Juízo Final: Odisséia dos Deuses
Capítulo 45
Jesus de Nazaré dirigiu-se ao Papa:
- Diga ao Tribunal do Juízo Final, você que é o líder romano atual: Jesus de Nazaré subiu levando seu corpo? Ou esse corpo ficou na Terra e para as nuvens subiu um espírito?
O Papa não titubeou:
- Obviamente que subiu o corpo de Jesus de Nazaré. De que serviria a ressurreição dele, se o corpo não poderia subir? É bem verdade que acabei de publicar o livro Jesus de Nazaré, em 2012, em que sugiro que haveria um paradoxo único, ou seja, Jesus de Nazaré - nos quarenta dias em que permaneceu no solo terrestre - detinha a faculdade de ser ora um corpo humano ora um espírito.
Jesus de Nazaré:
- Vejo que Paulo de Tarso não está sendo acatado pela igreja romana, embora seja o seu mais proeminente personagem. O que subiu foi o corpo, segundo Roma. Os narradores dos Evangelhos afirmam que os apóstolos teriam visto o corpo com várias peças de roupas e sandálias subir, não se explicando se foram anjos com suas asas que o teriam elevado até as nuvens ou a carroça de fogo usada por Elias há vários séculos e que continuava estacionada no céu, provavelmente. Ou voltara para o solo? Caso esse veículo permanecesse nas nuvens – não estaria sendo visível aos humanos do solo? Ou teria que voltar para reabastecer-se de combustível, já que o fogo se extingue após algum tempo?
- Pois bem - continuou Jesus de Nazaré após ocorrerem uma série de relâmpagos que fizeram tremer os pesados tronos - preciso que os apóstolos me expliquem: por que escreveram que Jesus de Nazaré aparecia e desaparecia, se ele havia ressuscitado e provado, com o dedo de Tomé, que Jesus de Nazaré voltara a ser o que era antes da ressurreição?
Marcos:
- Devo concordar que, sendo ele novamente um humano, filho de Maria, não poderia desaparecer e reaparecer, simplesmente. Antes da crucificação ele não possuía essa capacidade. Ele andava sobre as águas, conversava com o anjo conhecido como Diabo e fazia milagres. Mas sempre foi visto por todos. Ele não desaparecia.
Jesus de Nazaré:
- Esse relato de desaparecimentos e reaparecimentos mostra um comportamento que não é o de um ser humano. Ao ressuscitar, no entanto, voltou a ser o que era antes, ou seja, um humano de carne e ossos. O Mestre exibiu o seu lado e os furos deixados pelos pregos:
- Eu exijo a verdade. Somente a verdade. Observem que o que escreveram os evangelistas está comprovado. A minha ressurreição foi defeituosa. Quem a realizou - imaginou ou criou – esqueceu-se de corrigir e sanar esses ferimentos.
Olhou para Jeovah e tornou a vestir a túnica:
- Foi uma ressurreição feita com grande imperícia, já que manteve o buraco no lado, nos pés e nas mãos de Jesus de Nazaré. Além disso, o sangue jorrou no solo pedregoso do Gólgota. Não tinha te ocorrido que aí está um buraco narrativo? Quem relatou dessa forma deixou à mostra seu desejo de produzir, aos leitores, a impressão da existência de uma evidência sobre a ressurreição?
Apontou para o seu lado:
- E de onde obteve o ressuscitador o sangue que verteu e foi perdido no Gólgota? Para ressuscitar evidentemente que o corpo necessita de vários litros de sangue. Esse dano ocorrido com o corpo, essa ausência de sangue, não foi empecilho para que a ressurreição se realizasse? De onde veio o sangue, indispensável para que o coração e demais órgãos viessem a funcionar, lá no jazigo de pedra de José da Arimatéia?
Exibiu os furos nas mãos:
- O autor da ressurreição, Jeovah, segundo escreveram os evangelistas, deixou defeitos nas mãos, nos pés e no lado. Mas, repito a pergunta, o defeito da falta de sangue ele sanou? Alguém o recolheu, três dias após, e o conduziu até o túmulo de José da Arimatéia? Ou seja, as imperfeições cometidas pelo responsável pela ressurreição, não incluíram a necessidade de ir buscar o sangue coagulado lá no solo onde estava fincada a cruz? E de sexta-feira, dia da crucificação e morte, até domingo de manhã, já não teria esse sangue sido consumido pelos insetos e microorganismos? Não teriam os cães já lambido o nobre sangue derramado após o golpe de lança que abriu o lado de Jesus de Nazaré? E os vários bilhões de neurônios e células do cérebro do grande judeu, decompostas evidentemente em poucos minutos e consumidas por microorganismos, de onde as buscou de volta o ressuscitador cuja identidade é ignorada?
Voltou-se para Mateus:
- Ou alguém teria trazido sangue e realizado uma transfusão? Nesse caso, Jesus de Nazaré subiu para as nuvens, quarenta dias após, com partes de corpo humano estranho? Hemocentros - havia? E o paradoxo, continuaria a ocorrer?
Marcos:
- Isso pouco importava. Os adeptos, os fiéis, os que acreditavam e se maravilhavam por agora poderem viver eternamente, surgiam aos milhares. Todos desejam desesperadamente viver com esperanças em uma vida após a morte. Os sacerdotes judeus não prometiam isso. Jeovah somente prometia castigos para os pecadores, segundo os sacerdotes judeus escreveram. Diziam nas sinagogas e atualmente continua sendo a mensagem dos rabinos que os prêmios de Jeovah não incluem a vida eterna.
- É por isso que os rabinos e sacerdotes judeus eram criticados? - continuou Jesus de Nazaré. Somente lhes interessavam os dízimos e a glória? É por isso que vocês, evangelistas, relatam que Jesus de Nazaré expulsou os mercadores do templo?
Marcos:
- Isso está escrito e é verdadeiro.
Jesus de Nazaré abriu a Bíblia:
- Leio em Mateus 4,17: "Desde então (João Batista fora preso), Jesus de Nazaré começou a pregar: Fazei penitência, pois o reino dos céus está próximo". Devo concordar que esse é o comportamento de um sacerdote. Pregar é justamente a atividade profissional do sacerdote, como vem ocorrendo desde que Moisés instituiu esse trabalho para seu irmão Aarão e os descendentes da Tribo de Levi.
Continuou o Mestre:
- Novamente vemos que, segundo escreveste, Mateus - era aguardado o Reino de Jeovah para breve. E vejo que voltas a ameaçar. Deveriam fazer penitência, os clientes, os dizimados. Isso os salvaria? Por quê? Era uma regra criada por um sacerdote. Se este conseguir impor regras, rebanho ele terá. Usará do Grujuem e o pastorejo terá sucesso.
Mateus:
- E eu escrevi em 4,23: "Jesus de Nazaré percorria toda a Galiléia, ensinando nas suas sinagogas, pregando o evangelho do Reino". Você era sacerdote, portanto. Sacerdote judeu, prezado Mestre. Obviamente que suas pregações eram feitas somente em sinagogas e não nos templos de outros deuses, como Baal, ou de deusas. Há que se lembrar, contudo, que nós não tínhamos que prometer a salvação com o argumento de que Jesus de Nazaré teria ressuscitado. Ele estava vivo! Nós buscávamos ovelhas, nessa época, com mera ameaça: ou os receptores de nossas mensagens se arrependem dos pecados, em número de dez, ou sofrerão castigos não definidos então. E os dízimos fluíam! Pedro o escreve: recebíamos terras! Paulo de Tarso o confessa: era nutrido por dízimos! Não havia ainda a dupla promessa e castigo: quem crer na ressurreição será salvo, quem não crer será condenado. A mensagem era simplesmente: arrependei-vos dos pecados, pois o reino de Jeovah está próximo! As técnicas sacerdotais que usávamos eram diferentes, antes e depois da morte do Mestre. Arrepender-se e fazer penitências: essas eram as mensagens a garantir dizimistas, nessa época.
João interveio novamente:
- Permitam que eu leia meu evangelho em 2,14-17: "Encontrou Jesus de Nazaré no templo os negociantes de bois, ovelhas e pombas e mesas dos trocadores de moedas. Fez ele um chicote de cordas, expulsou todos do templo, como também as ovelhas e os bois, espalhou pelo chão o dinheiro dos trocadores e derrubou as mesas, dizendo: não façais da casa de meu Pai uma casa de negociantes".
Jesus de Nazaré:
- Vejo que vocês me descrevem como zeloso sacerdote das sinagogas. Vejo que me atribuem também crueldades e delitos vários. Todos sabemos que os que fornecem os dízimos, devem fazê-lo em moeda judaica, sendo tradicional que haja trocadores de moedas. Como poderia eu cometer o crime de causar danos corporais com o uso humilhante de um chicote? E os comerciantes, não exercem uma profissão digna e protegida pelas leis judaicas? Não ensinei sempre que devemos amar nossos inimigos? Transformaram-me em um criminoso: teria cometido o delito de destruição de patrimônio alheio, exercício arbitrário das próprias razões, delito de atentar contra a liberdade religiosa e a liberdade de trabalho, os crimes de injúria grave, tortura e lesões corporais? E o Sumo Sacerdote, não tinha ele uma família, não tinha ele que defender seu deus, Jeovah? Os sacerdotes comuns, descendentes de Levi, não eram abençoados por Jeovah e lhes era devotado o respeito devido aos que ocupavam o honroso cargo? Por que todos os sacerdotes repentinamente deveriam ser injuriados, caluniados e difamados, após séculos de bons serviços aos seus irmãos judeus? E quem eram os detratores? Sábios, filósofos, letrados?
- Não! – prosseguiu emocionado o Mestre. Eram rudes pescadores e ignaros. Que estudos possuía Pedro? Bartolomeu? Jesus de Nazaré era um rabino, um pastor, um culto. Abandonou seus colegas de sinagoga como o fez quinze séculos depois o padre protestante Martin Luther. Criou a nova regra: penitência, mais tarde transformada em fé pelos apóstolos, fé no Messias.
Marcos pediu a palavra:
- Quero ler meu evangelho em 6,2-6: "Quando chegou o dia de sábado, começou a ensinar na sinagoga. Muitos o ouviram e diziam: não é ele o carpinteiro, o filho de Maria, o irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão? Não vivem aqui entre nós também suas irmãs? E ficaram perplexos e admirados com seus ensinamentos" .
Jesus de Nazaré:
- Também tu, Marcos, confirmas que eu frequentava as sinagogas, desde muito jovem. Dizes em teus escritos que eu possuía quatro irmãos e várias irmãs. Só não mencionas meu pai, José.
Jesus de Nazaré recostou-se no seu trono e adormeceu. Após dez minutos prosseguiu:
- Neste Juízo Final chegamos já à conclusão que Jesus de Nazaré foi sacerdote. É rotulado de rabi, professor e de raboni, pastor, rabino. Pregava nas sinagogas e fora delas. Escreveu João em 20,16: Maria Madalena o trata por raboni.
- E os apóstolos todos se comportavam como pastores. Eles pregavam e recebiam as ofertas, os dízimos. Paulo de Tarso, de soldado romano, transformou-se, por sua própria conta, no maior de todos os sacerdotes. Vejo que todos se tornam pessoas abastadas, gloriosas, famosas, veneradas. No Velho Testamento os dizimados são tratados por clientes.
Jesus de Nazaré:
- Não há mais dúvidas: o Grujuem, composto de personagens judeus, é utilizado pelos sacerdotes de Roma desde o primeiro século da Era cristã. E esses usuários do Grujuem matam esses mesmos judeus, durante dois milênios, se apropriando de seus bens. Aos sacerdotes não importa essa contradição. Os dízimos, o dinheiro, as terras, tudo que seus dizimados lhes ofertam, é o que lhes interessa, tal como sempre ocorreu, desde Moisés e seu irmão.
- Isto é uma blasfêmia! Isto é uma infâmia! Isto é uma mentira! - gritavam vozes de religiosos de todas as partes.
Jesus de Nazaré:
- Querem a verdade? Pois todos usam o meu nome para obter dízimos. Todos os sacerdotes do Velho Testamento usavam o nome de Jeovah para obterem riquezas e poder. E, para não deixar qualquer dúvida, vou examinar detidamente o que diz o Novo Testamento a respeito. No final, ninguém mais ousará contestar o que digo. Leiamos Mateus 3,7: "Ao ver, porém, que muitos dos fariseus e dos saduceus vinham ao seu batismo, disse-lhes: Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da cólera vindoura?".
Jesus de Nazaré parecia muito tranquilo e sereno ao falar:
- Os fariseus e os saduceus, como ninguém ignora, eram liderados por sacerdotes. Observa-se que o escritor do texto que acabei de ler comete graves equívocos. Primeiro, atribui a Jesus de Nazaré sentimentos de cólera, mesmo que os partidários dos sacerdotes concorrentes se convertam à sua doutrina. Segundo, há clara rivalidade entre os sacerdotes. Jesus de Nazaré não seria o rabino que afirmara ter o objetivo de salvar os ímpios e pecadores? Ele não disse que se devem amar os inimigos? Ele não disse que a fraternidade deve imperar sempre e que se deve dar a outra face ao agressor? Não era assim que Moisés ensinara. Era o olho por olho, dente por dente.
O Le Monde estampava a manchete: Quem é a mãe dos filhos de Jeovah? Os jornalistas enfatizavam: Jeovah não pode gerar filhos sozinho. Quem e onde está a sua companheira? Onde está a mãe de Jesus Celestial e seus irmãos, aqueles que desceram para casar com as mulheres belas da Terra?
Sara Moshê não parara de olhar para o alto. Tinha esperanças de rever a misteriosa mulher que já avistara outro dia montada em um querubim. Por vezes percebia que Jeovah também lançava olhares para o alto.
Aumentavam os rumores de que o governo de Israel iria expulsar de seu território o Tribunal do Juízo Final. O país havia sido invadido por bilhões de pessoas. Não havia comida nem água para o número descomunal de pessoas ressuscitadas. Outros boatos previam destruição do Tribunal por ataques de mísseis, disparados pelos babilônios e persas.