Juízo Final: Odisséia dos Deuses

Horst Schadeck · Capítulo 76 de 96

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Juízo Final: Odisséia dos Deuses

Capítulo 75

 

O espanto que se instalou no mundo foi indescritível. Os homossexuais masculinos eram combatidos e rotulados de efeminados pelo grande apóstolo Paulo de Tarso. Pelo menos não critica o homossexualismo feminino – comentaram os repórteres.

- Até Jó critica os homossexuais – observou o Nazareno. Lê-se em Jó 36,14: “Morrem em plena mocidade, a vida deles passa como a dos efeminados”. A Máquina exibiu outra tradução - vejam. Em vez de efeminados outra tradução da Bíblia refere à palavra infame.

- E os idólatras se multiplicam – continua o Mestre. A Máquina já me exibiu centenas de ídolos de madeira ou de metais que são levados em procissões, contrariando as ordens de Jeovah no livro de Êxodo 20,4: “Não terás outro deus além de mim. Não farás para ti imagens esculpidas”.

Para surpresa geral interveio Jesus Celestial. Estava montado no mesmo querubim de uso particular de seu pai Jeovah, esse mesmo querubim mencionado em II-Samuel 22,11 e em Salmos 17,11: “Cavalgou sobre um querubim e voou, planando nas asas do vento”.

- Mas essas procissões são acompanhadas de muitas rezas – informou Jesus Celestial. Tenho observado isso quando posso voar mais baixo com o anjo. No entanto rezar não parece ter qualquer utilidade bíblica. Rezar é simplesmente um dos meios pelos quais os sacerdotes e rabinos procuram manter seus rebanhos. Rezar, bater sinos, cantos gregorianos, incensos, hóstias, batinas e mantos suntuosos vestindo padres, bispos, cardeais, santos do pau oco das missões jesuíticas da América do Sul, esculturas horrendas e assustadoras com aspectos de chacais no alto das torres das igrejas do século doze da Era atual, edificações majestosas com torres e esculturas, procissões, tudo é de grande valia na prática arrebanhadora e glorificante. Entretanto, rezar não é pressuposto para ser absolvido nesse Juízo Final. O pressuposto é crer e, caso venha a deixar de crer, em apostasia, fogo paulino!

Esses dizeres oriundos da casa divina celestial caíram como uma bomba em todo o planeta. Protestos surgiram em toda parte.

- Heresia! - gritavam. Blasfêmia!

Jesus de Nazaré estava muito contrariado. Olhou com desaprovação para aquele filho que já existia e era amado por Jeovah antes da criação do mundo, como o escreve o evangelista João.

Jesus de Nazaré ordenou que lhe trouxessem um casal que viera espontaneamente ser julgado.

- Senhora - creu em mim? E seu marido?

- Sim, eu sou ainda viva, mas acabei de casar com homem natural da terra dos faraós onde nosso povo viveu escravizado durante quarenta anos.

- Muito bem - respondeu Jesus de Nazaré. E você crê em mim?

- Não. Eu sou ressuscitado. Vivi há mais de trinta séculos - imagino. Meu deus é Ramsés. Conheci minha esposa que está viva, e nos apaixonamos à primeira vista. Tenho, pois, vários milênios de idade, e ela, somente trinta anos.

- Ah, - respondeu Jesus de Nazaré. Você viveu há muitos séculos antes de minha passagem por Israel. Claro que não o posso censurar por ser descrente na mensagem dos evangelistas, criada muitos anos após tua morte. Porisso eu o declaro salvo para o Reino de Jeovah, juntamente com sua mulher.

- Não posso concordar com isso – interrompeu Jeovah. Ele foi, em seu tempo, um grande pecador confesso. Foi adúltero - coisa que eu não admito como se pode ler no Velho Testamento. Merece ser castigado severamente e jamais o aceitarei no meu Reino Celestial. Além disso, é ele inimigo de meu povo, Israel, escravizado durante décadas em sua Terra.

Votaram os Anjos Separadores, por seu líder:

- Ele deve ser condenado ao fogo da Geena. É inimigo de Israel. É descrente em Jesus de Nazaré. É um grande pecador.

Parecia que o casal seria separado. Ela para as nuvens, ele para a fornalha eterna, para o fogo eterno, para a Geena, em Jerusalém. Mas ela interveio:

- Respeito os votos dos dignos juízes do Juízo Final. Mas meu marido deve ser salvo e admitido no reino dos judeus, embora ele pertença a uma raça inimiga de Israel. Essa admissão está expressamente prevista na Bíblia Sagrada.

Jesus de Nazaré olhou surpreso para a mulher.

- Admiro sua perseverança em defender o seu esposo, gentio como você. Mas o que tens a dizer em defesa dele?

A mulher apanhou a Bíblia Sagrada e leu, com o olhar triunfante:

- "Se uma mulher desposou um marido pagão e este consente em coabitar com ela, não repudie o marido. Porque o marido que não tem fé, é santificado por sua mulher". Está escrito em Paulo de Tarso I-Coríntios 7,14.

O líder dos Anjos Separadores:

- Se assim está escrito no Livro Sagrado, temos que respeitar esses relatos. Realmente, o seu marido é declarado santo pelas epístolas de Paulo, embora tenha sido um violador dos mandamentos de Jeovah e não possua a fé.

Respondeu a mulher:

- Sim, concordo. Ocorre que na terra dele não se respeitavam os dez mandamentos que Jeovah teria trazido do céu para Moisés. Esses dez mandamentos eram exclusividade dos judeus, escravos do faraó. As leis vigentes vinham de seus sacerdotes. Logo, ele não cometeu pecados judaicos.

O líder dos Anjos Separadores:

- Nada disso o salvará – falou o líder dos Anjos Separadores. Ele não creu, ele pecou, ele não foi batizado, ele não se arrependeu, ele sequer é judeu. Ele é um gentio. E Jeovah já disse que não irá conviver no céu com um cidadão de um povo que tanto sacrificou Israel.

Jesus de Nazaré interveio:

- Vou proferir o voto final: ele será declarado admitido no céu. Está escrito que eu não vim para salvar os justos, mas, sim os ímpios e pecadores. Ele não creu porque não teve a oportunidade para isso. Levem o casal para o céu imediatamente.

Jeovah resmungou, mas acabou aceitando tudo. Teria que conviver, no céu, com esse goin, por toda a eternidade. Jesus de Nazaré continuou:

- Paulo de Tarso escreveu coisas curiosas em I-Coríntios 15,14 e seguintes: "Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e também é vã a nossa fé". Ele admite que toda a história contada aos seus dizimados, seus fiéis gentios, pode ser uma criação dos apóstolos. Diz em I-Coríntios 15,28: "Se Cristo não ressuscitou, é inútil a vossa fé. Depois de Cristo reviverão os que forem dele, por ocasião da sua vinda. Depois virá o fim, quando entregar o reino a Jeovah, o Pai, depois de haver destruído todo principado, toda potestade e toda dominação. Porque é necessário que ele reine, até que ponha todos os inimigos debaixo de seus pés".

Um dos helicópteros que a tudo filmavam, começou a ratear o motor e caiu rodopiando. Mas Jesus de Nazaré logo continuou:

- Paulo de Tarso, além de inovar, declarando que no céu todos são espíritos, ou, ainda almas, escreveu aos seus adeptos que eu iria destruir a inimigos. Volto a lembrar de que eu sou amor, perdão, ajuda aos inimigos, misericórdia. Pelo menos isso de verdadeiro escreveram a meu respeito.

Abriu a Bíblia novamente:

- Vou ler novamente I-Coríntios 15,14 e seguintes: "Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e também é vã a nossa fé". Aqui temos a prova cabal: Paulo de Tarso não revela ter fé em Jeovah. Diz claramente que, sem Jesus de Nazaré, ninguém salvará os seus adeptos gentios.

Jeovah não estava nada satisfeito com Paulo de Tarso. Já mostrara isso quando o nome deste foi mencionado pela primeira vez no Juízo Final.

Jesus de Nazaré mandou que um dos arcanjos fizesse uma ligação pelo celular. Paulo de Tarso, que fora convocado para o Vaticano, atendeu:

- Ouvi - caro Mestre, tuas recentes análises a respeito dos meus escritos. E são verdadeiros. Jeovah somente prometia coisas boas aos judeus que nele cressem, através dos seus rabinos. Ele nunca mencionou a existência desse filho. Os filhos de Jeovah são outros, aqueles relatados em Gênesis 6,1 e seguintes. E as coisas boas seriam dadas aos israelitas que o temessem, mas exclusivamente durante sua vida normal, na Terra. Ora, o que eu prometo aos meus fiéis gentios é a ressurreição após a morte. Sem Jesus de Nazaré, isso é impossível, evidentemente.

Jesus de Nazaré:

- Sim, mas você usa o nome de Jeovah para fazer crescer seu rebanho. Vou ler teus escritos em I-Coríntios 7,14: "Deus, que ressuscitou o Senhor Jesus de Nazaré, nos ressuscitará também a nós pelo seu poder". Ou seja, se Jesus de Nazaré for uma fraude criada pelos apóstolos e evangelistas, você reconhece que também é uma farsa dizer que Jeovah realizou a ressurreição. Poderia Jeovah também ser um embuste criado pelos sacerdotes judeus? Por Moisés?

Paulo de Tarso:

- Certamente. Jeovah, nos milênios do Velho Testamento, jamais revelou possuir filhos, salvo aqueles que desceram para casar com as mulheres da Terra, descendentes de Adão e Eva, como está escrito em Gênesis 6,1-4. Alguns sacerdotes dizem, contrariando a Bíblia Sagrada, que Jesus de Nazaré seria filho único.

Jesus de Nazaré:

- Este Tribunal passa a examinar várias coisas que disseste aos teus adeptos, Paulo de Tarso. Primeiro, dizes que eu teria descido do céu para te dizer algo. Você teria tido uma visão. Eu teria dito: "Por que me persegues?". Afinal, perseguias os judeus, seguidores dos meus apóstolos, pois eras soldado dos nossos inimigos, os romanos, dominadores de Israel. É evidente que Jesus de Nazaré subiu com o seu corpo. Para descer e te encontrar e, após te falar algo, teria ele que contrariar todas as histórias de vocês, sacerdotes. Todos dizem que Jesus de Nazaré voltaria, sim, com sua glória, sentado em um trono, no Dia do Juízo Final. A alegada visão, Paulo de Tarso, ou é um delírio, ou uma encenação.

- Confesso que muitos não acreditaram na minha visão. Mas isso não importa. Eu lhes trazia esperanças e até certezas, caso conseguissem se esforçar e fazer crescer o que chamei de fé. Eram pessoas crédulas e ignorantes.

- Volto ao assunto: você diz que, se Jesus de Nazaré não ressuscitou, ninguém mais ressuscitará. Ou seja, Jeovah não tem poderes ou vontade de ressuscitar, nem os seus subordinados, os judeus, nem os inimigos de Israel ou outros povos. Por que Jeovah não promete ele mesmo a ressurreição? Claro que o fará somente favorecendo aos judeus, seu povo. Lembro, contudo, que tu, Paulo de Tarso, admites que Jeovah promova ressurreições, já tendo ressuscitado, excepcionalmente, o Patriarca, Isaac, Jacó, Elias e todos os profetas.

Voltou a manifestar-se o rabino:

- Um instante, senhores juízes deste Tribunal do Juízo Final. Já lhes disse que eu, colega rabino desse jovem judeu, Jesus de Nazaré, afirmei e volto a afirmar: haverá, sim, um julgamento. E será juiz único nosso deus exclusivo, Jeovah, Javé, Deus, Senhor dos Exércitos de Israel, o Altíssimo. Repito: "No dia do julgamento final, haverá três classes de almas: as dos justos serão imediatamente inscritas para a vida eterna; a dos iníquos, para a Geena, mas as daqueles cujas virtudes e pecados se equilibrarem baixarão à Geena e flutuarão para cima e para baixo até que se ergam, purificadas".

Paulo de Tarso ouviu tudo pela TV e respondeu pelo telefone celular que Jesus de Nazaré tinha colocado no vivavoz:

- Nada mais me resta dizer: eu sou o maior de todos os sacerdotes. Tenho mais de um bilhão de adeptos gentios, espalhados pelo mundo todo, como já disse várias vezes. E esse rabino possui, juntamente com seus colegas, não mais de meros cem milhões de fiéis, todos judeus, entre vivos e os que poderão vir a ressuscitar no julgamente que ele diz ser possível. Volto a dizer: cada sacerdote possui, legalmente, a liberdade de praticar a religião da forma que lhe aprouver. Isso está na lei dos países.