer - engravidá-la - a mulher se torna maculada, suja ou pecadora?
Houve um grande espanto entre todos os que ouviram essas indagações.
- Pelo que observo, os sacerdotes romanos afirmam que minha amada mãe não coabitou nem com José nem com ninguém mais, mantendo-se virgem. E elogiam esse fato. Mas dizem, com isso, que ela se tornaria maculada se tivesse mantido as habituais relações sexuais necessárias a todos os humanos e demais animais. E minhas irmãs? São elas maculadas porque resultantes de gravidez? Todas as mulheres mães ou grávidas são maculadas?
- Está escrito na Bíblia – interveio o evangelista João - que não terão relações sexuais os admitidos no céu. Parece que, por medida de segurança, deverão ser castrados os condenados por estupros. São milhões.
- Os anjos não são castrados! As igrejas estão repletas de pinturas com anjos-bebês! Eles procriam!
- Estamos todos perdendo tempo – replicou João. O que foi escrito, está escrito e nada mais há a discutir. Os dizimadores escrevem e dizem o que lhes interessa. Assim acontece desde Moisés.
- Não vou admitir um gentio comigo nas nuvens, castrado ou não, que seja proveniente de prisão!- exclamou Jeovah.
Milhões de prisioneiros e condenados ressuscitados andavam soltos. Não havia penitenciárias para todos, nem guardas, nem comida e água.
Novamente foi interrompido o julgamento. Os tronos batiam uns nos outros pela força dos ventos de mais de cem quilômetros por hora que subitamente surgiram do sul. Voavam penas de anjos e um querubim foi destroçado pela hélice vertical de um helicóptero italiano. O sangue rubro como carmim foi espargido no rosto de Jeovah e demais julgadores. Mas logo ele recobrou suas formas anteriores. Afinal todos os celestiais são eternos.
Jesus de Nazaré recobrou-se logo do dantesco espetáculo. Chegaram dois homens, ricamente vestidos. Assim como viera, o vento se fora.
- Me informam que os dois varões são um casal de homossexuais. Vamos proceder ao julgamento deles. Pergunto desde já:
- Vocês creram em Jesus de Nazaré?
- Eu creio, pois ainda não morri. Sempre frequentei a igreja que possui torre, sinos, confessionário, rosários, água benta, incenso, órgão musical e imagens esculpidas, além de sacerdotes filiados a Roma. Já meu companheiro, é um ressuscitado que foi morto por ação de Jeovah na cidade de Sodoma. Apaixonamo-nos logo que ele saiu do seu túmulo. Casamo-nos, de acordo com a lei atualmente em vigor. Mas ele não creu em Jesus de Nazaré, já que este somente veio a existir em Israel séculos após a destruição de Sodoma e Gomorra.
- Vocês pecaram, não importa que tenham agido de acordo com uma lei humana. Um de vocês não creu. Está escrito que quem não crer será condenado. Mas também está escrito que Jesus de Nazaré não veio para salvar os justos, mas, sim, os ímpios e pecadores. Eu os declaro absolvidos e devem ser levados ao alto das nuvens. Está escrito que o varão será salvo se a mulher crer. Basta que ela creia. Não importa se ele foi um assassino perverso.
- Eu ainda não ressuscitei - respondeu o jovem homossexual.
- Não importa - respondeu Jesus de Nazaré. A Bíblia informa que eu subi com o meu corpo ressuscitado. Mas informa também o apóstolo Paulo que viu ser arrebatado ao céu um de seus amigos e que ainda não havia morrido. Já Lázaro, foi ressuscitado e morreu tempos depois. Na minha crucifixão não saíram de seus túmulos inúmeros judeus que morreram pela segunda vez, após? Tudo é possível nesses relatos de sacerdotes.
Jesus de Nazaré fez um sinal para que os querubins os levassem para o céu. Mas Jeovah bradou:
- Um momento! Não há a menor chance de serem admitidos no céu esses dois pecadores. Um deles já foi queimado por mim em Sodoma e Gomorra. Como vou conviver com tal criatura?
- Vejo que há divergência. Que votem os doze apóstolos.
- Jeovah condenou o homossexualismo – falou Mateus. Destruiu as cidades de Sodoma e Gomorra. Matou seres humanos inocentes. E, ainda que fosse crime conviverem dois seres humanos do mesmo sexo, o assassinato não se justificaria. Não está escrito por Moisés nas duas pedras: não matarás? Penso que devemos proceder ao julgamento, sim, mas é o de Jeovah, aqui presente. E eu o acuso formalmente: matou centenas de humanos sob o pretexto de não lhe agradar o homossexualismo. Matou usando de enxofre e fogo enviado do céu. Matou como o fez por afogamento, no grande dilúvio.
Jesus de Nazaré:
- Jeovah não é réu neste Juízo Final. Indefiro o pedido. Como vota - no caso desse casal de homens que aqui está para ser julgado?
Mateus:
- Está escrito em meu evangelho 19,28: “Respondeu Jesus: Em verdade vos declaro: no dia da renovação do mundo, quando o Filho do Homem estiver sentado no trono da glória, vós, que me haveis seguido, estareis sentados em doze tronos para julgar as Doze Tribos de Israel”. Vejo que um dos homossexuais é judeu, das cidades de Sodoma e Gomorra, agora ressuscitado. O outro parece não ser judeu.
- Sou filho de faraó - informou o outro homossexual.
- Dou-me por competente para julgar somente o judeu e desde já o declaro culpado por que: não creu em Jesus de Nazaré, não foi batizado, não se arrependeu de seus pecados - pois voltou a unir-se a outro homem após sua ressurreição. Os sacerdotes judeus escreveram que a morte é o destino dos sodomitas.
Os demais apóstolos acompanharam o voto de Mateus. O líder dos Anjos Separadores passou a votar:
- Os apóstolos estão contrariando as leis vigentes. Estão discriminando. Os homossexuais podem até casar-se e adotar filhos. Sou obrigado a perguntar-lhes: quem falou com Jeovah para relatar no Livro Sagrado o que consta nos escritos do sacerdote Paulo de Tarso aos Romanos, em 1,26-27: "E, semelhantemente, também os homens, deixando o uso natural da mulher, se inflamaram em sua sensualidade uns para com os outros, homens com homens, cometendo torpeza e recebendo em si mesmos a recompensa que convinha ao seu erro"?
Um dos querubins levantou-se e sua face humana falou:
- Como pode o ex-matador de cristãos dizer que os homossexuais são pessoas torpes? Quem lhe deu essa autoridade?
Paulo de Tarso:
- Eu escrevi que são torpes, sim. E o apóstolo aqui presente, Lucas, também disse em 17,29: "No dia em que Lot saiu de Sodoma, choveu fogo e enxofre do céu, que exterminou todos eles".
Jesus de Nazaré virou-se para Jeovah:
- Você teve coragem de queimar com fogo e enxofre a milhares de pessoas que habitavam Sodoma e Gomorra? Matou mulheres, crianças, velhos, todos? Carbonizou implacavelmente os casais homossexuais?
Jeovah, visivelmente contrariado:
- Pergunte a quem escreveu isso, ou seja, aos sacerdotes judeus.
Jesus de Nazaré:
- Então você não nega ter eliminado pessoas com enxofre e fogo, só porque exerceram sua liberdade de escolha? Sabes que isso é delito de discriminação, punível com prisão?
Jeovah:
- Sim, mas eles não eram somente homossexuais. Eles eram o que escreveu o profeta e sacerdote Ezequiel em 16,49: "O crime da tua irmã Sodoma era este: opulência, glutonaria, indolência, ociosidade".
Jesus de Nazaré:
- Ah! Queimas humanos com enxofre, da forma mais cruel, aqueles seres que escolhem enriquecer, gostam de alimentar-se e vivem preguiçosamente.
- Jeovah, Boreh, o Criador, vejo que és vingativo e impiedoso! Vejo que, além de matar milhões de humanos afogados no dilúvio que provocaste, além de queimar pessoas com enxofre e com fogo vindo do céu, tu és cruel e nada perdoas, como está em Deuteronômio 32,32: "Suas videiras são das plantações de Sodoma e dos terrenos de Gomorra; suas uvas são venenosas, seus cachos, amargosos".
Jeovah murmurou:
- Isso é coisa de Moisés. Uvas venenosas?
Jesus de Nazaré:
- Sim. O teixo, por exemplo, ataca o coração de modo fulminante. É usado para fazer flechas envenenadas desde épocas remotas e entrou para a mitologia como a própria arma das Erínias, as deusas da vingança. Relatam os sacerdotes do Velho Testamento que tu provocavas a morte dos que não te agradavam, enviando - não se sabe como - chagas, úlceras, tísica, tumores, lepra, hemorroidas, granizo, esterco no rosto.
Um anjo da ordem das Potestades passou a votar:
- Quero lembrar que dois de nossos colegas anjos chegaram a Sodoma, como está escrito no Velho Testamento pelo sacerdote judeu - em Gênesis 19,1 e seguintes: "Pela tarde chegaram os dois anjos a Sodoma. Lot, que estava sentado à porta da cidade, ao vê-los, levantou-se e foi-lhes ao encontro, e eles entraram em sua casa e comeram pães sem fermento; disseram que o Senhor Jeovah vai destruir a cidade; os dois anjos tomaram pela mão a Lot, sua mulher e as suas duas filhas e os levaram para fora da cidade; fora da cidade um dos anjos disse: não olhem para trás, senão perecerão; o Senhor Jeovah fez cair sobre Sodoma e Gomorra uma chuva de enxofre e de fogo e destruiu essas cidades, subindo delas fumo espesso e uma grande fornalha".
Jesus de Nazaré voltou a dirigir-se a Paulo de Tarso:
- O fogo. Que fascínio por ele tinham os matadores da Bíblia e os Inquisidores e demais dizimadores integrantes das seitas romana, protestante e judaica. Veja que a Bíblia não deixa dúvidas: os habitantes das nuvens são efetivamente de carne e ossos. Comem pães, bebem vinho, manejam espadas, falam e possuem mãos para arrastar Lot e sua família. Espíritos evidentemente não comem nem pães nem outros alimentos nem possuem braços para lançar enxofre sobre o solo - como estamos cansados de constatar neste julgamento.
Paulo de Tarso ignorou o que o Mestre tinha dito. E este foi até Jeovah:
- Milhares de pessoas foram queimadas por você? Ou isso é invenção de quem escreveu o Gênesis e outros livros da Bíblia? Você realmente lançou fogo e enxofre sobre toda a população de Sodoma e Gomorra, queimando-os, inclusive mulheres e crianças?
Jeovah:
- Está assim escrito pelos sacerdotes. Por que não pergunta a eles se assistiram esses fatos ou se os inventaram? Sequer haviam nascido então. Você acredita que eu seja assassino?
Jesus de Nazaré:
- Moisés assim disse: “Deixemos os Anjos Separadores proferirem seus votos”.
Um dos arcanjos:
- Os homossexuais, segundo me informam, constituem dez por cento da população mundial. Aceito que sejam somente cinco por cento. Entre os ressuscitados - cem bilhões - e os ainda vivos, cinco bilhões teriam que ser queimados – o fogo! - na Geena ou no Inferno, segundo Paulo de Tarso e outros sacerdotes bíblicos. O castigo brutal - simplesmente porque optaram por viver da forma que lhes agrada.
Um dos querubins Separadores:
- Mas Paulo de Tarso afirma que as leis de Jeovah não devem ser obedecidas. Os que creram em Jesus de Nazaré sobem para as nuvens, independentemente de quaisquer outros pressupostos. Paulo de Tarso obviamente é o que passa a ser a melhor opção para as ovelhas.
- Mas sobem em forma de espírito - emendou Paulo de Tarso.
- E os corpos, onde ficam? - indagou sarcasticamente um Anjo Separador.
Paulo de Tarso:
- Os que ressuscitaram, já são espíritos. Os vivos devem ser mortos para que seus espíritos possam subir para as nuvens ou descer para o vale da Geena, ao lado de Jerusalém, como está escrito.
Jesus de Nazaré:
- E quem os eliminará? Mais sete ou mais bilhões de assassinatos?
- Eu não pensei nisso, quando escrevi minhas epístolas bíblicas - respondeu Paulo. Só sei que para o céu não pode subir um corpo humano com carne e ossos, mesmo porque morreria de fome e frio. Isso se não caísse de lá por falta de anjos que o sustentasse. Meros dez milhões de anjos não conseguem suster cem bilhões de humanos. Cada anjo teria que sustentar dez mil descendentes de Eva. Além disso, afirmam que várias das epístolas são falsificações de interpoladores, ou, simplesmente, não teriam sido escritas por mim.
Os Anjos Separadores votaram e acabaram por condenar os homossexuais:
- Jeovah, segundo escreveram os sacerdotes em Levítico 18,22, teria ordenado: "Eu sou o Senhor Jeovah: não te deitarás com um homem, como se fosse mulher, isso é uma abominação e não terás comércio com um animal, para te contaminares com ele". Com isso Jeovah iguala os atos homossexuais com os praticados com animais.
Nas televisões apareceram os protestos de mais de cinco bilhões de homossexuais. Helicópteros decolaram com casais de gays e logo milhares deles cercavam o Tribunal do Juízo Final. Desembarcou um casal de homens e um casal de mulheres - homossexuais. Estavam visivelmente revoltados com os votos que os condenavam à Geena. Falou um dos homens:
- Nós fomos todos feitos por Jeovah e somos semelhantes a ele, portanto. Somos mais de cinco bilhões de ressuscitados. Jeovah é idêntico a nós e somos semelhantes a Adão. Deveremos processar os preconceituosos.
Mais e mais helicópteros se aproximaram. O Tribunal do Juízo Final foi cercado por milhares de indignados homossexuais masculinos e femininos. Portavam metralhadoras, fuzis e lança-chamas. Alguns lançadores de mísseis estavam visíveis. Para mostrar sua força, de um dos helicópteros um lança-chamas cuspiu uma língua de fogo de mais de cinquenta metros para o alto.
Jesus de Nazaré não se atemorizou e convidou o líder dos homossexuais para que se aproximasse. Serafins o trouxeram até seu trono enquanto dezenas de helicópteros da sua grei conseguiram aproximar-se e cercar os tronos.
- Sejam todos bem-vindos - disse Jesus de Nazaré. Vejo que bilhões de seres humanos se amam e se unem, embora sejam do mesmo sexo. Este Tribunal há de reconhecer a legitimidade dessas uniões, validando as leis que regem seus povos. Diga aos seus liderados que compareçam ao julgamento sem qualquer receio e que guardem suas mortíferas armas de fogo.
- Perdoe Mestre - mas as coisas não são tão simples. Não aceitamos os insultos que Paulo de Tarso nos dirigiu. Não somos torpes, como quer Paulo de Tarso. Somos pessoas ordeiras e temos em nosso meio também centenas de milhares de sacerdotes romanos que se unem a outros homens e meninos.
Paulo de Tarso interveio:
- Não retiro nenhuma palavra dos meus escritos bíblicos. Lucas também disse em 17,29: "No dia em que Lot saiu de Sodoma, choveu fogo e enxofre do céu, que exterminou todos eles". Ou seja, Jeovah, aqui presente, enviou o fogo e o enxofre lá de depósitos existentes nas nuvens.
Jesus de Nazaré:
- Ah! Reconheces finalmente que no céu existem materiais combustíveis e explosivos! Reconheces que lá há estoque de enxofre, como o usado por Jeovah para matar os habitantes das cidades de Sodoma e Gomorra. E lá existem criaturas com força manual, capazes de produzir e armazenar esse fogo e esse enxofre! Existem lá no alto matérias-primas para sua produção!
- O enxofre é um metaloide sólido, insípido e inodoro, de cor amarelada, de número atômico 16, e massa atômica 32,0066, ferve aos 444,6 graus Celsius e queima no ar. Produz ácido sulfúrico e é encontrado junto a antigos vulcões. Um dos locais em que existe é na Sicília. É de lá que os anjos o trouxeram para depósitos em nuvens?
Prosseguiu o Mestre:
- E quem o narrou foi teu discípulo: Lucas! E Mateus refere em 8,31 que Jesus de Nazaré falou com os demônios. E, sendo Satanás um anjo expulso do céu, obviamente não é espírito pelo que escrevem os evangelistas. Satanás, esse anjo luminoso, conhecido por Lúcifer, seria muito robusto e forte, segundo Mateus 3,5-11: “O demônio transportou a Jesus à Cidade Santa, colocou-o no ponto mais alto do templo e lhe falou; depois transportou a Jesus de Nazaré até um monte muito alto. O demônio partiu e os anjos vieram servir a Jesus de Nazaré”.
Deixou a Bíblia Sagrada no seu trono e continuou:
- Paulo de Tarso: o anjo Satanás, ou o Demônio, ou o Diabo, ou o Dragão do Apocalipse, como queiramos chamá-lo neste Juízo Final, tem pernas e músculos. E são membros muito poderosos. A ponto de transportar, à força, um ser humano com setenta quilos de peso. E tão forte é, que eleva esse peso até o alto de uma montanha e no ponto mais alto do templo! E tal anjo fala, possui cordas vocais capazes de levar aos tímpanos de Jesus de Nazaré os sons que produz! E logo chegam os anjos para servir a Jesus de Nazaré. Esses anjos possuem olhos para localizar os dois personagens. E esses seres-aves possuem capacidade de servir a Jesus de Nazaré, certamente lhe trazendo alimentos e vinho com água e mel.
Paulo de Tarso:
- Pois eu julgo que já está na hora de intervir energicamente neste julgamento. Sou o líder de mais de um bilhão de adeptos filiados a Roma. Você, caro Mestre, morreu quando possuía um rebanho de poucos judeus, os ebionitas, que acabaram por abandonar a crença, pois o Reino não veio a Israel. Messias fora uma mentira para eles.
Paulo de Tarso dirigiu-se ao líder dos homossexuais:
- Sou eu o líder dos cristãos agora. Não existem mais judeus que tenham adotado seitas cristãs voluntariamente. Os gentios - ou seja, os não-judeus, me pertencem. Não são mais obrigados a se circuncidar, como é costume entre os descendentes dos patriarcas judeus.
Jesus de Nazaré:
- Você está desafiando a Jeovah e a mim, Jesus de Nazaré, seu filho? Quero lembrar-lhe que o que escreveu João em 3,16: "De tal modo Jeovah amou o mundo, que lhe deu seu filho único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna".
Paulo de Tarso:
- Pois vimos os conflitos e as contradições que neste Juízo Final se apresentam. O evangelista João por acaso viu o referido filho de Jeovah, ou seja, Jesus Celestial, descer para a Terra? Não concordam todos que esse filho que teria descido do céu, na realidade narrativa dos evangelistas, nasceu após uma gestação de nove meses, humana, sendo sua mãe a adorável Maria, esposa de José? O que realmente me deixa aturdido é ler nessa Bíblia Sagrada e infalível que Jeovah permitiu que seus filhos descessem para desposar as mulheres belas, descendentes de Adão e Eva. Tenho que reconhecer que esses filhos de Jeovah eram de carne e ossos, caso contrário não poderiam fornecer espermatozoides para engravidar as mulheres belas da Terra. E se eles eram iguais aos humanos, obviamente que seu pai, Jeovah, também o era.
Paulo de Tarso respirava com grande dificuldade. Estava sendo coerente, mas isso contrariava tudo que dissera em suas epístolas: no céu não podem existir senão espíritos. E arrematou:
- Eu disse o óbvio, o lógico. Mas eu volto a dizer que esses filhos de Jeovah foram descritos por Moisés. E ele não tinha como saber da veracidade do que escrevera no Pentateuco. Eu declaro que esses filhos de Jeovah são invenções de quem escreveu esse texto.
- Ah, Paulo de Tarso: admites que os escritos bíblicos seriam falsos? Admites que a Bíblia mente?
- Sem dúvida. Não posso aceitar que nas nuvens possam sobreviver seres que necessitam de água, cordeiros assados, trigo, azeites, romãs, tâmaras, unguentos, leite, vinho, mel e demais alimentos necessários à saúde além das vestimentas, remédios, banheiros, água sanitária, camas, lençóis, travesseiros, sabão, pasta de dentes, tesouras para cortes de cabelo e unhas, colírios e protetores solares aptos a enfrentar os permanentes e nefastos raios ultravioletas.
Jesus de Nazaré:
- E por que os escritores bíblicos produziriam essas inverdades?
Paulo de Tarso:
- E volto a dizer: cada escritor, cada narrador, escreve o que lhe interessa. Afinal são todos sacerdotes e precisam formar seus rebanhos. São todos pastores, todos trocam as esperanças que produzem, por dízimos. A vida de pastor é certamente muito mais cômoda do que a do agricultor, obrigado a trabalhar de sol a sol.
Jesus de Nazaré abriu a Bíblia Sagrada:
- Isso se confirma por Jeremias em 11,13: “Ó Judá, possuis tantos deuses quantas são as tuas cidades: e quantas ruas tens em Jerusalém, tantos altares de infâmia ergueste para neles queimar oferendas em honra de Baal”. A eterna concorrência entre sacerdotes e seus deuses ou pastores e os diversos usos do Grujuem. Jeremias escreveu ainda, em 23,13: “Entre os profetas samaritanos vi absurdos: profetizavam em nome de Baal e desencaminharam meu povo de Israel”.
A Máquina acendeu luzes vermelhas intermitentes. O texto fora extraído e resumido do livro de Paul Johnson, a História dos Judeus:
- Jacó-Israel foi o pai das Doze Tribos de Israel. Eles possuíam e levavam consigo vários deuses e respectivos sacerdotes. Até o Patriarca tinha crenças religiosas e adorava El Elyon e aceitou El Shaddai, de Ebron e El Olan de Berseba. O deus de Patriarca é adotado por Jacó, em Canaã e surge como Iahweh, monoteísta. Em Canaã se reuniram os grupos semíticos que partilhavam tradições e memórias. Eram os habirus, ou hebreus, judeus. Jesus de Nazaré abriu a Bíblia em Gênesis 35:
- “Deus disse a Jacó: Levanta-te e sobe a Betel para lá morar. Constrói ali um altar a Deus que te apareceu quando fugias de teu irmão Esaú. Disse a todos: Eliminai todos os deuses estrangeiros que houver entre vós”. Moisés teria escrito o Gênesis. Desse texto nasceu, pois, o Jeovah judeu. Assim penso.
Declarou finalizados os trabalhos. Já se aproximava a véspera do sábado mais uma vez, havendo recesso. Os homossexuais seriam julgados futuramente.
Sara Moshê comentou para seus jornais: Jeovah era Iahweh. Nascera. Surgira o deus que habitaria desde as catedrais e basílicas mais suntuosas até os templos cristãos mais humildes. Nascera o deus invisível, segundo diria o evangelista João no Novo Testamento, lá pelo fim do primeiro século. Nascera o deus judeu que falava, face a face, com o grande Moisés, no Velho Testamento. Nascera o deus exclusivo, violento, vingativo, irado e impiedoso dos descendentes de Jacó – Israel. Ele foi transformado pelos romanos em deus misericordioso incluído no Grujuem pelos dizimadores do Novo Testamento.
Die Maschiene exibiu o instrumento de tortura Esmaga Peito ou Aranha Espanhola ou, ainda Tarântula. Sara Moshê assim escreveu aos seus leitores:
“Os agentes da igreja romana eram impiedosos. Espetavam as pontas incandescentes nos mamilos das adolescentes. Enquanto o cheiro de tecidos humanos queimados se espalhava pelas vilas, as meninas e as mulheres de todas as idades eram convidadas a delatar parentes e vizinhos. Os gritos de dor ecoavam dos mosteiros, das abadias, das igrejas e das grades de porões. O sangue escorria no corpo nu dessas vítimas dos sacerdotes. Gargalhavam as hienas e os campônios ouviam o eco desses vômitos da civilização.
Foram séculos de horrores. Tudo em nome de Cristo, aquele ser único que nasceu em Israel. Se te tomarem a túnica, dai-lhes também a capa. Se te baterem numa face, oferecei-lhes a outra – decretou. Os torturadores que usaram do esmaga-peito em brasa eram seguidores de Cristo? Ou eram sacerdotes, todos subordinados aos Papas, que desejavam exclusivamente garantir o seu poder, sua glória bíblica, o vinho e os carneiros tomados dos fiéis?
Essas bestas humanas estupravam as feiticeiras antes de levá-las à seção de torturas e, depois, às fogueiras. Para purificá-las, alardeavam à massa ignara. Não se descarta a possibilidade de homossexuais masculinos terem passado por estupros coletivos, já que a pedofilia era e continua sendo prática habitual.
- És Tomás de Torquemada, nascido em Valladolid, frade dominicano nomeado pelo Papa Inocêncio VIII, e apoiado pela Rainha de Espanha, Isabel de Castela.
- Tomás Torquemada! Manuseando essa hedionda ferramenta de tortura, usaste meu nome para tentar justificar teus atos. Queimar mamilos de mães com crianças agarradas ao colo! Enquanto urravam de dor adolescentes e idosas acusadas de atos de feitiçaria, teus asseclas gargalhavam como chacais! É o que informam os registros históricos – tristes evidências dos cães raivosos chafurdando nas pocilgas infectas dos sacerdotes dizimadores da Inquisição.
- Feitiçaria eram atos como transformar ervas em medicamentos? – continuou o Mestre. Água em vinho? Multiplicar objetos? Multiplicar pães, peixes e vinho? Pois não teria eu realizado tudo isso -como está escrito? Só escapei de ser queimado por não ser mulher? É inacreditável que mentes humanas pudessem construir essas chamadas Tarântulas, ou, ainda, Aranhas Espanholas. Essas torturas foram levadas a cabo por sacerdotes romanos em nome de Cristo, o Salvador, o arauto da fraternidade, do perdão - daquele que mandava entregar também a capa se lhe tomassem a túnica? Essa bárbara brutalidade era praticada por dizimistas valendo-se do nome do judeu piedoso que se imolou para ajudar, para assumir culpas, para ensinar misericórdia? Nem os vermes dos pântanos podem ser mais execráveis que tu, Torquemada, inseto líder de sanguessugas religiosas. Se eu pudesse prever que uma só dessas mulheres tivesse que suportar a dor dos ferros em brasa penetrando em seus sagrados mamilos – símbolos maiores das mães, dos seres mamíferos e da evolução não teria jamais arrebanhado apóstolos dizimadores. Não teria jamais afirmado que teria eu descido das nuvens, como divindade, adulto. E depois gerado em ventre humano – contradição insanável.
A Tarântula foi trazida por anjos Príncipes. Encontraram em torno de quarenta exemplares, a maioria nos porões de palácios pertencentes ao Vaticano. Trouxeram o instrumento menos danificado pela ação da ferrugem.
- Tomás de Torquemada, relate ao Tribunal do Juízo Final: arrancavas as unhas, perfuravas os dedos e marcavas os corpos com ferro em brasa?
- Sim, era a minha função. Cumpria ordens do Papa. As mulheres eram despidas para que se pudesse verificar se os seus corpos possuíam marcas diabólicas. Afinal, o Diabo agia sem cessar. Penetrava nas pernas das mulheres, ao contrário do que defendia Santo Agostinho. Para ele o diabo não fornicava. Mas existia, fazendo com que o pecado se espalhasse. E eu rezava em voz baixa enquanto outros sacerdotes agiam. Afinal, eu tinha a incumbência de salvar a igreja romana dos hereges, das feiticeiras e dos judeus.
- Dos judeus? Por que?
- Porque eles eram ameaça ao poder da igreja e possuíam quase sempre bens a serem doados para Deus.
Jesus de Nazaré sequer tocou naquela máquina da miséria. Ordenou que fossem suas quatro afiadas pontas aquecidas. Torquemada foi firmemente amarrado no trono em que se encontrava. Uma mulher ressuscitada aproximou-se exibindo seu peito mutilado pelo fogo da Inquisição. O Papa estava presente e rezava. Não se ficou sabendo para quem o fazia.
Lentamente a suposta feiticeira apanhou a Aranha Espanhola fumegante e, rasgando as vestimentas do monstro medieval, fez menção de cravá-la no peito do criador da tarântula.
- Pare! Pare imediatamente! - bradou o Mestre. Prove que me és fiel! Perdoa! Perdoa como eu perdoei aos que me crucificaram!
A Mulher Queimada jogou a Aranha Espanhola para fora do Tribunal e desfaleceu. O ato exigiu dela um esforço demasiadamente grande. Quando se reanimou, ajoelhou-se aos pés de Jesus de Nazaré chorando.
Balbuciou:
- Perdoo, sim, a esse pobre e vil ser humano. És exemplo - Mestre, obedeço.
Longo silêncio no Tribunal e surge a voz do apóstolo-juiz Bartolomeu:
- Tomás de Torquemada! Não podes ter nascido de mulher! Tu surgiste nas entranhas de uma cascavel e foste expelido imerso em excrementos decompostos e regurgitados de batráquios. A tua vilania não pode ser relevada – que me perdoe o Mestre. Ordeno que seja trazida a mãe desse abjeto besouro que habita e se alimenta do esterco que Jeovah envia aos seus inimigos, como está escrito no Livro de Malaquias, 2.
Ela foi encontrada em prantos na periferia de Roma, onde ressuscitara.
- Peço clemência para meu filho – grande Messias – disse logo que se aproximou de Jesus de Nazaré. Não o enviem às labaredas dos fornos da Geena – eu imploro!
Ajoelhou-se diante da Mulher Queimada e voltou a pedir perdão.
Torquemada interrompeu:
- Não peça nada. Está escrito que os pecadores crentes são salvos. Acaso eu não defendia a Igreja dos que eram hereges, homossexuais, bígamos, judeus? A heresia seria o fim da Igreja.
- O fim dos dízimos – é o que pretendes dizer? – interveio o Mestre.