Juízo Final: Odisséia dos Deuses
Capítulo 67
Parecia muito cansado Jesus de Nazaré. A chuva, o sol, os temporais e os relâmpagos, tudo lhe trouxera um ar triste e de aparente desolação. Mas continuou:
- Além disso, Jeovah amou e protegeu unicamente seu povo, Israel. Basta que leiamos algumas passagens do Velho Testamento para ver que ele desprezava a tal ponto os demais povos vizinhos, que os mandava destruir impiedosamente, quer com a ajuda de anjos, quer com pragas várias, doenças terríveis e fogo, enxofre, afogamentos diluvianos, granizo, pestes, espadas, entre outras formas.
O Mestre prosseguiu, respirando com dificuldade o ar úmido trazido por uma leve neblina:
- Essas bárbaras mortandades podem convencer-te que ele amava o mundo? Nem mesmo aos seus parentes judeus ele perdoava. Pelo menos é assim que sacerdotes narram na Bíblia Sagrada, como já se constatou tantas vezes neste julgamento. Mas no fundo, ele ama seu povo tão desesperadamente que o rigor de seus castigos tem o objetivo de preservar Israel, de protegê-lo contra inimigos que a todo o momento atacam sua gente. Nós israelitas, devemos respeitá-lo e também amá-lo, assim como o fazem os rabinos, as Doze Tribos de Israel e o fazem as nações do mundo com seus deuses.
Paulo de Tarso:
- Tens razão. E é por isso que eu decidi afastar Jeovah parcialmente de minhas pregações. Passei a dizer aos gentios que não mais deviam obediência a Jeovah. Podiam transgredir suas regras, seus mandamentos, desde que me seguissem e cressem que Jesus de Nazaré subiu efetivamente ao céu. Mostrei a todos que é impossível cumprir a lei mosaica. Logo, inexiste salvação pelas leis de Jeovah. Ele deve ser respeitado, no entanto, como o pai de Jesus de Nazaré. Sou maior que Moisés!
Jesus de Nazaré apontou para o Livro:
- Aqui diz que eu sou um rabino. E diz que eu pregava nas sinagogas. João me rotula de Rabino, em 3,2. Maria me chama de Rabi e de Raboni em João 20,16. A sinagoga era o meu templo e o de Jeovah, como lemos em João 2,16: "Não façais da casa de meu Pai (sinagoga de Jerusalém), uma casa de negociantes". Veja - Paulo de Tarso: Os rabinos de Jeovah nunca, jamais, em tempo algum, possuíram outros templos que não as sinagogas e as tendas de reunião.
Tossia agora o Nazareno. Mas parecia infatigável:
- E eu jamais ordenei que se construíssem templos diferentes, com torres, sinos, pias, incensos e ídolos. Eu fui, pois, rabino, meus templos foram sinagogas, e, sendo eu judeu, meu pai, se o fosse Jeovah efetivamente, também seria um judeu. Sou judeu, logo, meu pai, seja quem for, é judeu. E Jeovah jamais foi visto na Índia, na Austrália, na Amazônia, na China, onde outros deuses e deusas existem e são venerados pelos seus respectivos povos.
Paulo de Tarso:
- Vejo que concordamos. Teus apóstolos buscavam seus fiéis e dizimistas entre os judeus, como era praxe. Mas eu, o maior de todos os sacerdotes, maior do que os rabinos - fiz reunir mais de um bilhão de adeptos. É bem verdade que tive que me unir aos romanos que passaram a construir ekklesias e não sinagogas.
Paulo de Tarso parecia indeciso com o que iria dizer. Mas, finalmente:
- Nessas igrejas se fala latim, a língua romana. Nelas judeus não podem ser sacerdotes. No entanto você, caro Jesus da cidade de Nazaré, faz parte do Grujuem. Você é útil para a criação e manutenção de nosso rebanho, isso não pode ser negado. Em nossas imponentes igrejas os vinte e dois judeus que compõem o Grujuem são os personagens salvadores. Com o uso desses judeus, os gentios pagam religiosamente seus dízimos - lembra Mateus 10,10: "O operário merece seu sustento"? E a carta de Paulo de Tarso aos I-Coríntios 9,11 "Se entre nós semeamos bens espirituais, será, porventura, demasiada exigência colhermos dos vossos bens materiais?".
Nova interrupção. Mas, logo:
- Até mesmo as seitas evangélicas assim procedem. São sacerdotes que, como eu - conseguem rebanhos humanos e deles colhem bens materiais. Esqueçamos, pois, as sinagogas, esqueçamos Jeovah e seu povo que vive no Estado de Israel, e façamos cumprir o texto bíblico. E proclamo: doravante também votarei neste Juízo Final.
Sentou-se Paulo de Tarso. Mas, subitamente lembrou-se de outras coisas e voltou a disparar:
- "A Macedônia e a Acaia houveram por bem fazer uma coleta para os irmãos de Jerusalém, pois se os pagãos têm parte nos bens espirituais dos judeus, devem por sua vez assisti-los com bens materiais". Isso consta em Romanos 15,26 e seguintes, de minha autoria. Os pagãos pagam pelo que recebem de mim e demais sacerdotes.
Interferiu o evangelista Lucas:
- Pois também disse Paulo de Tarso, meu grande Mestre, em I-Coríntios 9,1 e seguintes: "Não sou apóstolo? Não vi nosso Senhor Jesus de Nazaré? Não sois minha obra no Senhor? Esta é minha defesa para os que me denigrem: não temos nós porventura o direito de comer e beber? Quem planta uma vinha e não come do seu fruto? Quem apascenta um rebanho e não se alimenta do leite do rebanho? Se entre vós semeamos bens espirituais, será, porventura, demasiada exigência colhermos de vossos bens materiais? Não sabeis que os ministros do culto vivem do culto, e os que servem ao altar participam do altar? Assim também ordenou o Senhor que os que anunciam o Evangelho vivam do Evangelho".
Pedro levantou-se:
- Pois me acusam de receber o dinheiro obtido com a venda de campos pelos meus dizimistas. Vejam que Paulo de Tarso é claro e contundente em sua carta aos Coríntios 16,1 e seguintes: "Quanto à coleta em benefício dos santos, fazei vós também o mesmo que ordenei às igrejas da Galácia. No primeiro dia da semana cada um de vós ponha de parte o que puder ajuntar, conforme a sua prosperidade, para que não se façam as coletas quando eu chegar. E, quando tiver chegado, mandarei os que por carta aprovardes, para levar a vossa dádiva a Jerusalém. E se valer a pena de que eu também vá, irão comigo. E se alguém não amar a Jesus de Nazaré, seja anátema. Maranata!”.
Jesus de Nazaré:
- Estou envergonhado e triste. Usam meu nome para obter os dízimos de tanta gente. E dizem que esse dinheiro vai para os santos. E ameaçam: os que não amarem uma pessoa chamada Jesus de Nazaré, sofrerão castigos. Ou fornecem o dízimo, ou serão castigados em fornalhas com fogo supostamente eterno.
Paulo de Tarso:
- No Velho Testamento Jeovah teria dito a Malaquias, em 3,10: "Pagai integralmente os dízimos ao tesouro do templo, para que haja alimento em minha casa, disse o Senhor dos Exércitos, Jeovah, Deus dos judeus". E em II-Reis 12,16: "Quanto ao dinheiro dos sacrifícios pelos delitos ou pelos pecados, não era levado à casa de Jeovah, mas era dos sacerdotes". Ou seja, delitos e pecados eram perdoados desde que os sacerdotes recebessem pagamentos para isso. E em II-Reis 12,5, a Bíblia Sagrada afirma que os sacerdotes possuem não fiéis, mas clientes: "Recebam-no (o dinheiro) os sacerdotes dos seus clientes".
Pedro interveio:
- Quero lembrar ao Tribunal deste Juízo Final o que está escrito em I-Samuel 2,28 e seguintes: "Samuel, ainda criança, servia diante de Jeovah, trajando um éfod de linho. Os filhos do sacerdote Heli eram maus. Quando alguém imolava uma vítima, vinha o servo do sacerdote, no momento em que se cozia a carne, com um garfo de três dentes e tomava para o sacerdote a carne ainda com gordura. Um homem de Jeovah veio ter com Heli e lhe disse, em nome de Jeovah: Por que desprezais os sacrifícios e fazeis mais caso dos teus filhos que de mim, engordando-vos com o melhor de todas as ofertas de meu povo de Israel?”.
Jesus de Nazaré pediu que silenciassem:
- Tanto se fala contra os métodos dos sacerdotes. São astutos, são habilidosos, são bíblicos. Alguns, no entanto trazem aos dizimistas também coisas maravilhosas. Buscam trazer harmonia para as famílias em crise. Trazem de volta para a mãe o filho que se perde e vira delinquente. Ajudam os alcoólatras a se livrarem de seu vício. Consolam seus dizimistas em funerais. Aconselham e lembram minhas lições de amor, fraternidade, perdão. Lembram aos seus rebanhos os mandamentos divinos.
Voltou-se para Paulo de Tarso:
- Lembro o que escreveste na Carta a Timóteo 2: “Recomendo que façam preces, orações, súplicas, ações de graças; superem todo ódio e ressentimento; as mulheres usem traje honesto, com modéstia e sobriedade sem enfeites, ouro, pérolas, vestidos de luxo, mas obras piedosas; permaneçam em silêncio diante do homem; não foi Adão que se deixou iludir; foi a mulher, que, enganada, se tornou culpada de transgressão, mas poderá ela salvar-se sendo boa mãe, modesta na fé, na caridade e na santidade”.
Mas logo continuou Jesus de Nazaré:
- Não se esqueçam, contudo, o que escreveram: entre as ovelhas existe o lobo e a raposa, disfarçados. Existem quadrilhas que agem melifluamente. Oséias as menciona em 6,8-9: “Galaad é uma cidade de malfeitores, cheia de traços de sangue; os bandidos são a força dela, uma quadrilha de sacerdotes; assassinam no caminho de Siquém”. Guerras e mais guerras foram causadas por líderes religiosos que assumiram o poder em incontáveis países.
Paulo de Tarso:
- Pois escrevi a respeito, caro Mestre, em Timóteo 3: “Quem aspira ao episcopado, função sublime em que o Bispo tem o dever de ser irrepreensível, casando uma só vez, sóbrio, prudente, hospitaleiro, pacífico. E para ser diáconos os mesmos conselhos, sejam honestos, não sejam propensos ao excesso de bebidas”.
- Verifiquei que na Bíblia escreveste muitas coisas reveladoras, verdadeiros atos falhos. Em I-Timóteo 2,7 e seguintes dizes: “Não minto, fui constituído pregador, apóstolo e doutor dos gentios, na fé e na verdade”. Te dizes pregador, pastor dos gentios, dos goin, dos não-judeus, dos romanos e de meus inimigos. Te rotulas doutor, pessoa proeminente. Muito melhor do que ser um mero soldado dos nossos inimigos do Império Romano e ter que cooperar criminosamente com a morte de Estêvão por teus colegas de farda. Antes – continuou o Mestre – escreveste em Timóteo 1,7 e seguintes: “Pretensos doutores da lei, que não compreendem nem o que dizem”. E em I-Timóteo 4: “O espírito diz expressamente que, nos tempos vindouros, alguns hão de apostatar da fé, dando ouvidos a espíritos embusteiros e a doutrinas diabólicas, de hipócritas e impostores que, marcados da própria consciência com o ferrete da infâmia”.
- E escreveste em I-Timóteo 6: “Todos os que vivem sob o jugo da servidão considerem seus senhores dignos de toda honra; a piedade deve ser desinteressada; pode originar-se a inveja, a discórdia, os insultos, as suspeitas injustas e que vêm na piedade somente uma fonte de lucro; a raiz da perdição é o amor ao dinheiro e quem enriquece cai nas armadilhas do demônio”. Quadrilha de sacerdotes - mencionas em Oséias 6,8-9. Estes, em contrapartida, certamente rotulam a ti e tuas ovelhas de quadrilheiros. São concorrentes, como meus concorrentes teriam sido os Sumo Sacerdotes, fariseus e príncipes dos sacerdotes, que causaram até a minha morte.
Jesus de Nazaré:
- Existem na Bíblia Sagrada, assim, referências a quadrilhas de sacerdotes. E assassinatos de centenas de seus religiosos rivais. Acusações sobre pastores que buscam lucros valendo-se da piedade de seus dizimistas. Existem pastores cuja única riqueza é um par de sandálias e alguns panos surrados. Existem mulheres que trabalham gratuitamente, quais escravas, para organizações religiosas. São auto iludidas.
O Nazareno bebeu água que lhe serviram e continuou:
- Peço que tenham cuidado, irmãos ressuscitados de todo o mundo e irmãos que ainda não morreram. Eu amo a todos. Eu amo meu país, Israel, amo meu deus, Jeovah. Conclamo a Israel e aos gentios a quem amo por igual, mesmo aos que se valem do Grujuem: examinem bem o que lhes dizem os sacerdotes. Analisem, seja nas imagens desses aparelhos chamados televisão, seja nos templos suntuosos ou os mais humildes, o que pretende o dizimador. Ele pede dinheiro no altar e em contas bancárias. Dinheiro doado que diminuirá o alimento de seus filhos. Será o dízimo, ou menos, ou mais. Dízimo legítimo, previsto na Bíblia Sagrada. Para onde as moedas irão? Para Deus - ele dirá. Que está em Roma, nos paraísos fiscais, nas mãos de laranjas, em Bancos. Sacos e mais sacos de dinheiro, como já exibiram em filmes na TV. Diz-se que muitos sacerdotes destinam parte dessas somas colossais para obras de caridade. Muitos seriam inspirados. Outros auto-iludidos. E outros meros criminosos processados nas Justiças dos Países. Outros buscam a notoriedade, a glória e desdenham o dinheiro dos dízimos.
Jesus de Nazaré estava em prantos. Soluçava como uma criança abandonada. Por fim, quase inaudivelmente:
- Sejam felizes. E quem desejar ser julgado, que venha. Os anjos aguardam seu sinal. O Juízo Final os espera, pastores ou ovelhas.
Jesus de Nazaré encerrou os trabalhos e decretou recesso no dia seguinte, sábado – Shabat -santificado por Jeovah para seu povo, Israel.
E olhando para as luzes de Jerusalém, localizou o Gólgota e o ponto onde jazeu por três dias no túmulo de José da Arimatéia. Com lágrimas nos olhos:
- Vaivárech Elohim et iom hashevií vaicadesh otó, ki vó shavat micól melachtó asher bará Elohim lassót. – E deus abençoou o sétimo dia e o santificou, pois nele repousou de toda Sua obra que criou para realizar.
Milhares de trombetas ecoaram acompanhadas de outros tantos pandeiros. Querubins e serafins esvoaçavam com suas enormes asas enquanto os helicópteros partiam. Ouviam-se rugidos de leões, mugidos e guinchos de águia emitidos pelos querubins de quatro faces.