Juízo Final: Odisséia dos Deuses

Horst Schadeck · Capítulo 41 de 96

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Juízo Final: Odisséia dos Deuses

Capítulo 40

 

De um dos helicópteros italianos ouviram-se gritos:

- Blasfêmia! Blasfêmia! Anticristo! Demônio!

Jesus de Nazaré ordenou que lhe trouxessem o autor dos protestos que aparentava ter cinquenta anos:

- És um vivo, ou és um ressuscitado?

- Sou ressuscitado. E, nessas condições, deixo evidente que há ressurreição, efetivamente. Assim não fosse como estaria eu aqui agora? Mas devo protestar com veemência!

Jesus de Nazaré:

- Vejo que te ensinaram termos tipicamente usados por sacerdotes. Sabes que blasfemar queria significar que o candidato a integrar um rebanho se negava a crer. Ao não acreditar no que lhe diziam tanto os sacerdotes judeus quanto os pastores conhecidos por cristãos, praticava um ato que o desclassificava, que lhe trazia culpas e o sujeitava a castigos, seja por parte dos sacerdotes de Jeovah, seja por parte dos líderes religiosos de outras seitas, usuárias ou não do Grujuem. Como podes acusar ao filho de Jeovah de blasfemar? Julgas que ele não está tendo fé nele próprio?

O ressuscitado:

- Realmente, não poderias deixar de crer em ti mesmo. Somente pode blasfemar aquele que é candidato a dizimista.

Jesus de Nazaré:

- Ouvi que dizias: anticristo. Também isso não pode ser. Eu sou conhecido por Cristo, ou seja, traduzindo, o Salvador. Como posso ser contra mim mesmo? Eu aqui estou por força bíblica. Ela não é considerada o livro infalível? Ou será ela o instrumento dos dizimadores, dos que necessitam dela e do Grujuem para obterem dinheiro e terras, como todos os sacerdotes tanto do Velho como do Novo Testamento? Tudo observo e aprendo.

Ante o silêncio do inesperado visitante, Jesus de Nazaré continuou com extraordinária serenidade:

- Eu estou, neste julgamento do Dia do Juízo Final, examinando tudo que a meu respeito escreveram. Nunca ordenei que meus seguidores dizimassem. Vejo que me usam e à minha família para fundarem seitas entre os gentios. Vejo que meu povo, Israel, protegido pelo seu deus exclusivo, Jeovah, criado por Moisés, não participa e não usa o Grujuem para suas práticas religiosas, o que me espanta e me surpreende.

O evangelista Marcos interfere:

- Todos os quatro evangelistas confirmam: Jesus de Nazaré desceu do céu, onde vivia com seu pai. Isso não pode ser contestado.

Jesus de Nazaré apanhou a Bíblia:

- Vou ler então o que escreve João 6,38: "Pois desci do céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou". Eu não nasci do ventre da amada mãe Maria? Não passou ela por uma gestação de nove meses? Não teria ela sido fecundada por uma sombra de um Espírito? Como poderia João escrever que eu desci do céu? Já vimos que vocês escreveram que Jesus de Nazaré já existia antes da criação de tudo por Jeovah. Mas esse é o filho celestial, o Jesus Celestial, obviamente eterno e que não pode ser eliminado sequer por Jeovah.

- Vou ler - continuou Jesus de Nazaré - o que o evangelista João teria escrito em 6,62-63: "Que será, quando virdes subir o Filho do Homem para onde ele estava antes? O espírito é que vivifica, a carne de nada serve".

Jesus de Nazaré foi até João:

- É realmente surpreendente. Escreves, como Paulo de Tarso, que teria subido o espírito de Jesus de Nazaré? Escreves que carne e ossos para nada servem, e, assim, não teria subido o corpo de Jesus de Nazaré? Escreves que Jesus de Nazaré, depois de ressuscitado esse seu corpo, deixou-o na Terra e o que subiu, ou, o que foi arrebatado, foi um espírito? Mas para que serviria a ressurreição, nesse caso? Todos os apóstolos teriam visto o corpo, devidamente vestido, subir em Betânia!

Jesus de Nazaré repetiu o que já fizera antes. Apanhou o dedo indicador da mão direita de João e o introduziu na marca deixada pelos pregos na cruz.

- Vês, João, não sou nenhum espírito. Sou de carne e ossos, como os anjos que tocam cornetas. E como os filhos de Jeovah - irmãos de Jesus Celestial - que desceram para ter relações com as mulheres belas e dar netos a Jeovah. Escreveram que eu voltaria – teria que possuir um corpo!

João:

- Escrevi, sim. Posso ter me enganado, sim. Não teria sentido que Jesus de Nazaré morresse e ressuscitasse, para, depois de quarenta dias, ser arrebatado algo que não seja seu corpo.

Jesus de Nazaré:

- Os anjos são de carne e ossos. Gabriel e outros manejam espadas, o que espíritos não fazem. Não chamam de Anjo Caído, aquele que se rebelou contra Jeovah, no céu? Se caiu - obviamente possuía um corpo, apto a cair. Espíritos não caem porque nada possuem que possa cair! E esse anjo rebelde, rotulado de Satanás, não teria segurado meu braço e me levado ao alto de um monte, como está escrito? Que espírito faria tal coisa? Lembras-te do que escreveu Lucas em 24,39? "Um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que tenho". E se recordam do anjo cutucador? Leiam em I-Reis 19,5: "Elias adormeceu e um anjo o cutucou e disse: Levanta-te e come. Comeu e bebeu e voltou a se deitar, sendo cutucado pelo anjo uma vez mais. O anjo o mandou caminhar, o que durou quarenta dias e noites".

João permanecia calado.

- Você mesmo - continuou o Mestre - escreveu em 8,38 e 42: "Eu falo o que vi junto de meu pai. Porque foi Jeovah que me enviou". Sentados em tronos estariam até mesmo doze apóstolos, como vocês claramente escreveram. Espíritos têm o que assentar? E como poderia Jeovah trazer das nuvens as tábuas de pedra com os dez mandamentos, se não possuísse carne e ossos? E como poderia ele falar com Moisés, se não possuísse boca, língua e pulmões? Como poderia vê-lo, se não possuísse olhos e cérebro? Moisés falava com ele face a face, como escreveu. E quem segurava as tábuas de pedra no exato momento em que foram entregues ao maior de todos os profetas dos israelitas?

- Deixaram os sacerdotes uma lacuna narrativa, no entanto - continuou o Mestre judeu após respirar profundamente durante dois minutos. Nas nuvens não existem tábuas, pergaminhos, papiros, couros e pedras onde pudesse Jeovah escrever. Nem há nas nuvens canetas, estiletes, formões ou coisas semelhantes aptas a produzir escritos. Tudo isso teria que ser transportado da Terra para as nuvens, certamente por anjos, que possuem asas e corpos para poderem descer e subir?

- E João, leia o que escreveste em 3,18.

- “Quem nele crê, não é condenado, mas quem não crê, já está condenado" - leu o evangelista.

- Muito bem - respondeu Jesus de Nazaré, apontando para João. Eis o dizimador em plena ação. A ameaça. O medo. O medo da fornalha, da Geena, na fronteira de Jerusalém. Como ousam escrever tal coisa como tendo sido mensagem minha? Volto a dizer: não ensinei que o perdão, o amor, a fraternidade e as boas ações devem comandar o comportamento de todos? Como ousam atribuir a mim um cruel castigo pelo simples fato de alguém não acreditar nas histórias que vocês contam aos candidatos a dizimistas? Ou a pessoa acredita em algo que jamais viu, ou já está condenada a flagelos atrozes em algum dia não esclarecido? Por que os visitados em seus lares por outros humanos haveriam de crer, sem mais nem menos, em histórias relatadas por maltrapilhos judeus desconhecidos? E que se intitulavam pastores?

Foi agora até Lucas e leu o que este escrevera em 13,28-30:

- "Haverá choro e ranger de dentes, quando virdes o Patriarca, Isaac, Jacó e todos os profetas no Reino de Deus, e vós serdes lançados para fora. Virão do Oriente e do Ocidente, do Norte e do Sul e sentar-se-ão à mesa no Reino de Deus".

Jesus de Nazaré colocou ambas as mãos nos ombros de Lucas:

- Lucas, tu não me conheceste, enquanto eu vivia na Terra. Nunca me viste. Mas, mesmo assim ousaste escrever o que acabei de ler. Como podes fazer tamanha confusão? No dia do Juízo Final esses religiosos judeus não poderão estar ressuscitados. Não são eles os líderes, os profetas, os guias dos sacerdotes das sinagogas, dos príncipes dos sacerdotes, dos Sumo Sacerdotes e de todos os que jamais admitiram que Jesus de Nazaré ou qualquer outro ser humano pudesse ressuscitar da morte a si e a outros?

Lucas estava pálido e, apesar do vento frio, suava e tremia. Jesus de Nazaré:

- Essas criaturas humanas não teriam que passar primeiramente pelo julgamento do Juízo Final, como expressamente consta da Bíblia? Não teriam que ser separados pelos Anjos Separadores? Não teriam que ser escolhidos pelos Anjos Escolhedores? Esses seres humanos poderiam ter ressuscitado séculos antes, quando sequer tal promessa havia? E escreves que eles serão vistos quando houver o ranger de dentes e choro. Mas, as criaturas do Reino de Jeovah não são invisíveis, não são todos meros espíritos, como também escreveram vários de vocês, evangelistas, juntamente com Paulo de Tarso? Espíritos rangem dentes? Choram? Possuem dentaduras e vertem lágrimas?

- E Lucas - chegas ao ponto de dizer que todos os profetas judaicos do Velho Testamento estarão já lá no céu, nas nuvens, no Reino de Jeovah. Sabes que são dezenas os profetas referidos no Antigo Testamento. A dar-se crédito a esses escritos, devo convocá-los.

Em seguida foram trazidos do alto os profetas bíblicos. Jesus de Nazaré:

- Sejam benvindos e convido a que participem do julgamento, com base, novamente, no que ordena o seguinte texto bíblico - Lucas 13,28 e 29: “Haverá choro e ranger de dentes e vocês verão o Patriarca, Isaac, Jacó e todos os profetas de Jeovah e vocês serão lançados fora e virão do norte, sul, oriente e ocidente e se assentarão à mesa do Reino de Jeovah”.

Jeovah interveio:

- Nunca prometemos, eu e Moisés, qualquer ressurreição!

Sem mais demoras, Jesus de Nazaré:

- Sabemos disso há milênios. Alguém sabe explicar quem ressuscitou todos esses profetas de Jeovah ? Ou eles ou alguns deles foram elevados ainda vivos, como Elias? Por que não tiveram que ser crucificados, para poder subir, como me ocorreu?

Estupefação geral. O Deus do Vaticano vivia nas nuvens em companhia dos profetas judeus? Deus não era o nome dado pelos romanos ao deus dos judeus, Jeovah? No céu havia praticamente somente judeus? Os sacerdotes israelitas não haviam eliminado os concorrentes judeus cristãos nos anos 70 da atual Era?

O caos reinava em todo o planeta. Mais e mais guerras eclodiam. A Máquina reproduziu manchete do Times: “Juízo Final – Uma Hecatombe”. O maior jornal de Londres revelava que havia planos de destruição em massa dos ressuscitados. Justificavam o holocausto pretendido dizendo que se tratava de legítima defesa dos humanos vivos.

Jesus Celestial concedeu uma entrevista a Sara Moshê. Declarou:

- Desde que Jeovah e seus familiares chegaram até o Sistema Solar, após quinze bilhões de anos de viagem espacial, nunca vimos tanta barbárie. Pelo que conheço de meu pai, um novo genocídio pode ser por ele deflagrado. Mas com certeza não se valerá novamente de água, de dilúvio. Penso que o fogo será agora usado. Esse meio parece ser também o preferido por Paulo de Tarso. Ele deixa entrever isso na sua Carta aos Hebreus em 10,27: “Um juízo tremendo de fogo ardente há de devorar os rebeldes”.

Sara Moshê noticiou: “O Tribunal do Juízo Final decretou: os anjos e demais habitantes do céu não são meros espíritos. Tal como Jesus de Nazaré, possuem corpos de carne e ossos. Os querubins, cujas asas tinham a envergadura de dez a doze metros aproximadamente, eram os mais necessitados de alimentos. A parte leão tentava caçar terneiros. A parte boi necessitava de pastos para serem ruminados. E a parte águia procurava esquilos, coelhos e outros roedores”.

Enquanto isso, novos protestos surgiam. Humanos vivos e ressuscitados reclamavam em todo o planeta: bilhões de parentes continuavam com seus ossos intactos em cemitérios, ossuários e em águas marítimas, vítimas de naufrágios e do grande dilúvio provocado por Jeovah. Não tinham notícias de milhões que tinham sido cremados e suas cinzas jogadas no mar, em lagos e em pátios de casas para serem absorvidos seus átomos por árvores ou por hortaliças e flores. Os transplantados se negavam a devolver os corações aos seus legítimos donos. Estes não podiam ressuscitar sem novos corações transplantados que lhes devolvessem a capacidade de acionar seu sistema cardiovascular. Ressuscitados voltavam a viver cegos. Suas córneas haviam sido doadas. Milhares de outros estavam sem fígado, rins, pulmões.

- Jeovah é o culpado! – se ouvia em todo o planeta. Ele é o responsável pelas ressurreições defeituosas ou inexistentes!

Le Figaro estampava em manchete: Ossos: Onde Estão Teus Corpos?

Sara Moshê comentou em sua crônica diária:

“Jeovah não está cumprindo integralmente a promessa feita por Paulo de Tarso em sua Carta aos I-Tessalonicenses em 4,15-18: O próprio Senhor Jeovah descerá do céu e ao som das trombetas ressuscitará os mortos e depois os vivos serão arrebatados ao céu”. Paulo é surpreendente: afirma que não são possíveis ossos e carne no céu, mas, ao mesmo tempo, diz que os vivos serão arrebatados! Milhares de aviões contratados por parentes estão transportando para Jerusalém contêineres com ossos de seus entes queridos para serem lá ressuscitados. Jeovah é que ressuscitou a Jesus de Nazaré, segundo os evangelistas. O Mestre não podia evidentemente ressuscitar a si próprio. Do aeroporto de Tel Aviv comboios de grandes caminhões partiam para Jerusalém. Descarregavam os contêineres e milhares de sacos de lona com crânios, tíbias, perônios, úmeros, costelas, rádios, escápulas, colunas dorsais, lombares, cervicais, esternos, mandíbulas, maxilares, tarsos, metatarsos, falanges, quadris, acetábulos, cóccix, dentes e dentaduras. Caminhões frigoríficos transportavam corpos congelados e outros traziam cinzas de milhares de humanos cremados”.