Juízo Final: Odisséia dos Deuses

Horst Schadeck · Capítulo 61 de 96

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Juízo Final: Odisséia dos Deuses

Capítulo 60

 

Jesus de Nazaré foi ovacionado pelos ressuscitados e pelos vivos em todo o mundo. A análise feita por ele era irretocável. Continuou o Mestre:

- Sou de carne e ossos. Tenho furos nas mãos. Não sou um espírito e jamais a Bíblia mencionou a palavra paradoxo. Mas descrevem a existência de um meio-irmão, Jesus Celestial e outro, espiritual, que teria subido na hora da morte na cruz. Mas eu, Jesus de Nazaré, fruto de gestação humana terráquea, sou mensageiro do amor, da fraternidade, do perdão, da igualdade entre homens e mulheres. Dito isso, devemos prosseguir com o Juízo Final. Determino que tragam para julgamento a líder das Mulheres Queimadas pela Inquisição e que se encontra no Tribunal Internacional de Haia, instalado no Olympia Stadiom de Berlim.

Logo chegou. Estava desfigurada. Não tinha cabelos, destruídos pela fogueira da Inquisição Romana. O rosto, deformado, mostrava tristeza e dor. Seus mamilos estavam queimados pelas torqueses de Torquemada, esse monstruoso criador dos métodos de tortura. Fora também vítima de empalação.

- Já sabemos tudo que te impuseram os carrascos. Foste estuprada pelos sacerdotes romanos com o objetivo, segundo eles propalavam, de purificar as pecadoras, feiticeiras ou hereges. No Tribunal Internacional de Haia - buscas a reparação dos danos sofridos. Mas aqui, neste julgamento do Juízo Final, tenho que perguntar: você foi uma feiticeira e por isso foi condenada à fogueira?

- Não. Fazíamos infusões de plantas curativas. Isso era praticado por todos os povos habitualmente.

- E por que os sacerdotes romanos mataram milhares de mulheres feiticeiras, se isso era prática normal? - indagou Jesus de Nazaré.

- Porque essa seria a ordem bíblica.

Jesus de Nazaré abriu a Bíblia e leu:

- Não deixarás viver uma feiticeira", está efetivamente escrita essa ordem de sacerdote de Jeovah em Êxodo, 22,18. É claramente uma apologia ao crime, punível com encarceramento. Deve ser julgado e punido o autor desse delito. É triste, sei, mas os sacerdotes romanos foram de uma crueldade terrível. Imitaram os sacerdotes dos tempos anteriores ao cristianismo. Queimaram humanos, acatando as apologias criminosas dos sacerdotes do Velho Testamento. E o pior: as vítimas são sempre as mulheres. Não existiam crimes de feitiçaria para os homens.

A mulher queimada:

- Eram levadas à fogueira donzelas que tivessem cabelos compridos. Eram queimadas octogenárias alquebradas pela idade. O medo dos sacerdotes romanos era o de perderem o poder e ser destruído seu mundo de ócio e dizimação. Não desejavam perder seus rendosos empregos. Como atualmente. Eles se banqueteavam com nossas produções agrícolas, nossos carneiros, galinhas, bois, patos, trigo, batatas, azeite de nossas oliveiras. E nossos filhos passavam fome.

- Sinto muito por tudo isso. O Grujuem era usado pelos romanos para manter o seu poder de dominação. Não lhes importava que Jesus de Nazaré pregara o amor, o perdão, a fraternidade e igualdade entre mulheres e homens. Mas, infelizmente, tenho que te levar a julgamento, mulher, pois essa é a ordem bíblica. Tu tinhas fé em Jesus de Nazaré?

A mulher permaneceu longo tempo em silêncio. Procurava a melhor resposta, aparentemente.

Finalmente:

- Não. Como poderia eu acreditar no que diziam os terríveis abutres que confiscavam nossas batatas, nossos porcos, nossas galinhas, nosso trigo, nossas filhas? Ter fé em quem nos explorava, impondo o medo das fornalhas do Inferno e estuprava, torturava e queimava?

Jesus de Nazaré:

- Essa resposta te condena - mulher. Existem, no entanto, vários pressupostos bíblicos que ainda te podem salvar para ser elevada para as nuvens, onde congelarás, passarás fome, serás açoitada por ventos e atingida por relâmpagos. Não terás roupas outras que não as que vestes - lamento dizê-lo. As noites serão passadas no escuro. Pergunto agora: deseja realmente ser salva? Você se arrependeu de seus pecados?

- Jamais! - exclamou sem pestanejar a mulher queimada. Quem tinha comportamento pior que o das hienas era justamente os que nos ordenavam praticar o arrependimento. Vejo viver nas nuvens é pior do que permanecer na Terra.

Jesus de Nazaré:

- Tens certeza? Cem bilhões de famintos que vivem sem lei a estuprar as mulheres?

- Concordo. Mas logo todos não terão um destino - nuvens ou Geena?

O Mestre:

- Lamento novamente. Calcula-se que este julgamento do Juízo Final levará vários milhões de anos para terminar. E isso se for julgado um humano ou anjo por segundo.

- Pergunto, agora: você quer ser salva e, nesse caso, você foi justa?

- Certamente! Eu e as demais Mulheres Queimadas defendíamos nossas famílias. Tomavam-nos as batatas e nos jogavam as cascas, como se fossemos porcos.

Jesus de Nazaré:

- Volto a apresentar-te nova chance bíblica para a tua admissão no céu: você foi batizada ou teve algum familiar que creu no que diziam os sacerdotes a respeito de Jesus de Nazaré?

Tentava lembrar-se de algo a sofrida mulher queimada. Finalmente:

- Todos eram obrigados a se batizar junto aos sacerdotes romanos, pena de acusação de heresia e morte ou torturas. Sim, minha mãe dizia que acreditava no que os sacerdotes prometiam. Ao menos era isso que ela alardeava.

- Não podes ser salva senão por esse último pressuposto bíblico. Os familiares de quem crê são automaticamente salvos, como o escreveu Paulo! Por isso, tenho a satisfação de te comunicar que serás elevada para as nuvens.

O pânico tomou conta da mulher queimada:

- Não! Não me mandem para as nuvens, para o céu, para onde quer que possam estar os inquisidores romanos! Eles voltariam a me estuprar e queimar em fogueiras! Salvar familiares de uma crente é uma promessa obtusa, parva e que procura garantir dizimistas, mesmo os incrédulos! Não desejo ser salva! Quero ficar no solo, mesmo que seja ao lado da Geena, em Jerusalém, de onde poderei me evadir a qualquer momento! Imploro – Mestre - suplico: não me conduza para o alto, pois, além disso, tenho medo de alturas!

- Preferes realmente ser enviada às fornalhas da Geena? Isso não será ainda mais terrível? – respondeu afavelmente o grande Mestre e Rabino judeu.

- Certamente que não! Deixe-me viver na Terra. Dizem, além disso, que as fornalhas da Geena não mais existem e que o Inferno não possui grades e todos podem fugir. Além disso, em tua infinita bondade, estarias transformando o castigo infernal em pena de permanência no solo terrestre, o que muito me agrada, como ouso repetir, grande Mestre.

- Assim seja, mulher. A tua fé na minha piedade te salvou. Tenha cuidado – não tenhas fé em qualquer mensagem desacompanhada de provas. Ter fé é acreditar em mensagens cuja veracidade não se pode demonstrar. Ter fé é submeter-se cegamente. Ter fé é crer, sim, mas sem poder averiguar o que pretende o emissor da mensagem. O que o autor da mensagem realmente deseja de você? Por que ele se faz parecer tão bonzinho, tão paternal, tão sorridente, tão cativante, tão melífluo, tão interessado em teus problemas, tão insistente, tão assustador às vezes, tão perfeito, tão bem vestido ou tão maltrapilho? Não esqueça do que disse Paulo de Tarso: “E ensina os teus presbíteros, em II-Timóteo 4,2: Prega a palavra, insiste oportuna e importunamente, repreende, ameaça, exorta com toda paciência e empenho de instruir”.

Ela estava prestes a partir quando o Mestre lhe disse:

- Foi sábia tua decisão e penso que ela seria aplicável a todos. Qual a vantagem em morar num lugar extremamente frio, úmido e com relâmpagos - ou tórrido e inclemente quando os raios solares e ultravioletas queimam a pele dos seres sustentados por aves humanóides? Nem protetores solares lá existem. Nem aparelhos de televisão, nem alimentos. Por que elevar cento e tantos bilhões de seres terráqueos para esse lugar inabitável, inóspito e torturante? Acaso não continuariam a matar-se mutuamente? Acaso não desceriam todos imediatamente, pois não existem impedimentos para tal? Mesmo por que não teriam como não cair até o solo terrestre.

- Concordo plenamente, Mestre. É devido a tão claro e visível impedimento que eu passei a dizer aos meus adeptos que corpos não têm a menor chance de habitarem as nuvens e que todas as promessas de vida eterna somente podem se realizar se aceitarmos a subida de espíritos.

Jesus de Nazaré estava visivelmente entediado. Em centenas de vezes já dissera a Paulo de Tarso que os relatos bíblicos narram claramente que são corpos os que lá no alto estão. Tomando vinho, brandindo espadas, proferindo palavras inefáveis, subindo e descendo para manter contatos face a face com os terráqueos e batendo incessantemente as asinhas angelicais.

- E qual é a conclusão a que chegamos, Paulo? Queimarás cem bilhões de ressuscitados para deles extrair espíritos? E queimarás igualmente no fogo da praça pública, como os Inquisidores - os humanos que ainda não morreram - para deles igualmente obter seus supostos espíritos? De onde buscaste tão hedionda ideia? Não vês que a tua versão é monstruosamente cruel? Não vês que se os tais anjos-espíritos existissem efetivamente, não poderiam sequer ser vistos e inúteis seriam suas asas?