Juízo Final: Odisséia dos Deuses

Horst Schadeck · Capítulo 38 de 96

Páginas do PDF

Juízo Final: Odisséia dos Deuses

Capítulo 37

 

Jesus de Nazaré caminhava sobre os ombros dos querubins do turno. Meditou por longos quinze minutos. Havia declarado um recesso. Finalmente:

- Está escrito na Bíblia Sagrada que Jesus de Nazaré perdeu sangue após ser atingido pela lança do soldado romano. A hemorragia e a asfixia o mataram. Não poderia ressuscitar, portanto, por absoluta falta desse sangue que obrigatoriamente deveria fluir em suas veias. Sem essa reposição não ocorre a oxigenação, indispensável para que os órgãos do corpo voltem a funcionar.

Jesus de Nazaré sorriu para as Mulheres Queimadas. O Mestre irradiava alegria. Nunca foi retratado assim. As práticas dizimistas sempre foram tristes, melancólicas, dolorosas. Com os braços abertos, afetuoso, delicado:

- Sem o sangue que escorrera para o solo do Gólgota, Jesus de Nazaré não poderia voltar a viver! Ele necessitava do sangue para poder fazer funcionar seus órgãos vitais! Como seu corpo levaria oxigênio para os pulmões e para os trilhões de neurônios que - após terem sido decompostos por micro-organismos - teriam voltado a se estabelecer na caixa craniana, três dias após a sua morte? E o mesmo ocorre com as Mulheres Queimadas. E com as torturadas e empaladas ou que tiveram seus crâneos esmagados lentamente pela mais abjeta das torturas da Inquisição.

Jesus de Nazaré olhou vitoriosamente para as Mulheres Queimadas:

- Eu ressuscitei buscando de alguma forma o sangue que escorrera no Gólgota. Voltei no tempo. Assim também vocês devem ressuscitar, neste Juízo Final, com suas formas corporais anteriores, de antes da combustão em praça pública. É a lógica imperando. Ou talvez assim não seja?

O Mestre parecia hesitar. No entanto as quinhentas mil Mulheres Queimadas pelos Inquisidores voltaram a exibir suas formas anteriores às das suas violentas mortes.

Mal acabara de atender a esse pedido, chega a Comissão de Vítimas Nazistas:

- Formulamos o mesmo pedido, Jesus de Nazaré.

Eram homens, mulheres e crianças mais aparentando esqueletos do que seres humanos. Não possuíam praticamente carne. Haviam morrido queimados em Auschwitz e outros campos de extermínio criados pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial.

- Ressuscitaram esquálidos como estavam na hora em que foram cremados nos fornos bestiais dos nazistas - explicou a líder do grupo. Era o povo de Martin Luther, o religioso dizimador protestante que escrevera: os judeus deveriam todos ser eliminados.

- Vou conceder a vocês a mesma vantagem. Devem ressuscitar no estado em que se encontravam antes de serem aprisionados. Afinal, se eu, Jesus de Nazaré obtive o benefício de ressuscitar no estado em que me encontrava, na cruz, antes de ter perdido meu sangue após o golpe de lança do soldado romano, também assim deve ocorrer com os ressuscitados no Juízo Final. Fiquei somente com a marca dos furos feitos pelos pregos em minhas mãos, pés e lado. Um trabalho mal feito - por quem? Não havia ressuscitador! O jovem judeu morto evidentemente que não poderia agir no estado de putrefação em que se encontrava.

Novo grupo chegou agora em um helicóptero japonês:

- Pedimos que haja a ressurreição dos milhares de cristãos que se encontravam em Hiroshima e Nagasaki. Seus átomos foram partidos e não houve ressurreição deles.

- Certamente - respondeu Jesus de Nazaré. Sequer as vítimas da bomba atômica puderam ter um enterro, já que desapareceram os tecidos, a carne e os ossos, como me relatam historiadores que me assessoram por telefone celular agora. Como se dará essa ressurreição, Mateus, Marcos, Lucas e João? Paulo de Tarso, você o sabe?

- Como eu já disse várias vezes, no céu somente serão admitidos espíritos. Os corpos não são necessários nem possíveis. Não há comida para Jeovah, profetas, filhos, Elias, anjos. E para os bilhões que subirão após serem julgados?

- Vejo que continuas a insistir com essa tese absurda. Eu sou de carne e ossos. Você não está vendo os anjos, com suas asas, a nos manter em nossos tronos? Você não leu que eles chegam tocando trombetas?

Voltou-se Jesus de Nazaré para os tronos em que estavam os Anjos Separadores:

- Façam seu trabalho. Esses milhares de japoneses mortos devem ser separados, não é isso o que está escrito na Bíblia Sagrada? Lembro que devem procurar também os corpos dos anjos que estavam nesses locais. A flauta deles deve ter sido notada pelos seus colegas de atividades celestiais. Não existe no céu algum controle sobre a presença no trabalho dessas aves humanas? Ou elas simplesmente podem abandonar as nuvens daqui de Jerusalém e abrigar-se em nuvens da Austrália, por exemplo? Ou em Marte? Ou na Lua? Ou em lugares em que haja comida abundante? Quem os poderia reter?

Os Anjos Separadores levantaram voo. Quarenta dias depois chegaram a Hiroshima. Examinaram os cemitérios, foram aos hospitais, indagaram dos moradores, mas não conseguiram separar ninguém. Cansados, voltaram após mais dois meses de viagem.

O julgamento continuava. Mas os anjos não conseguiam trazer senão paralíticos, enfermos mentais e pessoas muito debilitadas. Em um ano já haviam nascido, segundo informavam os noticiários da televisão instalada em frente ao Juízo Final, em torno de um bilhão de crianças. Nasciam de humanos vivos e das mulheres ressuscitadas. Milhares de crianças haviam morrido no ventre das mães durante as guerras havidas. Ressuscitada a mãe, ressuscitava também o feto. Milhares de mulheres tiveram filhos produzidos por estupros, principalmente praticados pelos hominídeos, pelos seres de Neanderthal. Esses ramos de humanos haviam desaparecido e agora tinham a oportunidade de voltar a crescer.

Jesus de Nazaré foi até o trono de Tiago. Durante todo o julgamento não tivera oportunidade de abraçar seu irmão:

- Somos meio irmãos, Tiago. Estou certo?

- Isso é impossível! - ouviu-se a voz de um jornalista em um helicóptero italiano. Maria era virgem e permaneceu virgem! - bradou.

Jesus de Nazaré apanhou a Bíblia Sagrada e leu:

- "Em Jerusalém, quando fiquei com Pedro durante quinze dias, não vi nenhum apóstolo, senão a Tiago, irmão do Senhor Jesus de Nazaré". Quem escreveu isso? Pois foi Paulo de Tarso, em sua carta aos Gálatas, 1,18-19. Logo, você, meu querido irmão Tiago, é filho de José. Eu sou filho de Jeovah, a se dar crédito ao que está escrito por Lucas em 1,35: "Disse o anjo à Maria: Descerá sobre ti o Espírito Santo, e a virtude do Altíssimo te cobrirá com sua sombra; por isso também o Santo, que de ti há de nascer, será chamado Filho de Jeovah". Temos a mesma mãe, nossa amada Maria. Mas temos pais diferentes? Esse anjo é um mito ou só é mito o que relatam sobre os anjos do livro de Gênesis? Que autoridade possui o evangelista, pessoa desconhecida, em afirmar que sequer existiu o anjo? Não parece que esse anjo é uma testemunha plantada, interpolada por sacerdotes?

Dirigiu-se a Paulo:

- Constatamos nesses escritos de Lucas que os anjos não são espíritos. Eles falam com Maria. E o teu aluno Lucas, seguindo os teus passos dizimadores, conta história parecida. Ele diz, em 9,54-55: "Levanta-te, menina, e o seu espírito voltou". Voltou? De onde? Por quê? Espíritos ouvem? Permanecem no local? Para onde irão, caso não tenham que voltar?

Uma densa neblina surgiu. O Mestre tentou secar o rosto e prosseguiu:

- Digam - Lucas e Paulo de Tarso: o espírito da menina voltou de onde? Ela teria morrido e Jesus de Nazaré a teria ressuscitado. Onde ficara o espírito durante o tempo em que esse ser teria abandonado o corpo da menina? Alguém viu tal espírito? Como você ousou escrever que o espírito voltou, se você sequer esteve no local? E me diga - o que é o tal espírito? Lembro que estou no céu, entre as nuvens, há muitos séculos, junto com Jeovah e seus muitos filhos que desceram para coabitar com as mulheres belas da Terra, os vinte e dois profetas, Elias - o do carro de fogo, o Patriarca, Moisés, Isaac, Jacó, o amigo de Paulo de Tarso junto com incontáveis legiões de anjos, inclusive com o seiscentos anjos dos rabinos, meu irmão Jesus Celestial, aquele que já existia antes que Jeovah tudo criasse. E todos estão com seus corpos!

- Pois eu sou o grande líder dos gentios, dos não-judeus. Eu julgava que no céu somente poderiam sobreviver espíritos. Como alimentar a milhares de anjos e demais personagens celestiais? Por isso escrevi o que escrevi: os meus adeptos principais, os gentios, os não-judeus, os não circuncidados, pareciam receber essa versão celestial com mais facilidade. E de onde retornou o espírito da menina ressuscitada por Jesus de Nazaré, eu não saberia explicar.

- Vou repetir – disse o Mestre - o que consta dos Evangelhos: eu, Jesus de Nazaré subi com meu corpo, em Betânia, fato assistido pelos apóstolos. Já você insiste com a versão espiritual e diz que os anjos são espíritos, como já comentamos várias vezes. Mas eu preciso que me expliques o que escreveu o teu aluno Lucas em 2,12-15: "O menino Jesus de Nazaré envolto em panos, deitado numa manjedoura. Com o anjo apareceu uma multidão dos exércitos celestiais, louvando a Deus e dizendo: Glória a Deus nas alturas, paz na terra, boa vontade para com os homens, ausentando-se os anjos para o céu".

Jesus de Nazaré estava como todos os demais julgadores, coberto pela neve. Além disso, o vento fustigava a todos. As penas dos anjos estavam quase invisíveis, tal o acúmulo da neve. Arrematou o Nazareno:

- Teu pupilo Lucas, que é de origem grega, pouco tinha a ver com o deus aqui presente, Jeovah. E diz claramente que uma multidão de anjos surgiu. Não eram anjos rebeldes, aqueles que teriam seguido Lúcifer, o Anjo Caído. Eram anjos celestiais, anjos descidos das nuvens, local onde vivia Jeovah oculto há milênios, segundo Moisés. E tais aves humanóides, testemunhas plantadas, com suas asas, espadas e trombetas, faziam parte de multidões de exércitos celestiais. Se tais criaturas apareceram aos humanos, obviamente que foram vistos, observados e ouvidos proferindo palavras e, após, subiram para o céu.

Jesus de Nazaré parecia enfadado. Observou que nuvens com relâmpagos surgiam do Sul. Prosseguiu:

- Veja que até o teu aluno, seguidor, sacerdote certamente, te desmente. Ele é categórico: os exércitos celestiais de anjos falam, possuem bocas, línguas, pulmões e dizem gloria a Deus nas alturas. Eles foram vistos ausentando-se para o céu! Eles falaram! Como teria falado um anjo – ou espírito -com Maria, no ato da fecundação dela pela sombra do Altíssimo, como no deserto, como em tantos outros lugares.

Nisso um dos arcanjos, desmaiado, despencou. Logo vários serafins e potestades mergulharam em seu encalço. Mas ninguém prestou muita atenção ao fato. Jeovah continuou:

- Pois bem, Paulo de Tarso. Lucas deixou estelarmente claro que os exércitos de anjos celestiais haviam descido e falado! E falaram em hebraico, a língua de Jesus de Nazaré, Jeovah e do povo de Israel! E mais, Paulo: após essa descida, bateram suas asas e subiram para as nuvens novamente!

Jesus de Nazaré foi até onde estava Lucas:

- Veja que o teu Mestre se contradiz: para ele esses anjos falantes e que possuem asas, são espíritos. Mas para você, seu aluno, os anjos falam! Exatamente como aqui, neste Juízo Final, onde até mesmo são juízes, chamados de Anjos Separadores e, portanto, possuem visão, olhos!

Foi até Paulo de Tarso:

- Concordo que todos criem suas versões. Concordo que todos desejam dízimos e, para isso, necessitam de adeptos que os possam pagar. Mas, convenhamos, não teria sido possível relatarem versões iguais? Não poderiam ter combinado, antes de escrever?

Foi até a Máquina. Com surpreendente habilidade digitou o Mestre várias vezes e surgiu na tela o texto que procurava.

- Vejam o que fizeram os sacerdotes após minha morte na cruz.

Leu o texto do já citado mestre Barth Ehrman e depois resumiu:

- Marcião, no século II da atual Era, em Roma, foi o primeiro cristão a produzir uma lista de livros dos textos sagrados da fé. Ele chegou à conclusão de que o deus de Paulo de Tarso e de Jesus de Nazaré não era o deus do Velho Testamento, o deus dos judeus, Jeovah, O Senhor dos Exércitos, Javé, que criou o mundo e definiu que Israel era seu povo e lhe deu sua dura lei. Haveria um segundo deus, o de Jesus de Nazaré, que enviou Cristo ao mundo para salvar o povo da irada vingança de Jeovah. Marcião estava certo de que havia falsos crentes e copistas, já nos primórdios do cristianismo, que mudavam os textos para dizer o que lhes convinha. Os cristãos judeus só aceitavam os escritos de Mateus, validando a lei de Moisés. Os que não aceitavam Jesus de Nazaré como o Cristo somente aceitavam o evangelho de Marcos. Os valentinianos só aceitavam o evangelho de João, e Marcião o de Lucas. O Bispo de Lião da Gália rotulava Marcião de herege. Não é verdade assim que o Novo Testamento simplesmente apareceu em dado momento. O Bispo Atanásio, de Alexandria, no ano 367 da atual Era decidiu quais os vinte e sete livros que deveriam ser lidos, excluindo todos os demais. Séculos se passaram até que o Novo Testamento assumisse a atual forma.

- Mas agora – continuou - proliferam milhares e milhares de novas religiões com seus felizes sacerdotes repletos de glórias e dízimos bancários, com suas imagens e habilidades dialéticas nos televisores. Observo dizimistas, aos milhões, assistindo seus sacerdotes nas TVs e extasiados pelas belas cenas que sabem cativar o receptor das mensagens. Assistem reproduções de paisagens e de luzes refletidas em charmosas cantoras profissionais contratadas, com seus hinos hipnóticos. Quem ingressa nas igrejas romanas sente-se pequeno diante da grandeza da arte, das imensas colunas, dos órgãos em lamentos hipnóticos, incenso, dos quadros com pessoas sinistras, das esculturas, dos cantos gregorianos. As mortes em fogueiras das meninas acusadas de feitiçaria pelos Inquisidores Romanos assombram esses lugares e atemorizam ainda os dizimistas de agora. Nada disso eu mandei fazer nem tais práticas eram encontradas nas minhas sinagogas. Tudo isso é proibido por Jeovah!

- Sacos de dinheiro eram arrecadados várias vezes ao dia – prosseguiu o grande Mestre. Foram filmadas por sacerdotes rebeldes as vetustas dizimações e os risos de alegria dos sacerdotes. Expostos nas televisões esses vilipêndios, isso não revoltava os cordeiros. A ovelhização continuava e os imensos armazéns e depósitos transformados em ekklesias - eram entulhados por sacolas com cédulas de dinheiro doados espontaneamente por dizimistas sedentos de promessas - principalmente de vida eterna, curas milagrosas e por ameaças de serem jogadas em fornalhas eternas. No estádio do Maracanã ocorreu uma das maiores coletas de dízimos de que se tem notícia: um certo Jimmy veio dos Estados Unidos e discursou magistralmente se valendo do Grujuem. A massa, sedenta de vida eterna, ainda não percebra o grande assalto que se fazia ao bolso dos brasileiros. Esse pastor, passado algum tempo, caiu em desgraça por se comportar muito mal, cometendo adultério ou violações outras de grande gravidade. O não-romano se equiparava ao romano: um com relações sexuais reprováveis e o outro, com a mais cruel das perversões, a pedofilia, destruído a vida de inocentes crianças. Acompanho tudo – o odor dos abutres se espalha.

- Estavam aparentemente concordes com o fenômeno que se repete desde que Aarão e seu irmão Moisés começaram a se banquetear com as primícias que os judeus lhes traziam. Agora os dizimistas não ofereciam vinho, azeite, cordeiros e farinha de trigo. Depositavam aos pés dos apóstolos modernos o mesmo dinheiro que Pedro e Paulo recebiam de Ananias, Safira e de suas outras incontáveis ovelhas. Tudo em obediência à Bíblia e à lei.

- E ao lado, as sinagogas, mais discretas – continuou o Mestre - onde seus seguidores recebiam as mensagens de rabinos também modernos, mas obedientes à Torá, escritos de Moisés no Pentateuco e seu Jeovah. Num lado da rua, israelitas cantam louvores ao seu deus milenar, sem promessas de vida eterna. Do outro lado uma ekklesia faustosa e templos evangélicos usando do mesmo Grujuem! Todos felizes e não se opondo a que seus sacerdotes possam sobreviver sem ter que amainar a terra de sol a sol ou produzir riquezas para seus países. O ócio, a glória das vestimentas faustosas, a adoração, o poder de colher fatos da vida íntima em confessionários, celebrações, livros e seus rendimentos, concessão de perdões, sepultamentos, casamentos, missas, atos públicos em eventos políticos, atos de pedofilia e de abusos sexuais com homens e mulheres entre os romanos – tudo claramente visível! Com meu nome, sim, com o uso do meu nome e de minha amada mãe! E tudo amparado pela lei civil e pelos escritos bíblicos criados pelos próprios sacerdotes! E sem que eu jamais pudesse ver tudo isso, pois crucificado e afastado para as nuvens! Sem que eu pudesse ler previamente os evangelhos!

Finalizou o Mestre:

- Este Juízo Final está agora ilustrado e melhor preparado para julgar. Acrescento que, em meus tempos de vida terrena, em cada cem conterrâneos, menos de três sabiam ler e entender o que liam. Poucos tinham conhecimentos sobre a Torá além do que os rabinos lhes diziam.

Um bando de seres alados chegou estrepitosamente. Traziam vários capturados. Um deles bradava desesperadamente:

- Já fui julgado! Soltem-me!

- Quem te julgou? Não me lembro de ter percebido tua presença neste Tribunal – respondeu o Mestre.

- Fui condenado por um grupo de Anjos Ceifadores. Eles ingressaram em minha casa, em Cafarnaum. Fui condenado a arder na Geena. Disseram que assim estava determinado na Bíblia, nos escritos do evangelista Lucas 10,13: “Entrando nas casas que vos receberem – disse Jesus - ficai comendo e bebendo do que eles tiverem, pois o trabalho merece o seu salário. Se não vos receberem na cidade, dizei que ao Inferno ela (cidade) será precipitada”.

Essa notícia deixou o mundo perplexo. Havia um tribunal paralelo, de exceção? Era o que perguntava Sara Moshê aos seus telespectadores.

- É muito grave o que estamos observando – disse o Mestre, dirigindo-se a um dos Anjos Ceifadores. Esse pobre homem foi absolvido por mim e condenado pelos Anjos Ceifadores. Pergunto: por que esse réu por mim absolvido não foi levado ao céu? Ele desceu por que não lhe agradou o frio, a fome, a falta de TV? E por que os Anjos Ceifadores o julgaram novamente, condenando-o? E como ele conseguiu fugir da Geena?

O Anjo Ceifador:

- Ele foi julgado por nós porque assim está escrito na Bíblia Sagrada em Mateus 13,39-43: "No fim do mundo, os ceifadores são os anjos. Assim como se recolhe o joio para jogá-lo no fogo, assim será no fim do mundo. O Filho do Homem enviará seus anjos, que retirarão do seu reino todos os escândalos e todos os que fazem o mal e os lançarão na fornalha ardente, onde haverá choro e ranger de dentes. Então, no Reino de seu Pai, os justos resplandecerão como o Sol".

O Anjo Ceifador olhou desafiadoramente para o Mestre e continuou:

- Nós fomos enviados para ceifar! E para lançar em fornalhas ardentes a todos os que fazem o mal! Nós não fomos instruídos para julgar no Tribunal do Juízo Final! E a Geena é o lugar destinado para terem usadas suas fornalhas, bem aí ao lado de Jerusalém!

- Mas julgar duas vezes a mesma criatura! Isso não tem paralelo nem na história dos povos mais bárbaros e primitivos!

- Prezado Jesus de Nazaré. É que, após ser julgado e absolvido, como bem constataste – eles voltaram a pecar! Para nós – anjos - não está prevista a absolvição para os ímpios e pecadores, como tu terias estabelecido. O nosso regramento bíblico é outro. Leiamos novamente: “Todos os que fazem o mal os anjos lançarão na fornalha ardente – Mateus 13,39-43”.

- Está claríssimo – observou Jeovah inesperadamente. O Tribunal do Juízo Final poderá absolver os que fizeram o mal. Mas os Anjos Ceifadores estão obrigados a condenar ao fogo em fornalhas. Não há qualquer impedimento. Está escrito.

Jesus de Nazaré levantou-se do seu trono, foi até o Anjo Ceifador, agarrou-o na base das asas semiabertas e bradou:

- Não posso admitir que minhas decisões sejam descumpridas. Pouco importa o que escreveu esse desconhecido Mateus - décadas após minha morte!

- Perdoe-me, Mestre. O delito desse réu ocorreu após seu julgamento pelo Tribunal do Juízo Final. Os Anjos Ceifadores podem jurisdicionar em qualquer lugar e somente têm permissão bíblica para absolver os justos. Ou os que já foram julgados têm permissão de cometer os mais bárbaros crimes, sem que se os possa punir? Teríamos bilhões de celas e alimentos para eles? Ou sua pena agora seria a morte eterna, através do fogo, talvez, como tanto agrada a Paulo de Tarso e aos Santos Inquisidores?

Jesus de Nazaré estava pensativo. Mas logo encontrou a solução para mais esse buraco narrativo bíblico:

- Ninguém pode ser ceifado. Declaro nula a disposição bíblica que autoriza aos anjos atos que impliquem em ceifar humanos vivos ou ressuscitados, julgados ou não pelo Tribunal do Juízo Final. Isso se aplica também aos humanos julgados que cometam ilicitudes, pecados ou crimes no céu, na Geena ou no Inferno, seja lá onde tal local esteja situado.

Die Maschiene reproduzia manchetes dos jornais:

- A anarquia havia se instalado no Juízo Final. Os anjos partidários de Jeovah desde os tempos de Adão e Eva, com milhares de anos de vida, não estavam se sujeitando às determinações de Jesus de Nazaré. Os anjos Ceifadores mencionados por Mateus, no Novo Testamento, eram indignos de crédito. Tudo estava parecendo uma grande baderna, inverossímil e ridícula.

Mateus e os demais evangelistas mostravam indignação e Jesus de Nazaré lhes indagou:

- Por que não aceitam a realidade? Acaso podem negar o que está escrito por vocês mesmos? Ou Anjos Ceifadores é mais uma das invenções criadas por sacerdotes para conquistar dizimistas? E os Anjos Separadores? Em Mateus 13,49 está escrito: “Assim será o fim do mundo: os anjos virão separar os maus do meio dos justos”. Fim do mundo? Que novidade é essa? O que querem dizer com fim do mundo? A Terra desaparecerá? Queimará?

- O céu com seus bilhões de habitantes absolvidos - queimarão junto? Desaparecerão junto com esse fim de mundo? De que adiantará separar os maus do meio dos justos?

- Não resta dúvida alguma – prosseguiu o Mestre: trata-se de mais uma ameaça. Agora não é somente o fogo. Repentinamente dizem os sacerdotes que algo ainda mais grave acontecerá: o fim do mundo! Como podem saber disso? Não percebem o absurdo que é fazer desaparecer as próprias nuvens, onde estariam os separados, os justos, os salvos, os eleitos, os apóstolos, os profetas do Velho Testamento, Jeovah, Jesus Celestial e suas colônias de irmãos, Elias, o amigo em Cristo de Paulo de Tarso.

- Eu escrevi em 66,15, disse Isaias: “O Senhor vem no fogo, e seus carros avançam como furacão, para dar vazão ao furor de sua ira e cumprir as ameaças com labaredas de fogo. Sim, é com fogo e sua espada que o Senhor julga todos os mortais, e numerosas são as vítimas”.

- Vemos que o fogo, as ameaças e a ira de Jeovah são constantes nos escritos sacerdotais – respondeu o Mestre de Nazaré. Fogo, sempre o fogo, como tantas vezes já se constatou neste Julgamento. São ameaças criadas por Moisés, no Velho Testamento tal como as produzidas pelos evangelistas e Paulo de Tarso no Novo Testamento, após a minha morte. No Velho, serviam para governar e obter dízimos. No Novo, para obter dízimos e glórias.